A máquina de madeira, de Miguel Sanches Neto

 

A máquina de madeira é um romance histórico. A máquina de madeira é um romance sobre a orfandade. A máquina de madeira nos mostra que todo romance histórico, no fundo, talvez trate da orfandade.

 

Já se foi o tempo em que críticos torciam o nariz para romances históricos. Certamente imaginavam, equivocados, que ficcionistas do final do século XX, princípio do XXI, recorressem ao passado possuídos pelo espectro de Balzac, que narrassem para se tornarem historiadores de outros tempos.

 

Não é assim, claro, e já faz décadas. O que está em jogo no romance histórico contemporâneo é a capacidade de conceber o passado como um momento de hesitação, como o cruzamento súbito, incerto e errático de possibilidades nem sempre confirmadas pelos caprichos de dama elegante da história. Nunca a certeza, jamais a verdade.

 

Para refazer a história do Padre Francisco João de Azevedo Filho, inventor não reconhecido da máquina de escrever, Miguel Sanches Neto busca exatamente a instabilidade da experiência vivida. Constrói, assim, um relato de muitas vozes e cada uma delas enuncia uma posição, uma perspectiva. Entre jornais, documentos, vozes oficiais e profanas, a narração flui na direção da pluralidade.

 

Azevedo cresceu como órfão, trabalhou e formou outros órfãos. Inventou uma impressionante máquina, revolucionária, que acabou por ser registrada em outras partes e por outros pais. Quem tem mais de um pai, talvez não tenha nenhum; portanto, órfã também era sua máquina, pianola que imprimia palavras. Azevedo, que foi muitos homens —padre, inventor, maçom, pai e marido clandestino, português e brasileiro, recifense e paraibano—, tampouco conseguiu ser um homem só. Sobretudo, tornou-se órfão de si mesmo, de sua paixão racional, de sua racionalidade crédula.

 

Paradigma do brasileiro, Azevedo indagou suas origens como tantos de seus conterrâneos, contemporâneos ou não. Buscou-a sem pressa, mas também sem cessar; ele sabia que “é preciso ir até o fim”, embora a derrota seja inevitável, ou quase, e toda procura se dirija ao impasse.

 

Se o romance histórico é necessariamente polifônico, ele encerra incontáveis verdades —nem sempre compatíveis, mas necessariamente conviventes. Se a orfandade é condição inarredável, ela supõe a impossibilidade de acesso à verdade una e plena.

 

Miguel Sanches Neto —que já mostrou, em livros anteriores, valorizar a incerteza— resume, numa fala memorável de Azevedo, a definitiva fusão entre romance histórico e registro da orfandade: ao ouvir, na sala forrada de livros onde é recebido pelo bispo, uma terrível determinação, A. se pergunta e constata: “para que uma biblioteca se só havia uma verdade?”

 

Ao contrário do que supunha o bispo —e tantos outros, ontem e hoje—, verdades, há muitas. Nem todas sustentáveis, nem todas pertinentes à experiência vivida. Nem todas cabíveis no discurso que sacraliza o passado ou o presente, que celebra de modo unívoco a pertença ou a identificação de uma pessoa ou de uma sociedade. Felizmente, a verdade da ficção prossegue viva, firme e categórica: ela pode reinventar o passado, percorrê-lo por trilhas sombrias e iludir —não é jogo, afinal?— o leitor de que as imposturas e os artifícios de quem tenta unificar as vozes sempre serão derrotados.

 

 

Miguel Sanches Neto. A máquina de madeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

 

 

Paisagens da Crítica já resenhou outros nove livros de Miguel Sanches Neto.

