três anos, hoje

 

Hoje faz 3 anos que este blog foi criado.

 

Nasceu da vontade de falar de livros e tirou o nome de uma passagem de Lezama Lima:

 

Ante todo, el paisage nos lleva a la adquisición del punto de mira, del campo óptico y del contorno.

 

Que la atención o una saetilla misteriosa se disparen sobrenosotros, que la mirada suelte sus guerreros en defensa de su territorio, y el contorno enarque sus empalizadas frente a zonas indiferentes o gengiskanesca barbarie. (…)

 

Paisage es siempre diálogo.

 

A indiferença e a gengikanesca barbárie podem até prosseguir e talvez se expandir.

 

Mas não custa repetir: paisagem é sempre diálogo.

 

Por isso, uma esperança, o blog prossegue.

 

E agradece a cada um dos responsáveis pelos 70 mil acessos que já teve: 51 mil no endereço do uol (desde dezembro de 2005) e 19 mil aqui no wordpress (desde fevereiro de 2008).

 

Por mais três anos. E depois, tomara, outros três. E assim por diante, na busca desse punto de mira e na expectativa do diálogo.

 

Abraços & obrigado,

Júlio

 

O encontro, de Anne Enright

 

O encontro provoca desconforto. Incomoda. Aflige e angustia. Principalmente porque mostra tudo que a morte ilumina. E nos faz lembrar o que normalmente preferimos esquecer: que a indesejada das gentes revela o passado e o presente – além de negar o direito ao futuro.

 

É isso, pelo menos, que Veronica, personagem principal e narradora do livro de Anne Enright, descobre ao saber da morte do irmão mais próximo e mais querido, Liam. Obrigada a recolher o cadáver do irmão suicida em Londres, Veronica sai da Irlanda e entra na história da família.

 

Nas idas e voltas entre os países vizinhos, ela reconhece as histerias de cada um dos (muitos) irmãos e irmãs, as imperfeições dos pais e a mediocridade de seu próprio casamento. Reavalia os ritos tenebrosos que toda família é capaz de engendrar e perpetuar, quase sempre de forma acrítica e sem notar os desvãos em que seus membros são lançados.

 

O espelho de Veronica é Ada, sua avó morta, cujo passado é visitado e reinventado. Tudo o que fez Ada até que se casasse e a relação ambígua com um ex-namorado se prestam para que Veronica enxergue o momento em que sua imensa família entrou no labirinto. A hora em que começou uma rotina que expelia os corpos estranhos, detestava os diferentes, celebrava baldiamente vínculos que, no fundo, eram frágeis e ignoravam as histerias de quase todos. Uma família que desconhecia a si mesma e ignorava quem vinha de fora.

 

Todos conhecemos uma família ou história assim; daí o incômodo, o desconforto e a aflição. Porque a angústia de que Enright fala não é a desesperada, que desemboca em gestos caricaturais. É a angústia palpável, vivida, do sofrimento que sabemos poder superar – por isso ela é tão profunda, tão pior. Sabemos que ficaremos irremediavelmente marcados por ela. Que a tristeza se tornará um estado não expresso em todos os momentos, mas nem por isso encerrado. Que ela vira o fio que nos conduz, o chão que pisamos.

 

A necessidade de reviver a avó, para Veronica, é, apesar das aparências, um pouco de esperança. Afinal, se vivemos as vidas alheias é porque acreditamos em simetrias. Se sondamos as alternativas abertas aos outros é porque queremos ter novas possibilidades: sair do abismo, apostar em mudanças que nos redimam do passado e do presente e tragam a chance de algum futuro.

 

E futuro se divisa, em todo o romance, com o anseio para escapar da solidão – aquela que a família acredita que não existe porque só se refere a si mesma, histericamente, sem perceber que é uma abstração, expressa num nome ou em dois ou três símbolos falidos, bem longe da realidade. A solidão que vem quando nos damos conta de que perdemos o amor possível, que só restaram amores deficientes ou burocráticos e vivemos isolados em meio a toda gente.

 

Solidão que vem quando nos damos conta de que a única coisa que absolutamente não esquecemos é o que mais queríamos apagar. Solidão, tema central de O encontro, essa história de desencontros.

 

Anne Enright. O encontro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008 (original: 2007; tradução: José Rubens Siqueira)

 

As vozes de Marrakech, de Elias Canetti

 

As vozes de Marrakech conta histórias interessantes e divertidas. Bastaria isso, mas vai mais longe, bem mais longe do que apenas entreter o leitor.

 

Elias Canetti escreveu o livro após passar alguns meses no Marrocos, em 1954. Acompanhava uma equipe de filmagem inglesa e aproveitou para conhecer Marrakech. Será que conheceu? Será que conhecemos os lugares que visitamos?

