Enquanto eles dormiam, de Donna Leon

 

Enquanto eles dormiam é mais um rocambolesco e oco policial de Donna Leon.

 

Não é uma novidade. Infelizmente a narrativa policial dá margem a grandes bolhas de sabão, luzidias e algo espantosas por fora, carentes de qualquer conteúdo. Não haveria espaço neste blog, e em quantos mais houvesse, se quiséssemos listar todos os autores, brasileiros e estrangeiros, que conciliam a estrutura do policial clássico com um imenso volume de informações desconexas e uma trama pífia e caricatural. Uma pena.

 

Donna Leon é norteamericana, mora há três décadas em Veneza e faz relativo sucesso no mundo editorial dos romances policiais. Enquanto eles dormiam, cujo original saiu em 1997, é seu quinto livro publicado no Brasil, o que sugere que os quatro anteriores foram bem acolhidos.

 

Seu personagem principal, comissário Guido Brunetti, é interessante. Corresponde à tipologia básica de detetives reflexivos, capazes de alternar momentos longos de introspecção com alçadas impressionantes de engenho.

 

Nutre indisfarçado desdém pelo superior hierárquico, figura escorregadia e ambígua. Vive feliz em família — mulher e dois filhos já crescidos — e gosta de seu trabalho. É honesto, sincero e despreza a aristocracia veneziana, de quem, aliás, sua mulher é descendente.

 

Sobretudo: Brunetti circula por Veneza e essa andança, na prática, é o que dá vivacidade aos livros: mais por Veneza, menos pelas descrições meio turísticas do narrador em terceira pessoa.

 

Enquanto eles dormiam coloca Brunetti no centro de uma intriga que envolve religiosos de alto coturno, figuras de centro da sociedade veneziana e, meio de relance, a Opus Dei. Coisa graúda, gente poderosa.

 

O livro demora, no entanto, mais de 170 de suas quase trezentas páginas  para apresentar a trama. Brunetti passeia, come, bebe, ouve uma denúncia imprecisa de uma freira, conversa com meia dúzia de pessoas. E o leitor lá, à espera.

 

Quando a narrativa parece que vai deslanchar, surgem novas interrupções e mais histórias tentam desviar a atenção de quem acompanha, meio aparvalhado, a imensa quantidade de personagens, lugares e tramoias mencionadas. Rocambolesco e oco.

 

Na hora do desfecho, novamente o leitor é pego numa armadilha — esta, porém, não contarei para não revelar o fim — e se dá conta, de uma vez por todas, que o livro foi mal estruturado, mal desenvolvido e mal escrito. Vários problemas de tradução e a revisão descuidada, que deixou passar mais de dez erros de regência verbal, também não ajudam.

 

Enfim…

 

O fato é que a leitura de Enquanto eles dormiam talvez sirva apenas como uma lembrança de que o mesmo gênero ou subgênero que contou com Poe, Chesterton, Borges, Vázquez Montalbán e tantos outros também inclui uma quantidade assombrosa de vícios e de clichês.

 

Que sua exposição tão crua nos ajude a aprender a evitá-los.

 

 

Donna Leon. Enquanto eles dormiam. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (original: 1997; tradução: Carlos Alberto Bárbaro)

 

 

Paisagens da Crítica comentou dois outros romances de Donna Leon:

Vestido para morrer, em 26.9.2006

Morte e julgamento, em 11.2.2008

 

Clique nos títulos dos livros se quiser lê-los.

 

 

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A intermitência, de Andrea Camilleri

 

A intermitência é dos livros mais soturnos de Andrea Camilleri.

 

Numa história simples, empresários disputam dinheiro grosso, em meio a vidas atarefadas, corridas, autocentradas.

 

Nenhum personagem tem nada que se pareça a escrúpulo. A lógica que dirige suas ações e jogos, quase sempre subterrâneos, é a ambição. As relações pessoais são atravessadas de individualismo atroz e, também nesse campo, todos carecem de preocupação com o próximo.

 

O próprio título do livro — que talvez pudesse ser traduzido por “intervalo” ou “interregno”, além de “intermitência” — manifesta o caráter provisório do que é narrado. Ou, pelo menos, da trama específica, da disputa conjuntural em torno da venda de uma indústria e dos embates entre executivos de um grande conglomerado empresarial.

 

É como se o olhar do narrador, onisciente, observasse por algumas semanas o quotidiano dos personagens e, passado esse período, se desinteressasse deles porque nada mais poderia ser sabido. Eles, afinal, são tão regulares, tão previsíveis, tão ocos de profundidade psicológica ou social, que um recorte cronológico limitado explica integralmente suas vidas.

 

O resto é tristeza, é vazio. Resta a forte impressão de que o mundo que nos rodeia carece de substância, carece de valores. Sobra-lhe, em contrapartida, excessiva frieza e ganância.

 

O leitor, enredado no texto sempre ágil do siciliano, chega a se envolver na história e torce pelo personagem central, mesmo sabendo que ele representa a antítese de qualquer humanismo e solidariedade. Mesmo sabendo-o mesquinho.

 

Será um espelho tenebroso do que vivemos, daquilo a que assistimos e, pior, a que nos acostumamos?

 

Tomara que não. São, antes, armadilhas de uma narração bem feita, concisa, convicta. Camilleri pode apresentar a sociedade numa perspectiva pérfida — ecos da Itália berlusconiana? —, mas não deixa de estruturar o romance com precisão.

 

Melhor, então: você consegue, ao final do livro, enxergar beleza — a da construção literária — no que é repulsivo: o mundo, sem mistificações.

