Então você quer ser escritor?, de Miguel Sanches Neto

 

Então você quer ser escritor? é um livro de duplos.

Em primeiro lugar, porque reúne contos. A forma breve, por definição, traz pelo menos duas histórias: a que segue visível na superfície e outra, subterrânea, discreta, iminente.

Segundo, e principal: esses dezesseis relatos de Miguel Sanches Neto mostram impasses, conflitos, dessemelhanças.

“Sangue” nos fala do banal e do visceral; “Árvores submersas”, de grandeza e ridículo; “Animal nojento”, de afeto e angústia; “O tamanho do mundo”, de esperança e desconsolo; “Não comerás carne”, de redenção e angústia.

“Duas palavras” é épico e patético, combina ficção e história. “Manga verde com sal” sugere os tempos da vida: dois, muitos. “Redentor” mostra o dentro e o fora de cada um; “O último abraço”, bandeiriano, trata da vida que podia ter sido e da que foi.

“Na minha idade” contrasta realidade e irrealidade e “Seios de menino”, por meio da ambiguidade sexual, confunde passado e presente. “Jogar com os mortos” combina a iminência do sexo e os contrastes sociais. “Andar de bicicleta” é o jogo da visão contra cegueira, dos vivos e dos mortos.

“Para o seu bem” revela a vida na margem — espaço híbrido de pertença e desconexão. A regularidade e a mudança, ficar e partir, o miúdo e o universal compõem “Vestindo meu avô”. Finalmente, o conto que intitula o livro traça com ironia a crueza do trabalho ficcional, duplo por princípio, artístico ou ridículo, verdade e engano.

Mais do que o conteúdo cognitivo e conjuntural de cada conto, a duplicidade é estratégia narrativa. Miguel Sanches Neto investe na variedade de registros, linguagens e estruturas, desenha as histórias e revisita, aqui e ali, temáticas e preocupações estéticas de livros anteriores. Assegura assim a organicidade da obra e, ao mesmo tempo, afirma sua tensão interna.

Além disso, contar contos já sugere, no Brasil de hoje, uma posição algo assincrônica: por algum motivo, a maioria dos autores nacionais chegou à conclusão de que o país precisa de romances, abandonou a forma breve e passou a nos brindar com enxurradas de literatura prolixa, medíocre e diluída.

No conto, ao contrário, tudo visa à precisão, ao detalhamento. É assim que o prosaico se torna significativo, que ganhos e perdas jamais são despidos de complexidade. É assim que os duplos revelam aquilo que de fato são: uma percepção do outro e outra percepção de si.

Certo historiador torinês falou, anos atrás, que essa é a contribuição decisiva da ficção, seu impacto capaz de ultrapassar a fronteira (obviamente porosa) do literário: ela dá a distância, o prumo, a referência de um olhar que não se contenta com a própria perspectiva e precisa encontrar outras, confrontar(-se), desconfortar.

Os leitores que percorrem os relatos de Então você quer ser escritor? ressurgem assim da leitura: sabem que passearam pelos meandros da construção ficcional e sabem, também, que interpretaram um pouco mais, e melhor, outra ficção: a da vida.


Miguel Sanches Neto. Então você quer ser escritor? Rio de Janeiro: Record, 2011


Paisagens da Crítica publicou resenhas sobre outros oito livros de Miguel Sanches Neto.

Clique nos títulos dos livros para lê-las.

Venho de um país obscuro (15.8.2006);

Um amor anarquista (1.9.2006);

Chove sobre minha infância (10.10.2006);

Impurezas amorosas (23.1.2007);

Herdando uma biblioteca (10.8.2007);

A primeira mulher (1.9.2008);

Primeiros contos (27.12.2008);

Chá das cinco com o vampiro (22.05.2010).


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