 

Pelo menos, ele tentou. E, com algumas décadas de antecedência, desmontou, com seu relato, alguns mitos atuais. Principalmente o relativismo cultural condescendente, hoje tão em voga, que mistura correção política com um falso antropologismo e tempera tudo com a arrogância de quem se supõe superior porque não acredita que haja superioridade…

 

Afinal, tudo é diferente, não é mesmo? Não há melhor ou pior, apenas diferença. Shakesperare e aqueles sujeitos que vendem seus livros na entrada do Masp: são apenas diferentes. Homero? Por que celebrá-lo, se temos Patativa do Assaré? E Dante, ora!, tem tanto poeta de primeira por aí, que só precisa ser descoberto para despontar para a fama e para a glória. Por que buscar o florentino?

 

Se você já circulou por uma universidade (nos prédios dos cursos de humanidades), se lê o caderno Mais da Folha de S. Paulo ou se simplesmente freqüenta os cinemas cult, sabe do que estou falando. Fico pensando se um desses sujeitos lesse As vozes de Marrakech. Ficaria chocado. Mas os deixemos para lá.

 

Porque Canetti não pretende olhar o outro com os olhos do outro, não quer percorrer a consciência alheia, nem inquirir o mundo despido dos próprios valores. Essa espécie de culto ou vício da “outredade” não o atinge. Ele sabe que tem olhos, valores e princípios próprios. E é a partir desse olhar estranho que ele olha o diferente.

 

Claro: para que uma postura assim não acabe por cegar, é preciso historizar a peculiaridade do próprio olhar; é preciso – diria Carlo Ginzburg – valorizar a distância e o estranhamento. É preciso saber que a melhor representação não é a direta, mas – foi Proust quem ensinou – a que se faz ao revés, para revelar o que normalmente não aparece.

 

E tudo porque Canetti não pretende apenas atestar a diferença – como fazem nossos contemporâneos, que valorizam o outro durante meia hora e, depois, o esquecem, o ignoram, o isolam como exótico e diferente, e partem logo para achar outro outro…

 

Canetti quer viver um pouco o mundo estranho, mesmo sabendo de suas limitações (o possessivo é intencionalmente ambíguo). Ele quer compará-lo ao que conhece porque sabe que só assim se estabelece algum diálogo entre culturas. Comparar é necessário; caso contrário, não abstraímos; e, além de comparar, também pode ser necessário julgar, em vez de se recolher ao confortável relativismo que aceita tudo e fecha os olhos diante da barbárie dos outros.

 

As tradições de Marrakech são vistas segundo essa mesma disposição dialógica e compreensiva. Não se trata de observar as tradições alheias para admirá-las e desejá-las fixas, paralisadas, peças de um museu vivo. Canetti sabe que tradição nunca é estática, nem implica redução ao seu estado original.

 

Tradições, afinal, não são naturais, não existem em si. São forjadas historicamente e supõem, sempre, mobilidade – algo que ocorre pelo contato com outras culturas, pela capacidade de assimilar e transformar. Só em nossos sonhos totalitários – em geral, endereçados aos outros, é que queremos que as tradições restem intocadas.

 

Canetti, que não padece da ingenuidade nociva de tantos daqueles com que convivemos, enxerga o passado – e tudo que a ele se refere – em movimento. Por isso, ao se aproximar do outro, consegue compreender o desejo daquele de se transformar. Não tenta ensinar que ele tem que se confinar ao universo limitado de seu passado. Tampouco força ou tenta deslocar quem não quer arredar pé do mundo pré-determinado.

 

Canetti apenas sabe que é preciso ouvir as vozes – de Marrakech ou de qualquer outra parte. E também se fazer ouvir. Sabe que cultura é conversação, não celebração do vazio ou de si mesmo.

 

Elias Canetti. As vozes de Marrakech. São Paulo: Cosac Naify, 2006 (original: 1968; tradução: Samuel Titan Jr.)

 

Escoffianas brasileiras, de Alex Atala

 

Escoffianas brasileiras traz dois livros em um. E ambos são necessários.

 

O primeiro é o mais fácil de ser lido. Mostra a trajetória do autor, Alex Atala, que é o mais conhecido chef brasileiro.

 

Ele contou com o auxílio de Carolina Chagas, no texto, e com fotos maravilhosas de Cássio Vasconcelos. A edição é bonita e sofisticada: do papel ao projeto gráfico, da caixa ao receituário em separado. Cara, mas mais barata do que um jantar no restaurante de Atala – o D.O.M., que aparece, merecidamente, em listas de “melhores do mundo”.

