podcast: Ingrid Betancourt, livre

4 Julho 2008

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre a libertação de Ingrid Betancourt.

O comentário foi ao ar ontem, dia 3 de julho.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/03-07-08_comentario_julio_pimentel_asfarc_Ingrid%20Betancourt.mp3


Seis problemas para Don Isidro Parodi e Duas fantasias memoráveis, de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares

3 Julho 2008

Seis problemas para Don Isidro Parodi e Duas fantasias memoráveis são duas das poucas obras do argentino Honorio Bustos Domecq, um dos maiores escritores latino-americanos do século XX. Se você, leitor, nunca ouviu falar dele é porque Bustos Domecq foi pouco publicado no Brasil: apenas os Seis problemas já haviam sido (mal) traduzidos por aqui, em edições hoje esgotadas.

Ou talvez seja porque Bustos Domecq nunca existiu. Foi um pseudônimo utilizado pelos dois principais escritores argentinos, Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, para escrever histórias que circularam principalmente entre amigos e outros escritores. Borges & Bioy eram amigos próximos e a parceria literária começou meio por acaso. Os dois se conheceram no início da década de 1930 e, a despeito da diferença de idade (Borges tinha 30, Bioy, 17), se deram muito bem. Uns quatro anos depois, um tio de Bioy, Miguel Casares, encomendou ao sobrinho um folheto publicitário para o iogurte que a leiteria dos Casares, La Martona, produzia. O trabalho era bem pago (16 pesos por página). Bioy disse a Borges que não tinha competência para escrever sozinho e o convidou para que escrevessem juntos. Segundo Borges, foi uma generosidade de Bioy, que precisava menos do dinheiro do que ele.

Os dois foram para uma casa de campo e, em meio a um frio terrível, se refugiaram na cozinha próximos ao forno e se encharcaram de chocolate quente, “tão espesso que a colher pousava em sua superfície”. Como o pagamento era por página, trataram de escrever bastante: fizeram quase vinte páginas de um folheto com aparência científica, em que exaltavam as qualidades do iogurte, especialmente sua capacidade de prolongar a vida de quem o tomava. Para sustentar a tese, relataram que sua receita vinha da Europa Oriental e fora criada por um casal para alimentar seus muitos filhos. Estes, por terem tomado a bebida por toda a vida, se tornaram centenários. Todos menos uma filha, corrigiam, que morrera depois dos 90…

Iniciavam uma colaboração que duraria mais de quatro décadas. Logo depois do folheto do iogurte, ensaiaram escrever um poema. O resultado, segundo ambos, foi péssimo. Mas a iniciativa seguinte, a criação da revista Destiempo, teve um breve sucesso (três números). Daí em diante, as aventuras literárias em conjunto se diversificaram: antologias de poesia argentina, de contos fantásticos e de histórias policiais, prefácios, traduções e comentários a outros autores, roteiros de cinema (alguns, inclusive, chegaram às telas).

Em 1942, apareceu o resultado mais conhecido da parceria: a coletânea de contos policiais Seis problemas para Don Isidro Parodi. O pseudônimo Honorio Bustos Domecq reunia um bisavô de Borges (Bustos) e um de Bioy (Domecq) – dupla identidade que só foi revelada muito tempo depois. Bustos Domecq ainda assinou outros três livros – inclusive Duas fantasias memoráveis, de 1946 e agora finalmente publicado no Brasil. As histórias relatavam as atividades de Don Isidro Parodi, talvez o único detetive que soluciona os casos de dentro da cela em que está preso.

Para contar as histórias de Parodi, Borges e Bioy utilizaram também o pseudônimo B. Suárez Lynch – novamente uma mistura de antepassados (Suárez, de Borges; Lynch, de Bioy) precedida pelo “B” inicial do sobrenome de ambos – e com ele assinaram, ainda em 46, Um modelo para a morte. Independentemente do nome com que assinavam as edições, o que caracterizou a colaboração entre eles, porém, foi a profunda afinidade: de leituras, de preocupações intelectuais e literárias e, num certo sentido, de humor. Afinal, ambos relataram que os encontros para escrever eram marcados por muitas gargalhadas.

