A mão do amo, de Tomás Eloy Martínez

A mão do amo é um belo e inquietante livro de Tomás Eloy Martinez. Conta a história de Carmona, dotado de uma voz incrível e de uma mãe terrível. Por causa da voz de castrato, ganha fama e respeito. Por causa da mãe, se afunda, castrado, no vazio e na insegurança.

Escrito como conto e depois feito romance, A mão do amo mantém a secura da forma de origem e sua concisão. A trama é fechada, igualando a vida de Carmona e o mundo estreito em que os personagens se movem. São poucos espaços, e eles se desdobram ou encolhem, redimensionados pela opressão sobre Carmona. Poucos, também, os personagens: Carmona, a mãe, os gatos da mãe. Os demais são periféricos e, no máximo, emulam o trio central – caso da fina senhora que o protege e que a mãe de Carmona adula. Ou dos japoneses perdidos na paisagem fascinante e ameaçadora das montanhas, cujo filho é invejado pela mãe de Carmona.

Carmona, Carmona: o nome é repetido à exaustão no romance, que desliza entre a narração em terceira pessoa e o discurso indireto livre, que assume voz e mente da personagem principal, em parênteses que ampliam nossa angústia porque derivam da dele, emparedado. Porque A mão do amo é uma história de emparedamento. Do dominado que lambe a mão do dominador, que mistura mãe, pátria, gatos e governos numa submissão que, claro, nos faz pensar na Argentina dos anos militares. Por isso, o romance não é tão diferente (quanto muitos críticos destacaram) dos livros mais conhecidos de Eloy Martinez, voltados à discussão política.

A diferença de fato é que A mão do amo não foca na macropolítica, aquela que se desenvolve nos bastidores sórdidos de Brasília – digo, de Buenos Aires. É pior (sim, acredite): pulveriza-se no quotidiano, invade a intimidade e reproduz, com graus variados de imposição, estratégias de dominação e pérfidos jogos de poder. Mas continua a ser ação brutal do autoritarismo no microcosmo das relações pessoais, em que a tortura psicológica e física é arma banal numa guerra fadada ao extermínio do outro, o inimigo, o que deve ser sujeitado.

Quando a mãe morre, Carmona circula entre o Estado e a casa e repete a mesma lógica. Primeiro, ensaia, invejoso, tomar o lugar do poder: persegue os gatos que reproduzem a figura opressora. Mas a liberdade é só uma paisagem fugidia e perigosa, como a das montanhas. E Carmona acaba dominado pelos gatos, dependente das suas vontades. Não teve sucesso ao imitar a mãe, restou-lhe mimetizar os gatos. Sempre oprimido: não por uma pessoa ou um animal, mas por um passado do qual não conseguimos nos livrar.

A mão do amo – jogo sonoro de palavras e metáfora fácil da paixão do submisso pela submissão – é um livro mais sutil que O vôo da rainha, menos jornalístico que O romance de Perón, mais lírico que O cantor de tango, mais incisivo que Santa Evita. É sobretudo – repito o segundo adjetivo deste comentário – inquietante. Porque parece não se resumir a uma situação específica; parece imiscuir-se na macro e na micropolítica que inevitavelmente vivemos.

Tomás Eloy Martinez. A mão do amo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (original: 1991; tradução: Sérgio Molina e Lucas Itacarambi).

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Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum

Órfãos do Eldorado evoca, logo no início, uma das cenas mais famosas da literatura ocidental: o momento em que Paolo e Francesca, no canto V da Comédia, lêem lado-a-lado uma história de amor. E se beijam e descobrem que a história deles era mais bonita que a de Lancelote e Guinévère. Mas a revelação é seguida da tragédia e os amantes adúlteros vão parar no inferno. Borges, em uma das tantas anotações à obra, observou que Dante revelava outra coisa ali: que há momentos decisivos em nossa vida – eles a definem, a refazem, nos direcionam.

É assim quando Arminto Cordovil cruza seus olhos com os de Dinaura – e logo depois reconhece que sua vida mudaria. Mudou. E toda a novela de Milton Hatoum é a história dessa mudança. Mas uma mudança que – não é sempre assim? – não consegue extirpar o passado: ele prossegue, resiste, prolonga-se pelas artimanhas da memória, infiltra-se mesmo depois que nos livramos de toda matéria ligada a ele – cartas, casas e paredes. Por isso, a fábula que Hatoum nos conta em seu mar de histórias do Eldorado é anfíbia: como Dinaura, como a cidade de Manaus. Anfíbia como a angústia de um presente que não se desvencilha do passado – e isso faz toda diferença.

