Na linha de frente, de Lawrence Block

Na linha de frente é mais um policial que saiu da imensa fábrica de Lawrence Block.

O livro foi originalmente publicado em 1989, chegou ao Brasil agora e é absolutamente igual a todos os outros romances de Block. Isto — esclareça-se — não é uma crítica; é uma constatação e quase um elogio.

Porque 90% da ficção policial é horrível (aqueles livrinhos de autoria indefinida, vendidos em bancas de jornal), 8% é ruim (exemplos? Fred Vargas, Leonardo Padura Fuentes, Tony Belloto…) e 1% é bom ou excelente (Rex Stout, Manuel Vázquez Montalbán, Andrea Camilleri, Luiz Alfredo Garcia-Roza…).

Block pertence ao 1% restante: aquele que descobriu uma fórmula e a executa com maestria, espécie de fast-food de primeira — se é que isso existe. A tradição que Agatha Christie e Georges Simenon levaram às últimas  consequências.

Vez ou outra Block se sai com um belo romance — Cidade pequena é o exemplo. No resto do tempo, a maquinaria de sua imaginação expele livros idênticos, que prendem o leitor por uma hora e meia e são esquecidos uma hora e meia depois de encerrada a leitura.

Na linha de frente é destes e, repito, isso é um elogio: ele está no top-2% do gênero.

No caso, trata-se de uma aventura de Matthew Scudder, um de seus personagens-detetives. Scudder representa, na obra de Block, a vertente hard-boiled, ou quase: narrativa policial mais inspirada em Dashiel Hammett do que em Edgar Allan Poe, mais ação do que reflexão, mais bares do que bibliotecas.

E Scudder carrega uma peculiaridade: é alcoólatra, frequenta reuniões do AA e distribui esmolas fartamente (seu dízimo pessoal, trocado em notas de um dólar e partilhado entre os pedintes que encontra pelas ruas).

Neste romance ele está especialmente preocupado com bebidas e poucas são as páginas em que não há menção aos passos, às regras ou aos encontros dos AA. Cansa um tiquinho e dá a impressão de que o livro poderia ter um quinto de seu tamanho e já seria suficiente.

Provavelmente seria mesmo. No entanto, esses policiais modelares precisam de todo um aparato lateral, acessório essencial para envolver o leitor. Na falta de uma história consistente, essas pequenas iscas fazem o leitor partilhar um pouco do quotidiano, mesmo se vazio, dos personagens. Nisso Block é mestre.

Por isso, não perco um livro dele. E depois escrevo aqui comentários sempre parecidos uns com os outros…

Lawrence Block. Na linha de frente. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (original: 1989; tradução: Julia Romeu)

Paisagens da Crítica já publicou outros comentários sobre livros de Lawrence Block. Clique no nome do livro para lê-lo:

Quando nosso boteco fecha as portas (19.1.2006)

O ladrão no armário (12.10.2007)

13 pensamentos sobre “Na linha de frente, de Lawrence Block

  1. eu adoro livros policiais e nunca li nenhum desse autor. um elogio vindo de sua parte é sempre um convite a ler. comprei a primeira mulher de miguel sanches neto. está na minha caixa mágica de livros a ler. atualmente estou lendo cisnes selvagens da jung chang, autora chinesa. beijos, pedrita

    • Pedrita,
      tudo bem?
      Teste o Lawrence Block.
      Já “A primeira mulher” é um belo livro, que passou meio despercebido, infelizmente.
      Beijos,
      Júlio

    • Pedrita,
      aproveite, então.
      Beijos,
      Júlio

      Elisangela,
      obrigado.
      Prometo fazer o possível para reclassificar a Fred Vargas… rs
      Beijos,
      Júlio

  2. Adoro o bebum do Block!! Gostei da análise, não poderia ser difernte: Block é competente na escrita apesar de todos os seus enredos serem idênticos. Agora, faz favor de repensar sua classificação da Vargas vai, rsrsrsrs, gosto do estilo esquizofrênico sofrido pseudo historiador dela, e não perco nenhum. Beijos. Elis

  3. Comentários verdadeiros.

    Sem problemas.

    Martinho da Vila só fez um samba, os outros repetições.

    Andrea Camilieri idem. Idem.

    Jorge Amado, escreveu um romance. Os outros .. repetições.

    Milton Gurgel Filho

    • Milton,
      tudo bem?
      Desculpe-me a demora na liberação do comentário. Estava viajando.
      Repetições com variações: quanto da literatura não é assim? Interessante é pensar em que dobra a repetição varia.
      Abraços,
      Júlio

  4. O interessante desse livro é que nele há a “estréia” do Mick Ballou, assim como em outros livros mostram como Matthew Scuder conheceu outros personagens que se tornam recorrentes. Há, inclusive, um livro que um personagem recorrente morre.

  5. Eu achei esse livro muito fraco. Não criei nenhuma simpatia pelo protagonista, que chega a ser irritante com a história de estar lutando contra o álcool e de dar esmolas. Você fica o livro inteiro com a sensação de que tá lendo um monte de ironias forçadas sobre as bizarrices do comportamento humano, por causa da visão pretensamente fria e conformista que Scudder tem da humanidade.
    O desencadeamento da investigação chega a ser precário. O que se comprova quando o desfecho do livro não é o desfecho da investigação. Aliás, esse desfecho surpreendente me deixou com a sensação que eu tive quando vi os desfechos de filmes de terror pra adolescente (Pânico, Lenda Urbana e etc).
    Foi o primeiro e último livro q li desse cara e duvido muito q vá ler outro.

    E discordo completamente do blogueiro. Esse livro não tá no 1%

    • Fernando,
      obrigado por seu comentário.
      A brincadeira com as porcentagens é por conta de uma miríade de narrativas policiais – mais de 90%, sem dúvida – cuja autoria verdadeira nem é conhecida. Aqueles livrinhos de banca de jornal (além dos policiais, há também os de ficção científica, os românticos, os faroestes) que são feitos segundo um molde rígido e publicados sob pseudônimo.
      Na verdade, não incluí Block no “1% bom ou excelente”, o coloquei no “1% restante”, eliminados os 90% horríveis, os 8% ruins e o 1% bom ou excelente. Descrevi a “faixa” de Block como “daqueles que descobriram uma fórmula e a executam com maestria, espécie de fast-food de primeira.”
      De qualquer forma, e brincadeiras à parte, ele é impressionantemente regular e superior à imensa maioria do que se publica no gênero.
      Abraços,
      Júlio

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