Curioso é que a crítica demorou muito para reconhecer o caráter decisivo que os textos da parceria tiveram nas obras futuras de ambos – apesar de Bioy e Borges terem alertado, mais de uma vez, que ali não havia apenas brincadeira: eles transferiram marcas da experiência de colaboração para suas obras pessoais. A pouca importância dada até recentemente para a parceria é a provável responsável pela demora na maior divulgação desses livros. E, no caso brasileiro, pela hiper tardia edição do conjunto completo dos textos escritos a dois. Num país que conta com mais de uma tradução dos principais livros de Borges e duas edições de suas obras completas, finalmente sua obra em colaboração começou a ser traduzida e publicada. Não serão apenas os textos escritos com Bioy, mas são estes que abrem a coleção (nos próximos meses sairão mais dois livros Borges-Bioy), coordenada por Jorge Schwartz e com ótima tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. O volume conta, ainda, com um excelente prefácio de Michel Lafon, que analisa o trabalho da parceria e introduz o leitor no mundo de Bustos Domecq.

Assim, os leitores brasileiros podem finalmente descobrir que Honorio Bustos Domecq pode até não ter existido, mas foi um tremendo escritor.

Jorge Luis Borges & Adolfo Bioy Casares. Seis problemas para Don Isidro Parodi. Duas fantasias memoráveis. São Paulo: Globo, 2008 (originais: 1943 e 1946; tradução: Maria Paula Gurgel Ribeiro)

Parte desse texto foi publicada na revista Entrelivros número 14, de junho de 2006, sob o título “Com Bioy, amizade literária”.

Paisagens da Crítica nunca trouxe comentários sobre livros de Borges, mas publicou sobre outros três livros de Adolfo Bioy Casares: A invenção de Morel (3 de dezembro de 2005); Histórias fantásticas (10 de dezembro de 2006); Borges (9 de abril de 2007). Estes comentários estão no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net


Nesta cidade e abaixo de teus olhos, de Annita Costa Malufe

1 Julho 2008

Nesta cidade e abaixo de teus olhos conversa com quem? Annita Costa Malufe prossegue seu diálogo poético de Fundos para dias de chuva e continua a intrigar o leitor, que fica à espera da revelação: a quem os versos se dirigem? Qual é o mundo – povoado – em que circulam?

À primeira vista, a resposta parece fácil: Annita conversa com outra poeta, Ana Cristina Cesar. Afinal, a influência de Ana C. é forte, clara, assumida, e transborda o trabalho poético de Annita: Ana C. foi também objeto de suas pesquisas acadêmicas. Outra explicação fácil é encerrar o diálogo no próprio livro e reconhecer sua entabulação com a ilustração cuidadosa, de Silvio Ferraz, que acompanha os poemas na pequena e bem cuidada edição. Mas há mais personagens nesta cidade literária. Personagens, não vozes. Porque a voz é sempre una, embora possa ocasionalmente se travestir. É um narrador – na verdade, uma narradora, porque o traço feminino é forte – que expõe sua intimidade e contempla, perscruta, indaga o que a cerca.

É inevitável, nesse itinerário pessoal, que a entonação seja lírica. Mas não é o lirismo funcionário público, com cartão de ponto e paletó-na-cadeira: é aquele que vem combinado com a porosidade da poesia; por isso, aceita invasões, recebe visitas insistentes de outras obras e outros autores. Exerce a crítica como paisagem: o ambiente – disse Lezama Lima – em que o espaço e o tempo se reúnem, onde podemos reagir à barbárie dos desafetos para refundar a experiência e o olhar pessoais. Daí ser tão complicado identificar o interlocutor dessa poesia: ele está tão entranhado no olhar, que conduz e é conduzido, que se torna impossível discernir “influências”, “reescrituras” ou mesmo “desdobramentos” – termo que agradaria mais à poética de Annita do que os anteriores.