 

 

Andrea Camilleri. L’intermittenza. Milão: Mondadori, 2010

 

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros quinze livros de Andrea Camilleri.

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010.

 

Clique nos títulos dos livros para lê-las.

 

 

O sonho do celta, de Mario Vargas Llosa

O sonho do celta deixa o leitor encafifado: por que, afinal de contas, o romance histórico é hoje tão malvisto?

 

Quase todas as resenhas do novo livro de Mario Vargas Llosa bateram na mesma tecla. Algumas o elogiaram, outras o espinafraram, outras ainda foram cuidadosamente distantes. Nenhuma, porém, esqueceu de lembrar que a fórmula a que ele recorre vem do XIX e talvez não caiba mais nos dias atuais. Será mesmo? Por quê?

 

Claro que a discussão é longa, já contou com a participação de críticos de grandes e pequenos calibres, esteve em obras inesquecíveis e obras esquecidas. Ela inclui debates sobre o próprio conceito de romance, ocasionais vínculos políticos e sociais de tramas e autores e, claro, sobre a importância das transformações e dos experimentos por que o gênero passou no século XX.

 

Mas peço licença ao leitor e, pretensioso, levanto aqui uma lebre. Lebre pequena, mas sempre lebre. Não é curioso que se insista tanto na morte e sepultamento, no anacronismo do romance histórico? Se já se vão uns dois séculos desde seu surgimento e mais de um desde o suposto esgotamento, por que é preciso repetir a oração fúnebre?

 

E já que uma lebre nunca vem só, levanto logo outra. De que romance histórico estamos falando e por que não tem lugar num tempo — o nosso — que, mais do que nunca, deveria se preocupar com a historicidade dos homens e de suas circunstâncias?

 

Vargas Llosa, sabe-se, tem algumas obsessões literárias. A pesquisa exaustiva é uma delas. Para escrever O sonho do celta, ele revirou não sei quantos arquivos, entrevistou gente em meio planeta, leu longa bibliografia. O objetivo era reconstruir a trajetória de um personagem incrível: o irlandês Roger Casement.

 

Casement viveu num mundo de sonhos ambiciosos e de farta ambição material. Um mundo que encantava e, com igual facilidade, desprezava seus herois. O século XIX da colonização europeia da África, do avanço expansionista, dos nacionalismos à flor da terra.

 

Casement denunciou a barbárie no Congo Belga e, assim, deu o impulso inicial para que Joseph Conrad escrevesse o mais impressionante — o adjetivo é de Borges, mas quem discordaria? — relato de todos os tempos: O coração das trevas.

 

Casement denunciou a exploração dos indígenas na extração da borracha na Amazônia peruana, mostrando ao mundo que a crueldade não era unívoca, nem localizada: estava dos dois lados do Atlântico, corria de norte a sul.

 

Casement afastou-se da diplomacia britânica — a mesma que o levara à África e à América — e mergulhou na epopeia nacionalista e católica, participando de movimentos legais e clandestinos pela independência irlandesa.

 

Casement foi julgado como traidor e sentenciado à morte pelo Império que, durante décadas, representara.

 

Casement, preso, homossexual, foi alvo de campanhas difamatórias, que o acusaram de todo um repertório de atos obscenos e conduta pornográfica.

 

Casement, Casement, Casement: retrato de um século, com suas conquistas tecnológicas e guerras brutais. Isolado na cela, ele relembra, em capítulos que se alternam com o relato da vida toda, partes do mundo que viveu. Traz o mundo na cabeça e sua cabeça, diria Canetti, continua a percorrer o mundo que, aparentemente, quer se livrar dele.

 

Claro que Vargas Llosa mantém o leitor, até a última linha, na dúvida sobre o quanto há de verdade e o que há de mentira na história narrada. Esta, de resto, é outra de suas obsessões: mostrar o terreno pantanoso por onde caminha a literatura e seu gesto criador de verdades por meio de um roteiro repleto de mentiras. Com quantas mentiras construímos — pergunta(-se) o peruano — as principais verdades? Por que a invenção de uma verdade pessoal ou coletiva depende da criação e do cultivo cuidadoso dos mitos?

 

Certo: o compromisso da ficção é com a imaginação, mas, quando a imaginação penetra surdamente no reino da história, que resíduo nos resta?

 

‘Heroi e mártir’, pensa Casement numa dada altura do romance, ‘não é um protótipo abstrato’. Tampouco ficção e história, associadas, resultam em abstrações. Se pretendemos, de fato, pensar o tempo que vivemos e o passado que nos espreita, não é a ficção um caminho poderoso de reconstrução do vivido?

 

Talvez o enorme volume de informações que o romance traz obscureça um pouco seus temas centrais, construa um protocolo de verossimilhança exagerado e leve tanta gente a lê-lo como “mais um romance histórico”, como uma tentativa de despertar um gênero — ou subgênero, se preferirem — moribundo.

 

No entanto, o propósito pode ser justamente o oposto: mostrar que é preciso perceber que esse atestado de óbito, emitidos por tantos críticos, pode ter sido precipitado e equívoco. Que a história continua vivendo na fronteira porosa e instável da ficção e é ininterruptamente recriada por ela. Que Vargas Llosa abandonou o experimentalismo narrativo dos anos 1960-70, mas ainda é um grande e surpreendente romancista. Que (repito), mais do que nunca, é perigoso rejeitar o reconhecimento crítico do passado.

 

Mario Vargas Llosa. El sueño del celta. Buenos Aires: Alfaguara, 2010.

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros dois livros de Mario Vargas Llosa:

Cartas a um jovem escritor (em 18 de agosto de 2006) e

Travessuras da menina má (em 12 de setembro de 2006).

 

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