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As suspeitas do sr. Whicher conta a história de um crime horroroso, que abalou a Inglaterra vitoriana.

Em 30 de junho de 1860, uma criança de três anos foi retirada de seu berço, no quarto da babá, durante a noite e brutalmente assassinada. O corpo foi encontrado na fossa.

A mansão, ocupada por uma família abastada, ficava em Road Hill. A criança era filha do segundo casamento de Samuel Kent, homem rico, que morava na casa com sua nova esposa, então grávida, dois filhos do primeiro casamento, outros dois do segundo e uma legião de empregados.

A polícia local não chegou a qualquer conclusão, embora tendesse a culpar a babá. Um dos mais famosos detetives da Inglaterra foi chamado de Londres: Jonathan Whicher, membro da primeira turma de investigadores especiais da Scotland Yard, formada poucos anos antes. Ele investigou e acusou a filha do primeiro casamento. Foi desmentido e saiu da história desacreditado.

Cinco anos se passaram antes que se soubesse a verdade, e não completa, do que aconteceu naquela noite em Road Hill — e não se preocupe: não vou contá-la a você, leitor se interesse em ler o fabuloso livro da pesquisadora Kate Summerscale, que acabou de sair no Brasil. Ela recupera toda a história do crime e a narra em forma de romance policial, baseando-se em documentos e em informações que só muito tempo depois vieram à luz.

Mas o mais interessante do caso de Road Hill — e que Summerscale discute de forma rigorosa e envolvente — é que ele, primeiro, dissolveu as fronteiras entre ficção e realidade, para depois demarcá-las com clareza.

Dissolveu as fronteiras porque milhões de ingleses se dispuseram a investigar o caso, diretamente de suas poltronas, como se fossem detetives da ficção. Dissolveu as fronteiras porque muitos escritores se inspiraram no crime para escrever histórias policiais de ficção: para ficar em dois exemplos eloqüentes, Wilkie Collins, um dos iniciadores do policial na Inglaterra, e Charles Dickens, que chegou a escrever cartas a amigos relatando sua decifração do caso – muito superior, acreditava ele, do que a polícia conseguira. O próprio Conan Doyle, que ainda não havia criado Sherlock Holmes, declarou, anos depois, ter sofrido um impacto muito grande como o crime de Road Hill. Num tempo em que detetives eram novidade, a realidade e a ficção criminal pareciam idênticas.

O mais assustador das investigações amadoras sobre o crime de Road Hill é que todos que se dispuseram a decifrá-lo pareciam esquecer da criança-vítima. A idéia do jogo prevalecia e a morte era abafada pelo enigma. A realidade virava ficção.

No entanto, o fracasso das investigações mostrou que a vida vivida dificilmente tolera mistificações. O próprio Dickens teve de reconhecer que sua solução era fantasiosa e estapafúrdia. A razão analítica não prevalecera. E, de heróis, os detetives de carne e osso passaram a vilões. A Inglaterra percebeu que ficção e realidade não compartilham necessariamente os mesmos desfechos. Na vida real, nem sempre chegamos à última página ou alguém consegue encontrar o culpado e puni-lo. Pelo contrário: no dia-a-dia, crime e castigo se dissociam amplamente.

Muitos acham que é por isso que gostamos tanto de ler narrativas policiais: elas trazem o consolo e a serenidade da decifração e da superação. Algo que os jornais não podem oferecer.

Não sei se a hipótese é correta. Acho-a um tanto genérica demais e simplista. Mas que, ao menos em parte, é plausível — e não só para crimes de sangue —, lá isso é.

Kate Summerscale. As suspeitas do sr. Whicher. A história real de um dos crimes mais chocantes da Inglaterra vitoriana e do detetive que inspirou Charles Dickens e Arthur Conan Doyle. São Paulo: Companhia das Letras, 2009 (original: 2008; tradução: Celso Nogueira)

Foi uma sugestão indireta de L., amigo, que me fez levantar a questão. E virou enquete:

O que você gostaria de ter escrito?

