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Daniel Piza

 

Dia trinta e um de dezembro de 2011, eu estava viajando quando, de repente, resolvi entrar no twitter e levei o pior susto do ano: Daniel Piza havia morrido.

 

Antes de ficar triste e inconformado —o que estou até hoje e dificilmente vai passar—, senti um profundo estupor.

 

Fazia muitos anos que lia sua coluna. Primeiro, na Gazeta Mercantil; depois, no Estado. De todas as leituras de jornal era provavelmente a que mais me agradava.

 

Quando seu excelente Questão de gosto foi publicado, em 2000, li com prazer incomum, concordei e discordei, celebrei sua existência.

 

Na contramão de tantos críticos, alguns respeitáveis e outros nem tanto, gostei bastante de sua biografia de Machado de Assis —Machado de Assis, um gênio brasileiro—, lançada em 2005.

 

Havia, em Daniel, algo incomum nos dias de hoje. Ele era um crítico com suficiente rigor e, ao mesmo tempo, sem os vícios e jargões acadêmicos. Conciliava, no seu texto, a densidade de uma boa análise e a fluidez de quem pretende ser lido por todos, de quem não deseja dialogar apenas com meia dúzia de gatos pingados.

 

Em 2003 ou 2004, escrevi a ele e perguntei se podia lhe enviar cópia de um livro que iria publicar. Ele permitiu. Consultei-o, depois da leitura, sobre a possibilidade de ele escrever a orelha. Sem jamais ter me encontrado, aceitou. Estava ali o sujeito que acredita nas pessoas por aquilo que escrevem, algo também raro.

 

De lá para cá, trocamos algumas mensagens, mas jamais o conheci pessoalmente. Não por falta de oportunidade. Certa vez, tomava café com um amigo comum, numa livraria, e, ao ver Daniel ao longe, ele se ofereceu para nos apresentar. Recusei.

 

Nos últimos dois anos, eu o encontrava semanalmente na porta da escola de teatro em que nossas filhas estudam —são colegas de turma e amigas. Nos cumprimentávamos cortesmente, pais unidos na tarefa prazerosa de cuidarmos de nossas meninas. Bicho do mato convicto, eu nunca disse meu nome ou me apresentei.

 

Quando li a notícia de sua morte, lamentei que não tivéssemos jamais conversado ao vivo. Mas isso não tinha mais importância. O pior acontecera. Todos havíamos perdido o jornalista sério, criterioso, dedicado, honesto.

 

Havíamos perdido um leitor de primeira e, meu Deus, como fará falta.

 

 

*

para ler resenhas de livros de Daniel Piza publicadas em Paisagens da Crítica, clique nos títulos dos livros:

 

Machado de Assis, um gênio brasileiro

 

Contemporâneo de mim

 

E a orelha que ele escreveu para meu A leitura e seus lugares está aqui.

 

 

 

Máscaras revelou uma mágica que só a leitura faz: nos levar de volta a um livro e a um autor que antes nos desagradaram e alterar radicalmente a impressão.

 

Três anos atrás, mais ou menos, eu li os livros de Leonardo Padura Fuentes publicados no Brasil. Saí com a certeza de que se tratava de um autor que dominava bem as matrizes e estratégias do gênero policial, tinha texto fluido e ágil, e nada além disso. Um bom entretenimento, agradável, mas descartável. Traduzi minha opinião na resenha de um deles, publicada aqui no blog.

 

Eis que agora, em função de um trabalho que assumi, fui instado a reler todos os Padura traduzidos e um ou outro que ainda não receberam versão nacional. E tudo se modificou.

 

Comecei a releitura por Máscaras, de 1997, o terceiro volume da tetralogia “Quatro estações”, protagonizada pelo investigador Mario Conde —os demais volumes da série são Passado perfeito (1991), Ventos de quaresma (1994) e Paisagens de outono (de 1998, não publicado no Brasil).

 

Máscaras propõe uma trama complexa em que figurões do regime cubano estão envolvidos num jogo de perseguições políticas, sexuais e dramas familiares profundos. Todos se travestem —se mascaram—, literal ou metaforicamente, num movimento ininterrupto de variações e instabilidades.

