Por que ler Borges, de Ana Cecilia Olmos

Por que ler Borges era um livro necessário havia bastante tempo. Num país que, em breve, terá duas traduções das obras completas de Borges (uma já existe, outra está em curso), fazia falta um livro que apresentasse Borges ao leitor interessado em saber mais de sua obra, mas sem a disposição de enfrentar trabalhos acadêmicos e seu habitual jargão.

Só isso basta para justificar a publicação do livro de Ana Cecilia Olmos, que faz parte de uma coleção de introdução à leitura de autores clássicos (Dante e Shakespeare também foram lançados). Mas, quando lemos o livro, percebemos que sua importância não se limita à ocupação de um espaço vago do mercado livreiro. Ele é, apesar de pequeno, um cuidadoso estudo da obra de Borges, escrito num misto de leveza e densidade.

Seguindo o padrão da coleção, a obra é dividida em cinco partes: “Um retrato do artista”, “Cronologia”, “Ensaio de leitura”, “Entre aspas” e “Estante”. A primeira é biográfica – o que coloca um problema quando se trata de Borges. Inúmeras biografias já foram escritas (e continuam a ser) sem que sua vida tenha sido propriamente aventureira. Pelo contrário. Por isso, as biografias de Borges tendem à repetição e à mesmice e concentram sua atenção em certos episódios, que ganharam condição de determinantes de sua escrita (a viagem na juventude para a Europa, o acidente com o batente da janela – que antecedeu a redação de “Pierre Menard, autor do Quixote”, suas controversas posições políticas, etc.). Ana não deixa de citá-los, mas sabe que, em Borges, o biográfico informa apenas relativa e indiretamente o literário. Há exceções, claro, como o conto “O Sul” ou o “Poema dos dons”, mas também aí a passagem do vivido ao escrito é de tal forma mediada que as relações entre “vida” e “obra” precisam ser tratadas com cautela. Daí o acerto de sua bonita opção por organizar a seção biográfica como uma seqüência de bibliotecas – a imagem mais forte e constante em sua vida e em seus textos. Também a valorização da formação bilíngüe como marca do cosmopolitismo e da pertença borgeana a mais de um universo permite a visualização do diálogo entre o vivido e o escrito sem caricaturas ou determinismos. As informações que a estrutura da seção não comporta – para não perder organicidade – são transferidas para a parte seguinte, “Cronologia” que, evidentemente, ordena as experiências pessoais e as publicações de Borges.

“Ensaio de leitura” corresponde ao balanço crítico. Nele, Ana percorre vários momentos da recepção da obra pela crítica e pelos leitores. Percebe as peripécias dos críticos em seu esforço para estabelecer o difícil e complexo lugar de Borges na história literária – deste Borges que foi poeta, contista, ensaísta, professor e, sobretudo, inclassificável. Reconhece o peso de suas posições políticas, seja quando tomadas com coragem e decisão, seja quando ambíguas. Principalmente, Ana identifica as variações, ao longo do século XX, das interpretações acerca de seus escritos e reitera a necessidade de lembrar, sempre, que a crítica é um espaço a mais de leitura; portanto, como toda leitura, é dotada de historicidade. Com sutileza, Ana traça seu caminho pelo bosque da crítica e, passo a passo, afirma uma voz capaz de dialogar com as outras, sempre segura de sua perspectiva e sustentada pelas análises rápidas, embora nunca superficiais.

As duas partes finais oferecem suportes importantes principalmente para o leitor iniciante: “Entre aspas” compila excertos de vários textos de Borges, selecionados em função dos comentários críticos anteriores e como painel do conjunto da obra; “Estante” reúne referências bibliográficas de vários tipos: obras de Borges, edições em português, ficção & ensaística que sofreram sua clara influência, repertório crítico. É útil para quem está começando a ler Borges; é fundamental para quem quer saber mais.

Por tudo isso, Por que ler Borges não é apenas um livro necessário. É um passo a mais na constituição de uma borgeana brasileira – que já não é tão restrita quanto se imagina e ganha bastante como o livro de Ana Olmos.