 

Clique nos títulos para ler as resenhas:

 

Venho de um país obscuro (15.8.2006);

Um amor anarquista (1.9.2006);

Chove sobre minha infância (10.10.2006);

Impurezas amorosas (23.1.2007);

Herdando uma biblioteca (10.8.2007);

A primeira mulher (1.9.2008);

Primeiros contos (27.12.2008);

Chá das cinco com o vampiro (22.5.2010);

Então você quer ser escritor? (17.4.2011)

 

 

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A viagem a Nápoles, de Sérgio Buarque de Holanda

 

A viagem a Nápoles  é um conto: a única ficção escrita pelo maior historiador brasileiro.

 

Sérgio Buarque de Holanda a publicou originalmente em 1931, na Revista Nova, e ela agora reaparece numa edição bem cuidada, com formato diferenciado e ótimos  desenhos do arquiteto Vallandro Keating.

 

Embora a quarta capa da nova edição apresente o conto como “surrealista”, é difícil enxergar qualquer influência do movimento francês. Não só porque em 31 o eco surrealista era ainda bastante sutil nas Américas. Mas sobretudo porque a história não se enquadra – felizmente – nos moldes rígidos do manifesto de 24 ou de alguns de seus mais notórios seguidores.

 

A viagem a Nápoles pode até ser um sonho e flertar um pouco com referenciais psicanalíticos – como gostavam os surrealistas. Só que o sonho de Belarmino, o protagonista, é carregado de aspectos lúdicos, de disposição para a brincadeira, e jamais assume o tom arrogante que tantos vanguardistas gostaram de ostentar em sua obsessão novolátrica. Menos do que onirismo, o conto é um causo – causo erudito, gozador e divertido.

 

O narrador invade a consciência do seu personagem principal e segue seu itinerário difuso por uma São Paulo que associa o arcaísmo oitocentista com as marcas novas do moderno. A São Paulo que ria quando a besta atrapalhava o andar do bonde ou quando alguma caipirinha desfilava vestida de Poiret.

 

Belarmino anda pela cidade e pelo tempo: tem sete ou oito anos, tem dois, tem quinze. Ele é também um sujeito bipartido: metade de sua consciência se apega aos medos e às fantasias infantis; a outra metade quer crescer. As duas freqüentam a mesma escola – na Praça da República – e ambas despencam de improviso em Nápoles, depois de atravessar um portão.

 

No ritmo aleatório e arbitrário dos sonhos, Nápoles é também o lugar do quase-alumbramento, do olhar surpreso pelo corpo feminino e mais velho, da hesitação, da incompletude. Do próprio corpo revelado como território desconhecido e inexplorado.

 

Em Nápoles ou em São Paulo, Belarmino caminha em torno de si mesmo. E o narrador, sempre brincalhão, se incumbe de não deixá-lo se levar muito a sério, de atenuar o peso das aflições ou da condição incerta de seu herói sem caráter. Até para mostrar que qualquer atribuição de caráter – para si ou para o outro, para o indivíduo ou para o coletivo – é, tal qual um sonho, artificial.

 

Não, não vou concluir que, cinco anos antes de publicar Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda testou ficcionalmente algumas idéias gerais do futuro clássico da historiografia. Nem vou dizer que ele aplicou ao conto a “atitude crítica perante a vida e o mundo”, gesto supremo do historiador. Essas idéias podem até estar lá; as preocupações intelectuais, também. Mas o que caracteriza A viagem a Nápoles é exatamente a despretensão, é o riso maroto que o narrador do conto deixa entrevisto em cada frase.

 

Epa, mas esse riso já não é a tal atitude crítica? É, acho que é. Então, o conto não se presta apenas ao divertimento do leitor? Não.

 

Mas veja bem: não é porque ele é mais complexo que você deve lê-lo com o polegar no queixo, ar sisudo, e tratá-lo como se fosse uma soturna peça acadêmica. Se fizer isso, poderá até escrever uma tese sobre a ficção de Sérgio Buarque de Holanda. Mas não terá entendido nada do conto.

 

Sérgio Buarque de Holanda. A viagem a Nápoles. São Paulo: Terceiro Nome, 2008