 

Padura percorre, por meio da ação de seu detetive, os abismos de uma Havana que já foi bela, das mais belas das Américas, e depois se afundou na deterioração e nas relações e nos vínculos clandestinos. Também a história dos últimos quarenta ou cinquenta anos cubanos ultrapassa a função cenográfica que, a princípio, parece ter e se torna personagem decisiva do enredo.

 

Não cabe aqui discutir a dimensão diretamente política do livro —sempre secundária em relação ao exercício muito mais transfigurador da ficção—, nem a posição ambígua de Padura diante do regime. Cabe ressaltar a construção cuidadosa do universo íntimo de Mario Conde e seus amigos unidos em laços profundos e definitivos, o trabalho de assimilação da língua falada no texto escrito, a atualidade de uma narrativa policial que dialoga com as regras e os vícios do gênero, mas não se submete a eles.

 

Mágica é a leitura —e as revisitações, releituras de fato, que fazemos aos livros. Magia não de vara de condão ou correlato, mas a que mostra que nossa posição de leitor não é fixa, nosso tempo não é uno. Somos leitores da mesma forma que somos humanos: oscilantes, dotados de perspectivas provisórias, errantes.

 

Por tudo isso, ao reler Máscaras, não apenas descobri um Padura que eu não tinha enxergado nas leituras anteriores; redescobri, sobretudo, o motivo de, há mais de quarenta anos, eu ter escolhido a leitura como profissão.

 

 

Leonardo Padura Fuentes. Máscaras. São Paulo: Companhia das Letras, 2000 (original: 1997; tradução: Rosa Freire D’Aguiar)

 

 

 

Os livros e os dias é o título, no Brasil, de um livro que, no original, se chama Um diário de leituras.

 

E assim se chama porque isso o é: Alberto Manguel resolveu reler um de seus livros favoritos por mês, ao longo de um ano (entre 2002 e 2003), e anotar suas impressões de leitura. Trata-se, portanto, efetivamente de um diário — o que a alusão a Hesíodo, contida no título da edição local, pode apagar.

 

Há de tudo em suas escolhas: Bioy Casares, Wells, Kipling, Chateaubriand, Conan Doyle, Goethe, Grahame, Cervantes, Buzzati, Shonagon, Atwood, Machado de Assis. Num rápido balanço: duas mulheres, dez homens; um livro das literaturas alemã, brasileira, canadense, francesa, italiana e japonesa, dois da espanhola e quatro da inglesa.

 

A leitura de Manguel não se desconecta da vida vivida. Ele, aliás, alerta, já na apresentação, que “leitura é conversa” e, portanto, tramas e textos dos doze livros devem deixar brechas para a irrupção do quotidiano e de questões aparentemente extraliterárias. É assim que podem surgir considerações mais ou menos profundas sobre a recente ditadura argentina, o terrorismo internacional ou a “estupidez humana”.

 

Lembremos: é um diário, e duas das marcas desse tipo de escrita são exatamente a irregularidade e um possível vazio. Nem todos os dias, afinal, acontece algo memorável ou somos capazes de pensar e redigir um texto que ultrapasse o instante e o interesse pessoal e estrito. O leitor de diários sabe disso, aprendeu a tolerar banalidades e idiossincrasias.

 

O fio —e o tema— dos livros ajuda a preencher as lacunas do cotidiano e o próprio Manguel reconhece os limites de seu texto, ao comentar, sobre Chateaubriand, que este fora o único escritor a fazer um diário não egocêntrico, logo, de interesse amplo.

 

A irregularidade do diário de Manguel se manifesta também nas anotações sobre livros. A parte sobre Machado, por exemplo, resume-se a generalidades e esquemas analíticos ultrapassados. O capítulo sobre Bioy finge desconsiderar a ampla fortuna crítica em torno de A invenção de Morel.

 

Mesmo no erro ou na superficialidade, o livro levanta temas decisivos: o lugar do leitor (ou, no caso, do re-leitor) e o movimento algo mágico da penetração recíproca entre livros e leituras —o quanto elas se imiscuem umas nas outras, a impossibilidade da “leitura virgem” (aquela que se supõe alheia a qualquer impressão prévia sobre o livro que inicia), a datação de toda leitura, seu tempo único e irreparável.

 

Ao apontar a complexidade de toda leitura e a necessidade de pensarmos sobre seus mecanismos internos, Manguel instiga o leitor, retorna ao tema principal de sua obra e pode abandonar julgamentos apressados sobre livros e autores.

