Um duplo orgulho

 

Caros Leitores

 

Permitam uma breve pausa para dois orgulhos.

 

A resenha anterior foi a número 300 e saiu um mês antes do sétimo aniversário do blog. Caramba…

 

Nos últimos tempos, como o leitor rotineiro deve ter notado, resenhei muitos livros policiais. Não por acaso: essas narrativas são, há vários anos, meu principal tema de estudo e pesquisa, que já rendeu cursos de graduação e pós na universidade em que trabalho, algumas dezenas de artigos publicados dentro e fora do Brasil e uma tese, de livre docência, defendida no final de 2010.

 

Agora, a convite do Centro Universitário Maria Antonia (no histórico antigo prédio da Faculdade de Filosofia da Usp), as “histórias de raciocínio” —como as definia Poe— serão a base de um pequeno curso de extensão.

 

Quem se interessar em aparecer por lá e conversar sobre o assunto, siga as pistas da página oficial do Centro.

 

E, por favor, me desculpem o duplo orgulho. É que gosto muito desse blog e tenho especial prazer em dar aulas para públicos não-(apenas)acadêmicos.

 

Abraços,

Júlio

 

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Quando não estou por perto, de Annita Costa Malufe

 

Quando não estou por perto expõe algo óbvio, mas essencial: poesia nunca é certeza; poesia é hesitação.

 

Os versos de Annita Costa Malufe são abertos e em aberto; os gestos ficam suspensos; a palavra é pouco coesa e sempre limitada, mesmo quando é princípio, centro e sentido: afinal, como expressar o que se desenha na oscilação, em locais improváveis e impróprios, no ar que nos rodeia; como representar o que segue itinerários muito além do controle?

 

Annita é uma poeta moderna e dialoga com poetas, críticos e prosadores modernos. Por trás de seus poemas, espreitam autores sobre os quais ela já escreveu ou, melhor, que não se cansou de ler. Lógico: a boa crítica se infiltra na poesia, tal como a leitura densa jamais se separa da escrita. Ana Cristina Cesar, por exemplo, está ali, na impermanência das temporalidades e das espacialidades, na sólida inconsistência de um olhar atravessado e inquieto sobre o mundo. Mas também se lê, sob Annita, Marcos Siscar, algo de Beckett, de Éluard, muito de Deleuze.

 

Lê-se, sobretudo, o lirismo possível num tempo em que a unicidade se tornou impossível; há mais de um sujeito, mais de um ponto de enunciação, e eles dificilmente se associam, as sílabas não se juntam: “há um buraco no meio / da frase uma fenda que a corrói / por dentro um silêncio um giro / em falso uma fenda que se expande / um vazio sem passado girar e / girar o que pode começar / neste exato ou em qualquer / instante seguinte”.

 

Qual certeza? Nenhuma: as garantias e quaisquer sonhos (não necessariamente desejáveis) de ordenação se esvaem perante a imprecisão do movimento, da voz que perscruta o tempo, passado interrompido, mas cujos vínculos vivos ainda afligem. A memória se torna guia —guia ora inoportuna, em geral incompetente, normalmente instável— da vontade de persistir num ontem enevoado e plural: plural como o presente e, como o presente, impalpável, assustador e angustiante.

 

Annita é uma poeta madura na técnica, no domínio conceitual, na intensidade; nos seus versos aparecem certos temas irreversíveis da poesia —ela mesma, a precária percepção do tempo, a instabilidade dos dias—, traduzidos e vividos na vertigem do instante. “Por que cantar a rosa?”, perguntava Huidobro em 1916 para, em seguida, aconselhar: “fazei-a florescer no poema”. Annita, quase cem anos depois, sabe que, ao poeta, não se pede apenas que crie: é preciso também que se mova —não na aceleração do que se passa lá fora, mas na lentidão do que se passa lá dentro.

 

Por isso, ela escreve com exatidão sobre o que não é exato, jamais é. Escreve com precisão sobre o que é preciso: hesitar.

