As suspeitas do sr. Whicher, de Kate Summerscale

As suspeitas do sr. Whicher conta a história de um crime horroroso, que abalou a Inglaterra vitoriana.

Em 30 de junho de 1860, uma criança de três anos foi retirada de seu berço, no quarto da babá, durante a noite e brutalmente assassinada. O corpo foi encontrado na fossa.

A mansão, ocupada por uma família abastada, ficava em Road Hill. A criança era filha do segundo casamento de Samuel Kent, homem rico, que morava na casa com sua nova esposa, então grávida, dois filhos do primeiro casamento, outros dois do segundo e uma legião de empregados.

A polícia local não chegou a qualquer conclusão, embora tendesse a culpar a babá. Um dos mais famosos detetives da Inglaterra foi chamado de Londres: Jonathan Whicher, membro da primeira turma de investigadores especiais da Scotland Yard, formada poucos anos antes. Ele investigou e acusou a filha do primeiro casamento. Foi desmentido e saiu da história desacreditado.

Cinco anos se passaram antes que se soubesse a verdade, e não completa, do que aconteceu naquela noite em Road Hill — e não se preocupe: não vou contá-la a você, leitor se interesse em ler o fabuloso livro da pesquisadora Kate Summerscale, que acabou de sair no Brasil. Ela recupera toda a história do crime e a narra em forma de romance policial, baseando-se em documentos e em informações que só muito tempo depois vieram à luz.

Mas o mais interessante do caso de Road Hill — e que Summerscale discute de forma rigorosa e envolvente — é que ele, primeiro, dissolveu as fronteiras entre ficção e realidade, para depois demarcá-las com clareza.

Dissolveu as fronteiras porque milhões de ingleses se dispuseram a investigar o caso, diretamente de suas poltronas, como se fossem detetives da ficção. Dissolveu as fronteiras porque muitos escritores se inspiraram no crime para escrever histórias policiais de ficção: para ficar em dois exemplos eloqüentes, Wilkie Collins, um dos iniciadores do policial na Inglaterra, e Charles Dickens, que chegou a escrever cartas a amigos relatando sua decifração do caso – muito superior, acreditava ele, do que a polícia conseguira. O próprio Conan Doyle, que ainda não havia criado Sherlock Holmes, declarou, anos depois, ter sofrido um impacto muito grande como o crime de Road Hill. Num tempo em que detetives eram novidade, a realidade e a ficção criminal pareciam idênticas.

O mais assustador das investigações amadoras sobre o crime de Road Hill é que todos que se dispuseram a decifrá-lo pareciam esquecer da criança-vítima. A idéia do jogo prevalecia e a morte era abafada pelo enigma. A realidade virava ficção.

No entanto, o fracasso das investigações mostrou que a vida vivida dificilmente tolera mistificações. O próprio Dickens teve de reconhecer que sua solução era fantasiosa e estapafúrdia. A razão analítica não prevalecera. E, de heróis, os detetives de carne e osso passaram a vilões. A Inglaterra percebeu que ficção e realidade não compartilham necessariamente os mesmos desfechos. Na vida real, nem sempre chegamos à última página ou alguém consegue encontrar o culpado e puni-lo. Pelo contrário: no dia-a-dia, crime e castigo se dissociam amplamente.

Muitos acham que é por isso que gostamos tanto de ler narrativas policiais: elas trazem o consolo e a serenidade da decifração e da superação. Algo que os jornais não podem oferecer.

Não sei se a hipótese é correta. Acho-a um tanto genérica demais e simplista. Mas que, ao menos em parte, é plausível — e não só para crimes de sangue —, lá isso é.

Kate Summerscale. As suspeitas do sr. Whicher. A história real de um dos crimes mais chocantes da Inglaterra vitoriana e do detetive que inspirou Charles Dickens e Arthur Conan Doyle. São Paulo: Companhia das Letras, 2009 (original: 2008; tradução: Celso Nogueira)

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O que você queria ter escrito?

Foi uma sugestão indireta de L., amigo, que me fez levantar a questão. E virou enquete:

O que você gostaria de ter escrito?

De saída, digo alguns que eu queria ter escrito:

Coração das trevas, de Conrad;

Doctor Jekyll & Mr. Hyde, de Stevenson;

– o conto “A lição do mestre”, de Henry James;

– algumas páginas de Educação sentimental, de Flaubert;

a história de Charles Swann, no final do primeiro volume de Em busca do tempo perdido, de Proust, e alguns diálogos de Elstir, na mesma obra;

Palmeiras selvagens, de Faulkner;

O velho e o mar, de Hemingway;

– outro conto: “A morte e a bússola”, de Borges;

Auto-de-fé, de Canetti;

O enigma da chegada, de Naipaul.

E você?