De saída, digo alguns que eu queria ter escrito:

- Coração das trevas, de Conrad;

- Doctor Jekyll & Mr. Hyde, de Stevenson;

- o conto “A lição do mestre”, de Henry James;

- algumas páginas de Educação sentimental, de Flaubert;

- a história de Charles Swann, no final do primeiro volume de Em busca do tempo perdido, de Proust, e alguns diálogos de Elstir, na mesma obra;

- Palmeiras selvagens, de Faulkner;

- O velho e o mar, de Hemingway;

- outro conto: “A morte e a bússola”, de Borges;

- Auto-de-fé, de Canetti;

- O enigma da chegada, de Naipaul.

E você?

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre a morte de Mercedes Sosa.

O comentário foi ao ar no dia 8 de outubro.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/08-10-09_comentario_julio_pimentel.mp3

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre terrorismo na Europa dos anos 1970.

O comentário foi ao ar no dia 10 de setembro.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/10-09-09_comentario_julio_pimentel.mp3

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre as origens da narrativa policial.

O comentário foi ao ar no dia 17 de setembro.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/17-09-09_comentario_julio_pimentel.mp3

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre a energética relação entre petróleo e política

O comentário foi ao ar no dia 8 de setembro.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/08-09-09_comentario_julio_pimentel.mp3

O Entreguerras como etapa decisiva da Guerra Mundial de 31 anos

 

Fernando Braga Franco Talarico

 

Em termos de fatos, as duas décadas (compreendidas entre 1919 e 1939) não tornam a registrar embates militares planetários entre potências capitalistas industriais; mas isso não significa que haverá  paz (nem sempre “paz” é o mesmo que “ausência de guerra”). Entre o encerramento definitivo da Primeira Guerra (em 1919) e a declaração de guerra ao Eixo (1939), o período chamado Entreguerras enfrenta processos tão (ou ainda mais) conflituosos, os quais terminarão por reavivar problemáticas anteriores, tornando-as ainda mais violentas em escala (quantidade de mortos, mutilados e miseráveis) e em perversidade. Em outras palavras, a lógica imperialista não fora desfeita  – ao contrário, irá intensificar-se. No Entreguerras, desencadeia-se uma nova etapa da Guerra Mundial de 31 Anos (1914-1945) – e etapa ainda mais perversa.

 

Os tratados de 1919, tais como o de Versalhes, promoveram uma verdadeira destruição dos Impérios derrotados; no quadro da Primeira Guerra, esses tratados foram uma agressão ainda mais violenta que a das trincheiras e a dos bombardeios (terrestres, aéreos e marítimos). Antigos impérios (Alemanha, Áustria- Hungria, Rússia, Império Otomano) recebem goela abaixo a imposição de transformar-se em muitos Estados-fantoches,  apenas aparentemente soberanos, mas na verdade a serviço dos interesses imperialistas das potências militarmente vitoriosas (Estados Unidos e, sobretudo, França e Grã-Bretanha). O centro-leste europeu transforma-se em áreas que não podem recuperar altivamente seus potenciais de indústrias plenas (isto é, de impérios capitalistas), e também se transforma no Cinturão de Quarentena, a fim de isolar a Europa Ocidental da recém-criada União Soviética e do perigo da sovietização de toda a Europa.

 

Ainda assim, o avanço dos socialismos (não apenas revolucionários, mas também evolucionários) não será tão facilmente contido, porque a lógica da Primeira Guerra havia explicitado (sobretudo às camadas proletárias, mas também a setores das classes médias) que  as disputas bélicas, revestidas de interesses nacionais, na verdade serviam aos interesses das camadas proprietárias, penalizando os assalariados; cresce assim uma consciência: a de que os interesses empresariais e financeiros (com os Estados nacionais a seu  serviço) promoviam a guerra mundial às custas do empobrecimento e de mortes ou mutilações dos trabalhadores, e, assim sendo,  o imperialismo capitalista deveria ser destruído pela luta de classes socialista, para que se alcançasse a paz (por mais paradoxal que isso se apresente aos olhos de hoje).  Cada vez mais, os discursos imperialistas (nacionalistas e belicistas) davam lugar a um pacificismo internacionalista, tanto nos impérios desfeitos quanto nos impérios vitoriosos, pacifismo esse imbuído dum sentido de luta de classes socialista em que o proletariado internacional, solidário entre si, confrontasse os promotores das guerras entre nações (entendidos como os setores empresariais e financeiros, representados pelos governos, ou Estados). 