Poesia, vale lembrar, não deixa de ser representação e, assim, indica certa ausência e oferece uma presença, alterada, desviada. E, no jogo de representar, a capacidade que em geral sobressai é a de assimilação: o quanto somos capazes de absorver e traduzir em signos próprios a experiência histórica e literária que nos rodeia e de que nos sentimos herdeiros – mesmo que nenhum testamento assegure a linha de projeção. E a intensidade da poesia de Annita vem exatamente da delicadeza como assimila, sem cair no entorpecimento das citações desmedidas, registros poéticos de inúmeras origens: do prosaísmo de um Paulo Henriques Britto às teorias de Blanchot ou Derrida, da fantasia cortazariana aos labirintos de Beckett. O interlocutor não-mencionado ressurge, então, duplicado no tom confessional de Annita, e a ausência – essa ausência assimilada, já falou Drummond sobre Ana C. – ninguém rouba mais de sua poesia.

Por isso, Annita C. não é apenas uma pequena Ana C.: o vigor de sua conversação, as dedicatórias que ora individualizam, ora pluralizam o leitor e o fio da lâmina que separa o urbano, público, do território convergente da intimidade permitem que os olhos do título não sejam só os do próximo, teu, mas o da voz mesma que fala e, porosa, assume como seu o que é comum e incomum.

Annita Costa Malufe. Nesta cidade e abaixo de teus olhos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008

Paisagens da Crítica comentou outros dois livros de Annita Costa Malufe: Fundos para dias de chuva (17 de junho de 2006) e Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (1º de julho de 2007). Os dois textos estão no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net


podcast: Segunda Guerra

27 Junho 2008

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre a “tecnológica” Segunda Guerra Mundial.

O comentário foi ao ar no dia 23 de junho.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/23-06-08_comentario_julio_pimentel_segunda_guerra_mundial.mp3


O tailleur cinza, de Andrea Camilleri

24 Junho 2008

O tailleur cinza il tailleur grigio – é um romance sobre a velhice. Andrea Camilleri abriu mão da estrutura regular do policial, investiu bastante na construção psicológica dos dois personagens que se aproximam e se afastam no decorrer da trama e escreveu o mais francês de seus livros.

Luigi e Adele – nomes que evocam Pierre Louys, Guy de Maupassant e François Truffaut – formam um casal. Ele, bem passado dos sessenta anos, acaba de se aposentar. Ela, chegando aos 40, leva uma intensa vida social, correndo entre associações e reuniões. O narrador segue os passos de Luigi e, pelos olhos dele, reconstitui algo do passado: a bem sucedida carreira no banco, o primeiro casamento e o filho, a viuvez, o encontro com Adele, a paixão e a atração sexual súbitas, o casamento entre eles.

É a rígida rotina de Luigi, alterada pela aposentadoria, que o faz mirar o passado e relembrar a primeira vez que soube que a mulher o traía. Daí em diante, uma longa história de traições que, cauteloso, fingia não ver. Adele, afinal, era todo seu mundo e seu fascínio, mesmo depois que a relação entre eles perdeu as cores do princípio e passou a ser mais um item da rotina doméstica.

Aposentar-se, diz um clichê, é libertar-se. Aposentar-se, diz outro clichê, é morrer. Luigi, entre as duas possibilidades, prefere apenas olhar para sua mulher e entender seus jogos e artimanhas. La donna è mobile, diz uma ópera, e Luigi enxerga o exemplo em Adele, na sua obsessão pelo corpo e na fidelidade impossível. Um dia lhe pergunta, temeroso da resposta, sobre a razão dela ter-se casado com ele, e ouve uma peculiar e indireta confissão de amor. Simultaneamente, Adele mantém, no anexo de seu quarto, um sobrinho forte, belo e jovem, disponível para todas as noites: cual piuma al vento, muta d’accento e di pensiero.

O drama de Luigi não é apenas íntimo. O mundo siciliano – como era de se esperar em Camilleri – o invade, sob a forma de uma obscura proposta de emprego e de sua hábil, mas honesta, relação profissional com supostos mafiosos. Também sua maneira de entender o que o cerca repõe as figurações sicilianas que Camilleri herdou de Vittorini, Verga, Lampedusa, Pirandello, Sciascia e tantos outros. Os diálogos se constróem e ganham significado nos olhares e no silêncio. Afetos e desafetos se definem nas pequenas relações quotidianas, enviesadas e recheadas de pequenos rituais de sedução e de engano.

