podcast: Fausto e seus imitadores

 

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre Fausto e seus imitadores.

 

O comentário foi ao ar na quinta-feira, dia 19 de fevereiro.

 

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/26-02-09_comentario_julio_pimentel.mp3

 

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A viagem a Nápoles, de Sérgio Buarque de Holanda

 

A viagem a Nápoles  é um conto: a única ficção escrita pelo maior historiador brasileiro.

 

Sérgio Buarque de Holanda a publicou originalmente em 1931, na Revista Nova, e ela agora reaparece numa edição bem cuidada, com formato diferenciado e ótimos  desenhos do arquiteto Vallandro Keating.

 

Embora a quarta capa da nova edição apresente o conto como “surrealista”, é difícil enxergar qualquer influência do movimento francês. Não só porque em 31 o eco surrealista era ainda bastante sutil nas Américas. Mas sobretudo porque a história não se enquadra – felizmente – nos moldes rígidos do manifesto de 24 ou de alguns de seus mais notórios seguidores.

 

A viagem a Nápoles pode até ser um sonho e flertar um pouco com referenciais psicanalíticos – como gostavam os surrealistas. Só que o sonho de Belarmino, o protagonista, é carregado de aspectos lúdicos, de disposição para a brincadeira, e jamais assume o tom arrogante que tantos vanguardistas gostaram de ostentar em sua obsessão novolátrica. Menos do que onirismo, o conto é um causo – causo erudito, gozador e divertido.

 

O narrador invade a consciência do seu personagem principal e segue seu itinerário difuso por uma São Paulo que associa o arcaísmo oitocentista com as marcas novas do moderno. A São Paulo que ria quando a besta atrapalhava o andar do bonde ou quando alguma caipirinha desfilava vestida de Poiret.

 

Belarmino anda pela cidade e pelo tempo: tem sete ou oito anos, tem dois, tem quinze. Ele é também um sujeito bipartido: metade de sua consciência se apega aos medos e às fantasias infantis; a outra metade quer crescer. As duas freqüentam a mesma escola – na Praça da República – e ambas despencam de improviso em Nápoles, depois de atravessar um portão.

 

No ritmo aleatório e arbitrário dos sonhos, Nápoles é também o lugar do quase-alumbramento, do olhar surpreso pelo corpo feminino e mais velho, da hesitação, da incompletude. Do próprio corpo revelado como território desconhecido e inexplorado.

 

Em Nápoles ou em São Paulo, Belarmino caminha em torno de si mesmo. E o narrador, sempre brincalhão, se incumbe de não deixá-lo se levar muito a sério, de atenuar o peso das aflições ou da condição incerta de seu herói sem caráter. Até para mostrar que qualquer atribuição de caráter – para si ou para o outro, para o indivíduo ou para o coletivo – é, tal qual um sonho, artificial.

 

Não, não vou concluir que, cinco anos antes de publicar Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda testou ficcionalmente algumas idéias gerais do futuro clássico da historiografia. Nem vou dizer que ele aplicou ao conto a “atitude crítica perante a vida e o mundo”, gesto supremo do historiador. Essas idéias podem até estar lá; as preocupações intelectuais, também. Mas o que caracteriza A viagem a Nápoles é exatamente a despretensão, é o riso maroto que o narrador do conto deixa entrevisto em cada frase.

 

Epa, mas esse riso já não é a tal atitude crítica? É, acho que é. Então, o conto não se presta apenas ao divertimento do leitor? Não.

 

Mas veja bem: não é porque ele é mais complexo que você deve lê-lo com o polegar no queixo, ar sisudo, e tratá-lo como se fosse uma soturna peça acadêmica. Se fizer isso, poderá até escrever uma tese sobre a ficção de Sérgio Buarque de Holanda. Mas não terá entendido nada do conto.

 

Sérgio Buarque de Holanda. A viagem a Nápoles. São Paulo: Terceiro Nome, 2008

 

Horas perplexas, de Reynaldo Damazio

 

Horas perplexas é prosa em forma de verso.

 

Tira seu título de um verso de outro poeta prosador, Eugenio Montale –  reproduzido na epígrafe – e se mantém próximo da tradição italiana do XX, com seus quase incomparáveis narradores, que souberam circular entre a prosa e o verso, que perceberam que a fronteira entre uma e outro é mais porosa do que normalmente se supõe.