Ana Cecilia Olmos. Por que ler Borges. São Paulo: Globo, 2008

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O Jardim de D. João, de Rosa Nepomuceno

O Jardim de D. João se destaca no meio da imensa lista de livros que lembram e celebram os 200 anos da vinda da família real portuguesa ao Brasil.

Rosa Nepomuceno não repetiu os velhos clichês sobre o período, nem entrou na onda oportunista de lançar velhas idéias embaladas em nova roupagem para falar da abertura dos portos, da instalação da Casa da Moeda ou da fundação do Banco do Brasil. Tampouco palpitou na palpitante polêmica sobre a relação entre o estabelecimento da corte no Rio e a futura unidade política do Brasil independente – controvérsia que ganhou até contornos bairristas de um lado e outro.

Pesquisadora das especiarias e de sua história, Rosa desvelou um lado interessantíssimo da estadia nobre nos trópicos: a criação do Jardim Botânico, do Rio, por D. João. O parque chamou-se originalmente Real Horto e, meio por acaso, consolidou uma quantidade imensa de espécies vindas dos vários cantos do mundo. Logo no início do livro, Rosa conta a incrível história de Luís de Abreu Vieira e Paiva, um “astuto oficial” português, que foi decisivo para a formação do acervo do Jardim. Feito prisioneiro dos franceses que controlavam as Ilhas Maurício, Luís de Abreu negociou sua liberdade e a de seus duzentos companheiros e, de quebra, abiscoitou mudas e sementes do famoso Jardim das Toranjas, onde o botânico (adequadamente nomeado) Pierre Poivre cultivava espécies asiáticas e americanas.

Bem sucedido nas duas empreitadas, Luís de Abreu aportou no Rio, em julho de 1809, com as mudas que iniciariam a vocação do Jardim Botânico para a diversidade. O Real Horto, afinal, era um jardim de experimentos científicos – numa época em que esse cultivo tinha função estratégica. Nele eram aclimatadas plantas que pudessem ser comercializadas ou usadas medicinalmente. Especiarias, como canela, pimenta do reino ou cravo-da-índia. O chá, que chegou do oriente e se estabeleceu por aqui. Provavelmente, as orquídeas. E frutas como cajá, abacate, manga ou lichia. Ou, ainda, as célebres palmeiras imperiais que, consta, teriam sido plantadas pelo próprio D. João (Rosa observa que não há registro desse ato de jardinagem real, mas que ele é provável; ou, por outra, se non è vero, è bene trovato).

Da instalação e da constituição de sua forma inicial como “jardim de especiarias”, Rosa percorre a história do parque e acompanha seus invernos (no Segundo Império, quando foi usado no desenvolvimento de técnicas agrícolas) e primaveras (principalmente sob os cuidados de João Barbosa Rodrigues, que o dirigiu por quase vinte anos e hoje dá nome a uma das aléias do Jardim). Percebe o significado de sua abertura ao público e o papel que assumiu para a cidade do Rio de Janeiro. Reconstitui o histórico de suas dificuldades e, com entonação lírica, canta sua beleza.

Porque O Jardim de D. João não é escrito com a (suposta) frieza de uma pesquisa que sonha, afetadamente, com a objetividade. Rosa está presente no livro o tempo todo: relembra suas constantes visitas ao Jardim e aponta a impossibilidade de falar dele sem a emoção de quem o vive no quotidiano. O lirismo não impede o rigor da pesquisa e do texto; ao contrário, o intensifica porque exige explicações e interpretações que escapam ao domínio técnico da autora e implicam o que o Jardim melhor oferece: reflexão e conversas com outras pessoas – os botânicos do parque, por exemplo.

O cuidado e as opções editoriais fazem, ainda, de O Jardim de D. João um livro-objeto: aquele que nos fala pelas palavras e pelo aparato peritextual. A edição repete a qualidade da discussão e a beleza do texto e provoca seguidamente o leitor, querendo que o manuseemos e procuremos, curiosos, as imagens e pequenas delicadezas que traz. Edição certamente cara, que contou com suporte da comissão para a celebração dos 200 anos da vinda da família real.

