Sobre as biografias

 

Por mais repetitivo que pareça (creio que todos os interessados e alguns dos não interessados estão acompanhando o debate), reproduzo abaixo quatro links de textos que tratam dessa estapafúrdia polêmica acerca das biografias:

 

Mário Magalhães (contando uma triste, alegre e edificante história pessoal e profissional)

 

Chico Buarque (atacando, entre outros, Paulo César de Araújo, biógrafo de Roberto Carlos)

 

Luiz Schwarcz (respondendo a Chico Buarque)

 

Paulo César de Araújo (desmentindo, com a devida comprovação, Chico Buarque)

 

Paulo Roberto Pires (sobre a abrangência da discussão) – link sugerido por Barbara, que leu o post e, nos comentários, sugeriu esse ótimo texto

 

(Basta clicar nos nomes dos autores.)

 

 

Pena não poder reproduzir aqui os tuítes de Lira Neto (@liraneto) que, de 140 em 140 caracteres, deu respostas categóricas a todas as frágeis questões trazidas à tona pelos desventurados defensores da censura prévia.

 

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Gainsbourg, de Gilles Verlant

 

Gainsbourg daria um ótimo romance se o protagonista não fosse tão inverossímil e algumas de suas aventuras, improváveis. Acontece que Gainsbourg não é um romance; é biografia e os fatos que narra ocorreram.

 

Não uma biografia qualquer, diga-se de passagem; a mais completa biografia já feita sobre Lucien Ginsburg, dit Serge Gainsbourg, cantor, compositor, ator, pintor, arquiteto, cineasta, colecionador, personagem de si mesmo.

 

Gilles Verlant, o biógrafo, havia escrito outros livros sobre Gainsbourg, biografias provisórias, textos mais breves. Em 2000 compôs o panorama definitivo, resultado de centenas de entrevistas e de longa pesquisa, das várias vidas de Serge. Da infância judia sob o domínio nazista, marcada pela estrela amarela no peito, ao horror da própria imagem, da feiúra no espelho. Do aprendizado da pintura, do breve estudo de arquitetura, ao pianista de tantos bares, clubes e boates. Da agonia no palco à demora do sucesso. Do reconhecimento pela crítica à celebração pelo público. De suas primeiras mulheres a Brigitte Bardot. Do orgulho contido ao orgulho exposto. Da angústia à aparição decisiva de Jane Birkin. Do medo à arrogância. Da exposição do eu profundo à proliferação dos outros eus. Da vida à morte.

 

Duplos, triplos, quádruplos. Múltiplo: é esse o Serge que Verlant desenha. O sujeito que criou algumas das mais impressionantes canções do século XX e que considerava a música popular uma “arte menor”. O compositor de incontáveis trilhas sonoras para o cinema e diretor de alguns filmes que receberam o descaso do público e arrancaram elogios de Truffaut e Godard. O homem emparedado, enclausurado num mar de lembranças, de objetos antigos, de álcool e cigarro. O homem no mundo.

 

O leitor percorre as 1050 páginas do livro com furor, economiza a leitura para que elas não se esgotem, acompanha o livro com os discos, um a um, com as canções, com as imagens —cds, dvds e YouTube estão aí para isso. Tenta, assim, adiar a chegada do 2 de abril de 1991 —dia que, diz a lenda, nenhum francês esquece, nem esquece onde estava quando soube da morte de Serge.

 

E esse leitor que se divisa com o fã encontra, página a página, a poesia crua, que talvez esteja entre os principais registros literários franceses do XX, e um personagem envolvente, capaz de variar o registro musical e gravar reggae e funk muito antes de eles virarem moda para além dos mundos em que nasceram. Ou de provocar insistentes turbulências e protestos pela misoginia exposta à luz do dia ou pela reinvenção —tradução?— do hino nacional francês e de uma relação tão peculiar quanto intensa entre o público e o privado.