 

Claro que Reynaldo Damazio incorpora outras influências à sua escrita. Há algo de Cabral, algo dos concretistas, algo do barroco recriado de Haroldo de Campos. E muito da geração que nos anos 70 injetou quotidiano à criação poética – Ana Cristina Cesar, Armando Freitas Filho. Há também um esforço metapoético, talvez inevitável.

 

O melhor e o maior da poesia de Damazio, porém, é não se deixar angustiar pelo repertório prévio e estourar o limite do verso. Porque é nesse espaço que os contrastes revelam sua potência. É lá que percebemos que, afinal, não há tanta distância entre a luz e as sombras, entre a água e o solo – para voltar a imagens caras a Montale.

 

É nesse terreno incerto que a dicção poética pode até jogar com as palavras na folha, revisitar espacializações, insinuar o eco do fabuloso Trilce, de Cesar Vallejo, mas sem perder a dimensão presente, sem desconsiderar o que há de vital no agora – mais uma lição de Montale.

 

Por isso também não é possível limitar a expressão aos versos. Embora o laboratório da escrita seja essencial, é preciso ultrapassar o muro em que tantos poetas se confinam. E evitar, claro, cair em outra cidadela cercada – a da militância política ou estética.

 

Daí Damazio fugir da orgia da semiótica e da clausura acadêmica e optar pelo realismo difuso do olho no olho, eis a questão. Daí visitar o desconsolo borgeano diante da metropolização e do caos urbano e pleitear, bom passadista, um retorno a áreas menos povoadas e mais contraditoriamente vivas de penumbra e de ocaso. Daí alguns itinerários líricos – algo que a recente poesia brasileira deixou em desuso.

 

Sobretudo: daí a opção pelo gesto narrativo, com sua ocasional prolixidade e seu detalhamento descritivo. E, melhor, pela narrativa italiana – tão intensa e tão distante dos círculos ego-concêntricos de alguns narradores franceses idolatrados nas terras tupiniquins.

 

O resultado é que Horas perplexas faz jus ao título, evitando as definições prévias e mostrando que prosa ou poesia, afinal, è vita, vita che fugge. Não adianta tentar fixá-la.

 

Reynaldo Damazio. Horas perplexas. São Paulo: Editora 34, 2008

 

Gato preto em campo de neve, de Erico Veríssimo, por Dennis de Almeida

 

Gato preto em campo de neve, de Erico Veríssimo

 

por Dennis de Almeida

 

Gato preto em campo de neve poderia ser apenas um balanço sobre uma viagem, com os seus principais pontos turísticos e alguns encontros com personalidades com ar de intimidade. Seria muito atraente se fosse apenas isto. Mas ele vai além, e o resultado é um dos melhores livros de viagem já escritos no Brasil.

 

Erico Veríssimo o escreveu após uma excursão aos Estados Unidos, nos primeiros meses de 1941. Esta viagem fazia parte da conhecida política de boa vizinhança do Departamento de Estado sob a presidência de Franklin D. Roosevelt.  Mas o que ele descobriu sobre o “grande irmão do norte” e sobre o próprio país? Sob que olhar ele fez esta viagem?

 

O autor de O tempo e o vento sempre se definiu como um contador de histórias. E o que ele nos oferece no Gato Preto é, em todos os sentidos, um romance. Os personagens desta jornada são as pessoas que encontrou, as cidades em que esteve e, duplamente, ele próprio já que, por diversas vezes, tecia diálogos com um fantasma particular auto-denominado Malasartes.

  

O país encontrado por Erico, ao desembarcar em Nova York , era um país jovem, entusiasmado e, muitas vezes, pendendo do otimismo para a inocência. Pessoas sorridentes, que demonstram sua prosperidade sem ostentá-la, pontuam todo o relato. De escritores, como W. Somerset Maugham, ao engraxate da Quinta Avenida, todos revelam a cordialidade de quem é confiante no futuro do país, mesmo que estivessem preocupados quanto ao resto do mundo; afinal, eram tempos de guerra.

 

Por meio da admiração frente ao respeito às liberdades individuais, também transparece a crítica ao Estado Novo. Ali o romancista cede lugar ao cidadão, que questiona, através do exemplo norte-americano, muitas das alternativas escolhidas pelo governo brasileiro e, por que não?, pelo povo de seu país.

