A intermitência, de Andrea Camilleri

 

A intermitência é dos livros mais soturnos de Andrea Camilleri.

 

Numa história simples, empresários disputam dinheiro grosso, em meio a vidas atarefadas, corridas, autocentradas.

 

Nenhum personagem tem nada que se pareça a escrúpulo. A lógica que dirige suas ações e jogos, quase sempre subterrâneos, é a ambição. As relações pessoais são atravessadas de individualismo atroz e, também nesse campo, todos carecem de preocupação com o próximo.

 

O próprio título do livro — que talvez pudesse ser traduzido por “intervalo” ou “interregno”, além de “intermitência” — manifesta o caráter provisório do que é narrado. Ou, pelo menos, da trama específica, da disputa conjuntural em torno da venda de uma indústria e dos embates entre executivos de um grande conglomerado empresarial.

 

É como se o olhar do narrador, onisciente, observasse por algumas semanas o quotidiano dos personagens e, passado esse período, se desinteressasse deles porque nada mais poderia ser sabido. Eles, afinal, são tão regulares, tão previsíveis, tão ocos de profundidade psicológica ou social, que um recorte cronológico limitado explica integralmente suas vidas.

 

O resto é tristeza, é vazio. Resta a forte impressão de que o mundo que nos rodeia carece de substância, carece de valores. Sobra-lhe, em contrapartida, excessiva frieza e ganância.

 

O leitor, enredado no texto sempre ágil do siciliano, chega a se envolver na história e torce pelo personagem central, mesmo sabendo que ele representa a antítese de qualquer humanismo e solidariedade. Mesmo sabendo-o mesquinho.

 

Será um espelho tenebroso do que vivemos, daquilo a que assistimos e, pior, a que nos acostumamos?

 

Tomara que não. São, antes, armadilhas de uma narração bem feita, concisa, convicta. Camilleri pode apresentar a sociedade numa perspectiva pérfida — ecos da Itália berlusconiana? —, mas não deixa de estruturar o romance com precisão.

 

Melhor, então: você consegue, ao final do livro, enxergar beleza — a da construção literária — no que é repulsivo: o mundo, sem mistificações.

 

 

Andrea Camilleri. L’intermittenza. Milão: Mondadori, 2010

 

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros quinze livros de Andrea Camilleri.

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010.

 

Clique nos títulos dos livros para lê-las.

 

 

4 pensamentos sobre “A intermitência, de Andrea Camilleri

  1. Oi Júlio,

    Hoje comprei “A paciência da aranha” e não o larguei até terminar agora à noite… Mesmo não sendo o melhor que Camilleri já escreveu, é muito superior ao que tenho lido.

    Abraço,

    Dennis.

    • Dennis,
      tudo bem?
      Soube recentemente da edição brasileira de “A paciência da aranha”. Tomara retomem as traduções e publicações de Montalbano por aqui.
      Abraços,
      Júlio

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