Seu universo pessoal, porém, é o que prevalece e Luigi, aos poucos, se fecha. Ocorre que tudo, nele, espelha Adele, a personagem feminina melhor esculpida da obra de Camilleri. É linda, arrasadora e perigosa como muitas mulheres de Camilleri. É forte, segura e capaz de representar como outras tantas. Mas é também ambígua nos sentimentos e nas ações, nas verdades e nas mentiras, na infantilidade e na maturidade. Sempre um amabile leggiadro viso, in pianto o in riso è menzognera. Luigi espera unificar as duas Adele para negar que è sempre misero chi a lei s’affida, chi le confida mal cauto il core!

E, na porta da morte, tem uma revelação. Uma, não: duas. A primeira encerra a citação da ária: Luigi constata, reconciliado com Adele, com o passado e o presente que é impossível viver sem ela, afinal pur mai non sentesi felice appieno chi su quel seno non liba amore! E, em seguida, enxerga algo que justifica o título do livro – roupa que aparece poucas vezes no romance, mas nunca sai da cabeça do leitor.

O romance sobre a velhice de Camilleri – com seus 83 anos – não tem, felizmente, a diluição e a auto-complacência do que García Márquez escreveu pouco antes dos 80. Tampouco tem a densidade amarga e o rigor narrativo, uma pena, do de Philip Roth. Mas tem o que é essencial: o reconhecimento da duplicidade do tempo e de nossa complicada e irresolvida relação com ele.

Andrea Camilleri. Il tailleur grigio. Milão: Arnoldo Mondadori, 2008

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros oito livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007), Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007), Il campo del vasaio (12 de junho de 200 8) e Le pecore e il pastore (19 de junho de 2008). Os seis primeiros estão no endereço antigo (www.paisagensdacritica.zip.net); o sétimo e o oitavo, neste mesmo endereço.


podcast: crime & castigo

20 Junho 2008

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre crime e castigo – Dostoiévski, Woody Allen e nós

O comentário foi ao ar no dia 16 de junho.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/16-06-2008_comentarioJulioPimentel.mp3


As ovelhas e o pastor, de Andrea Camilleri

19 Junho 2008

As ovelhas e o pastor Le pecore e il pastore – é um livro ambicioso. Andrea Camilleri ousa mais em seus romances históricos – como este – do que nas aventuras do Coimissário Salvo Montalbano. Tem sentido: embora toda a obra de Camilleri seja bastante lida (é o escritor italiano da atualidade que mais vende na Itália e no exterior), os livros de Montalbano adquiriram bastante popularidade, chegaram às telas da televisão em cuidadosas adaptações e aumentaram muito seu público, incluindo leitores nem tão dispostos a acompanhar as experiências narrativas de Camilleri.

Apesar da diferença literária, as questões e preocupações de Camilleri nas tramas de Montalbano e nas históricas são semelhantes. A principal delas é com a leitura: cada vez seus personagens lêem mais e cada vez os livros são mais decisivos na decifração das histórias e seus mistérios. O recente Il colore del sole (de 2007), nesse sentido, é exemplar: está em jogo, ali, um suposto diário de Caravaggio, a ser lido pelo próprio Camilleri. Também o já clássico La scomparsa di Patò (de 2000), citado e lido por Montalbano no recente Il campo del vasaio, é composto de fragmentos de notícias e de documentos que tentam identificar o destino de Antonio Patò, que desapareceu – segundo observação de Leonardo Sciascia em A cada um o seu – quando fazia o papel de Judas numa representação da Paixão de Cristo. Em outro livro recente – Voi non sapete, de 2007 – verdade e ficção se misturam na leitura de bilhetes do chefe mafioso Bernardo Provenzano.