 

Mais: nos permite lembrar que, afinal de contas, reler —como já sugeriu Calvino— nos ajuda a reavaliar, simultaneamente, o livro e nós mesmos.

 

 

Alberto Manguel. Os livros e os dias. Um ano de leituras prazerosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005 (original: 2004; tradução: José Geraldo Couto)

 

 

 

Elegância não é substantivo abstrato, nem comum.

Ao contrário: nesse mundo cheio de vanglórias, elegância é rara e se manifesta em poucas circunstâncias e pessoas.

Para mim, quem sempre a representou foi o professor Manoel Lelo Belloto.

Quando comecei a estudar história da América Latina contemporânea, quase trinta anos atrás, a bibliografia era mínima e os especialistas, quase inexistentes.

Três ou quatro precursores se esforçavam, meio heroicamente, para criar, no Brasil, espaço e condições que tornassem possível a pesquisa e a formação de pesquisadores na área.

Um deles era o Professor Belloto, que dava aula no departamento de História da Unesp, campus de Assis, e estava presente em quase toda bibliografia que eu coletava.

Só vim a conhecê-lo pessoalmente muito tempo depois, em 1999. Era meu concurso de ingresso na Usp e ele estava na banca. Alto, de terno, modos suaves, palavras delicadas, raciocínio arguto, erudição, competência e gentileza aparentemente infinitas.

Mais doze anos se passaram antes que o reencontrasse. Final de 2010, ano passado, montava a banca de minha livre docência. Queria que ele estivesse presente, mas temia importuná-lo, convidando para um evento tão longo e fisicamente desgastante como um concurso desse.

Não resisti e lhe escrevi. Na resposta, imediata e marcada pela habitual simpatia, ele aceitava e abria sua agenda para “qualquer data”.

Entre os dias 13 e 15 de dezembro, ouvi suas arguições e comentários, vivi a honra de tê-lo como um dos primeiros leitores do trabalho mais importante de minha carreira.

Ele não pôde ir ao jantar que encerrou o concurso e, assim, nossa última conversa foi por email, nos dias que se seguiram à defesa.

Ontem, um comunicado da associação de historiadores informou o falecimento do professor Belloto. Comunicado igual a muitos outros, não fosse ele quem fosse.

Sentado na minha poltrona de leitura, repassei, na memória, imagens dele, folheei um ou outro livro, reli as anotações dos comentários que fez durante o concurso de 2010.

Lembrei que a elegância lhe parecia intrínseca. Elegância pessoal e intelectual, concreta e própria.

Hoje acordei mais frágil, mais vazio, miúdo.

Acho que todos que o conhecemos acordamos assim. Acordamos sobretudo bem menos elegantes.

 

 

A máscara da África consegue agradar, paradoxalmente, a defensores e detratores de V. S. Naipaul, escritor trinidadino que ganhou o Nobel de Literatura de 2001.

 

É fácil de entender.

 

Para aqueles que acusam Naipaul de enxergar o mundo com olhos europeizados, de reproduzir visões e noções externas acerca da vida e dos rituais sociais em países pobres, o livro é uma nova oportunidade de reafirmar a distância que o autor mantém dos mundos que visita e relata.

 

Para quem considera Naipaul um dos poucos grandes escritores dos dias de hoje, a narrativa reúne algumas das principais qualidades de sua escrita: o texto fluido, conciso e bem construído, a precisão no manejo da língua, a exploração das possibilidades da descrição objetiva, a acuidade do olhar investigador e de sua tradução narrativa.

 

É óbvio que me situo no segundo grupo. Óbvio, também, que considero limitada e intencionalmente restritiva a leitura ideológica que pauta boa parte da recepção a Naipaul. Um tipo de leitura que poderia ser explicada, embora dificilmente justificada, nos anos 1960; não hoje.

 

Em A máscara da África, Naipaul registra o resultado de uma viagem que durou meses (entre 2008 e 2009) e atravessou seis países da África: Uganda, Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Gabão e África do Sul. O início por Uganda é simbólico; o escritor viveu lá na metade dos anos 60 e agora reencontra, espantado, o país que cresceu incrivelmente nos últimos cinquenta anos.