Justíssimo. Também por isso é importante relembrar a data. Mesmo que concordemos com aqueles que desprezam sua importância, é inevitável reconhecer a quantidade de mudanças que a estadia dos nobres lusitanos provocou no quotidiano da época e nos tempos posteriores. Transformações aparentemente miúdas que às vezes significam mais para nós do que a macropolítica. Afinal, macropolítica não tempera nossa comida, nem melhora nossa saúde. Muito pelo contrário.

Rosa Nepomuceno. O Jardim de D. João. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007

Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, de Julián Fuks

por Renato Prelorentzou

O leitor que encerra as Histórias de literatura e cegueira de certo se surpreende ao saber que aquele jovem autor publicou, ainda antes, outro livro. E fará bem em conseguir os Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, pois vai, mais uma vez, se admirar quando ler, nas páginas de estréia de Julián Fuks, seus experimentos de escrita gravados, dessa vez, na contraface da íntima relação entre vida e ficção: se, no livro mais recente, há a ousadia de imaginar escritores reais e extraordinários em suas diárias horas criativas, naquele primeiro, está o impulso de fazer ficção com anônimos pedaços de vida cotidiana.

Os contos de Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu foram premiados pelo Projeto Nascente (USP/Editora Abril) em 2003 e publicados pela Coleção Rocinante da Editora 7 Letras no ano seguinte. Julián contava pouco mais de 22 anos. Em cada uma das 64 páginas de seu livro, revezam-se fluxos de consciência, diálogos, memórias, uma tardia carta de amor, a página de diário de um viajante, o relato de uma velha senhora: como sugerido pela sutil ambivalência do título, os fragmentos são sobre Alberto, Ulisses, Carolina e outros, mas são também escritos por eles – narradores controlados por um autor hábil em variar o estilo e se exercitar na narração. Por isso, o livro-todo aparece ao leitor como uma coletânea de textos autônomos que, embora acenem com tênues continuidades nas repetições de nomes e circunstâncias, se afastam e abrem espaço para a história de seu autor. Esse “eu”, nítido em fortes traços autobiográficos, enxerga o mundo de um modo narrativo, vê pessoas como personagens e conflitos como dramas, mas sabe das incongruências e desilusões de assim proceder. Mais uma vez, as experiências de vida e de leitura se enredam, e a frustração de saber, forjados o lirismo e a grandiosidade vividos, faz com que os narradores – e seu autor – se encontrem diante do mais decisivo ato desta reivindicação literária, transformando suas vidas em texto, às voltas com a “enfadonha metalinguagem”.

Assim, os Fragmentos… são, sobretudo, instantes de vidas, lampejos que a força afetiva da memória e a solenidade da reflexão convertem em pequenas transcendências. São relatos de alguém que pensa ter alcançado um mistério, uma revelação, mas que percebe que são as palavras que fazem aquele momento misterioso, revelador: elas servem ao engano e ao desengano; tornam momentos memoráveis em cenas literárias, ou delatam que só são memoráveis os momentos que se parecem com cenas lidas; decidem entre o ridículo e o épico, o prosaico e o poético, irônico e romântico, o esquecível e o inesquecível. E é precisamente pela cuidadosa escolha de suas palavras que Fuks abarca o precário e o faz redentor, mas imediatamente, na autocrítica desse mesmo fazer, volta a encontrar o banal, mundano – e, por isso, essencial.

No “Prólogo necessário” aos capítulos de Histórias de Literatura e Cegueira, Fuks diz que, quando não contadas, quando trancadas em uma gaveta, quando o escritor, descrente de seu ato, as interrompe, “as histórias são saqueadas em sua natureza”. O leitor dos Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu saberá ler aí um manifesto pela criação e pela perpetuação literária – seja feita de célebres textos, seja tirada da vida trivial –, e não apenas a justificativa para a mais recente e audaciosa escrita de Fuks. E quem o leu como apurado leitor dos livros de Borges, João Cabral e Joyce, certamente gostará de lê-lo como sensível leitor de histórias vividas.

Julián Fuks. Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004

Renato Prelorentzou é mestre em história social pela USP e pesquisa a obra do escritor mexicano Ignacio Padilla. Publicou, em Paisagens da Crítica (endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net), comentário sobre Palomar, de Italo Calvino (27 de maio de 2007)