 

 

Annita Costa Malufe. Quando não estou por perto. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

 

 

Paisagens da crítica já publicou resenhas de três outros livros de Annita Costa Malufe.

 

Clique nos títulos para lê-las:

 

Fundos para dias de chuva (17.6.2006);

Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (1.7.2007);

Nesta cidade e abaixo de teus olhos (1.7.2008)

 

Gainsbourg, de Gilles Verlant

 

Gainsbourg daria um ótimo romance se o protagonista não fosse tão inverossímil e algumas de suas aventuras, improváveis. Acontece que Gainsbourg não é um romance; é biografia e os fatos que narra ocorreram.

 

Não uma biografia qualquer, diga-se de passagem; a mais completa biografia já feita sobre Lucien Ginsburg, dit Serge Gainsbourg, cantor, compositor, ator, pintor, arquiteto, cineasta, colecionador, personagem de si mesmo.

 

Gilles Verlant, o biógrafo, havia escrito outros livros sobre Gainsbourg, biografias provisórias, textos mais breves. Em 2000 compôs o panorama definitivo, resultado de centenas de entrevistas e de longa pesquisa, das várias vidas de Serge. Da infância judia sob o domínio nazista, marcada pela estrela amarela no peito, ao horror da própria imagem, da feiúra no espelho. Do aprendizado da pintura, do breve estudo de arquitetura, ao pianista de tantos bares, clubes e boates. Da agonia no palco à demora do sucesso. Do reconhecimento pela crítica à celebração pelo público. De suas primeiras mulheres a Brigitte Bardot. Do orgulho contido ao orgulho exposto. Da angústia à aparição decisiva de Jane Birkin. Do medo à arrogância. Da exposição do eu profundo à proliferação dos outros eus. Da vida à morte.

 

Duplos, triplos, quádruplos. Múltiplo: é esse o Serge que Verlant desenha. O sujeito que criou algumas das mais impressionantes canções do século XX e que considerava a música popular uma “arte menor”. O compositor de incontáveis trilhas sonoras para o cinema e diretor de alguns filmes que receberam o descaso do público e arrancaram elogios de Truffaut e Godard. O homem emparedado, enclausurado num mar de lembranças, de objetos antigos, de álcool e cigarro. O homem no mundo.

 

O leitor percorre as 1050 páginas do livro com furor, economiza a leitura para que elas não se esgotem, acompanha o livro com os discos, um a um, com as canções, com as imagens —cds, dvds e YouTube estão aí para isso. Tenta, assim, adiar a chegada do 2 de abril de 1991 —dia que, diz a lenda, nenhum francês esquece, nem esquece onde estava quando soube da morte de Serge.

 

E esse leitor que se divisa com o fã encontra, página a página, a poesia crua, que talvez esteja entre os principais registros literários franceses do XX, e um personagem envolvente, capaz de variar o registro musical e gravar reggae e funk muito antes de eles virarem moda para além dos mundos em que nasceram. Ou de provocar insistentes turbulências e protestos pela misoginia exposta à luz do dia ou pela reinvenção —tradução?— do hino nacional francês e de uma relação tão peculiar quanto intensa entre o público e o privado.

 

Em Gainsbourg, as anedotas não têm fim, os eventos surpreendentes se sucedem, a maravilha —mundo de ponta cabeça— e a aflição do leitor diante dos bons e maus delírios de Serge prevalecem. Mas nada se compara à percepção da profundidade e da densidade de uma obra sem igual, do manejo do que ele supunha ser arte menor para construir uma interpretação do mundo em vertigem, dos rodopios, giros em falso, às vezes em êxtase, da modernidade.

 

Leia.

 

Não apenas para saber da vida de Serge Gainsbourg. Também para compreender a vida —com e sem mistificação.

 

 

Gilles Verlant. Gainsbourg. Paris: Albin Michel, 2000.