Circuito fechado, de Ricardo Ramos

 

Circuito fechado é livro de um grande autor, excelente autor, que andou por anos esquecido ou quase esquecido: Ricardo Ramos.

 

Publicada originalmente em 1992, a obra funciona como um aleph do tempo então vivido: reconstrói o quotidiano de aprisionamento e aflição, lida penosamente com as impossibilidades, visita breves cenas de pessoas breves, em busca de detalhes prosaicos.

 

Os personagens parecem cercados, confinados numa vida de opções restritas e de limitadas possibilidades de expressão: fechados num circuito político sem liberdades e que gira em torno de eixos de contenção: prisão tão mais eficaz porque ampla e destituída de grades visíveis.

 

Não é apenas o Brasil do regime militar, no entanto, que surge na cena principal dos contos de Ricardo Ramos; se assim fosse, sua ficção talvez resultasse intranscendente, imediata e datada, comprometida com um presente absoluto.

 

Da mesma forma, seus diversos personagens caricatos não são meras banalizações ou simplificações baldias de personalidades irreversivelmente mais complexas e profundas. Ao contrário, eles expõem os limites do agir e do pensar num tempo de superficialidades, de imaginação e confrontos binários; são recursos de estilo, ironias que ultrapassam o nível da constatação e atingem o efeito crítico desejado.

 

Crítica, afinal, é interpretação e, para compreender aqueles incômodos dias, é preciso notar a extensão do sistema estabelecido, a heterogeneidade que se acomoda sob a aparência construída pelo discurso oficial, que se apresenta como unânime.

 

É preciso revelar a brecha, aquela leve fissura através da qual é possível se expressar. Na expressão —ou nos recursos em que ela se apoia, nas bases que inventa, na potência que adquire—, se reconhece o grande escritor; no caso, o grande contista, capaz de explorar as possibilidades da forma breve, de investir na tensão que lhe é inerente, na duplicidade das histórias que conta, nas tramas vigorosas e controladas, nos desfechos candentes.

 

Exatamente por isso, Ricardo Ramos ultrapassa a metáfora do título do livro e, em cinco contos homônimos —“Circuito fechado”—, diferenciados apenas pela numeração, entre parênteses, que se segue ao nome, consegue abrir, gradualmente, a caixa mágica e tenebrosa do sistema e da ficção.

 

De um lado —e conforme avança o desmembramento do circuito político—, revela-se que a ordem não é tão coesa, nem inarredável; que o aparente áporo pode se tornar, de súbito, uma flor. Sim (assume a narrativa): o desabrochar se interrompe, o que se abre também se fecha, não há garantia de escape fácil ou rápido. Mesmo assim, o circuito prossegue exposto.

 

De outro, e melhor, o circuito literário, estético, expõe seus mecanismos de construção, sua dinâmica interior cheia de alternativas, sua força encoberta, mas ainda intensa.

 

Assim é a forma breve quando bem desenvolvida; assim são os contos, inquietantes e fundamentais, de Ricardo Ramos.

 

 

Ricardo Ramos. Circuito fechado. São Paulo: Globo, 2012.

 

 

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