Le pecore e il pastore também reconhece que no princípio de toda escritura está a leitura. No caso, para compreender dois mistérios do verão de 1945: o que esteve por trás da morte de dez jovens religiosas – ovelhas enclausuradas num convento – e do atentado contra o bispo Giovanni Battista Peruzzo, pastor anti-comunista que defendeu, nos tempos sombrios do fascismo, justiça social e respeito à diferença. Os casos são reais; a documentação estudada por Camilleri (cartas, documentos oficiais, textos literários), nem sempre. A investigação retrocede ao século XII para entender o lugar do monastério em que o atentado se deu e sua história de ermitões e bandidos, de fé e perfídia. A solução dos casos, claro, pode não ser verdadeira, mas certamente é um achado. A relação entre literatura e história, de resto, é sempre conturbada e composta de diálogos e contaminações; ela pode prescindir de diferenciação se for colocada em uma base imaginativa, um livro de ficção. E Camilleri explora a ambigüidade até seu limite para ensinar que Noel Rosa e Pôncio Pilatos tinham razão ao dizer que a verdade existe, mas mora num poço. O leitor sedento de verdades absolutas fica, então, desorientado, perdido entre notas de rodapé e longas citações documentais: a sugestão falseada da precisão, embalada na narrativa ficcional.

Por esses jogos de sedução e engano é que Camilleri continua essencial. Perto de fazer oitenta e três anos e apenas quatorze após seu sucesso literário, escreve em ritmo acelerado, chega a publicar três livros num ano e mantém uma quase inacreditável capacidade de surpreender o leitor com narrativas divertidas e tantas vezes sofisticadas na concepção e no desenvolvimento. Às vezes, a surpresa vem até do fato do livro ser escrito inteiramente em italiano – caso de Le pecore e il pastore –, sem as interferências dialetais e as marcas da oralidade siciliana que particularizam quase toda sua obra e caracterizam a língua que inventou. Porque a novidade, às vezes, pode vir da tradição – depende da forma como a olhamos e a representamos.

Andrea Camilleri. Le pecore e il pastore. Palermo: Sellerio, 2007

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros sete livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007), Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007) e Il campo del vasaio (12 de junho de 2008). Os seis primeiros estão no endereço antigo (www.paisagensdacritica.zip.net); o sétimo, neste mesmo endereço. Na próxima semana, encerrando a “temporada Camilleri”, o blog publicará comentário sobre Il tailleur grigio.


Em busca de Klingsor, de Jorge Volpi, por Renato Prelorentzou

16 Junho 2008

Em busca de Klingsor, de Jorge Volpi

por Renato Prelorentzou

No dia 10 de novembro de 1919, o New York Times estampava em primeira página o triunfo da Teoria da Relatividade de Einstein. Nessa mesma data, nascia Francis Bacon, não o célebre filósofo inglês que no século XVII revolucionou o pensamento científico ao lançar as bases do raciocínio dedutivo, mas um físico americano graduado em Princeton que, incorporado ao exército aliado, foi a Nuremberg analisar os depoimentos relacionados à pesquisa científica no III Reich. Em um mesmo 10 de novembro, 70 anos depois, Gustav Links, matemático da Universidade de Leipzig, colocou ponto final em seu relato, sua versão de como o acaso governou o século XX, o seu século. Ao fazer coincidir esses eventos, Jorge Volpi sinaliza os três eixos de Em Busca de Klingsor, o único de seus livros já publicado no Brasil: a nova ciência do século XX, a Segunda Guerra e a forma como a subjetividade e a incerteza transformaram o testemunho e a narração do passado.

Nascido na Cidade do México em 1968, graduado em Direito e Letras no México e na Espanha, Volpi escreveu nos últimos 15 anos dezenas de romances, contos e ensaios que lhe valeram diversos prêmios internacionais e publicações em dezenove idiomas. Em 1996, assinou com outros 5 jovens escritores mexicanos o Manifiesto Crack, que rompia com os fantasmagóricos localismos da banal literatura pós-mágica e procurava uma linha sucessória que ligasse seus signatários diretamente aos mestres do Boom e da literatura universal.

Volpi não se refere, portanto, ao México ou à América Latina. Ao contrário, a trama que conta pela voz de seu narrador passa-se na Europa do entreguerras e nas universidades norte-americanas; fala do mundo ordenado e promissor e do Armistício de 1918; da República de Weimar e do sentimento de revolta da juventude conservadora e patriótica; da busca pelas antigas tradições e da ascensão de Hitler. Descreve a Operação Valquíria, a Missão Alsos, o Projeto Manhattan. Explica também a Relatividade de Einstein, o Teorema de Gödel, a Teoria dos Jogos de Von Neumann, o Princípio da Incerteza de Heisenberg, as fórmulas de Planck, a Quântica de Bohr e toda a revolução científica que reverteu aquilo que até então era livre de conflitos na física clássica: o cientista já não era inocente, sua observação bastava para mudar a ordem do universo.