 

A reconfiguração da Divisão Internacional do Trabalho capitalista após 1919 trocara Grã-Bretanha por Estados Unidos como potência central (consumidora de primários, fornecedora de capitais produtivos e financeiros e alvo principal da captação de investimentos em ações). A produção empresarial estadunidense, desse modo,  crescia vertiginosamente, enquanto a capacidade mundial de consumo aos poucos restringia-se. Não apenas nos Estados Unidos, mas também no mundo, os salários arrochavam-se, como forma de recuperar-se o nível de lucro empresarial. Os setores produtivos e financeiros de Grã-Bretanha e França em breve tempo recuperavam-se, ajudados por crédito e por tecnologia estadunidense. Já nos territórios da Europa militarmente derrotada (os antigos impérios alemão e austro-húngaro, cada vez mais afundados em dívidas de guerra impagáveis), a capacidade de consumo também decrescia, embora por motivos diversos (não porque se recuperassem economicamente, como França e Grã-Bretanha, mas porque, ao contrário, enfrentassem uma situação de “subdesenvolvimento” industrial, intencionalmente imposto pelos “tratados de paz”). Já em regiões de modelo primário-exportador (alvos do “novo colonialismo”, ou “imperialismo”, desde o Longo XIX), adotava-se pela primeira vez a Política Substitutiva de Importações, primeiro como forma emergencial (durante a Primeira Guerra), depois como projeto de desenvolvimento nacional (em territórios como Brasil, Argentina, México, Índia); isto é, suas capacidades de importação também restringiam-se.   Em resumo: enquanto a produção empresarial estadunidense crescia (estimulada pela captação cada vez maior de investimentos acionários na Bolsa de Valores de Nova York), e enquanto a capacidade de empréstimos  deste novo centro mundial capitalista também aumentava, o mundo capitalista (Europa “vitoriosa”, Europa “derrotada” e áreas “coloniais”) lentamente deixava de consumir e de poder honrar suas dívidas. Assim sendo, os portadores de ações estadunidenses, logo que perceberem o descompasso entre produtividade crescente e consumo decrescente, porão à venda suas ações desesperadamente; isso acontecerá em 1929, num verdadeiro comportamento irracional de “manada” – o que configurou a Crise da Bolsa de Valores de Nova York.

 

A Depressão Econômica estadunidense (de 1929 a, pelo menos, 1933) irá desfazer a Divisão Internacional do Trabalho, graças ao seu alcance mundial (verdadeiro efeito dominó). Essa Grande Depressão irá reforçar ainda mais o avanço dos socialismos revolucionário e evolucionário pelo mundo, a atribuírem ao capitalismo características perversas, não apenas por conta do belicismo imperialista, mas agora pela incapacidade econômica de promover o bem-estar social. E, em reforço aos discursos socialistas, soma-se a imunidade da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) à desgraça econômica do capitalismo internacional, uma vez que a URSS, desde 1927 (com a implantação dos Planos Quinquenais), desenvolvia suas forças  econômicas com grande sucesso, através da planificação estatal. Por tudo isso, os governos e os setores capitalistas do mundo sob a Grande Depressão tomarão medidas urgentes, para recuperar no curtíssimo prazo o crescimento econômico e, assim, evitar que os avanços socialistas se tornassem definitivamente fulminantes.

 

