podcast: Ahmadinejad na ONU

 

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre o discurso de Ahmadinejad na ONU e a diplomacia brasileira.

 

O comentário foi ao ar na segunda-feira, dia 27 de abril.

 

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/27-04-09_comentario_julio_pimentel_pinto.mp3

 

teatro: Borges em cena

 

 

 

A peça Memória do Mundo, de João Paulo Lorenzon, volta nessa semana.

 

Para quem perdeu as apresentações no Itaú Cultural e na Casas das Rosa, é uma chance e tanto para assistir a esse ótimo monólogo, baseado na obra de Jorge Luis Borges.

 

A nova temporada será apresentada aos sábados (às 19 e às 21) e domingos (às 18 e às 20), entre 2 de maio e 28 de junho, no Viga Espaço Cênico, à rua Capote Valente, 1323.

 

Vale (muito) a pena.

 

 

A idade da dúvida, de Andrea Camilleri

 

A idade da dúvida – L’età del dubbio – veio matar a saudade das aventuras do Comissário Salvo Montalbano.

 

Montalbano é o personagem mais famoso da atual ficção policial italiana. E ele começou sua carreira literária meio por acaso. Seu autor, Andrea Camilleri, o criou para que fosse apenas o protagonista de A forma da água, em 1994. Deu certo e prosseguiu.

 

De lá para cá foram 14 romances, mais de cinqüenta contos e uma dúzia de novelas. Algumas histórias viraram filme e a maioria delas foi traduzida para outras línguas. A cada lançamento, expectativa grande dos leitores e tiragens cada vez maiores. No Brasil, já foram publicados os sete primeiros romances e o nono – pularam o oitavo, sabe lá Deus por que.

 

Montalbano envelhece a cada história e a velhice bate. No umbral dos 60 (está com 58), vive a idade da dúvida do título. Tudo parece fora do prumo, e dessa vez não é a Itália berlusconiana que o abala. São seus dilemas íntimos. À semelhança dos volumes anteriores, o namoro com Livia, sua eterna namorada genovesa, é apenas um retrato na parede, cada vez mais apagado. A descrença na instituição policial é alimentada pela burocracia e incompetência galopantes.

 

No entanto, quanto mais envelhece, mais Montalbano volta à adolescência. Apaixona-se e fica paralisado, sem saber o que fazer. Oscila diante das decisões a serem tomadas e se afunda em longos e inférteis pensamentos. Conta pequenas e desnecessárias mentiras que rapidamente o colocam em situações difíceis. Continua a agir infantilmente e a deixar um ou outro sonho abalá-lo.

 

Chega a cansar o leitor com longos diálogos consigo mesmo e demoradas e repetidas descrições de estados de alma. Mais do que nunca, suas investigações são movidas pelo humor instável. O apetite – sua marca registrada – também sobe e desce em função das incertezas pessoais. Nas melhores horas, come quantidades industriais de trilhas e lulas fritas; nos maus momentos é capaz de esquecer no forno uma fabulosa massa recheada.

 

Em meio a tantas dúvidas, Montalbano perde o humor. Seu personagem provoca raros risos no leitor, que passa a depender de outros personagens (Mimì Augello ou o impagável Catarella) para perceber que, em Camilleri, o policial se divisa com o risível.

 

Só sua capacidade investigativa se mantém igual, e ele desbarata um intrincadíssimo caso, que ultrapassa as fronteiras de Vigatà. Mas perde a empatia com o leitor. Tomara a recobre no próximo volume.

 

Andrea Camilleri. L’età del dubbio. Palermo: Sellerio, 2008

 

Paisagens da Crítica comentou, entre o endereço velho e no novo, outros dez livros de Andrea Camilleri. Clique no link do nome do livro se quiser ler os comentários:

 

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006

 

Leite derramado, de Chico Buarque

 

Leite derramado exige, antes de qualquer comentário, uma conversa prévia. A dois, apenas: você, leitor, e eu.

 

Imagine que você acabou de chegar de um lugar intocado pela poderosa máquina de divulgação dos lançamentos da editora. Talvez de um país estrangeiro.

 

Imagine, também, que você é alheio às notícias do mundo do entretenimento e da música popular; que só conhece a clássica e, vá lá, o jazz.

 

Imagine, ainda, que você não tem vínculo político com qualquer grupo político, nem se interessa pela instrumentalização da ficção ou pelo repertório de valores, mitos e crenças de partidos, facções e panelinhas acadêmicas.

 

Imagine, finalmente, que você gosta de ler e tem algum conhecimento da ficção produzida no ocidente nos últimos, digamos, cinqüenta anos.