Órfãos do Eldorado é uma novela de 103 páginas. Concisa, conforme exige a coleção de mitos da Canongate para que foi concebida. Concisa, como só a maturidade de Hatoum atinge. Bela e forte como Relato de um certo oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte, mas com dicção própria e plenamente definida, que se ajusta ao limite de espaço e resulta num texto de que – calcula o leitor – não é possível tirar uma palavra, um sinal, uma das frases definitivas que a pontuam e fazem o leitor parar seguidamente para pensar. É novela una e única: como o abraço de Amando, o pai, no filho Arminto, como o conhecimento do sexo de Arminto na rede de Florita, como a noite de amor com Dinaura, como o rosto de Angelina, mãe morta na foto recortada. Mas a unicidade da narrativa – um que se faz dois – combina história e mito, ficção e fábula, lenda e verdade. Por isso, Dinaura se confunde com uma criatura mágica do rio ou com outra mulher, Estrela – céu espelhado no rio, como um dia viu Ismália e, antes, o Livro das Noites. E Amando, querido por todos (menos pelo filho), tem o coração vil de seu sobrenome. Manaus, claro, é a cidade terrena, miserável, e a outra, submersa e encantada.

Mas não é feito dessa substância o mito? Ele não vive na fronteira da verdade e da mentira, da realidade e da fabulação, do sono e da vigília? É nessas margens porosas, encharcadas pela onipresença da água amazônica, que a orfandade se anuncia: de quem somos filhos, quando nosso pai é desconhecido, nossa mãe, precocemente morta, nossos sonhos, desterrados? Resta seguir o rio do tempo e viajar em busca do passado. Mas as viagens resultam inúteis – como a última do Ulisses mítico, antes que o mar o cobrisse. Ou a de outro Ulisses, o Tupi, barqueiro do Amazonas, que procura Dinaura e só traz, do rio, mitos e meninas defloradas pelos próprios pais, por oportunistas e por uma realidade pérfida.

A paixão de Arminto por Dinaura, em seu próprio tempo, virou lenda. Olha só, diria Arminto enquanto conta sua história, mas que paixão não é lenda, para quem a vive na realidade ou na imaginação? Que paixão não compõe e corrompe – no presente e no passado – a lenda de si mesmo, aquela que nos contamos quando estamos a sós ou para um visitante disposto a ouvir durante horas e, depois, desacreditar de tudo? Nossas histórias de paixão e desvario que, no fundo, são boas e más, serenas e ameaçadoras. Ambíguas, definem o que fomos e o que talvez possamos ser; inventam nosso eldorado íntimo.

No ritmo forte e nas frases curtas de um livro que temos que ler com economia, para não acabar logo e para suportar as dores, Hatoum perscruta a devastação que a paixão provoca em Arminto, a volubilidade, a derrocada, a busca por demônios que habitam sua cabeça: demônios nascidos em Vila Bela, alimentados em Belém e repatriados para o Amazonas. E se nada pode se restringir ao indivíduo Arminto, Hatoum também mostra um Brasil em declínio – corrupto, decadente, emparedado, de justiça impossível – e órfão. Paralelamente, percorre a literatura e circula entre referências de Machado, Raduan Nassar, Bandeira, Borges – que um dia comparou a escrita à luta com demônios nas grutas e cavernas do cérebro. Mas aqui, de novo, a metáfora da orfandade dá o ar da graça: a quem se filia, entre tantos pais, a ficção de Hatoum? O uno se faz novamente múltiplo e mostra que a orfandade também pode implicar liberdade – liberdade inconstante porque movida pela presença ininterrupta de precursores inventados a cada página, a cada frase; liberdade desassossegada, porque viajante, incerta de sua procedência e de seu destino. E é essa liberdade da palavra escrita o que resta; afinal, lembra o crédulo amigo do pai de Arminto, “quando alguém morre ou desaparece, a palavra escrita é o único alento”.

Nem sempre é assim. O mito exige, para continuar a circular, a variação que a oralidade oferece e Arminto busca, junto com alguma explicação sobre o passado ou o desaparecimento de Dinaura. Quer revelar um segredo: aquele que o mito contém, mas não expõe facilmente. Só que a comunicação é dificultosa, depende de traduções, é repleta de ruídos e, principalmente, de silêncios. Quando Arminto descobre algo do mistério já é tarde. Sua orfandade se tornou definitiva – como o desamparo que o livro, no final, deixa para o leitor. Eldorado, o navio, naufraga. Eldorado, a cidade submersa, é inacessível – a revelação, nas últimas páginas, da falsa tradução de Florita nos dá a realidade brutal. O que cria é também o que devasta. Porque aquele momento fundador que levou Paolo e Francesca para o inferno de Dante carregou Arminto para outro inferno, o próprio: o de um Eldorado habitado apenas pela solidão.

