Diário da Guerra do Porco, de Adolfo Bioy Casares

A pedido de uma amiga, republico aqui um texto escrito em 2010, a pedido da Cosac Naify, e então publicado no blog da editora.

 

Diário da Guerra do Porco, de Adolfo Bioy Casares

Quando publicou Diário da guerra do porco, em 1969, o argentino Adolfo Bioy Casares já era autor conhecido e respeitado há trinta anos, desde A invenção de Morel (1940) e os escritos em parceria com o amigo Jorge Luis Borges. Fazia, porém, quinze anos que não lançava nenhum romance – O sonho dos heróis, imediatamente anterior, saíra em 1954.

A nova tradução de Diário da guerra do porco, realizada por José Geraldo Couto, ajuda a entender o percurso da ficção de Bioy Casares. Amplia, também, o catálogo de obras do autor editadas pela Cosac Naify, que já contava com A invenção de Morel (tradução de Samuel Titan Jr, 2006), a antologia de contos Histórias fantásticas (2006) e O sonho dos heróis (2008), os dois últimos também com tradução de José Geraldo Couto.

No Diário da guerra do porco, o fantástico presente nos livros anteriores se torna aflitivo: grupos de jovens perseguem os velhos, maltratam, espancam, matam. A violência não é apenas física, mas também simbólica: nesse mundo, os velhos – chamados de “porcos” – não são tolerados; é uma sociedade que celebra apenas o novo, o imediato.

A história acompanha o período de 23 de junho a “poucos dias depois” do 1º de julho de algum ano do início da década de 1940. Segue os passos de Isidoro Vidal, que nem se acha tão velho, e seu grupo de amigos em rodadas de carteado e conversas em cafés. Numa espécie de solidão compartilhada, passam a viver a vida miserável de fugitivos à luz do dia. Ainda assim, há espaço para a ironia diante da percepção da velhice: incontinências urinárias, surdez, dentaduras, dificuldade para dormir, perda da potência sexual. A pergunta, por exemplo, sobre a temperatura nas ruas – estamos em pleno inverno portenho –, um dos amigos responde a Vidal: “- Agasalhe-se, que as coroas fúnebres estão caras”.

Os velhos, viciados em lembranças, tentam suportar os dias difíceis e aguardam o futuro com suspeita e expectativa ambígua. As metáforas do livro não permitem muitas esperanças: sótãos, túneis, becos e cortiços alertam para os desvãos que nos aguardam na velhice. Buenos Aires, tema e personagem recorrente na obra do autor, mostra-se sombria no romance: cada quarteirão guarda um perigo, seus táxis podem levar os velhos à morte.

Entre pais e filhos, homens velhos e moças jovens, Bioy Casares retrata a guerra entre gerações sem verniz psicológico e registra um tempo de transformações e incertezas pela lente da angústia, com a refinadíssima ironia e o humor generoso e cerebral dos livros anteriores.

O ar de fábula, que percorria A invenção de Morel, é trocado pelo registro de uma época em que “a amizade era indiferente; o amor, baixo e desleal – só o ódio se dava com plenitude”. Vidal, no entanto, busca brechas: “Uma velha amizade é como uma casa grande e confortável, em que a gente vive à vontade”, diz a certa altura.

O impasse social e político revelado pelo Diário da guerra do porco reafirma o simbolismo amargo de O sonho dos heróis. A opção de Bioy em associar o fantástico ao trivial do cotidiano intensifica o dilema da vida e da morte e, como resume Rubem Fonseca na quarta capa desta edição: “[a obra] fala do compromisso que o ser humano tem com a vida e o dever de enfrentar a morte e a velhice e o desprezo da sociedade e o desdém e a violência dos jovens”.

A publicação de mais uma obra de Bioy Casares reitera seu olhar agudo e incisivo sobre o tempo vivido, traduzido pela precisão milimétrica na escolha das palavras e pelo engenho da trama. Sobretudo: confirma sua posição central na literatura latino-americana do século xx.

 

2 pensamentos sobre “Diário da Guerra do Porco, de Adolfo Bioy Casares

  1. Prezado Julio

    Amanhã vou para São Paulo graças a uma indicação sua para uma mediação de leitura do Respiração artificial. Depois de tantos anos, nem imaginava que você pudesse se lembrar de mim e fiquei muito contente. Obrigada!
    Foi procurando seu e-mail que achei esse blog sensacional, “Paisagens da crítica”. Vou espiá-lo de tempos em tempos para saber de literatura por outras vias que não as acadêmicas! Essas resenhas de livros que você publica são uma riqueza! Às vezes até parece que estou escutando você falar logo depois de ter fechado o livro. São super espontâneas e muito muito frescas! Vou te seguindo agora!

    Um abraço e obrigada uma vez mais!
    Livia

    • Livia,
      tudo bem?
      Que bom que deu certo com o pessoal do Sesc. Claro que lembro, cito com frequência seu livro e ocasionalmente sei de você através da Miriam.
      Muito obrigado pelo comentário. Esse blog foi, por anos, um desafogo em relação à formalidade algo exaustiva da academia. Nos últimos tempos, não tenho conseguido mais atualizá-lo, mas quem sabe um dia volte a escrever nele?
      Abraços,
      Júlio

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