Mulheres, de Andrea Camilleri

 

Mulheres reúne quase quarenta perfis femininos. Andrea Camilleri os desenha com a clareza de que não importa quão reais elas sejam —na nota, já adverte: há mulheres da ficção e do mundo vivido, algumas do passado e outras do presente; ele chegou a conhecer parte delas, da outra parte ouviu falar. Sem contar que, em quase todos os casos, a memória e o esquecimento também fizeram seu trabalho e recriaram vidas.

 

Nós conhecemos várias dessas mulheres: Antígona, Beatriz, Carmen, Desdêmona, Helena, Joana d’Arc, Louise (Brooks), Nefertiti ou Teodora. Nem por isso, os relatos deixam de surpreender; nesses casos, Camilleri relê suas trajetórias e invade nossa imaginação acerca delas para revirá-la, enxergando-as no palco, na página ou na história, e reinventando seu papel. Num certo sentido, retorna a seu tempo de diretor de teatro e as dirige para que nós, espectadores, acompanhemos sua ação em cena.

 

Certos relatos, por outro lado, nos ajudam a entender personagens da obra do autor: por exemplo, desvenda-se a Ingrid (real?) que está por trás da célebre amiga sueca do Comissário Montalbano. Outras nos dilaceram com suas histórias candentes, vindas da Sicília de setenta ou oitenta anos atrás e reinventadas por um escritor que está no umbral dos noventa. É o que ocorre com a trágica vida e morte de Yerma, mais conhecida como chiddrà ddrà —aquela lá, em bom siciliano. Ou na selvageria ingênua de Nunzia. Ou na paciência heroica de Ninetta, que esperou trinta anos por Giacomo. Ou com Marika, tão convicta quanto indulgente. Ou, ainda, na estranha história de uma Ofelia que não é a Ofelia que imediatamente nos vem à cabeça. Ou —e prometo que paro por aqui, embora quisera prosseguir nos exemplos— na convicção política da arrebatadora Oriana, que silenciosamente combate o fascismo.

 

A verdade é que de fato não importa se elas foram ou são reais. Nem o leitor deve esperar revelações ou acreditar nas verdades que cada relato parece conter: a verdade é sempre outra; ela se mascara ou só surge de viés, num relance. Assim é com a memória: por que não seria com a história? A diferença do compromisso de uma e de outra não impede que ambas desemboquem tantas vezes na imprecisão, percebam a realidade apenas pela lente, prismática e desviante, da ficção.

 

Talvez por isso, dessas mulheres de Camilleri, a que melhor simboliza a errância de nossas lembranças e a contundência do passado seja a instável Francesca —outra, que não a de Paolo—, una donna mobile como a que Verdi criou e que poderia ser de qualquer sexo; afinal, così la vita e tutti noi.

 

 

Andrea Camilleri. Donne. Milão: Rizzoli, 2014.

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros vinte e um livros de Andrea Camilleri.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011;

O jogo dos espelhos (Il giocco degli specchi), em 8.7.2012;

Uma lâmina de luz (Una lama di luce), em 8.7.2012;

Grande Circo Taddei (Gran Circo Taddei), em 10.9.2012;

A Rainha da Pomerânia (La Regina di Pomerania), em 10.9.2012;

A seita dos anjos (La setta degli angeli), em 8.10.2012.

 

5 pensamentos sobre “Mulheres, de Andrea Camilleri

  1. fiquei muito interessada. gosto do autor e ver o olhar dele para várias mulheres me deixa muito curiosa. eu leio bastante obras de escritoras exatamente para ver outros olhares. beijos, pedrita

    • Pedrita,
      tomara que goste.
      Beijos,
      Júlio

      José Alberto,
      ótimos votos. Que assim seja. E um excelente 2015 também para você.
      Abraços,
      Júlio

  2. Fica decretado que, pelo menos um dia, desligaremos toda a parafernália eletrônica, inclusive o telefone celular, e, recolhidos à solidão e ao silêncio, faremos uma viagem ao interior do nosso espírito, lá onde habita Aquele que, distinto de nós, funda a nossa verdadeira identidade. Entregues à meditação, fecharemos os olhos para ver melhor.” (Frei Betto, ‘Decretos de Natal’) Feliz Natal a todos e a todas e um 2015 cheio de sucesso para todos nós e aos que habitam o nosso lado esquerdo do peito. Desejo a você Júlio e família assim como aos amigos que frequentam esse espaço um feliz natal e um 2015 cheio de felicidades, recheado de ótimas leituras.

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