Verão, de J. M. Coetzee

Verão é um livro urgente, essencial. Precisa ficar na prateleira da frente, acessível e quotidiano.

Boa parte da crítica o leu como uma autobiografia crítica, um exercício público e irônico de autodestruição. Mas o livro de J. M. Coetzee é, obviamente, um romance.

Vou ser mais específico: é algo como um romance-esqueleto. Mostra os caminhos de construção, o andaime, o pano de fundo de um romance. E, melhor, tudo nele é falso, embora o personagem seja, no nome e em parte da biografia, o próprio autor.

Só que isso é secundário. Prevalece sua exegese da maturidade ou, melhor, daquele momento meio indefinível em que nos tornamos maduros. Perceberemos depois e então saberemos que nossa condição, bela ou pérfida, é irreversível.

Por isso, o biografado no livro aparece apenas como esboço, e o biógrafo fictício elege esse momento decisivo de sua vida. No caso, decisivo, oco e ligeiramente ridículo.

O Coetzee-personagem surge por meio de depoimentos de quem conviveu com ele: amantes, um breve amigo, paixões erráticas, uma ambígua prima. Ambígua, na verdade, é a condição de todos, meio dentro meio fora da vida narrada. Ambígua, também, é a relação mais quotidiana do biografado com seu pai, que, por não ter voz (literal e simbolicamente), fala através narrador, em outra das tantas mediações que o livro expõe.

Ambígua, principalmente, é a personalidade do biografado; é prolixa, é complexa. Um “homem de madeira”, resume um dos depoimentos; títere passivo no vergonhoso teatro do real, ao qual jamais se acostuma.

Seus volteios em torno de gentes, lugares e acontecimentos compõem uma espécie de balé narrativo, e o leitor aprende, passo a passo, como se desenha um personagem. Em síntese, uma aula de ficção. O autor se nomeia personagem, se destroi simultaneamente como fato e ficção. A vida real, travestida e transformada pela imaginação, resulta algo completamente diverso.

Daí a essencialidade de Verão. Coetzee novamente rejeita convenções e repetições; novamente lembra que o principal assunto, e melhor, da literatura é a própria literatura.

J. M. Coetzee. Verão. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (original: 2009; tradução: José Rubens Siqueira)

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