 

Imagine, para completar (ufa!), que você pousou nesse instante, vindo desse lugar inimaginável, e caiu numa livraria, onde comprou Leite derramado. Curioso diante da capa sóbria e duplicada e da bela edição, você resolve lê-lo – afinal, desconectado da mídia e dos clubismos, sobra-lhe bastante tempo para que leia tudo, ou quase tudo, que lhe chega perto.

 

E você o lê, do princípio ao fim, sem saltar uma palavra ou um capítulo.

 

Agora, me diga: o que achou?

 

Sei: a leitura é fluida e agradável. Que bom! O autor sabe, sobretudo, criar e manejar metáforas e é a predominância delas que caracteriza seu estilo. A ponto de impor-se sobre o desenvolvimento da trama e compensar os vazios na estrutura narrativa. É?

 

Entendi: você acha que é um bom livro, que vale pelo divertimento das duas ou três horas que dura a leitura. Que beleza! Mas como assim “vai esquecê-lo logo”? Por quê?

 

Ah, você achou que o título é um clichê? E que os personagens são caricaturais e superficiais? Sei, sei. E também achou que a fragmentação do relato e a variação entre temporalidades são recursos inteligentes, mas meio óbvios? Que eles facilitam a escritura porque tornam desnecessário o encadeamento da narrativa? Entendi, entendi.

 

Mas me conte uma coisa, leitor imaginário: você não acha que só um gênio literário pensaria colocar a voz narrativa num personagem moribundo que, ainda por cima, simboliza a elite decadente de um país miserável?

 

Não acha? Como não?

 

Ah, a ficção está cheia de leitores moribundos que alternam temporalidades em seu relato do passado? Ah, Philip Roth escreveu, faz pouco tempo, um livro exatamente assim? Não diga! E o narrador de Philip Roth é mais complexo e sua narrativa, bem melhor articulada. Puxa…

 

Mas lhe garanto, leitor querido, que Roth não colocou seu personagem na história. Tenho certeza de que ele se manteve no registro da intimidade, nunca no terreno pantanoso do coletivo! Ah, colocou? E a história não precisava ser ostentada para que o leitor percebesse? Claro, claro. Só que isso exige um leitor mais atento, não é? Bom, pelo menos nesse ponto concordamos.

 

De qualquer forma, caro leitor imaginário, a perspectiva sobre a elite hegemônica decadente é corrosiva, não é?

 

É mesmo? Você não achou? O quê? Carlos Fuentes já fez isso, há quase cinqüenta anos? E sua história não facilitava a leitura porque exigia mais reflexão e argúcia do leitor? Nossa! Além disso, o livro de Fuentes não era previsível? Por quê? Você achou Leite derramado previsível? Não brinque: já tinha clareza do que ia acontecer  desde o terceiro ou quarto capítulo? E mesmo assim foi até o fim?

 

Sei: você gosta de ler e continua a achar que se divertiu durante a leitura. Ah, você acha que a leitura não vale apenas quando estamos diante de um tremendo livro? Bem, nesse ponto também concordamos.

 

Só que agora vou lhe contar uma coisa, leitor imaginário e, óbvio, impossível.

 

O autor do livro é um conhecido e importante compositor da música popular brasileira. Letra e música. Já escreveu outros livros. A maioria deles, inexpressiva. Mas, no último, fez uma história bem elaborada, inventiva e inteligente. Chegou a ganhar prêmios por causa dele. O livro se chamou Budapeste. E lhe asseguro: era mesmo muito bom. Não, nem de perto chegou a ser o melhor daquele ano, mas era muito bom.

 

E digo ainda mais: o lançamento de Leite derramado contou com uma inacreditável cobertura da imprensa brasileira. Já vendeu muito e venderá muito mais. Ganhará prêmios e será traduzido para inúmeros idiomas, talvez até para o húngaro, única língua que o Diabo respeita – coisa que aprendi, aliás, em Budapeste.

 

Se não bastasse, a maior parte das resenhas elogiou Leite derramado. Houve até quem o comparasse a Machado de Assis. Você conhece Machado de Assis? Conhece e não vê como alguém possa associar um e outro? Puxa, leitor, nem sei o que dizer. Achei que era verdade…

 

Agora confesso que fiquei confuso. Sei lá. Acho que vou ter que ler o livro para ver se você tem mesmo razão ou se é apenas intolerante e, diriam alguns, elitista.

 

Sou capaz até de ler Indignation e A morte de Artemio Cruz para ver se de fato têm tanto em comum, embora anteriores e superiores a Leite derramado.

 

Mas ler três livros é duro. Não sei se agüento. Pouca gente no Brasil faz isso. Esse, afinal, é um país que tem que crescer. Quanto tempo isso vai me tomar? Não dá para perder tanto tempo lendo. E para quê, afinal? Se quase todo mundo diz que Leite derramado é bom, claro que é. Para isso é que existe a crítica: para orientar os leitores, ora.

