podcast: 50 anos da Revolução Cubana

 

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre os 50 anos da Revolução Cubana.

 

O comentário foi ao ar na segunda, dia 29 de dezembro.

 

 

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/29-12-08_comentario_julio_pimentel_Cuba.mp3

 

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Primeiros contos, de Miguel Sanches Neto

 

Primeiros contos  confirma a hipótese borgeana de que são os sucessores que definem os precursores, e não o contrário.

 

O livro reúne textos escritos por Miguel Sanches Neto nos anos 1990 e que ainda não haviam sido publicados. O leitor habitual de seus romances – ou mesmo de contos mais recentes – estranha a dicção entrecortada e as frases breves: uma espécie de gramática voltada à concisão, marcante inclusive nos diálogos. Estranha, também, a inclinação dos narradores para acreditar nas mudanças espontâneas, numa ocasional magia que regule o mundo e os vínculos pessoais.

 

Embora pareça tão distante da destreza técnica que os livros posteriores revelam em suas sentenças longas e nas construções refinadas, Primeiros contos é, sim, o precursor das histórias curtas de Hóspede secreto ou Herdando uma biblioteca – do ficcionista ou cronista que fala nesses livros, de sua atenção ininterrupta ao quotidiano, da sismografia das relações humanas.

 

E embora – também – seus personagens e narradores não compartilhem o olhar realista e cru, tantas vezes angustiado, de quem conta Chove sobre minha infância, Um amor anarquista ou A primeira mulher, as vozes de Primeiros contos anunciam a emergência do futuro narrador de Miguel Sanches Neto.

 

Claro que só entendemos isso se tivermos, primeiramente, lido os livros posteriores – daí a confirmação da assertiva de Borges, que observou que Kafka não foi definido por seus precursores: foi ele quem os determinou seus precursores.

 

Em alguns contos, os três romances de Sanches Neto aparecem de forma clara em Primeiros contos. É óbvia, por exemplo, a relação entre o garoto que escreve sobre a morte fictícia do pai (“A primeira morte de meu pai”) e o personagem semi-autobiográfico que relata sua infância em Peabiru, de Chove sobre minha infância.

 

Outras vezes, a conexão é menos explícita – mas não menos intensa. Quando lemos  “Atrás dos olhos da menina”, vem à lembrança, por algum caminho, a esperança quase insana de quem sonhou, e fez dormir a razão, na Colônia Cecília (Um amor anarquista) ou a origem do cinismo – no fundo, desesperado – do professor que busca a criança desaparecida de A primeira mulher.

 

Da mesma forma, os ecos de Cortázar que Primeiros contos traz são muito sutis nos livros posteriores – provavelmente substituídos pelo realismo borgeano e por sua preocupação com as ambigüidades do tempo.

 

Mas os temas de Miguel Sanches Neto e seu sentimento do mundo estão presentes, marcantes e de alguma forma decisivos, nos Primeiros Contos . Eles são iluminados pela obra posterior e nos ajudam a entendê-la. Atestam sua organicidade – não na indesejável homogeneidade, mas (bem melhor) pelos caminhos tortuosos da imaginação literária e do amadurecimento da escrita.

 

Miguel Sanches Neto. Primeiros Contos. Curitiba: Arte e Letra Editora, 2008

 

Paisagens da crítica já publicou comentários sobre outros seis livros de Miguel Sanches Neto. Um deles está neste endereço: A primeira mulher (1º de setembro de 2008). Os demais estão no endereço antigo do blog (http://paisagensdacritica.zip.net): Venho de um país obscuro (15 de agosto de 2006), Um amor anarquista (1º de setembro de 2006), Chove sobre minha infância (10 de outubro de 2006), Impurezas amorosas (23 de janeiro de 2007) e Herdando uma biblioteca (10 de outubro de 2007).

 

Milamor, de Livia Garcia-Roza

Milamor  relata uma internação por alegria e uma separação por paixão. Milamor  tenta expor o ponto de loucura de cada um: aquele que, vez ou outra, se manifesta e surpreende, embora fosse previsível. Milamor  é um romance sensível e denso, que prende o leitor desde o início e faz com que vivamos, passo a passo, a trajetória de Maria, a protagonista-narradora.

 

Maria está às portas dos sessenta anos. Sua vida é aborrecida, vazia. Mora com a filha desde a morte do segundo marido. As duas quase não conversam, nem se encontram. Maria está afastada do filho por conta de uma nora desagradável. Maria relembra o primeiro marido, sumido, que a abandonou sozinha com as duas crianças pequenas, tanto tempo antes. Maria pensa no segundo marido, morto, como uma tábua de salvação, sábio e insípido. Maria lembra de seu passado mais distante, da mãe morta, do pai morto.