Em territórios como Estados Unidos, Grã-Bretanha e França (que não haviam perdido “colônias” nem haviam sofrido com a “desindustrialização” programada pelos “tratados de paz”), a via a adotar, com tais objetivos em vista, será a keynesiana. Já em territórios “desimperializados” (os antigos impérios Alemão e Austro-Húngaro) ou por outros motivos submetidos à sovietização do pós-guerra e ao “subdesenvolvimento” industrial, esses territórios adotarão a via fascista. Em ambos os casos (via keynesiana e via fascista), o objetivo comum reside em: 1) desenvolver no curto prazo um mínimo de bem-estar social que preserve as relações de produção capitalista; 2) reprimir o fulminante avanço socialista, ou ao menos de centro-esquerda. Para tanto, a despeito das diferenças entre keynesianos e fascistas, encontramos em comum o abandono da via liberal. Não mais os Estados deixarão a atividade empresarial e financeira por si mesma (entregues à lei de oferta e procura e à iniciativa privada), porque adotarão estratégias de planificação, capazes de mapear as áreas produtivas saudáveis ou precárias, e, com isso, capazes de implementar uma estratégia de tributação progressiva, que retire recursos de alguns setores saudáveis para redistribuí-los aos demais. Esses Estados planificadores e interventores passarão, também, a empresariar, tendo em vista recuperar setores produtivos em que os investimentos retornam como lucro a médio ou longo prazo, e portanto não podem atrair no curto prazo investimentos privados (setores esses como, por exemplo, siderurgia e metalurgia); terão em vista, também, investir em setores de infra-estrutura (transportes, comunicação), e com tantas atividades empresariais estatizantes (e não exclusivamente privatistas), criam-se empregos, visando a acabar radicalmente com o desemprego, não porque tais Estados queiram elevar a qualidade de vida do proletariado, e sim porque necessitam  recuperar com urgência a atividade empresarial capitalista, e para isso precisam recuperar a capacidade de consumo. Nesse sentido, que tais Estados implementem serviços públicos gratuitos ou subsidiados (graças aos tributos sobre a lucratividade dos setores produtivos), isso não significa que a elevação da qualidade de vida e da renda dos trabalhadores seja um objetivo em si, mas um meio através do qual se recuperam as forças capitalistas no curto prazo. Portanto, não se podem considerar as vias keynesiana e fascista como esquerdizantes, mesmo que elas impliquem distribuição de renda em função de Estados planificadores e interventores; são, antes, estratégias de direita num quadro emergencial de Grande Depressão, visando justamente a frear o avanço das esquerdas populares de centro-esquerda (liberal-progressistas e socialistas), ainda que se sirvam, para tanto, de alguns instrumentos até então propostos por setores esquerdistas.

 

Evidentemente, os territórios keynesianos não necessitarão recuperar territórios coloniais, uma vez que saíram da Primeira Guerra com seus domínios relativamente intactos. E também não terão dificuldades maiores em recuperar suas economias, uma vez que seus parques industriais sofreram relativamente menos com a Guerra. Portanto, não irão suprimir a via política do Estado de Direito liberal (caracterizado pela tripartição dos poderes constitucionalmente definidos, e cujos cargos se preenchem por voto ou concurso); apenas aprimorarão os meios de comunicação em massa (imprensa e entretenimento, cada vez mais recorrentes ao rádio e ao cinema), como forma de monopolizar o conjunto de informação, ideias e valores e, assim, enfraquecer os grupos políticos e sindicais de esquerda. Já nos territórios fascistas, sem domínios coloniais nem parques industriais relativamente intactos, uma nova forma de Estado será necessária, tanto para viabilizar um novo expansionismo imperialista quanto para frear pela força bruta as organizações de centro-esquerda. Portanto, se as vias keynesiana e fascista diferem entre si por suas estratégias políticas (Estado de Direito liberal num caso, Estado totalitário ou “ditatorial” no outro), ambas reduzem-se a um denominador comum: objetivos imperialistas e anti-socialistas, paradoxalmente a utilizar, em caráter emergencial, recursos de planificação estatal, aparentemente capazes de distribuição de renda.

 

