Um lugar perigoso, de Luiz Alfredo Garcia-Roza

 

 

Um lugar perigoso é o décimo-primeiro romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza e, sem dúvida, o melhor.

 

Num país de precária tradição na literatura policial, Garcia-Roza estreou tardiamente na ficção e logo impôs seu estilo e um personagem complexo: o delegado Espinosa. Ele surgiu em O silêncio da chuva, de 1996, e, de lá para cá, reapareceu em outros nove livros.

 

Errático na forma de agir e de pensar, Espinosa vaga e divaga pelas ruas de Copacabana, enquanto enfrenta tramas que se enraízam nos dilemas cariocas e, quase sempre, se agravam conforme a polícia intervém. Espinosa é um detetive parcialmente estranho ao universo do policial clássico ou do hard boiled: nem tão racional e analítico quanto um Dupin ou um Holmes, bem distante do aventureirismo profissional de Op, Spade ou Marlowe.

 

Embora os livros de Garcia-Roza oscilem na densidade e na qualidade da trama e da escrita, Espinosa sempre persistiu no centro das atenções. Só que isso não acontece em Um lugar perigoso. Aqui, o delegado é coadjuvante e o protagonista é um professor universitário aposentado, Vicente Fernandes, portador de doença que afeta a memória e que o faz viver imerso num profundo e obscuro mar de esquecimentos.

 

Desde o primeiro capítulo —talvez o melhor já escrito por Garcia-Roza—, o leitor se aproxima de Vicente e de seu drama: na ausência da memória próxima e distante, ele constrói uma ficção do passado e do presente, que ocupa as fendas irrecuperáveis das lembranças.

 

Aos poucos, outros atores entram em cena: Paula, antiga colega e quase namorada; Anita, vizinha curiosa; os inspetores Ramiro e Welber, habituais auxiliares de Espinosa; o próprio delegado. Mas é o olhar do professor que nos guia na maior parte do livro. Ocasionalmente, é Paula; outras vezes, é Anita; em certos trechos, é Espinosa. Jamais, porém, o foco se desvia de Vicente —inclusive porque o leitor de policiais, já disse Borges, é desconfiado e hesita em reconhecer a voz que fala, duvida que a perspectiva tenha de fato variado e ultrapassado a linha do horizonte do professor.

 

Vicente Fernandes, desde a aposentadoria precoce e compulsória, provocada pela síndrome da memória, tornou-se tradutor. Não por acaso, agora traduz os contos de Poe e eles ressoam passo a passo na sua vida, alimentam diretamente a imaginação desesperada, ocupam os espaços carentes de lembranças. Vicente, na verdade, radicaliza uma prática que é de todos, a da fabulação: ele vive o sonho de inventar presentes e passados. Diferente da maioria de nós, porém, encara também o pavor de não saber se de fato os consumou, e a angústia de não apenas esquecer, mas de saber que sempre esquecerá, inclusive, que esqueceu. Como tradutor, ainda, assume uma ambiguidade: recria universos alheios —por meio da interpretação e do deslocamento de uma língua a outra—, mas jamais se diferencia totalmente do texto que reescreve, mantém o vínculo com um passado que não lhe pertence.

 

Também foi Borges, sempre ele, que afirmou que “Só uma coisa não há, o esquecimento”, e Vicente é pródigo em esquecer. E Garcia-Roza aproveita-se da angústia de seu personagem para fazer a narrativa avançar, vertiginosa, na direção dos limites e das fronteiras, sempre instáveis, entre a lembrança e a verdade, entre o presente e o passado, entre a sanidade e a desrazão, entre a verdade e a ficção: os personagens —sobretudo Vicente e Anita— falam a verdade de maneira tão plena, tão cabal, tão definitiva, que é difícil acreditar no que dizem. Espinosa acompanha tudo à prudente distância, envolve-se com restrições no caso, desconfia: ele é tão leitor quanto qualquer um de nós.

 

A narrativa policial já foi descrita como a busca da verdade e a tentativa de restabelecer a ordem —algo que ela foi um dia, mas deixou de ser faz tempo. Garcia-Roza, em Um lugar perigoso, enterra, na areia de Copacabana, qualquer ilusão que tenhamos sobre revelações e estabilidade: no emaranhado das anotações do professor Vicente, por trás dos jogos de observação entre ele e Anita ou de sua irregular relação com Paula, não há qualquer verdade possível, nem a ordem retornará.