 

Maria está, na prática, saudosa de si mesma, de uma vida que se esvaiu, em meio a mortes e à dificuldade de esquecer. Uma vida cujo vértice talvez esteja num nome, Milamor – antiga vizinha, única amiga da infância, que um dia se foi, inesperadamente. Como o primeiro marido, como a mãe e o pai, como o segundo marido. Ou seus filhos, vivos e distantes. Vivos e mortos, de resto, não se distinguem no precário mundo de Maria, que, ao contrário da personagem de Cecilia Meirelles, não sorria.

 

Mas, se de tudo fica um pouco, em Maria ficou uma vontade renitente de retornar e de enterrar seus mortos. O romance de Livia Garcia-Roza mostra sua epopéia.

 

E, se o Brasil tivesse uma crítica literária mais plural, menos acadêmica e repleta de clubinhos e amizades, Livia Garcia-Roza seria, já há tempos, reconhecida como nossa melhor autora desde Clarice Lispector. Sua prosa é fina e intensa. Escreve com fluidez e sabe achar o tom exato de cada registro, descobrindo o verossímil e o comum. Desmonta personagens e os reinventa. Percebe e explora a simultaneidade dos tempos, sempre definidos pela força da memória. Destrincha cenários e situações para encontrar impasses e possibilidades. Às vezes, encontra alegrias; às vezes, ratos. Ecoa Natalia Ginzburg com seus ambientes fechados e pessoas que vivem turbulências íntimas, mas nem por isso menores.

 

As narradoras de Livia Garcia-Roza repetem frases, medos e flutuam pela imaginação repleta de cenas passadas. Com Maria não é diferente. Ela já sabe das imperfeições nas relações e tem que pleitear um futuro para si mesma. Futuro que talvez irradie em seus filhos. Futuro que recupere a figura de Milamor e um tempo que não devia ter acabado. Futuro que deriva do trabalho da memória.

 

Nesse futuro substantivo e feminino, a alegria e a paixão, mesmo quando parecem subversivas, têm lugar. E a loucura, afinal, é – sempre – a da narração; loucura necessária para se traduzir em experiência vivida.

 

Livia Garcia-Roza. Milamor.  Rio de Janeiro: Record, 2008

 

 

Paisagens da Crítica publicou comentário sobre outro livro de Livia Garcia-Roza: Meus queridos estranhos (4 de fevereiro de 2007). Está no endereço antigo e é acessível pelo link http://paisagensdacritica.zip.net/arch2007-02-04_2007-02-10.html

Prêmio São Paulo

 

Saiu o resultado de mais um prêmio literário – o mais valioso, diga-se de passagem.

 

É o Prêmio São Paulo de Literatura, que deu 200 mil reais para o melhor romance de 2007. E mais 200 mil para o melhor romance de autor estreante.

 

Ganhou Cristovão Tezza.

 

Que já tinha levado o Jabuti de Melhor Romance e o Portugal Telecom.

 

Claro que sempre tem algum chato que vai questionar (que outro mundo tem mais donos da verdade do que o da cultura & assemelhados?). Deixe passar.

 

Mas O filho eterno é um livro impressionante. Bom literariamente, bom por aquilo que um bom livro tem que ser: capaz de pegar o leitor pelas entranhas.

 

Entre os estreantes, o bom livro de Tatiana Salem Levy levou o dinheirão. Também acho merecido.

 

A chave da casa é bem construído, bem desenvolvido e demonstra maturidade literária.

 

Interessante notar que os dois saíram pela Record – editora que publica dezenas de títulos por mês e nem sempre divulga suficientemente seus livros. Mas que apostou no Prêmio São Paulo – ao contrário de outras editoras, que o ignoraram e perderam uma grande chance de valorizar seus autores.

 

Interessante, também, é que o Prêmio São Paulo chegou de mansinho, mas com a força da grana. Tomara que fique. Já até tenho meus candidatos para o próximo.

 

 

* post anterior sobre o Prêmio São Paulo:

https://paisagensdacritica.wordpress.com/2008/10/16/premio-sp-de-literatura/

 

* comentário sobre O filho eterno, de Cristovão Tezza:

http://paisagensdacritica.zip.net/arch2007-09-23_2007-09-29.html