 

A obra é dividida em três seções: “aprendizado”, “sonho” e “realidade”. Todas mostram receitas, indicam procedimentos de preparo e vêm acompanhadas de pequenas digressões sobre os ingredientes, o funcionamento de um restaurante de alta gastronomia, suas relações internas e externas. Insiste também no valor da repetição e, principalmente, do estudo e da pesquisa. Em outras palavras, mostra algo que normalmente é desconhecido ou desconsiderado: a história de um prato e sua relação com seus precursores.

 

Se o livro ficasse nisso, já valeria a pena tê-lo e lê-lo – mesmo se você não cozinhar e até achar que boa mesmo era a comida da sua avó e que gastronomia é futilidade. Mas sua avó também pensava antes de colocar as coisas nas panelas. E futilidade? Ora, o único gesto fútil é não pensar.

 

Atala pensa, e não se limita à autobiografia contextualizada. Aí entra o segundo livro. Ele não é secreto, nem discreto. É ostentado já no título, sugerido por um amigo de Atala e alusivo a Auguste Escoffier, que renovou e sistematizou a cozinha francesa moderna. Alusivo também a Villa Lobos e às suas Bachianas brasileiras.

 

Porque Atala tem uma tese e ela é o objeto do livro que percorre o livro. Sua tese é de que a gastronomia brasileira sempre existiu em si e depende, agora, de uma estruturação e de um conjunto de pesquisas e desenvolvimentos para expor suas possibilidades e sua peculiaridade.

 

Villa Lobos assimilou e transformou Bach; aclimatou suas sonoridades, alterou seu ritmo e o conciliou com a expressão musical brasileira, principalmente interiorana. Atala se dispõe a assimilar e transformar Escoffier e mais: gastronomias estrangeiras, que passam pela França, pela Itália e, muitas vezes, desembocam na Espanha. E quer combinar o estrangeiro, numa lógica inclusiva, com a marca que o Brasil pode oferecer: relações, manejo de alimentos e, sobretudo, ingredientes.

 

A relação com o músico não é, portanto, acidental. Nem é pura coincidência o vínculo com a vanguarda paulistana de 1922. Afinal, a brasilidade dos modernistas reivindicava exatamente esse princípio: deglutir e processar, digerir e transformar. Oswald de Andrade, por exemplo, falava em antropofagia e na necessidade de uma “poesia de exportação”: a que não deixa de se comunicar com o resto do mundo, mas afirma sempre sua especificidade. Atala celebra essa brasilidade em sua tese modernista. Louva o que defende ser marca do Brasil e sugere – outro tema de 22 – uma identidade própria da nossa comida.

 

No entanto, ao ler as Escoffianas, a impressão que se tem é que a gastronomia chegou oitenta anos depois a um debate já meio gasto. O atraso é compreensível: o Brasil nunca deixou – claro – de comer e de cozinhar, mas foram poucos os esforços de sistematização e de divulgação, principalmente externa, do jeito peculiar como o fazia. Por isso, Atala (e Mara Salles, Paulo Martins e alguns outros) tem papel decisivo. Por isso, suas Escoffianas são também uma “comida pau-brasil”. Ainda assim, sobra certo desconforto para o leitor. E ele vem do fato de que as críticas e as limitações da brasilidade modernista – já tão apontadas para a produção literária, musical, pictórica do período – não foram incorporadas nessa retomada do esforço de refundar o Brasil. A própria idéia de identidade aparece nas Escoffianas como um traço quase naturalizado, e não como a construção histórica e cultural que inevitavelmente é.

 

Isso invalida a tese? Lógico que não. Nem tira a importância das pesquisas que Atala sugere e, sobretudo, da defesa corretamente intransigente que faz de nossos ingredientes. Mas faz com que queiramos que ele dê logo o próximo passo – em que não haverá apenas a celebração das coisas brasileiras. Haverá também a desconfiança frente à insistência no emprego do pronome possessivo – nossas gentes, nossas praias, nossas comidas. Porque se ele for repetido demais, pode se tornar presunçoso. Daí, em vez de assimilar e dialogar com o diferente, começa a recusá-lo. Alguns dos modernistas trilharam esse caminho. Não se deram conta de que o “nosso” não existe em si. Ele se constitui na relação e, por isso mesmo, não é fixo, nem estável ou definitivo. Não veio do pó, mas ao pó voltará.

 

Em tempo: os dois livros não estão separados. Um se imiscui no outro e os sabores dialogam. Cada um se mostra, traz seu som e sua intensidade para, juntos, fazerem um concerto. Como uma boa comida, aliás. Ai, que vontade de voltar ao D.O.M.: será que ainda dá para reservar para hoje?

 

 

Alex Atala (com Carolina Chagas). Escoffianas brasileiras. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008