 

E está aí a sofisticação e a profundidade deste livro: ele recorre às estratégias do policial para expor sua insuficiência e, melhor, sua amplitude; para desmascarar a forma banal como o gênero tantas vezes foi e é tratado e para mostrar que, mistificada ou não, a vida e a verdade são sempre porosas à ficção.

 

 

Luiz Alfredo Garcia-Roza. Um lugar perigoso. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

 

 

 

Paisagens da Crítica já resenhou outros quatro livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza:

Berenice procura (30.11.2005);

Espinosa sem saída (15.12.2006);

Na multidão (26.12.2007);

Céu de origamis (8.12.2009).

 

Clique nos títulos dos livros para ler as resenhas.

 

Adeus, Hemingway e O rabo da serpente, de Leonardo Padura

 

Adeus, Hemingway e O rabo da serpente são, cada um a seu modo, livros circunstanciais, resultados de adaptações não totalmente bem sucedidas.

 

Ambos trazem Mario Conde —detetive criado pelo cubano Leonardo Padura— em novas aventuras, mas nenhum deles consegue envolver de fato o leitor: soam artificiais nas histórias e na própria construção da narrativa.

 

Adeus, Hemingway foi escrito originalmente para a coleção “Literatura e morte”, da Companhia das Letras, cuja proposta era contar histórias de mistério que incluíssem grandes escritores como personagens. Uma excelente ideia, diga-se de passagem. Mas as obras não ficaram à altura da proposta original e, fora uma ou outra exceção, a coleção apresentou livros inexpressivos e, em pelo menos um caso, constrangedor.

 

O rabo da serpente, por sua vez, foi um conto que Padura expandiu, atualizou e transformou em romance.

 

Dentro da cronologia do Conde, a história de Adeus, Hemingway se passa logo após sua saída da polícia. Ou seja, imediatamente depois da aventura narrada em Paisagens de outono. Já a trama de O rabo da serpente se situa nas imediações de Máscaras, antes de Paisagens de outono.

 

No caso de Adeus, Hemingway, o posicionamento cronológico não traz problemas. Sua enigmática história coloca o Conde na investigação de um crime ocorrido no jardim da casa cubana de Hemingway, nos idos de 1958. O livro cruza a investigação, ocorrida décadas depois, com as idiossincrasias o quotidiano passado do escritor norte-americano e explora o universo algo mítico que se criou em torno de sua figura.

 

Em outras palavras, Padura transforma o mito-Hemingway em personagem de seu livro. Aproveita, assim, o conhecimento prévio, a familiaridade que o leitor pode ter com o homem que acreditamos vigoroso, viril, caótico, bêbado e genial e prescinde de reinventá-lo ficcionalmente. O efeito facilita a leitura, mas expõe o clichê, a generalidade, o artificialismo. A própria trama, rocambolesca em excesso (mesmo para aqueles que consideram que a narrativa policial nasceu com o Rocambole…), provoca a impressão de um livro simplificado demais, circunstancial demais.

 

A adaptação por que passou O rabo da serpente deixou ainda mais sequelas do que a transposição do Hemingway real para a ficção. O relato leva Conde ao bairro chinês de Havana para desentranhar, do silêncio dos imigrantes chineses miseráveis, uma história complexa, que envolve religiosidades mescladas, crime organizado e tragédias individuais e coletivas. O material de que Padura se apropria é interessante e deve ter dado um excelente conto. Como romance, porém, é irregular.

 

O leitor atento percebe facilmente os elementos inseridos para ampliar a narrativa, e que acabaram por diluir e dispersar a força da ideia central. Mesmo o grupo de amigos que gira ao redor do Conde —personagem coletivo e decisivo nos demais livros, espécie de enraizamento e desenvolvimento das dúvidas e hesitações que caracterizam o protagonista— aparece pouco e em diálogos inócuos.

 

Também a ambiguidade temporal atrapalha e confunde. O narrador indica, logo no início, que o caso ocorreu no passado do Conde e sugere um movimento de lembrança do personagem. Na Havana atual, já afastado da polícia, o ex-detetive e hoje livreiro recordaria a história. No entanto, as manifestações desse presente se dão em seções desconectadas do restante e deixam dúvida quanto ao motivo que teria levado a obra a operar em dois tempos se, na prática, eles não se cruzam, nem o movimento da memória é justificado. Resta, no rescaldo da leitura, a sensação de uma adaptação feita apenas para justificar a republicação em outro formato.