 

Mesmo nestas passagens, no entanto, não existe traço de rancor para com ambas as realidades. Erico não possui aquela antipatia contra a posição dos Estados Unidos frente ao mundo, tão em moda até hoje.  Seu olhar busca muito mais a substância do que o contorno enrijecido. Quer, em primeiro lugar, compreender, para então poder refletir.

 

O lado obscuro também é desnudado nos guetos de Nova York ou nos bairros negros de Washington.  A pobreza, o preconceito e a intolerância fazem parte das cores desta tela. Mesmo assim, não é um discurso ideologizado, no qual a pobreza é mero artifício do discurso político.  Antes de tudo, a pobreza é tratada como condição à qual nenhuma pessoa deveria ser entregue.

 

Estamos acostumados a ver o pior lado dos Estados Unidos. Durante os últimos oito anos, uma política unilateral ditou os rumos da nação. Entretanto, com as eleições recentes, o melhor dos norte-americanos veio à tona: a necessidade de ser voluntário; a vontade de fazer valer a sua opinião dentro das regras não apenas da democracia, mas também do respeito mútuo. Esta é a América que Erico Veríssimo nos mostra.

 

Em tempos tão brutos quantos os nossos, vale a pena ler Gato preto em campo de neve, pois este é um exercício de tolerância e de ponderação responsável acerca do mundo em que se vive. Não é a toa que a ultima palavra do livro é esperança.

 

Erico Verissimo. Gato preto em campo de neve. São Paulo: Companhia das Letras, 2006 (original: 1941)

 

Dennis de Almeida é historiador e estudioso da obra de Erico Veríssimo.

 

Indignação, de Philip Roth

 

Indignação é o novo livro de Philip Roth.

 

Bastaria isso para o leitor saber que tem que correr, comprar e ler. Só não deve ler muito rápido para aproveitar as frases cortantes, o humor amargo, a crítica institucional, o mapeamento da vida.

 

Porque Roth, como sempre, nos lembra que literatura e vida não se desconectam. Nem indivíduo e coletivo. Muito menos o plano pessoal e o histórico. Seus personagens vivem na tensão entre mundos que eles gostariam de isolar ou cuja conjugação os destrói.

 

Não é diferente com Marcus Messner. Ao contrário dos protagonistas mais lembrados de Roth, Messner é jovem, filho de um açougueiro kasher de Newark e acaba de completar a High School. É o primeiro da família a ir para um college e o pano de fundo é a Guerra da Coréia.

 

O ano de 51 demora a passar enquanto Marcus se afasta da família para evitar a fúria protetora do pai. Prefere estudar a mais de 500 milhas de distância. No entanto, tudo que lembra do pai é bom. Ao relatar seu passado a uma colega por quem se apaixona, constata: ele só me ensinou coisas boas. Mesmo que em meio ao sangue do açougue, ao cheiro do sangue, à cor do sangue, à onipresença do sangue.

 

Sabemos, porém, que não se ensina só o que se sabe, se ensina o que se é – já disse Jean Jaurès. E, nos subterrâneos da relação familiar dedicada e apaixonada, também as obsessões são transmitidas e atingem em cheio o jovem Marcus, dotado de uma perigosíssima ingenuidade e de uma rigidez ética e pessoal que não cabem no mundo.

 

Ou, pelo menos – se também quisermos ser ingênuos -, num mundo em guerra. No mundo do college religioso para onde vai. No mundo das relações entre jovens com hormônios à flor da pele e pouca esperança no futuro: a Segunda Guerra passou, a Guerra da Coréia está passando, outras virão e a vida continua. Continua?

 

A história invade o mundo de Marcus, invade o de seus pais. Invade o da pobre Olivia Hutton, menina emparedada. Atropela colegas de Marcus, transborda o (restrito) limite da escola. A guerra penetra no espaço do college, em simulação brutal e definitiva.

 

Não há, evidentemente, escape. Não há o que cavar, com ou sem alarde. Não vai brotar nenhuma orquídea, Drummond, do mundo de Marcus. Qualquer transformação é impossível. O próprio Marcus a recusa quando a mãe a propõe. A mãe a recusa, quando a entrevê nos gestos de Marcus e no pulso de Olivia.

 

Prepare-se, leitor: você sairá da leitura aturdido. É para isso, afinal, que se presta a literatura. A boa ficção. A ficção de Philip Roth.

 

Philip Roth. Indignation. New York: Houghton Mifflin, 2008