Em reforço a uma tese tal, que aproxima as vias keynesiana e fascista (ao relativizar suas diferenças políticas e sublinhar suas semelhanças sócio-econômicas e seus objetivos anti-socialistas), vêm os fatos da segunda fase do Entreguerras (entre 1929 e 1939). Os fascismos italiano e alemão (e também os filo-fascismos ibéricos, entre outros) contaram com a omissão dos keynesianos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha (equivalentes a uma aprovação ou, mesmo, a um estímulo velado). As vias golpistas do Partido Fascista italiano, ou do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, poderiam (ou deveriam) ter sido abortadas desde o início, uma vez que afrontavam, como discurso mas sobretudo como prática expansionista, os tratados internacionais (tais como o de Versalhes). Enquanto a União Soviética era ativamente isolada pelas três grandes potências (Estados Unidos, França e Grã-Bretanha), em termos de embargos políticos e econômicos, Hitler e Mussolini (personificações de seus Estados fascistas) não foram alvos de embargos semelhantes, porque, ao contrário sentaram-se às mesas diplomáticas e foram premiados por Políticas de Apaziguamento, ao mesmo tempo que recebiam vultosos investimentos empresariais (dentro e fora de seus países). Seus discursos imperialistas, ao frisar o combate ao socialismo (notadamente à via soviética), atacavam também a arrogância das três potências, bem como as minorias étnicas (sobretudo judaicas). Em defesa dos direitos humanos, ao menos, tais potências imperialistas (muito embora anti-soviéticas) deveriam zelar pelo equilíbrio mundial, e atacar as vias fascistas desde seus mais remotos inícios; e não só não o fizeram, como, ao contrário, dele participaram. Quando da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), por exemplo, os fascistas alemães e italianos fomentaram o golpe dos franquistas contra um governo democraticamente eleito, contando com a omissão pura e simples das três grandes potências. Este mesmo período (1936-1939) corresponde também ao expansionismo do Eixo (Itália, Alemanha e Japão), que vitimou territórios asiáticos, africanos  e da Europa centro-oriental – e que ficou impune. A intervenção franco-britânico-estadunidense apenas se dará em setembro de 1939, em favor da Polônia, e não porque ali residissem eslavos e judeus, mas porque o Corredor Polonês, se tomado pela Alemanha nazista, afetaria interesses geopolíticos de franceses e britânicos. Em jogo, na Polônia invadida, estavam os interesses de duas ou três nações (Estados Unidos, mas sobretudo França e Grã-Bretanha); desde a Guerra Civil Espanhola e da formação do Eixo Roma-Berlim (em 1936), estavam interesses de muitos mais povos. De tal problema, fica a questão: o Eixo definitivamente provocou, como causa imediata, a Segunda Guerra Mundial? Ou tal proposta é apenas uma verdade parcial (ou uma omissão historiográfica, a encobrir uma omissão histórica)?

 

 

Fernando Braga Franco Talarico é mestre em história social pela Universidade de São Paulo e professor de ensino médio no Colégio Rio Branco.

La bodega é daqueles romanções que você lê em três ou quatro horas e demora o mesmo tempo para esquecer. Mas que tem seu lugar nas livrarias, nas listas dos mais vendidos e, por que não?, em alguma tarde modorrenta.

 

Ganhei o livro no meu aniversário, em maio, e o coloquei na imensa pilha de livros “a ler”. Alguns entram nela e não saem mais. Outros saem, tempos depois, diretamente para a estante, após uma breve passada d’olhos. Achei sinceramente que seria este o destino de La bodega.

 

Ok, gosto de vinhos e penso neles mais ou menos a metade do meu tempo (na outra metade, comida). Ok, já havia lido outro livro do autor, Noah Gordon, e me divertira muito: O físico – estapafúrdia tradução brasileira de The Physicien. Mas lera O físico como parte de minha formação como judeu honorário, e não por questões literárias.

 

Eis, porém, que estava exausto num sábado de meio de feriado, quando fui olhar a pilha para escolher algo que ler. Bati o olho em La bodega, enchi uma taça de vinho e fui para a poltrona. Quase desisti a terceira frase, inconformado com uma metáfora baldia de gosto duvidoso. Mas resolvi insistir. Li umas cem páginas e fui jantar. No dia seguinte, home alone, li o resto.

 

O vinho mesmo demora a aparecer. Gordon se preocupa em montar o painel histórico das lutas e guerras políticas da Espanha do último quarto do século XIX e investigar a vida quotidiana dos camponeses. Detalha mais do que seria necessário e lança as iscas que – o leitor sabe – depois fisgarão peixes narrativos.

 

Porque esses romanções são quebra-cabeças: todas as peças devem se encaixar e nenhuma pista pode ficar sem elucidação. Sabe aquela observação passageira sobre a personagem x? Pode ter certeza de que terá desdobramento. Sabe aquele detalhe do vestuário do personagem y? Ele vai, claro, ter alguma importância daqui a, digamos, cento e doze páginas.

 

Mais divertido do que a história – previsível no conjunto e no desfecho – é perceber o engenho do autor. Não há grandes jogos de linguagem, mas há uma fórmula quase exata, treinada por Noah Gordon durante décadas e aplicada com precisão. O leitor não escapa de sua rede.

 

Quando finalmente se fala de vinho – lá pelo último terço do livro – as poucas informações técnicas são simples, mas divertidas. Gordon narra o aparecimento terrível da philoxera nos vinhedos europeus e sua expansão. Do trabalho cuidadoso de corte e da atenção para chegar a um vinho decente. Cruza isso com amores perdidos e reencontrados, com momentos de tensão milimetricamente calculados, com a transformação e auto-reinvenção do protagonista.