Entre o “Prefácio” e a surpreendente “Nota Final”, o livro de Volpi apresenta estrutura rígida e simétrica; cada um dos três “Livros” que o compõem inicia-se com três “Leis” que descrevem o Movimento Narrativo, o Movimento do Crime e da Traição, e termina com os atos da ópera de Wagner, onde Parsifal enfrenta Klingsor, o rei que simboliza o mal absoluto. Como um livro de história, Em Busca de Klingsor acumula datas, personagens e fatos reais, conta um sem-número de histórias que se articulam para dar coesão a seu enredo. Seu rigoroso realismo – amparado pela historiografia, pela bibliografia, pelos compêndios da física e da matemática –, no entanto, não quer transmitir certezas ou verdades: quer interpretar o século XX e entender as relações entre a ciência e a política, entre a falibilidade dos sistemas de conhecimento e a afirmação enganosa dos discursos totalitários.

Coerente com todo o enredo, o final do livro não oferece facilmente uma verdade exata, definitiva. O sentido do texto depende da interpretação aguda do leitor, de sua atenção aos indícios, da maneira como decifra o testemunho de Links sobre a busca de Bacon por Klingsor – não o demoníaco duplo do rei Amorfas no imaginário germânico, mas o suposto mandante de todas as pesquisas científicas do Nazismo. Assim, a experiência de Bacon – que se faz passar por historiador da ciência alemã e que compara sua investigação policial às suas pesquisas científicas – é compartilhada pelo leitor, e ambos são constrangidos a encarar verdades e identidades sempre fugidias, pois Jorge Volpi sabe que não há sentido fixo, que novas leituras trarão novos significados. Na fronteira entre ficção e história, Em Busca de Klingsor é uma aula de ciência, de história e de como a ficção pode reinventar-se a cada momento para pensar o passado.

Jorge Volpi. Em busca de Klingsor. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (original: 1999; tradução: Sergio Molina)

Renato Prelorentzou é mestre em história social pela USP e pesquisa a obra do escritor mexicano Ignacio Padilla. Já publicou, em Paisagens da Crítica, comentário sobre Palomar, de Italo Calvino (27 de maio de 2007, no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net) e, já neste endereço, sobre Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, de Julián Fuks (18 de abril de 2008).


podcast: maio de 68

13 Junho 2008

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre os quarenta anos de maio de 1968

O comentário foi ao ar no dia 9 de junho.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/09-06-08_comentario_julio_pimentel_pinto_maio_%20de_%2068.mp3


O campo do oleiro, de Andrea Camilleri

12 Junho 2008

O campo do oleiro – Il campo del vasaio – não é a melhor, mas talvez seja a mais tocante história do Comissário Salvo Montalbano, detetive criado pelo siciliano Andrea Camilleri.

Montalbano chega cada vez mais cansado a seu décimo-terceiro romance – fora os trinta e seis contos e as três novelas. O tempo passa e pesa para ele: tem agora 58 anos e os rumos da política e da polícia o desiludem. Vê o mundo sombrio e acredita pouco na justiça. Se não bastasse, atravessa uma história de traições, indicadas já no título do livro: o campo do oleiro, conta o Evangelho de Mateus, é onde foram gastas as trinta moedas do Judas arrependido. E num campo assim encontram um cadáver despedaçado em trinta partes, levantado da lama pelas chuvas.

Camilleri domina como poucos, na atualidade, os mecanismos do policial: conhece as matrizes clássicas do gênero, deprecia sutilmente a vertente americana e inventa novos caminhos para a escrita de mistério. Em parte, o policial moderno de Camilleri é herdeiro de Leonardo Sciascia, outro siciliano, escritor do que Italo Calvino chamou de “gialli non gialli” – policiais não policiais. Tal qual em Sciascia, a verdade para Camilleri não é absoluta ou decisiva e nem sempre vem e fica à tona. Algumas de suas versões, sim. É em busca delas – verdades relativas, consensuais – que seus detetives vão, cruzando um mundo insalubre, recheado de velhos e novos mafiosos, de políticos inescrupulosos. Também à semelhança de Sciascia, é o silêncio da Sicília, seus não-ditos e os olhares eloqüentes que, juntamente com a forte entonação oralizada da língua, dão especificidade e dinâmica para a trama e seu desvendamento.

