As vozes do sótão, de Paulo Rodrigues

As vozes do sótão confirma a célebre assertiva borgeana de que aos homens e ao Tempo agradam as simetrias e as repetições. E ainda outra certeza repetida por Borges: a de que toda vida, intensa ou medíocre, tem um momento decisivo, a hora que cifra todas as demais.

Assim é a trajetória ambígua de Damiano, personagem central. Emparedado e confuso no Brasil, angustiado e insólito no Uruguai. Ansioso e assustado diante das agruras familiares na origem, com mãe e irmão atordoantes, mulher não confiável; atormentado pela iminência da traição no lugar de refúgio, onde se chama Guido e inventa um família fictícia, igualmente temerária.

Paulo Rodrigues, escritor bissexto mas fundamental, conta a história de Damiano-Guido na transição entre dois mundos e, paralelamente, a história das vozes que ora o enraivecem, ora o acalentam: Damiano-Guido que, em seu desassossego, se isola, perde o controle da vida que queria serena, tenta sempre retornar a um fictício tempo de harmonia e decai — é irreversível — mais e mais.

O belo projeto gráfico do livro desenha os dois tempos e lugares da narrativa variando as cores de letras e páginas, encaixando aqui e ali imagens em negativo de uma caderneta de anotações. Corresponde, assim, ao negativo maior do personagem principal, cuja trajetória é parcialmente interrompida por outro narrador, consciente, que sintetiza para o leitor os momentos que definem sua história.

E Damiano-Guido segue, então, impávido, para o desfecho fatal que se insinua desde o princípio, para o reconhecimento da impotência diante do mundo e das forças — que forças? — que as vozes soturnas insinuam.

Uma pena que Paulo Rodrigues só publique de vez em quando. No sótão da atual ficção brasileira, é uma voz, sem trocadilhos, importante.

Paulo Rodrigues. As vozes do sótão. São Paulo: Cosac & Naify, 2010

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