Modernidade periférica, de Beatriz Sarlo


Pausa para um breve momento-marketing…


Sobretudo um momento-orgulho, momento-alegria.


É que acaba de ser lançada a edição brasileira do importantíssimo livro de Beatriz Sarlo, Modernidade periférica. Buenos Aires 1920 e 1930, pela editora Cosac & Naify.


O livro faz parte da coleção Prosa do Observatório, coordenada por Davi Arrigucci Junior, e teve a coordenação editorial de Paulo Werneck e Luciana Araújo. Traz também um prólogo de Sergio Miceli.


Tive a honra de traduzi-lo e de escrever o posfácio.


Tradução difícil, pelo texto peculiar de Sarlo e, principalmente, pelas diversas citações em lunfardo, gauchesco e registros orais que a autora argentina faz ao longo do livro. Tradução muito prazerosa.


A obra tem que ser lida: não pela tradução, claro, e mais pelo livro em si – um amplo painel das mobilizações vanguardistas e do movimento intelectual argentino em duas décadas decisivas.


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Faca, de Ronaldo Correia de Brito

Faca, de Ronaldo Correia de Brito, é livro sobre o tempo. Cada um dos contos, onze, expõe uma de suas faces, que vão daquele Tempo com T maiúsculo, substância formadora dos homens — disse Borges —, a suas distintas percepções.

Os gestos dos personagens dependem da gravidade irregular da passagem das horas. Os anos tardam para mulheres como Donana, Aldenora, Delmira ou Ciça e o ritmo da vida externa se contrapõe à lentidão da vida, ao cadenciado que cheira à morte.

O anseio por novos tempos, porém, nem sempre as conduz ao futuro. Para elas e muitos dos homens — o Velho, Leonardo Bezerra, Otacílio Mendes, Anselmo Dantas — é mais o passado que dita o que virá do que a imprecisão presente.

Dependem, uns e outras, do que foi vivido, e nem sempre por eles mesmos. É como se, mais do que formadora, a substância do tempo os deformasse, pegajosa, insistente, e os fizesse perder de vista outros viveres.

Há, porém, eventos súbitos que interrompem a marcha demorada dos dias. Cortantes, arrebentam a cadeia da repetição e instauram outra possibilidade. O leitor, prisioneiro da tensa narrativa da espera, aprende, conto a conto, a aguardar o desenlace, faca de duas lâminas, momento que define uma vida, e ocasionalmente se espanta com o final de riso no lugar da angústia ou do horror — Davi Arrigucci observa, no posfácio, que também a surpresa do humor reitera a densidade do tempo que a antecede.

A se contrapor ao arrastado dos tempos, há ainda outra faca, a da prosa seca e direta, metafórica mas rasante, em que os contos são cifrados. Estes, talvez, os maiores ensinamentos que Ronaldo Correia de Brito deixa para o leitor: transpor o peculiar para o geral implica reconhecer os ritmos da linguagem; traduzir o específico no universal depende do respeito e da reinvenção das vozes que narram, evitando o artificialismo da imitação e condensando, em rápidas histórias, um tempo imemorial — essa matéria porosa.

Ronaldo Correia de Brito. Faca. São Paulo: Cosac & Naify, 2009