 

Seu tema central é a religiosidade — daí o subtítulo Vislumbres das crenças africanas —; por isso, a circulação privilegia lugares sagrados e as conversas com moradores locais valorizam a combinação de formas e experimentações da fé.

 

Inevitável, portanto, comparar com seus relatos de viagem a países islâmicos, como Entre os fieis (1981) ou Além da fé (1998). Em A máscara da África, no entanto, há mais matizes e possibilidades religiosas, mais camadas de tempo que se acumulam na constituição da atual e multifacetada percepção do sagrado.

 

E, na contramão do que tantas vezes dizem os detratores, nada é esquemático no olhar de Naipaul. A ânsia com que busca as informações, com que analisa cada passo e espaço denota uma visão aguda e interessada em percorrer e compreender o mundo alheio.

 

Num tempo em que o politicamente correto se traduz na aceitação de tudo — tempo em que a ideologia imprecisa e usualmente enganosa do ‘multiculturalismo’—, a capacidade crítica declina. Abrimos mão da interpretação em nome de um suposto respeito à diversidade; respeito tantas vezes falso, que não existe na prática e se limita à constatação da existência abstrata do ‘outro’.

 

Naipaul sabe que, para de fato reconhecer a diferença, é preciso definir a própria perspectiva, expô-la com clareza, assumi-la; evitar o posicionamento ambíguo e exercer a crítica — atividade fundamental para a compreensão.

 

O leitor de A máscara da África pode, assim, percorrer as plurais crenças africanas através dos olhos de Naipaul. Mas pode, com facilidade, recorrer ao que ele mostra e construir seus próprios significados, estabelecer sua visão particular. E pode, ainda, desfrutar de um relato de viagem amplo, muito bem concebido e desenvolvido, algo hoje incomum.

 

V. S. Naipaul. A máscara da África. Vislumbres das crenças africanas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011 (original: 2010; tradução: Marcos Bagno)

 

 

Capital da ficção

 

Na Ilustríssima de domingo, dia 19/6, ‘Capital da ficção’: resenha sobre Malá Strana. Vestígios de Praga, de Jan Neruda, e O livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna. Clique aqui para ler.

 

 

25 anos sem Borges

 

No Painel de Letras, da Josélia Aguiar, um poema para os 25 anos da morte de Borges não passarem em branco. 

 

 

Máfia, de Petra Reski

Máfia. Padrinhos, pizzarias e falsos padres é um livro irregular. Tem grandes méritos e diversos problemas.

Foi escrito por Petra Reski, jornalista alemã, com objetivo claro: alertar para a ampla penetração da máfia na Alemanha.

O tema é espinhoso. Ninguém duvida que a máfia atue fortemente na Itália, nos Estados Unidos, na Espanha ou no Reino Unido. A Alemanha, porém, sempre negou a presença do crime organizado em seu território. Ou seja, mais do que espinhosa, a questão traz um histórico de omissões e discursos oficiais que a rejeitam.

Feito para incomodar, o livro incomodou. Esse talvez seja seu maior mérito. Prova disso é o fato de que algumas pessoas citadas recorreram à justiça alemã e conseguiram a aplicação de tarjas pretas sobre vários trechos da obra.

Outro mérito vem da pesquisa, grande, que a autora fez e que ajuda a revelar casos polêmicos. Ela se mostra igualmente atualizada em relação ao debate sobre o funcionamento das várias organizações mafiosas italianas e a divisão de papeis no atual cenário do crime mundial.

Exatamente por isso, Reski privilegia a ‘Ndrangheta, da Calábria, principal responsável pelo tráfico de drogas na Europa. A ‘Ndrangheta é menos famosa do que suas correlatas napolitana (Camorra) ou siciliana (Cosa Nostra), mas igualmente poderosa e, diz Reski, a mais influente na Alemanha.

O livro tem outros pontos positivos. Esclarece, por exemplo, antigos equívocos na interpretação histórica acerca do papel da máfia, que continua a ser vista por muitos (e mal informados) autores como um exemplo de resistência popular à imposição do Estado italiano — mesmo um autor respeitável, Eric Hobsbawm, já defendeu tal ideia.

Reage à mistificação que parte da mídia construiu em torno do mundo do crime e lembra que as grandes organizações hoje se dedicam a atividades econômicas legais, como o turismo, ou concentram seus esforços na obtenção de recursos públicos por meio de licitações fraudulentas.

