A elegância do Professor Belloto

 

Elegância não é substantivo abstrato, nem comum.

Ao contrário: nesse mundo cheio de vanglórias, elegância é rara e se manifesta em poucas circunstâncias e pessoas.

Para mim, quem sempre a representou foi o professor Manoel Lelo Belloto.

Quando comecei a estudar história da América Latina contemporânea, quase trinta anos atrás, a bibliografia era mínima e os especialistas, quase inexistentes.

Três ou quatro precursores se esforçavam, meio heroicamente, para criar, no Brasil, espaço e condições que tornassem possível a pesquisa e a formação de pesquisadores na área.

Um deles era o Professor Belloto, que dava aula no departamento de História da Unesp, campus de Assis, e estava presente em quase toda bibliografia que eu coletava.

Só vim a conhecê-lo pessoalmente muito tempo depois, em 1999. Era meu concurso de ingresso na Usp e ele estava na banca. Alto, de terno, modos suaves, palavras delicadas, raciocínio arguto, erudição, competência e gentileza aparentemente infinitas.

Mais doze anos se passaram antes que o reencontrasse. Final de 2010, ano passado, montava a banca de minha livre docência. Queria que ele estivesse presente, mas temia importuná-lo, convidando para um evento tão longo e fisicamente desgastante como um concurso desse.

Não resisti e lhe escrevi. Na resposta, imediata e marcada pela habitual simpatia, ele aceitava e abria sua agenda para “qualquer data”.

Entre os dias 13 e 15 de dezembro, ouvi suas arguições e comentários, vivi a honra de tê-lo como um dos primeiros leitores do trabalho mais importante de minha carreira.

Ele não pôde ir ao jantar que encerrou o concurso e, assim, nossa última conversa foi por email, nos dias que se seguiram à defesa.

Ontem, um comunicado da associação de historiadores informou o falecimento do professor Belloto. Comunicado igual a muitos outros, não fosse ele quem fosse.

Sentado na minha poltrona de leitura, repassei, na memória, imagens dele, folheei um ou outro livro, reli as anotações dos comentários que fez durante o concurso de 2010.

Lembrei que a elegância lhe parecia intrínseca. Elegância pessoal e intelectual, concreta e própria.

Hoje acordei mais frágil, mais vazio, miúdo.

Acho que todos que o conhecemos acordamos assim. Acordamos sobretudo bem menos elegantes.