As vozes do sótão, de Paulo Rodrigues

As vozes do sótão confirma a célebre assertiva borgeana de que aos homens e ao Tempo agradam as simetrias e as repetições. E ainda outra certeza repetida por Borges: a de que toda vida, intensa ou medíocre, tem um momento decisivo, a hora que cifra todas as demais.

Assim é a trajetória ambígua de Damiano, personagem central. Emparedado e confuso no Brasil, angustiado e insólito no Uruguai. Ansioso e assustado diante das agruras familiares na origem, com mãe e irmão atordoantes, mulher não confiável; atormentado pela iminência da traição no lugar de refúgio, onde se chama Guido e inventa um família fictícia, igualmente temerária.

Paulo Rodrigues, escritor bissexto mas fundamental, conta a história de Damiano-Guido na transição entre dois mundos e, paralelamente, a história das vozes que ora o enraivecem, ora o acalentam: Damiano-Guido que, em seu desassossego, se isola, perde o controle da vida que queria serena, tenta sempre retornar a um fictício tempo de harmonia e decai — é irreversível — mais e mais.

O belo projeto gráfico do livro desenha os dois tempos e lugares da narrativa variando as cores de letras e páginas, encaixando aqui e ali imagens em negativo de uma caderneta de anotações. Corresponde, assim, ao negativo maior do personagem principal, cuja trajetória é parcialmente interrompida por outro narrador, consciente, que sintetiza para o leitor os momentos que definem sua história.

E Damiano-Guido segue, então, impávido, para o desfecho fatal que se insinua desde o princípio, para o reconhecimento da impotência diante do mundo e das forças — que forças? — que as vozes soturnas insinuam.

Uma pena que Paulo Rodrigues só publique de vez em quando. No sótão da atual ficção brasileira, é uma voz, sem trocadilhos, importante.

Paulo Rodrigues. As vozes do sótão. São Paulo: Cosac & Naify, 2010

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São Francisco de Assis, de Jacques Le Goff

São Francisco de Assis pode, à primeira vista, decepcionar — o livro, não o santo. Sobretudo a quem espera uma biografia.

Porque a obra de Jacques Le Goff é, na verdade, uma reunião de quatro ensaios, escritos em momentos diferentes e publicados originalmente em periódicos franceses ou italianos de circulação restrita. E apenas o segundo ensaio (“À procura do verdadeiro São Francisco”) é propriamente biográfico, ou quase.

Nele, Le Goff não se baseia em pesquisa direta sobre a vida, privilegiando outras biografias e analisando, aqui e ali, documentos deixados por São Francisco. O ensaio é breve, objetivo e tenta encontrar sentidos da ação do santo em meio à complexa trama do catolicismo da época.

O primeiro ensaio (“Francisco de Assis entre a renovação e os fardos do mundo feudal”) caracteriza o incrível impulso da Europa ocidental no final do século XII, o forte crescimento econômico e a emergência de um novo conceito de cidade — espaço político e comercial que a pregação franciscana identificará prioritariamente e ao qual se devotará.

Após inserir o personagem Francisco nesse cenário — e com os apontamentos biográficos no segundo ensaio —, Le Goff pesquisa, no terceiro texto, as categorias sociais e o impacto da ação franciscana, segundo a visão de seus precoces biógrafos (a primeira biografia do santo foi escrita apenas dois anos após sua morte), e a construção de modelos culturais derivados do franciscanismo (quarto ensaio).

O caráter fragmentário do livro mostra, assim, a que veio: o São Francisco que emerge, mais do que o personagem central de uma biografia, é o eixo de uma mudança profunda nas concepções predominantes do cristianismo e, por decorrência, nas práticas sociais do ocidente.

O balanço da trajetória de um homem decisivo e de seu tempo, nesse sentido, procura definir a perspectiva a partir da qual é possível avaliar o que restou do franciscanismo para os contemporâneos, bem além das bulas papais ou determinações eclesiásticas. Um franciscanismo que foi capaz de corresponder à acelerada mudança histórica que viveu e, ao mesmo tempo, lançar luzes sobre o advento tão futuro da modernidade, insinuada nas práticas que dissolviam as fronteiras entre leigos e religiosos e definiam o valor da experiência e do exemplo.

O leitor percebe, então, que o fato de não se tratar de uma biografia é secundário: a análise delicada e incisiva do medievalista compõe um panorama do início do século XIII que ultrapassa qualquer perfil individual.

Ao final do livro, a conclusão é inevitável: a decepção do início foi um erro. E Le Goff, que já havia biografado um outro santo, o guerreiro e heróico Luis IX, mostrou um São Francisco de difícil classificação e, talvez por isso, não captável pelos instrumentos regulares de uma biografia.

Jacques Le Goff. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro: Record, 2010 (original: 1999; tradução; Marcos de Castro)

Na linha de frente, de Lawrence Block

Na linha de frente é mais um policial que saiu da imensa fábrica de Lawrence Block.

O livro foi originalmente publicado em 1989, chegou ao Brasil agora e é absolutamente igual a todos os outros romances de Block. Isto — esclareça-se — não é uma crítica; é uma constatação e quase um elogio.

Porque 90% da ficção policial é horrível (aqueles livrinhos de autoria indefinida, vendidos em bancas de jornal), 8% é ruim (exemplos? Fred Vargas, Leonardo Padura Fuentes, Tony Belloto…) e 1% é bom ou excelente (Rex Stout, Manuel Vázquez Montalbán, Andrea Camilleri, Luiz Alfredo Garcia-Roza…).

Block pertence ao 1% restante: aquele que descobriu uma fórmula e a executa com maestria, espécie de fast-food de primeira — se é que isso existe. A tradição que Agatha Christie e Georges Simenon levaram às últimas  consequências.

Vez ou outra Block se sai com um belo romance — Cidade pequena é o exemplo. No resto do tempo, a maquinaria de sua imaginação expele livros idênticos, que prendem o leitor por uma hora e meia e são esquecidos uma hora e meia depois de encerrada a leitura.

Na linha de frente é destes e, repito, isso é um elogio: ele está no top-2% do gênero.

No caso, trata-se de uma aventura de Matthew Scudder, um de seus personagens-detetives. Scudder representa, na obra de Block, a vertente hard-boiled, ou quase: narrativa policial mais inspirada em Dashiel Hammett do que em Edgar Allan Poe, mais ação do que reflexão, mais bares do que bibliotecas.

E Scudder carrega uma peculiaridade: é alcoólatra, frequenta reuniões do AA e distribui esmolas fartamente (seu dízimo pessoal, trocado em notas de um dólar e partilhado entre os pedintes que encontra pelas ruas).

Neste romance ele está especialmente preocupado com bebidas e poucas são as páginas em que não há menção aos passos, às regras ou aos encontros dos AA. Cansa um tiquinho e dá a impressão de que o livro poderia ter um quinto de seu tamanho e já seria suficiente.

Provavelmente seria mesmo. No entanto, esses policiais modelares precisam de todo um aparato lateral, acessório essencial para envolver o leitor. Na falta de uma história consistente, essas pequenas iscas fazem o leitor partilhar um pouco do quotidiano, mesmo se vazio, dos personagens. Nisso Block é mestre.

Por isso, não perco um livro dele. E depois escrevo aqui comentários sempre parecidos uns com os outros…

Lawrence Block. Na linha de frente. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (original: 1989; tradução: Julia Romeu)

Paisagens da Crítica já publicou outros comentários sobre livros de Lawrence Block. Clique no nome do livro para lê-lo:

Quando nosso boteco fecha as portas (19.1.2006)

O ladrão no armário (12.10.2007)