 

Claro! E mais fácil do que ler três livros (e dois deles, ainda por cima, são complexos: vai demorar…) é concordar com os resenhistas. Ou ouvir uma boa música, bem cheia de metáforas, coisa que dá para fazer até de olho fechado. E, em vez de imaginar leitores críticos, imaginar um mundo em que Leite derramado seja eleito o melhor livro do ano.

 

Tem mais chance de virar realidade.

 

Chico Buarque. Leite derramado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009

 

3 livros de Anthony Bourdain

 

Cozinha confidencial, Em busca do prato perfeito e Maus bocados são três livros de Anthony Bourdain, chef da brasserie novaiorquina Les Halles e responsável por um programa de TV que o mostra viajando pelo mundo e comendo de tudo. Em resumo, o emprego que todos gostaríamos de ter.

 

Li os livros tardiamente e fora de ordem. Comecei por Maus bocados, de 2006, prossegui com Cozinha confidencial (2000) e fechei com Em busca do prato perfeito, de 2001. As edições brasileiras dos três saíram com pequenos atrasos em relação às originais.

 

Cozinha confidencial provocou um terremoto na imprensa quando foi lançado, chamou atenção para seu autor e provocou polêmica. Tem forte entonação autobiográfica e mostra a trajetória de Bourdain, menino malcriado que, ao provar uma ostra, descobriu que comida é bom, pode até ser mágico.

 

Da infância aos primeiros empregos e às primeiras experiências de vida de fato vivida: lavar louça, ganhar uns trocados, buscar mulheres, cigarros, bebidas e drogas. Tudo em grandes proporções. Depois, começar a cozinhar um pouco para ganhar mais trocados, buscar mais mulheres, mais cigarros, mais bebidas e mais drogas. Em proporções maiores.

 

Assim seguiu até o enredamento no mundo da gastronomia, a passagem, já como chef, por vários restaurantes (bons, médios, horríveis ou muito bons), a descrição de personagens incríveis do mundo gastronômico de Nova York e, claro, mulheres, cigarro, bebidas e drogas. Sobrou uma internação para se livrar da heroína e um consistente vício de cocaína. Nunca abandonou o cigarro – de qualquer cor, cheiro ou recheio. Muito menos a cerveja e a vodca, consumida maciçamente. Sobreviveu.

 

O que mais atraiu a imprensa e os leitores em Cozinha confidencial, porém, não foi sua vida junkie e meio bandida. Foi o relato cru de algumas práticas de restaurantes: do reaproveitamento ininterrupto de restos de mesas à assustadora montagem de um bufê, dos mecanismos mafiosos de fornecimento de ingredientes ao perigo de comer peixe numa segunda-feira. Deu o que falar – e o que temer. Ainda mais depois que outros chefs confirmaram, com o cuidado de relativizar uma coisa ou outra, o que Bourdain contara.

 

Em busca do prato perfeito já trouxe um Bourdain bem conhecido, que aceita participar de um programa da Food Network. Passa, então, a viajar pelo mundo, teoricamente com o objetivo indicado no título, e a descrever o que come e onde come. Os relatos assumem, cá e lá, entonação antropológica. Não se fala apenas de comida, mas da comida no seu contexto – que, na prática, quer dizer comida de verdade. Ele mostra os horrores (não apenas alimentares) do Cambodja, come o melhor sushi de sua vida no Japão (no sistema antigo, com arroz quente e os grãos de cada peça calculados) e descreve o fascinante e aterrorizante ritual de matar um porco (e de aproveitá-lo integralmente) em Portugal. Lembra o prazer da limitada (no número de pratos) e ilimitada (nos sabores e nos preparos) comida marroquina e dos miúdos ingleses. Também conta quão desagradável pode ser comer uma iguana no México, país de onde afirma saírem quase todos os bons cozinheiros novaiorquinos. E a maravilha de comer uma cobra inteira (do sangue aos ossos) no Vietnã.

 

O Vietnã, aliás, é o personagem principal do livro, descrito em mais de um capítulo. O Vietnã que resistiu a inúmeros invasores e manteve o orgulho. O Vietnã dos frutos do mar incomparáveis no frescor e no sabor. O Vietnã de frutas que nos fazem salivar sobre as páginas do livro.