 

Embora as adaptações aparentemente mal resolvidas e as circunstâncias da escritura (em Adeus, Hemingway) e da reedição (de O rabo da serpente) resultem em livros frágeis, bastante inferiores às outras cinco histórias do Conde, é inevitável que o leitor de Padura queira revisitar a Havana ambígua —e ambiguamente representada— e o dia-a-dia errático de um dos mais originais detetives da atualidade.

 

Essa é a razão —digamos, afetiva— que justifica a leitura dos dois romances.

 

 

Leonardo Padura. Adiós, Hemingway. Barcelona: Tusquets, 2006.

Leonardo Padura. La cola de la serpiente. Buenos Aires: Tusquets, 2012.

 

 

Paisagens da crítica publicou resenhas de outros livros de Leonardo Padura.

Clique nos títulos dos livros para lê-las:

Ventos de quaresma (10.6.2008)

Máscaras (15.11.2011)

 

 

O jogo dos espelhos & Uma lâmina de luz, de Andrea Camilleri

 

O jogo dos espelhos e Uma lâmina de luz confirmam o que já se sabia: Andrea Camilleri é um grande narrador.

 

E, nesses casos, sua grandeza não se faz pelas histórias que conta, pelas tramas ocasionais que compõem a décima-oitava e a décima-nona aventuras do comissário Salvo Montalbano.

 

Elas são, de resto, histórias semelhantes, em que as tentativas de iludir —o jogo de espelhos, na metáfora que intitula um dos livros— ultrapassam o movimento da descoberta, da solução exposta.

 

Além de parecidas, são tramas confusas, meio rocambolescas, que envolvem a presença de mafiosos nos dois casos e, num deles, um estranho caso de terrorismo.

 

Mais confuso ainda está o protagonista. Montalbano se aproxima de mulheres que o afastam da eterna namorada genovesa Livia, que testam a persistência de uma ligação que quase desembocou em casamento no terceiro romance da série —O ladrão de merendas, de 1996— e que, de uns cinco ou seis livros para cá, soa cada vez menos possível.

 

E é nesse movimento de recuperar uma história publicada dezesseis anos atrás que Camilleri mostra a que vieram os dois novos livros. Responde, assim, ao leitor que atravessa as quinhentas e poucas páginas somadas de ambos em dúvida se Montalbano ainda tem fôlego, se seu criador ainda tem vontade de escrever seus casos.

 

A resposta está lá, nas cinco últimas páginas de Uma lâmina de luz. No melhor fechamento de livro, e o mais triste, que Camilleri escreveu. Nas iniciais impressas em uma camisa, num rosto que ele evita olhar. Está lá o esclarecimento para quem tivesse qualquer dúvida: Camilleri é um grande autor. E Montalbano, quase vinte romances e muitos contos depois de seu surgimento, continua a ser um personagem instigante.

 

 

Andrea Camilleri. Il gioco degli specchi. Palermo: Sellerio Editore, 2011

Andrea Camilleri. Una lama di luce. Palermo: Sellerio Editore, 2012

 

Paisagens da Crítica comentou outros dezesseis livros de Andrea Camilleri.

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011.

 

 

Máscaras, de Leonardo Padura Fuentes

 

Máscaras revelou uma mágica que só a leitura faz: nos levar de volta a um livro e a um autor que antes nos desagradaram e alterar radicalmente a impressão.

 

Três anos atrás, mais ou menos, eu li os livros de Leonardo Padura Fuentes publicados no Brasil. Saí com a certeza de que se tratava de um autor que dominava bem as matrizes e estratégias do gênero policial, tinha texto fluido e ágil, e nada além disso. Um bom entretenimento, agradável, mas descartável. Traduzi minha opinião na resenha de um deles, publicada aqui no blog.

 

Eis que agora, em função de um trabalho que assumi, fui instado a reler todos os Padura traduzidos e um ou outro que ainda não receberam versão nacional. E tudo se modificou.

 

Comecei a releitura por Máscaras, de 1997, o terceiro volume da tetralogia “Quatro estações”, protagonizada pelo investigador Mario Conde —os demais volumes da série são Passado perfeito (1991), Ventos de quaresma (1994) e Paisagens de outono (de 1998, não publicado no Brasil).