Reski apresenta, sobretudo, uma visão moderna do lugar atual da máfia, bem distante do que encontramos nas telas dos cinemas.

No entanto, o lado bom do livro acaba prejudicado pela superficialidade com que alguns temas são tratados. A reurbanização de Palermo, no final dos anos 1980, por exemplo, obra da única prefeitura anti-máfia que a cidade já teve, é mencionada apenas passageiramente; perde-se, assim, a oportunidade de discutir a importância de ações que atingem o funcionamento quotidiano das organizações.

Toda a Sicília que a autora apresenta é, no fundo, superficial. Paisagens e pessoas surgem filtradas por um olhar turístico: o mesmo tantas vezes usado na mitificação da máfia e de seus supostos vínculos populares.

Também a ‘Ndrangheta, personagem principal, é citada incontáveis vezes, mas sua atuação quase não é documentada. Infere-se que a autora tenha a comprovação do que diz, mas — fora as referências aos óbvios e necessários relatórios da Comissão Antimáfia italiana — quase nada aparece para sustentar sua argumentação.

Para completar, a tradução e a edição brasileiras erram mais do que seria aceitável: erros de concordância, ortografia e sintaxe recheiam o livro, prejudicando a leitura.

No conjunto, porém, o livro vale a leitura. No mínimo, pela própria disposição — e, quando se trata de máfia, não custa lembrar: pela coragem — de denunciar algo quase sempre negligenciado. No máximo, pelas pistas que dá para um estudo mais sistemático da organização criminosa italiana que menos se conhece fora da Itália e que é tão nociva quanto as demais.

Petra Reski. Máfia. Padrinhos, pizzarias e falsos padres. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2010 (original: 2008; tradução: André Delmonte)

 

Então você quer ser escritor? é um livro de duplos.

Em primeiro lugar, porque reúne contos. A forma breve, por definição, traz pelo menos duas histórias: a que segue visível na superfície e outra, subterrânea, discreta, iminente.

Segundo, e principal: esses dezesseis relatos de Miguel Sanches Neto mostram impasses, conflitos, dessemelhanças.

“Sangue” nos fala do banal e do visceral; “Árvores submersas”, de grandeza e ridículo; “Animal nojento”, de afeto e angústia; “O tamanho do mundo”, de esperança e desconsolo; “Não comerás carne”, de redenção e angústia.

“Duas palavras” é épico e patético, combina ficção e história. “Manga verde com sal” sugere os tempos da vida: dois, muitos. “Redentor” mostra o dentro e o fora de cada um; “O último abraço”, bandeiriano, trata da vida que podia ter sido e da que foi.

“Na minha idade” contrasta realidade e irrealidade e “Seios de menino”, por meio da ambiguidade sexual, confunde passado e presente. “Jogar com os mortos” combina a iminência do sexo e os contrastes sociais. “Andar de bicicleta” é o jogo da visão contra cegueira, dos vivos e dos mortos.

“Para o seu bem” revela a vida na margem — espaço híbrido de pertença e desconexão. A regularidade e a mudança, ficar e partir, o miúdo e o universal compõem “Vestindo meu avô”. Finalmente, o conto que intitula o livro traça com ironia a crueza do trabalho ficcional, duplo por princípio, artístico ou ridículo, verdade e engano.

Mais do que o conteúdo cognitivo e conjuntural de cada conto, a duplicidade é estratégia narrativa. Miguel Sanches Neto investe na variedade de registros, linguagens e estruturas, desenha as histórias e revisita, aqui e ali, temáticas e preocupações estéticas de livros anteriores. Assegura assim a organicidade da obra e, ao mesmo tempo, afirma sua tensão interna.

Além disso, contar contos já sugere, no Brasil de hoje, uma posição algo assincrônica: por algum motivo, a maioria dos autores nacionais chegou à conclusão de que o país precisa de romances, abandonou a forma breve e passou a nos brindar com enxurradas de literatura prolixa, medíocre e diluída.

No conto, ao contrário, tudo visa à precisão, ao detalhamento. É assim que o prosaico se torna significativo, que ganhos e perdas jamais são despidos de complexidade. É assim que os duplos revelam aquilo que de fato são: uma percepção do outro e outra percepção de si.