 

Milton Hatoum. Órfãos do Eldorado. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

O enigma de Paris, de Pablo De Santis

O enigma de Paris nos faz pensar se é necessário publicar todos esses livros que povoam as livrarias. Não falo dos livros obviamente ruins: a auto-ajuda, a vulgaridade (com ou sem verniz literário ou intelectual), as coisas simplesmente mal escritas. Falo de livros que até divertem um pouquinho, são bem escritos, bem montados, mas – sejamos sinceros – absolutamente desnecessários. É o caso desse romance policial do argentino Pablo De Santis, que recebeu prêmios importantes e foi traduzido e lançado no Brasil por uma importante editora.

O livro é bem feito? É. Sua história pára em pé? Pára. Garante entretenimento por duas ou três horas? Garante. Então, eu é que sou implicante? Talvez. Mas, ao acabar a leitura, senti um profundo desconforto. Pensei em todos os jogos retóricos a que De Santis recorre, à ânsia de parodiar o policial clássico e incluir umas pitadas do policial “duro” americano. Pensei nas citações cifradas de Borges. Pensei na idéia de ambientar historicamente o crime nos tempos da montagem da Exposição Universal de Paris. Pensei nas brincadeiras com as matrizes do gênero. Tudo isso é interessante. É. Por que, então, o desconforto? Porque tudo é previsível, tudo é repetitivo, tudo é artificial, tudo parece um pouquinho arrogante: do tom da narrativa à intenção explícita de reinventar o gênero ou de alterá-lo drasticamente.

Daí me lembrei de autores que, sem tal vaidade, de fato mudaram drasticamente a história da narrativa policial. Lembrei de Dashiell Hammett (de quem nem gosto tanto) escrevendo para ganhar uns trocados, de Leonardo Sciascia, que preferia a discussão política e a transferiu ao policial de forma bruta, de Manuel Vázquez Montalbán e seu recurso ao policial para relatar o declínio da esperança de toda uma geração, de Andrea Camilleri e a incorporação de registros da língua falada dos sicilianos. Lembrei, claro, de Borges, de Ricardo Piglia e de Ignacio Padilla, que associaram a literatura de enigma às artes da impostura e da crítica. Lembrei até de nosso Luiz Alfredo Garcia-Roza e seu diagnóstico da decadência irreversível da ética. Nenhum deles assumiu o ar orgulhoso de quem escreve para mudar o gênero – sem, no fundo, acrescentar nada de novo.

Má vontade minha. Talvez mau humor ou cansaço. E o leitor poderá confirmar ao ler O enigma de Paris e, quase garantidamente, sair da leitura satisfeito. Mas tudo me pareceu clichê demais: o interesse do narrador pelo mundo das investigações originar-se da leitura de uma revista (foi nas revistas de crimes, lembrem-se, que as histórias policiais surgiram), a seqüência de relatos de feitos dos doze maiores detetives do mundo, a discussão sobre a simbologia do ofício (pegadas? Quebra-cabeças? Lupa? Bengala de mil-utilidades? Intuição? Sorte? A frenologia? A razão pura e plena?), o desfecho falso seguido por um desfecho verdadeiro que, claro, ilustra os jogos de cena habituais das histórias de detetives.

Mas – você pode estar se perguntando agora – se o livro fala de tudo isso e o faz bem, por que reclamar? Ora, leitor, não reparou nas pistas que deixei nos parágrafos anteriores? Implicância, má vontade, mau humor, cansaço. Ou elas são explícitas demais para serem verdadeiras? Não sei. Leia O enigma de Paris e decifre. Já que foi publicado mesmo, aproveite.

 

Pablo De Santis. O enigma de Paris. São Paulo: Planeta, 2007 (original: 2007; tradução: Maria Alzira Brum Lemos)

Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia, de Ana Claudia Aymoré Martins

Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia parte de uma idéia fabulosa em todos os sentidos. Ótima, porque se dispõe a confrontar três construções utópicas associadas a ilhas: a de Thomas Morus, a do Dr. Moreau, de H. G. Wells, e a de A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. E idéia que permite a fabulação, a capacidade de evadir do real e de aplicar, a ele, uma alternativa presente e viva.