 

Em Gainsbourg, as anedotas não têm fim, os eventos surpreendentes se sucedem, a maravilha —mundo de ponta cabeça— e a aflição do leitor diante dos bons e maus delírios de Serge prevalecem. Mas nada se compara à percepção da profundidade e da densidade de uma obra sem igual, do manejo do que ele supunha ser arte menor para construir uma interpretação do mundo em vertigem, dos rodopios, giros em falso, às vezes em êxtase, da modernidade.

 

Leia.

 

Não apenas para saber da vida de Serge Gainsbourg. Também para compreender a vida —com e sem mistificação.

 

 

Gilles Verlant. Gainsbourg. Paris: Albin Michel, 2000.

 

Carta a D. História de um amor, de André Gorz

Carta a D. conta – já diz o subtítulo – a “história de um amor”. Amor de André Gorz por sua mulher Dorine, com quem foi casado durante 58 anos, até que ambos se matassem em setembro do ano passado.

Judeu austríaco, Gorz fugiu do nazismo para a Suíça e, depois, se fixou na França, onde se tornou um dos jornalistas e pensadores políticos mais influentes dos anos 1960. Seguidor de Sartre, combinou existencialismo com marxismo, fundou e militou no maoísmo tão em voga da época. Celebrado pelos estudantes que se revoltaram no 68 parisiense, voltou-se à questão ecológica nos anos 1970 e repensou as bases da ação política, refutando as teorias salvacionistas (com suas pitadas – grandes pitadas – de ingenuidade política) da década anterior.

Mas a história que ele conta em Carta a D. acompanha apenas de viés sua trajetória política e intelectual. Gorz prefere falar da convivência com Dorine: do primeiro conhecimento ao namoro e ao casamento, dos tempos de dinheiro curto à tranqüilidade financeira e emocional; da segurança e do afeto intermináveis à demora de reconhecer a importância da mulher em sua vida. E fala também da angústia de descobrirem que um erro médico provocou em Dorine uma doença progressiva que lhe limitava os movimentos e trazia dores enormes. Finalmente, explica como saiu do mundo intelectual para cuidar de Dorine, exilados numa casa de campo, cercados de árvores e de uma serenidade que permitiu prolongar sua vida por mais de vinte anos. Em linhas gerais, reconhece que seu trabalho teórico se fez primeiro a despeito de Dorine (que tolerava suas noites infinitas de estudo); depois, com Dorine para, ao fim, ser para Dorine.

O leitor, que sabe antecipadamente o desfecho da história, cruza as primeiras páginas do livro com aflição. Em seguida, a troca pela surpresa de ver a virada de Gorz, abandonando a política e privilegiando o amor. Só no final compreende que a mudança, afinal, não foi tão profunda, que o amor passou a ser o princípio de sua conduta política, confundindo-se com ela: foi ele que o fez investir contra a tecnomedicina que sacrificava Dorine, foi ele que o aproximou da reflexão sobre a natureza e os riscos que ela corria, foi ele que o fez enxergar a ficção da vida e a prolixidade do real.

Na verdade, a variação significativa na trajetória de Gorz aconteceu quando ele notou – graças à Dorine – que o espaço privado não se distinguia tão agudamente do público, como acreditavam os jovens dos anos 1960. Quando percebeu que as doutrinas teóricas que perseguiu com afinco por décadas eram (e sempre são) “próteses psíquicas”: fornecem anteparos à vida e tentam nos distanciar dela. Quando descobriu a intimidade como potencialmente revolucionária – às vezes mais do que uma barricada na rua – porque nela se vive o presente desmistificado, nela não se troca a vida vivida pela imaginação idealizada de futuro. Mais: que a intimidade é lugar de riscos mais concretos do que o espaço coletivo, onde as angústias se dispersam e a aflição pode ser controlada por algum esquema explicativo e redentor.

Tanta revelação permite que a aflição do leitor se transforme lentamente no reconhecimento que não há nada de trágico no fim da história de André e Dorine; ao contrário, foi o desdobramento previsível da história de um amor.

 

André Gorz. Carta a D. História de um amor. São Paulo: Annablume/Cosac Naify, 2007 (original: 2006; tradução Celso Azzan Jr.)