 

Maus bocados, de alguma maneira, retomou a toada de Em busca do prato perfeito. É, porém, menos interessante e mais repetitivo. Mantém a antropologia acidental e, com ela, produz seus melhores textos. Sua descrição de São Paulo, por exemplo, denota uma afiada agulha dos sentidos. Mas Bourdain é sempre melhor quando fala de comida. Até para que esqueçamos sua fraca ficção, ensaiada na parte final do livro e em outras obras. Ou para evitar que o personagem que criou desde Cozinha confidencial – espécie de outsider gastronômico, mas que é chef de um restaurante na Park Avenue – não se torne apenas caricato ou populista, com sua celebração do mundo bandido de Nova York e a defesa, à la anos 60, de que o tripé álcool-drogas-rock-and-roll é libertador.

 

De qualquer forma, vale a leitura dos três livros. Se for fora de ordem, começando pelo último e menos interessante, melhor. No mínimo, descobre-se muita coisa sobre o mundo que nos rodeia, o chão que pisamos e, mais importante, ganham-se mais argumentos na recusa do que há de pior no mundo das comidas e inimigo mortal de Bourdain: o vegetarianismo.

 

Anthony Bourdain. Cozinha confidencial. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (original: 2000; tradução: Beth Vieira)

Anthony Bourdain. Em busca do prato perfeito. São Paulo: Companhia das Letras, 2003 (original: 2001; tradução: Luiz Horta)

Anthony Bourdain. Maus bocados. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (original: 2006; tradução: Celso Paciornik)

 

Gomorra, de Roberto Saviano

Gomorra fez muito barulho quando foi lançado – tanto na Itália, em 2006, quanto no Brasil de 2008.

Com razão. Seu autor – o jornalista Roberto Saviano – foi assombrosamente corajoso ao se infiltrar na Máfia napolitana para conhecer seu funcionamento e denunciá-lo.

Saviano pagou preço alto: hoje vive escondido e sob contínua proteção policial. Jurado de morte, tornou-se celebridade internacional e vendeu os direitos de filmagem do livro. O filme também fez carreira de sucesso e chegou ao Brasil junto com o livro.

O que o livro conta é mesmo impressionante, apesar da narrativa entrecortada e da tradução irregular. Apesar de o leitor ficar em dúvida quanto à efetiva posição de Saviano dentro da organização criminosa e perceber que a maior parte das informações que oferece vem de documentos oficiais que, em tese, são acessíveis ao público.

Através deles, Saviano mostra um mundo guiado a partir de escritórios sombrios de Nápoles. Aparentemente tudo tem o dedo dos mafiosos: da alta moda ao mundo do cinema, do mercado financeiro à produção industrial, da circulação de muambas ao tráfico de drogas e armas, dos negócios legais aos mais-ou-menos legais e aos totalmente ilegais.

A Camorra também é onipresente: está na Escócia, na França, nos Estados Unidos, na China, no Brasil. Tem ou teve vínculos comprovados com as FARC colombianas, com o ETA basco, com o MRTA peruano, com os artífices da guerra na Somália e com os militares argentinos que tentaram ocupar as Malvinas.

A Máfia despreza as barreiras ideológicas da mesma forma que desconsidera as fronteiras da legalidade. Coopta todos – ou quase todos – que lhe interessam: juízes, políticos, religiosos, jogadores de futebol, estilistas. Impõe um vertiginoso consumo de armas para sua Itália, que chega a ser inacreditável pelo volume. Repatria corpos de imigrantes ilegais e prepara festas regadas a incríveis combinações de drogas – o Maradona dos tempos do Napoli que o diga, lembra Saviano.

O mais impressionante do livro, porém, é conhecer uma máfia muito distante da que nos habituamos pelos filmes, livros e estudos acadêmicos, quase sempre voltados à tradição da criminalidade siciliana ou de seus continuadores nos Estados Unidos.

Os camorristas desprezam, diz Saviano, as máfias da Sicília, da Calábria ou seus sucedâneos no novo mundo. Não se organizam segundo a hierarquia vertical que impõe a figura do “padrinho” – termo inventado literariamente e só depois assumido pelos mafiosos.

A estrutura camorrista é celular, daí sua capacidade maior de se proteger e expandir. As informações circulam em linhas restritas e ambientes fechados, evitando que uma queda provoque, por exemplo, o dominó que abalou seriamente, há mais de uma década, o crime organizado na Sicília. Além disso, a existência de células entranhadas na economia formal cria uma zona de proteção necessária ao dinheiro imenso que circula de lá para cá entre pequenos, médios, grandes e imensos chefes.

Impossível sair da leitura de Gomorra – esse trocadilho que combina o nome da associação com a vergonha bíblica – e comprar uma peça de roupa sem considerar a possibilidade de ela ter circulado por caminhos tortuosos e ilegais. Impossível levar na brincadeira o mercado de discos e filmes piratas, acreditando-o informal e espontâneo. Impossível acreditar que o mundo tenha saída.

Roberto Saviano. Gomorra. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008 (original: 2006)