Breve nota

Uma breve nota.

A primeira resenha publicada em Paisagens da Crítica foi do único policial de Luiz Alfredo Garcia-Roza cujo protagonista não é Espinosa: Berenice procura.

Com ela, o blog nasceu, há quatro anos, no dia 30 de novembro de 2005.

De lá para cá, mudou de endereço, saindo do Uol e vindo para o WordPress.

De lá para cá, foram publicados 238 textos (204 meus e 34 de amigos queridos).

Desde abril de 2008, passei também a colocar links para meus comentários na Rádio Metrópole de Salvador: até hoje, 82 podcasts.

O mais importante: os acessos que o blog teve nos dois endereços já ultrapassaram os 110 mil (quase 56 mil no Uol, mais de 59 mil no WordPress).

Isso é que é bacana. Ainda mais num país em que se supõe que livro é artigo de segunda necessidade, em que os livros custam muitíssimo caro e em que não há políticas públicas consistentes de incentivo à leitura. Prova de que tem, sim, muita gente interessada em leitura. E poderia ter mais.

Último comentário. Infelizmente não pude publicar muitas resenhas em 2009. O carrossel da vida dificultou tudo: muito trabalho e o fechamento de uma longa pesquisa. Mas se promessa vale alguma coisa, digo que 2010 será diferente. Principalmente depois de maio, o blog receberá atenção equivalente à alegria que me dá de escrevê-lo.

Obrigado a todos que um dia passaram por aqui. E obrigado maior ainda àqueles que passam sempre. Sigamos.

*

Paisagens da Crítica fica em recesso por um mês. Até o início de fevereiro.

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Céu de origamis, de Luiz Alfredo Garcia-Roza


Céu de origamis é o nono romance policial de Luiz Alfredo Garcia-Roza e a oitava aventura do Delegado Espinosa.

Garcia-Roza, já faz tempo, é o mais regular e consistente autor brasileiro de narrativas de enigma; Espinosa, seu personagem-detetive, o melhor representante tupiniquim de uma linhagem que começou com Dupin e prosseguiu, entre outros, com Marlowe.

No princípio do novo romance, Espinosa está afastado do cargo, pois se recupera de um atentado, relatado no livro anterior. Inicia de forma extraoficial a investigação sobre o estranho desaparecimento de um dentista. Na metade do livro, reassume o cargo e, de amador, passa a profissional.

A trama é obviamente cheia de reviravoltas e de pistas e despistes oferecidos ao leitor. Os perfis dos personagens são apenas brevemente delineados e suas personalidades se mantêm na superfície. Além disso, a obra incorre em pelo menos um deslize grave de continuidade: a não-explicação de uma significativa troca de nomes, que ganha destaque e, poucas páginas depois, é esquecida. O leitor espera em vão o esclarecimento, que não chega.

Apesar disso, a história se sustenta no conjunto dos eventos que apresenta e na sólida caracterização do detetive, agora menos afeito à aventura e mais reflexivo: as cenas de ação que marcaram as histórias anteriores de Espinosa ficaram de fora e a narrativa só ganhou com isso, aproximando-se mais da origem do gênero, ao situar todos os crimes em ambientes fechados e de possibilidades limitadas.

Garcia-Roza compassa, assim, seus livros aos registros policiais modernos, que desprezam a habitual eleição de um estilo específico para a narração. Porque o perfil de suas histórias e de seu detetive é construído exatamente na conjunção do policial amador e analítico, de origem poeana, e do detetive aventureiro e profissional da tradição americana de Hammett e de Chandler. Espinosa consegue construir raciocínios rigorosos e, ao mesmo tempo, flana pela cidade e pelas idéias, se imiscui nas tramas e se expõe.

Também não faltam as belas mulheres, de perfis assincrônicos, mas sempre suspeitas e potencialmente perigosas — característica do romance negro norte-americano. Curioso é notar a construção gradativa de vínculos familiares do detetive, experiência normalmente ausente na narrativa policial, em que os investigadores são figuras isoladas e desconectadas dos rituais da intimidade. A aproximação com o filho e a manutenção da mesma namorada dos romances anteriores revela o amadurecimento e, melhor, o envelhecimento do personagem.

Por isso, Espinosa é tão decisivo nos policiais de Garcia-Roza: ele assegura o vínculo com a tradição do gênero nos seus vários registros e ainda abre espaço para a variação — marca decisiva num tipo de ficção que corre sempre o risco da mesmice e do clichê.

Pode até ser que o detetive esteja se cansando e suas histórias não tenham mais o vigor físico e narrativo que as primeiras aventuras apresentavam. Mas continuam a ser belos exercícios de reflexão e de escritura. E a mostrar que Garcia-Roza prossegue anos-luz à frente dos autores brasileiros de romances de enigma.

Luiz Alfredo Garcia-Roza. Céu de origamis. São Paulo: Companhia das Letras, 2009-12-08

Outros três livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza foram comentados em Paisagens da Crítica: siga os links para lê-los:

Berenice procura (30 de novembro de 2005)

Espinosa sem saída (15 de dezembro de 2006)

Na multidão (26 de  dezembro de 2007)