 

Máscaras propõe uma trama complexa em que figurões do regime cubano estão envolvidos num jogo de perseguições políticas, sexuais e dramas familiares profundos. Todos se travestem —se mascaram—, literal ou metaforicamente, num movimento ininterrupto de variações e instabilidades.

 

Padura percorre, por meio da ação de seu detetive, os abismos de uma Havana que já foi bela, das mais belas das Américas, e depois se afundou na deterioração e nas relações e nos vínculos clandestinos. Também a história dos últimos quarenta ou cinquenta anos cubanos ultrapassa a função cenográfica que, a princípio, parece ter e se torna personagem decisiva do enredo.

 

Não cabe aqui discutir a dimensão diretamente política do livro —sempre secundária em relação ao exercício muito mais transfigurador da ficção—, nem a posição ambígua de Padura diante do regime. Cabe ressaltar a construção cuidadosa do universo íntimo de Mario Conde e seus amigos unidos em laços profundos e definitivos, o trabalho de assimilação da língua falada no texto escrito, a atualidade de uma narrativa policial que dialoga com as regras e os vícios do gênero, mas não se submete a eles.

 

Mágica é a leitura —e as revisitações, releituras de fato, que fazemos aos livros. Magia não de vara de condão ou correlato, mas a que mostra que nossa posição de leitor não é fixa, nosso tempo não é uno. Somos leitores da mesma forma que somos humanos: oscilantes, dotados de perspectivas provisórias, errantes.

 

Por tudo isso, ao reler Máscaras, não apenas descobri um Padura que eu não tinha enxergado nas leituras anteriores; redescobri, sobretudo, o motivo de, há mais de quarenta anos, eu ter escolhido a leitura como profissão.

 

 

Leonardo Padura Fuentes. Máscaras. São Paulo: Companhia das Letras, 2000 (original: 1997; tradução: Rosa Freire D’Aguiar)

 

 

Enquanto eles dormiam, de Donna Leon

 

Enquanto eles dormiam é mais um rocambolesco e oco policial de Donna Leon.

 

Não é uma novidade. Infelizmente a narrativa policial dá margem a grandes bolhas de sabão, luzidias e algo espantosas por fora, carentes de qualquer conteúdo. Não haveria espaço neste blog, e em quantos mais houvesse, se quiséssemos listar todos os autores, brasileiros e estrangeiros, que conciliam a estrutura do policial clássico com um imenso volume de informações desconexas e uma trama pífia e caricatural. Uma pena.

 

Donna Leon é norteamericana, mora há três décadas em Veneza e faz relativo sucesso no mundo editorial dos romances policiais. Enquanto eles dormiam, cujo original saiu em 1997, é seu quinto livro publicado no Brasil, o que sugere que os quatro anteriores foram bem acolhidos.

 

Seu personagem principal, comissário Guido Brunetti, é interessante. Corresponde à tipologia básica de detetives reflexivos, capazes de alternar momentos longos de introspecção com alçadas impressionantes de engenho.

 

Nutre indisfarçado desdém pelo superior hierárquico, figura escorregadia e ambígua. Vive feliz em família — mulher e dois filhos já crescidos — e gosta de seu trabalho. É honesto, sincero e despreza a aristocracia veneziana, de quem, aliás, sua mulher é descendente.

 

Sobretudo: Brunetti circula por Veneza e essa andança, na prática, é o que dá vivacidade aos livros: mais por Veneza, menos pelas descrições meio turísticas do narrador em terceira pessoa.

 

Enquanto eles dormiam coloca Brunetti no centro de uma intriga que envolve religiosos de alto coturno, figuras de centro da sociedade veneziana e, meio de relance, a Opus Dei. Coisa graúda, gente poderosa.

 

O livro demora, no entanto, mais de 170 de suas quase trezentas páginas  para apresentar a trama. Brunetti passeia, come, bebe, ouve uma denúncia imprecisa de uma freira, conversa com meia dúzia de pessoas. E o leitor lá, à espera.

 

Quando a narrativa parece que vai deslanchar, surgem novas interrupções e mais histórias tentam desviar a atenção de quem acompanha, meio aparvalhado, a imensa quantidade de personagens, lugares e tramoias mencionadas. Rocambolesco e oco.

 

Na hora do desfecho, novamente o leitor é pego numa armadilha — esta, porém, não contarei para não revelar o fim — e se dá conta, de uma vez por todas, que o livro foi mal estruturado, mal desenvolvido e mal escrito. Vários problemas de tradução e a revisão descuidada, que deixou passar mais de dez erros de regência verbal, também não ajudam.