Se o campo do oleiro simboliza uma traição, a original, muitos são os traidores, e de diversos tipos, que circulam ao redor dessa narrativa sombria, que combina assassinatos em mais de um tempo, vinganças e falsos testemunhos. Há traição conjugal, traição à famiglia mafiosa, traição a si mesmo e a que parece pior aos olhos de Montalbano: a da confiança entre amigos. É Mimì Augello quem está na baila e cuja amizade longa parece em risco. Mimì é o vice-comissário de Montalbano e, após ter ganho destaque em várias histórias, andou meio sumido nos três últimos romances. Agora volta à baila e obriga Montalbano a investigar secretamente o homicídio do campo do oleiro e seus desdobramentos do passado e no futuro.

O método de Montalbano nunca foi sherloquiano, linearmente lógico. Ao contrário: Camilleri já o descreveu como semelhante aos ramos cruzados de uma oliveira, intrincado, confuso, caótico, às vezes intuitivo, sempre crivado de variações e, na sua teatralização, de conversas consigo mesmo. A diferença agora é que Montalbano se põe a escrever e é no texto – em longas cartas a si mesmo – que estrutura sua pesquisa e percebe as razões que ligam e justificam as pistas. Nenhum escritor, porém, pode existir se antes não houver um leitor; e Montalbano, para redigir sua versão, antes lê, e lê um Camilleri: La scomparsa di Patò, que já é, por si mesmo, um diálogo com livros anteriores e o desenvolvimento da trajetória de um personagem ficcional de Sciascia. Do universo da leitura e pelo fio da escrita, a decifração.

O sentido é obviamente metaliterário, mas sem qualquer peso para o leitor comum, que pode escolher o nível de leitura que prefere, do entretenimento rápido ao reconhecimento das muitas instâncias narrativas que Camilleri conjuga para dar mais complexidade a seu personagem famoso e variar suas histórias. Também cabe ao leitor entender e avaliar a forma peculiar como Montalbano desenreda a teia de traições e repõe as relações em seus devidos lugares. Emocionalmente. Sobretudo silenciosamente, que é como os sicilianos tratam as coisas importantes.

Andrea Camilleri. Il campo del vasaio. Palermo: Sellerio, 2008

Os treze romances protagonizados por Salvo Montalbano são: A forma da água (1994 – no Brasil, 1999), O cão de terracota (1996 - no Brasil, 2000), Ladrão de merendas (1996 – no Brasil, 2000), A voz do violino (1998 – no Brasil, 2001), Excursão a Tindari, (2000 – no Brasil, 2002), O cheiro da noite (2001 – no Brasil, 2003), Il giro di boa (2003 – no Brasil, Guinada na vida, 2005), La pazienza del ragno (2004), La luna di carta (2005 – no Brasil, A lua de papel, 2007), La vampa d’agosto (2006), Le ali della sfinge (2006) e La pista di sabbia (2007). Além desses, há quatro volumes de narrativas curtas: Um mês com Montalbano (1998 – no Brasil, 2002), Gli arancini di Montalbano (1999), La paura di Montalbano (2002), La prima indagine di Montalbano (2004 – no Brasil, 2008).

Provavelmente a tradução brasileira deste livro demore. Das treze aventuras de Montalbano, como se pode ver acima, já foram traduzidos as sete primeiras e a nona, pulando – sabe lá Deus por quê – a oitava (A paciência da aranha). Além deste, ainda faltam traduções de O calor de agosto, As asas da esfinge e A pista de areia para que se chegue a O campo do oleiro.

Paisagens da Crítica já publicou (no endereço antigo: www.paisagensdacritica.zip.net) comentários sobre outros seis livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007) e Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007). Nas próximas semanas, publicarei comentários sobre mais dois livros de Camilleri: Le pecore e il pastore (2007) e Il tailleur grigio (2008).