Na origem, o livro foi uma tese de doutoramento, defendida em 2003, por Ana Claudia Aymoré Martins. Bem organizado e bem escrito, percorre a construção de sentidos para a idéia de utopia no ocidente, visita desde Atlântida até representações recentes no cinema e na literatura; em seguida, dedica um capítulo a cada obra mencionada no título. Resolve bem a discussão sobre Morus, de forte componente conceitual – logo, fundamental para a sustentação da tese, e interpreta com tranqüilidade o lugar do livro de Wells na imaginação negativa acerca das transformações tecno-científicas do século XIX. Algumas relações importantes aparecem – sobretudo com o Frankenstein, de Mary Shelley, que do início desde a segunda década do século espreita as leituras do umbral perigoso por que caminharam os sonhos tecnológicos.

No capítulo relativo a Bioy Casares, infelizmente, sua leitura perde força. Carente de bibliografia especializada na obra de Bioy (fartíssima na Argentina e nos Estados Unidos), Ana Claudia Aymoré Martins perde continuamente o foco da análise ao cruzar o livro – que é de 1940 – a episódios da vida pessoal de Bioy, à sua relação com Borges e, principalmente, a transposições e associações fílmicas diretas ou indiretas. Perde, com isso, o detalhamento da empreitada literária que Bioy pretendeu levar adiante com a obra e que, depois, renegou parcialmente. Perde, ainda, a angústia com que Bioy tratou o tema da tecnologia redentora (em tempos de guerra) e da leitura e escritura infinitas, base de sua concepção de utopia literária – como seus comentadores apontam há tempos. Um ou outro deslize editorial também prejudicam o livro – como o comentário (válido em 2003, mas hoje desatualizado) de que não existem livros de Bioy Casares em circulação no Brasil (depois disso, houve mais de uma edição importante) ou a menção à presença da ditadura militar argentina em 1986 (acabou em 83).

O mais importante, porém, mantém-se firme e estável: a qualidade da reflexão e sua ousadia, tanto no varejo (questionar a leitura habitual de Frei Vicente de Salvador acerca do motivo da denominação Brasil para o território que os portugueses descobriram), quanto no atacado: a lembrança da centralidade da utopia no pensamento ocidental e seus mecanismos de refundação contínua, com suas incontáveis variações. A ilha – atesta a autora – continua em nosso horizonte e nossos olhos insistem em buscá-la. Talvez conheçamos por lá alguma monstruosidade ou um criador de monstros. Talvez reencontremos o sonho tecnológico que o XIX criou e perdeu. Talvez – à semelhança dos portugueses conquistadores de mares – apenas inventemos nossa utopografia para nela espelhar o céu, mesmo sabendo quão tenebroso pode ser um mundo racionalmente controlado. Enquanto sonhamos com a descoberta de nossa ilha desconhecida, a leitura do livro de Ana Claudia Aymoré Martins ajuda a entender a ininterrupta ânsia de inventar utopias.

 

Ana Claudia Aymoré Martins. Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia. Brasília: Editora da UnB, 2007

Extremamente alto & incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer

Extremamente alto & incrivelmente perto é um romance inteligente e emocionante, o que já bastaria para justificar a leitura. Mas tem mais: procura achar um ponto de encontro da ficção com a história, e consegue.

O principal narrador é Oskar Schell, menino de 9 anos, bem diferente de seus colegas. Coleciona moedas, pedras, selos e borboletas “naturalmente mortas”, faz origamis, desenha jóias e é ateu, só come vegetais e recheia sua fala de expressões em francês, mantém-se longe da TV e envia cartas a todo mundo – principalmente ao físico Stephen Hawking, seu ídolo. Oskar, sobretudo, tem um vínculo profundo com o pai, com quem passava longos períodos e cujas manias e jogos o absorviam. Só que o pai morreu no “pior de todos os dias”, o do atentado contra o World Trade Center.

Daí em diante, Oskar vive à deriva: leva uma relação tensa com a mãe e apóia-se na avó, que insiste em lembrar o ex-marido, desaparecido muito tempo antes. O signo que o paralisa é o da perda; o que o move é a tentativa de recuperar traços do pai nos objetos guardados no closet da casa. E é no closet que Oskar encontra uma chave dentro de um envelope, com a anotação “Black”. Inicia, então, uma odisséia pela cidade, para além dos limites de Manhattan, em busca de Black e da solução do mistério da chave.