 

Enfim…

 

O fato é que a leitura de Enquanto eles dormiam talvez sirva apenas como uma lembrança de que o mesmo gênero ou subgênero que contou com Poe, Chesterton, Borges, Vázquez Montalbán e tantos outros também inclui uma quantidade assombrosa de vícios e de clichês.

 

Que sua exposição tão crua nos ajude a aprender a evitá-los.

 

 

Donna Leon. Enquanto eles dormiam. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (original: 1997; tradução: Carlos Alberto Bárbaro)

 

 

Paisagens da Crítica comentou dois outros romances de Donna Leon:

Vestido para morrer, em 26.9.2006

Morte e julgamento, em 11.2.2008

 

Clique nos títulos dos livros se quiser lê-los.

 

 

Três livros de Gianrico Carofiglio

 

Testemunho inconsciente e De olhos fechados são os dois primeiros livros de Gianrico Carofiglio. Dúvidas da razão é o terceiro.

São também os primeiros casos do advogado Guido Guerrieri e dificilmente poderiam ser chamados de policiais. São, sobretudo, histórias de tribunal, que na estrutura geral lembram os incontáveis seriados televisivos de advogado.

Aparentemente demorou um pouco para que Guerrieri se dedicasse também às investigações, como a que marca sua quarta aventura, As perfeições provisórias.

Em Testemunho inconsciente, De olhos fechados e Dúvidas da razão, o encontramos às voltas com complicados casos jurídicos.

No primeiro, um imigrante africano em Bari é suspeito de seduzir e matar uma criança. Guerrieri o defende e abre espaço para a discussão da imigração e do preconceito contra extracomunitários, questão atualíssima em toda a Itália, e particularmente no sul do país.

No segundo, Guerrieri ajuda a promotoria num processo de violência doméstica de um figurão de Bari, filho de um figurão maior ainda, contra sua ex-mulher. O tema da pedofilia reaparece em três breves capítulos, narrados em primeira pessoa e por outra voz, aparentemente desvinculados da trama central. No fim do livro as história se conectam.

No terceiro, um estranho caso de tráfico internacional de drogas envolve um desafeto da infância de Guerrieri e o faz buscar pistas improváveis para tentar a absolvição do acusado — o advogado porém não chega a se transformar num detetive. Simultaneamente, se esforça para não se apaixonar demais pela mulher do cliente. As ambigüidades pessoais, as sombras do passado, o risco da falta de ética, as dúvidas da razão e da imaginação o perseguem.

Em todos, Carofiglio reconstroi o quotidiano de seu protagonista, que circula por tribunais, bares e memórias. A separação da mulher abre Testemunho inconsciente e o lança numa espécie de vazio pessoal; no mesmo livro, outra relação surge, mas seu prosseguimento, em De olhos fechados, não aplaca a sensação de solidão que corta a construção e o desenvolvimento do advogado Guerrieri. A abertura de Dúvidas da razão traz nova separação e o deixa à deriva.

Nos três livros, pequenas histórias paralelas deixam pistas para o futuro do advogado e insinuam histórias a serem recuperadas em livros posteriores. Dessa forma, o escritor barês assegura, por trás da especificidade de cada volume, o caráter orgânico e articulado de seus relatos: podem ser lidos separadamente, mas é melhor que sejam conhecidos no conjunto.

E a leitura desse conjunto, embora ainda incompleta (A arte da dúvida,  livro teórico sobre arguições, me espera sobre a mesinha que fica ao lado da poltrona preferida), exige a revisão de uma das sentenças que abriram esta resenha: não, não é tão difícil chamar esses livros de ‘policiais’.

Apesar de eles não trazerem a equação habitual da narrativa policial — crime/investigação/solução —, Carofiglio explora passo a passo os procedimentos epistemológicos que sustentam a ficção policial: a busca do indício (acintosa ou discreta) antecede a construção da razão, que esclarece o mistério ou, mais adequadamente no caso, permite encontrar uma solução que afaste as névoas que cobrem a trama.

Não custa lembrar, ainda, que foi arbitrário o estabelecimento de procedimentos rígidos para o gênero policial e que Edgar Allan Poe, seu provável criador, preferia dizer que escrevia histórias de raciocínio, e não de suspense.