Certo historiador torinês falou, anos atrás, que essa é a contribuição decisiva da ficção, seu impacto capaz de ultrapassar a fronteira (obviamente porosa) do literário: ela dá a distância, o prumo, a referência de um olhar que não se contenta com a própria perspectiva e precisa encontrar outras, confrontar(-se), desconfortar.

Os leitores que percorrem os relatos de Então você quer ser escritor? ressurgem assim da leitura: sabem que passearam pelos meandros da construção ficcional e sabem, também, que interpretaram um pouco mais, e melhor, outra ficção: a da vida.


Miguel Sanches Neto. Então você quer ser escritor? Rio de Janeiro: Record, 2011


Paisagens da Crítica publicou resenhas sobre outros oito livros de Miguel Sanches Neto.

Clique nos títulos dos livros para lê-las.

Venho de um país obscuro (15.8.2006);

Um amor anarquista (1.9.2006);

Chove sobre minha infância (10.10.2006);

Impurezas amorosas (23.1.2007);

Herdando uma biblioteca (10.8.2007);

A primeira mulher (1.9.2008);

Primeiros contos (27.12.2008);

Chá das cinco com o vampiro (22.05.2010).


O passado é uma terra estrangeira é forte, desconfortável e intenso desde o título: uma declaração de não pertença a si mesmo, de desenraizamento, perda.

 

Gianrico Carofiglio, juiz e escritor barês, apresenta a trajetória de Giorgio e Francesco, tornados íntimos por uma amizade improvável e, paradoxalmente, óbvia.

 

Giorgio é filho dileto e exemplar de uma família de classe média. Cumpre, com sua dedicação aos estudos, o destino que os pais queriam para si mesmos. Está prestes a terminar com louvor a faculdade de direito e se prepara para concurso de ingresso na magistratura. Então conhece Francesco.

 

Jogador exímio de pôquer, Francesco vive desgarrado. Troca o dia pela noite, circula — literal e metaforicamente — nas sombras, vive de pequenos golpes e grandes divagações.

 

Jovens de dois mundos, a aproximação entre eles tem toques sensuais jamais confessados e um evidente fascínio pela diferença — especialmente Giorgio, que vê o submundo para onde Francesco o leva com a admiração de quem supõe ter vivido sempre entre máscaras e aparências.

 

A progressão da amizade provoca efeitos devastadores no quotidiano de Giorgio; Francesco, ligeiramente apático em relação aos afetos, mantém distância e frieza. A mesma frieza que lhes permite ganhar dinheiro fácil em mesas ricas de pôquer e lançá-los numa vertiginosa corrida em direção a ações mais ousadas e ilícitas.

 

A voz que nos conta a história é a de Giorgio. O relato de sua convivência com Francesco chega do passado, em primeira pessoa, num fluxo descontínuo, mas cognoscível. O signo que prevalece — o título já alertara — é o do estranhamento: como relembrar algo que parece assim longínquo, que soa pertencente não a outra idade, mas a outra pessoa, a outro universo?

 

O leitor é embalado na tensão que o romance de Carofiglio constroi suave, mas incisivamente. Passa da obviedade dos opostos que se atraem à vertigem da narrativa cada vez mais acelerada, dos mistérios que se sucedem, de tudo que não se explica sobre o passado de Francesco.

 

Memória, terra estrangeira. Lugar de vazios, vagueza, indefinição. ‘Só é nosso o que perdemos’, explicou Borges, e a constatação amarga e consoladora justifica com precisão a forma como Giorgio evoca, tempos depois, o itinerário rumo à queda que ele e Francesco seguiram.

 

Porque as perdas — mesmo quando implicam aparentes ganhos posteriores — são definitivas, duram para sempre. E isso quem nos explica é Carofiglio neste que é de longe seu melhor livro.

 

Gianrico Carofiglio. Il passato è una terra straniera. Milão: RCS Libri, 2004.

 

 

 

Paisagens da Crítica publicou resenha sobre outros quatro livros de Gianrico Carofiglio. Sobre Le perfezione provvisorie, em 01.11.2010, e uma resenha tripla (Testimone inconsapevole, Ad occhi chiusi, Ragionevoli dubbi), em 24.11.2010.

Clique nos títulos dos livros se quiser ler as resenhas.


 

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