Mas não é, claro, a chave que importa. Oskar quer, com a argúcia detetivesca que seu pai lhe ensinou, entender a estranha relação entre o que perdemos e o que nos resta quando o chão se dissolve. É essa procura – com a óbvia visitação dos infernos reais e imaginários, das noites de insônia e de angústia – que leva o leitor (você, eu) ao choro. Porque é inevitável emocionar-se e, de jeito egoísta, temer que o seu filho e a minha filha vivam algo semelhante – ou, na relação inversa, que nós o vivamos.

Jonathan Safran Foer, o autor, sabe que – não importa o que digam – precisamos de lirismo, ainda mais quando a vida não se ajusta às nossas vontades. E o espalha pelo texto, contendo-o apenas com a inteligente variação narrativa, em que a voz de Oskar é trocada por cartas cuja autoria ignoramos quase até o fim do romance. Dessa forma, evita o excesso. Extremamente alto & incrivelmente perto, afinal, é um livro de escrita caprichada e sofisticada, que não poderia descambar para o melodrama. A ressalva que o leitor mais exigente poderia fazer ao livro vem, aliás, dessa estrutura inteligente, porém excessivamente rígida, que torna algumas passagens mecânicas e se contrapõe ao tom vivaz da trama. É pouco problema, porém, perto do que o livro oferece de bom. Bem pouco, se lembrarmos que Foer conseguiu equacionar um dos problemas mais sérios de quem se dispõe a lidar com a história a quente – com todos os traumas e explicações passionais. E a história aparece latente na trajetória de Oskar, sem ostentar sua força, mas deixando claro que uma vida não se desliga das outras, nem é conduzida plenamente por elas. O tocante desfecho da história revela o quanto não ficamos à mercê da história – barco bêbado – e de seus ritmos erráticos.

Até porque Oskar pode vir, um dia, a assimilar a ausência do pai e talvez chegue – quem sabe? – à conclusão borgeana de que só o que perdemos é nosso. Assim sua vida seguirá. Mas nós, leitores, sabemos que nunca conseguiremos assimilar tudo que perdemos – principalmente jamais assimilaremos o medo da perda, que é anterior à própria e, por abstrato, incontrolável.

 

Jonathan Safran Foer. Extremamente alto & incrivelmente perto. Rio de Janeiro: Rocco, 2006 (original: 2005; tradução: Daniel Galera)

Lãs ao vento, de Arriete Vilela

Lãs ao vento é um romance ou um livro de contos? É uma autobiografia ou uma reunião de histórias que se passaram no quotidiano? Fala do local ou do universal? É narrado diretamente pela autora ou por inúmeros personagens literários?

Arriete Vilela inventa, com Lãs ao vento, um jogo ininterrupto, em que nenhuma posição é fixa. Parte de citações de músicas ou de outros autores para contar breves histórias, marcadas pelo prosaico, pela intimidade; casos situados em lugares fechados (casas, vilas), que sugerem uma aproximação com a peculiaridade do local – talvez as Alagoas de onde vem a narrativa.

Entre um caso e outro, surgem cartas da autora à editora; as cartas enunciam outras histórias, num longo encadeamento narrativo, que se recusa a definir sua veracidade e busca validade universal: não são mais as Alagoas que falam, nem o Brasil, nem parte alguma; o território é da palavra – grafada com maiúscula inicial para determinar sua proeminência e autonomia – e da busca expressiva.

O fio da leitura, no entanto, liga os pequenos casos locais à indagação literária das cartas. Mais do que relações subterrâneas ou vasos comunicantes, há um outro deslocamento (ou diluição?) agora: da autoria, colocada em xeque pela terceira pessoa que narra os casos e pela fluidez da voz autoral – que não é integralmente real ou fictícia – das cartas. Afinal, como indica o título, tudo é provisório e móvel no terreno poroso da literatura; como lãs ao vento, a autora é uma autora possível e a editora é uma editora suposta – e ambas são parte do mosaico gradativamente construído na narrativa.

Por isso nenhuma das questões tem resposta fácil – ou sequer possível. Qualquer definição a que recorrêssemos para enquadrar a narrativa de Arriete Vilela sucumbiria. E provavelmente porque todas essas classificações se perdem nas convenções a elas atribuídas e não conseguem dar conta do fato – óbvio, mas tantas vezes negligenciado – de que entre o local e o universal não há separação rígida, que o autor se traveste de seus personagens ou os faz se misturarem a ele próprio, o quotidiano e o autobiográfico se penetram e se confundem misteriosamente, o conto e o romance são formas que dialogam. E Arriete Vilela, com delicadeza, ensina tudo isso em Lãs ao vento.

 

Arriete Vilela. Lãs ao vento. Rio de Janeiro/Penedo (AL): Gryphus/Fundação Educacional do Baixo São Francisco, 2005