Não custa lembrar, sempre, que dois dos mais notáveis discípulos de Poe — G. K. Chesterton e Jorge Luis Borges — insistiram que Poe não criara uma forma de escrever, mas um tipo novo e inesperado de leitor, aquele que insiste em enxergar dúvidas e buscar surpresas naquilo que lê.

Por isso, talvez os livros de Carofiglio protagonizados pelo advogado Guerrieri sejam mais fieis à matriz da narrativa policial do que muitos dos que pretenderam reproduzi-la e, na verdade, criaram uma camisa de força para o gênero, banalizando-o e limitando-o.

Resta, no entanto, um grande, insolúvel mistério: por que nossos editores de obras policiais (e as coleções são tantas!) não traduzem e publicam seus livros no Brasil?


Gianrico Carofiglio. Testimone inconsapevole. Palermo: Sellerio, 2002.

Gianrico Carofiglio. Ad occhi chiusi. Palermo: Sellerio, 2003.

Gianrico Carofiglio. Ragionevoli dubbi. Palermo: Sellerio, 2006.


Paisagens da Crítica publicou, em 1º de novembro de 2010, resenha sobre outro livro de Carofiglio, a quarta aventura de Guido Guerrieri, Le perfezione provvisorie. Clique aqui para lê-la.


O sorriso de Angélica, de Andrea Camilleri

 

O sorriso de Angélica prossegue a saga do comissário Montalbano. É sua décima-sétima aventura.

Por um lado, não traz as surpresas e o caráter ligeiramente experimental de A caça ao tesouro, o que pode decepcionar o leitor que esperava alguma continuidade. Por outro, mantém a qualidade da série e sua preocupação de acompanhar os personagens e fazê-los amadurecer e mudar aos olhos do leitor.

O título obviamente evoca o mistério contido no sorriso da Gioconda, reencontrado no rosto de uma das vítimas da série de furtos que abalam Vigàta. E, menos obviamente para o leitor brasileiro, evoca também a personagem de Orlando Furioso, fabuloso relato poético de Ludovico Ariosto. Através da Angélica do título — nome e face —, Montalbano ainda relembra as gravuras que Gustave Doré fez para o livro de Ariosto e que constavam da edição que leu na juventude.

Enxerga, assim, várias mulheres numa só: a Gioconda incerta e inacessível, a dupla Angélica do Orlando Furioso por Doré, apaixonante e ocasional traidora.

Outra mulher surge quase periférica à trama: Livia, namorada desde sempre. E há ainda uma quarta presença feminina, Ingrid, amiga do policial e parceira em tantas histórias.

Tantas mulheres e todas ambíguas. Livia é a companheira fixa, desde o primeiro livro de Montalbano, mas vive distante na geografia e, aparentemente, também no pensamento. Ingrid continua a provocá-lo e ele persiste sem tocá-la. Angélica é um território selvagem, promissor e perigoso.

Os homens que cercam Montalbano parecem igualmente hesitar: Mimì Augello, seu vice, o decepciona; Fazio, assistente sempre fiel, não pode ser, nesse momento, o confidente de suas angústias; Catarella, atabalhoado funcionário do comissariado, cheio de certezas e medos, é a hesitação em forma humana.

Entre tanta incerteza, Montalbano percorre a trilha dos roubos, é desafiado pelo criminoso, tenta controlar o óbvio fascínio por Angélica.

Para o leitor, o defecho da história parece óbvio desde o princípio, e resta torcer para que ele não se cumpra: o temor, no caso, vem principalmente pela vontade de que Camilleri não embarque no mais óbvio clichê das narrativas policiais.

No conjunto, ele consegue escapar — e, claro, não direi aqui como é o final do livro. Consegue sobretudo porque seu personagem principal pode viver seguidas angústias provocadas pela sensação de envelhecimento, mas é literariamente sólido e ancora com alguma facilidade as tramas. Pelo menos foi assim nas dezessete primeiras; aguardemos as próximas.

Andrea CamilleriIl sorriso di Angelica. Palermo: Sellerio, 2010

Nota: o livro deve demorar para ser traduzido no Brasil. Se a sequência da série for respeitada, ainda há outros seis livros, anteriores a este, a serem publicados aqui.

Paisagens da Crítica comentou outros quatorze livros de Andrea Camilleri. Clique no nome do livro para ler:

– A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

– O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

– As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

– A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

– A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

– Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

– O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

– As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

– O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

– O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

– A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

– O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

– Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010.