 

Tudo clichê? Claro. Dos vinhos à história, da ambientação à construção dos personagens, do desenvolvimento narrativo ao arremate da história.

 

Mas vá você tentar escrever uma história dessas, em que tudo fica no lugar exato e nada se dispersa. Não vai conseguir, e ponto. Porque até receitas que parecem simples precisam ser desenvolvidas com cuidado, com atenção. E as de Noah Gordon nem são assim tão óbvias.

 

Já estou esquecendo os nomes dos personagens e o enrosco político em que se metem. Lembro-me quase apenas da proporção que o protagonista usou na elaboração de seu vinho. Mas também disso esquecerei em breve.

 

Não esquecerei, porém, que Noah Gordon é um tremendo escritor de romanções e ganha uma merecida fortuna com isso.

 

Noah Gordon. La bodega. Rio de Janeiro: Rocco, 2008

 

Podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre:

 

- a trajetória política de Getúlio Vargas (no ar em 26 de agosto);

- o início da Segunda Guerra Mundial (no ar em 1o de setembro).

 

http://www.radiometropole.com.br/index_podcasts.php?artic=VFdwalBRPT0=

 

Outra vida revela vida inteligente na problemática ficção brasileira da atualidade.

O romance de Rodrigo Lacerda recorta duas horas da vida de um casal que, acompanhado da filha, viaja de volta para uma cidade pequena do litoral, origem de ambos. Ele busca alívio e fuga da cidade grande, onde se envolveu num caso de fraude em licitação pública. Ela rejeita o destino pequeno que lhe coube e repudia o retorno. A filha dorme ou brinca, alheia, pelo menos na aparência, aos dilemas dos pais.

A trama se concentra nas horas de espera da partida do ônibus. Mas há mais espera em jogo. A mulher teme a chegada iminente do amante, que prometeu revelar o caso e impedir sua viagem. O marido espera a redenção de uma vida entre amigos e parentes. A filha apenas espera.

Se a narrativa investe nas dimensões pessoais, o pano de fundo é um Brasil corrupto, em que o pior corrupto é o que se arrepende – caso do marido. Mais atual, impossível. E igualmente genérico, como indica a ausência de nomes dos personagens, só referidos pela relação de parentesco ou pela posição que ocupam: o chefe, o deputado.

O drama nacional, porém, por mais que chame a atenção do leitor, não concorre com a intimidade de marido e mulher. As duas horas de rodoviária são o aleph de suas vidas pregressas, o exorcismo silencioso das brigas que tiveram e das que calaram. O descompasso de expectativas e o excesso de ressentimentos. A sensação recíproca de aprisionamento e as diferentes alternativas de liberdade que um e outro sondam. As miúdas mesquinharias que se acumulam no quotidiano.

Evidentemente nenhum dos personagens conseguiria, por si só, realizar os volteios auto-analíticos que o romance oferece. São medíocres em sua capacidade de lidar consigo e com o redor. Mas o que pode soar como inverossimilhança na construção psicológica de ambos é, na verdade, o ponto forte do livro: a constituição de um narrador de tamanha onisciência que afoga os personagens que perscruta e oferece a ficção como alternativa superior à realidade.

Ao eleger a ficção como seu tema – mais do que o painel político ou as relações pessoais e sociais – Rodrigo Lacerda amplia, de maneira arguta, o significado do título, que deixa de se referir à vida sonhada e irrealizada por ambos e passa a demonstrar a outra vida que todos temos se ficcionalizarmos o dia-a-dia. Nosso retrato no negativo, mais cru e duro, concreto e completo.

E a vida ficcional do marido e da mulher se desdobra na hora em que a personagem silenciosa da filha se solta do círculo mágico da alienação e passa a mediar o funcionamento do trio. Alinhava-se então o desfecho conflituoso e racional de uma vida, a real, que foi só desassossego. Não importa que um e outro se apeguem, na hora de embarcar, a outros clichês ou a soluções incompletas. Foram liberados das angústias anteriores pela faca fina da ficção e podem pleitear dias melhores – que dificilmente virão.

Rodrigo Lacerda. Outra vida. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009

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