Primeiros contos, de Miguel Sanches Neto

 

Primeiros contos  confirma a hipótese borgeana de que são os sucessores que definem os precursores, e não o contrário.

 

O livro reúne textos escritos por Miguel Sanches Neto nos anos 1990 e que ainda não haviam sido publicados. O leitor habitual de seus romances – ou mesmo de contos mais recentes – estranha a dicção entrecortada e as frases breves: uma espécie de gramática voltada à concisão, marcante inclusive nos diálogos. Estranha, também, a inclinação dos narradores para acreditar nas mudanças espontâneas, numa ocasional magia que regule o mundo e os vínculos pessoais.

 

Embora pareça tão distante da destreza técnica que os livros posteriores revelam em suas sentenças longas e nas construções refinadas, Primeiros contos é, sim, o precursor das histórias curtas de Hóspede secreto ou Herdando uma biblioteca – do ficcionista ou cronista que fala nesses livros, de sua atenção ininterrupta ao quotidiano, da sismografia das relações humanas.

 

E embora – também – seus personagens e narradores não compartilhem o olhar realista e cru, tantas vezes angustiado, de quem conta Chove sobre minha infância, Um amor anarquista ou A primeira mulher, as vozes de Primeiros contos anunciam a emergência do futuro narrador de Miguel Sanches Neto.

 

Claro que só entendemos isso se tivermos, primeiramente, lido os livros posteriores – daí a confirmação da assertiva de Borges, que observou que Kafka não foi definido por seus precursores: foi ele quem os determinou seus precursores.

 

Em alguns contos, os três romances de Sanches Neto aparecem de forma clara em Primeiros contos. É óbvia, por exemplo, a relação entre o garoto que escreve sobre a morte fictícia do pai (“A primeira morte de meu pai”) e o personagem semi-autobiográfico que relata sua infância em Peabiru, de Chove sobre minha infância.

 

Outras vezes, a conexão é menos explícita – mas não menos intensa. Quando lemos  “Atrás dos olhos da menina”, vem à lembrança, por algum caminho, a esperança quase insana de quem sonhou, e fez dormir a razão, na Colônia Cecília (Um amor anarquista) ou a origem do cinismo – no fundo, desesperado – do professor que busca a criança desaparecida de A primeira mulher.

 

Da mesma forma, os ecos de Cortázar que Primeiros contos traz são muito sutis nos livros posteriores – provavelmente substituídos pelo realismo borgeano e por sua preocupação com as ambigüidades do tempo.

 

Mas os temas de Miguel Sanches Neto e seu sentimento do mundo estão presentes, marcantes e de alguma forma decisivos, nos Primeiros Contos . Eles são iluminados pela obra posterior e nos ajudam a entendê-la. Atestam sua organicidade – não na indesejável homogeneidade, mas (bem melhor) pelos caminhos tortuosos da imaginação literária e do amadurecimento da escrita.

 

Miguel Sanches Neto. Primeiros Contos. Curitiba: Arte e Letra Editora, 2008

 

Paisagens da crítica já publicou comentários sobre outros seis livros de Miguel Sanches Neto. Um deles está neste endereço: A primeira mulher (1º de setembro de 2008). Os demais estão no endereço antigo do blog (http://paisagensdacritica.zip.net): Venho de um país obscuro (15 de agosto de 2006), Um amor anarquista (1º de setembro de 2006), Chove sobre minha infância (10 de outubro de 2006), Impurezas amorosas (23 de janeiro de 2007) e Herdando uma biblioteca (10 de outubro de 2007).

 

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8 pensamentos sobre “Primeiros contos, de Miguel Sanches Neto

  1. Oi Júlio,

    Tudo bem contigo? Do miguel Sanches eu só li o “Herdando uma biblioteca”, aliás devido à sua crítica. Gostei muito do livro, mas infelizmente acabei deixando as outras obras sempre para depois, mas acompanhar o autor em todas aquelas leituras é uma experiência difícil de esquecer. Estou terminado a minha releitura daqueles dois livro de que falei ( Gato preto em campo de neve e a volta do Gato preto), sobre as viagens de Verissimo aos EUA na década de 1940 e gostaria de saber se aquele convite de lhe mandar um texto sobre eles ainda está de pé. Só espero não estar sendo inconveniente. E não me esquecendo, espero que você e a sua família tenham passado um ótimo Natal, e que passem um ótimo Ano-Novo.

    Um abraço,

    Dennis.

  2. Dennis,
    obrigado pelo comentário.
    Estou à espera, sim, de seu texto. Pode enviá-lo.
    Um excelente final de ano para você e sua família e um 2009 muito bacana.
    Abraços,
    Júlio

  3. uau Julio, estava navegando buscando textos (contos) materiais para minhas avaliações quando me deparei com sua resenha. Confesso que adore. Sua escrita é bastante envolvente. Parabéns 😉

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