Indignação, de Philip Roth

 

Indignação é o novo livro de Philip Roth.

 

Bastaria isso para o leitor saber que tem que correr, comprar e ler. Só não deve ler muito rápido para aproveitar as frases cortantes, o humor amargo, a crítica institucional, o mapeamento da vida.

 

Porque Roth, como sempre, nos lembra que literatura e vida não se desconectam. Nem indivíduo e coletivo. Muito menos o plano pessoal e o histórico. Seus personagens vivem na tensão entre mundos que eles gostariam de isolar ou cuja conjugação os destrói.

 

Não é diferente com Marcus Messner. Ao contrário dos protagonistas mais lembrados de Roth, Messner é jovem, filho de um açougueiro kasher de Newark e acaba de completar a High School. É o primeiro da família a ir para um college e o pano de fundo é a Guerra da Coréia.

 

O ano de 51 demora a passar enquanto Marcus se afasta da família para evitar a fúria protetora do pai. Prefere estudar a mais de 500 milhas de distância. No entanto, tudo que lembra do pai é bom. Ao relatar seu passado a uma colega por quem se apaixona, constata: ele só me ensinou coisas boas. Mesmo que em meio ao sangue do açougue, ao cheiro do sangue, à cor do sangue, à onipresença do sangue.

 

Sabemos, porém, que não se ensina só o que se sabe, se ensina o que se é – já disse Jean Jaurès. E, nos subterrâneos da relação familiar dedicada e apaixonada, também as obsessões são transmitidas e atingem em cheio o jovem Marcus, dotado de uma perigosíssima ingenuidade e de uma rigidez ética e pessoal que não cabem no mundo.

 

Ou, pelo menos – se também quisermos ser ingênuos -, num mundo em guerra. No mundo do college religioso para onde vai. No mundo das relações entre jovens com hormônios à flor da pele e pouca esperança no futuro: a Segunda Guerra passou, a Guerra da Coréia está passando, outras virão e a vida continua. Continua?

 

A história invade o mundo de Marcus, invade o de seus pais. Invade o da pobre Olivia Hutton, menina emparedada. Atropela colegas de Marcus, transborda o (restrito) limite da escola. A guerra penetra no espaço do college, em simulação brutal e definitiva.

 

Não há, evidentemente, escape. Não há o que cavar, com ou sem alarde. Não vai brotar nenhuma orquídea, Drummond, do mundo de Marcus. Qualquer transformação é impossível. O próprio Marcus a recusa quando a mãe a propõe. A mãe a recusa, quando a entrevê nos gestos de Marcus e no pulso de Olivia.

 

Prepare-se, leitor: você sairá da leitura aturdido. É para isso, afinal, que se presta a literatura. A boa ficção. A ficção de Philip Roth.

 

Philip Roth. Indignation. New York: Houghton Mifflin, 2008

 

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10 pensamentos sobre “Indignação, de Philip Roth

  1. Oi Júlio,

    Tenho de confessar que você me pregou uma peça. Depois de ler este texto, fiquei procurando “Indignação” nos sites de compra e não achava. Necessidade de uma leitura mais atenta de minha parte, mas você tem de admitir que o seu texto foi instigador. Também gosto muito de Roth, sem dúvida, a prova de que os EUA produzem sim uma boa literatura .

    Um abraço,

    Dennis.

    • Dennis,
      me desculpe: não pensei que a tradução do título criaria confusão.
      Mas – se vale como consolo – acho que a edição brasileira deve sair logo.
      Abraços,
      Júlio

  2. Não te disse hoje, mas comecei a ler Roth por sua causa!
    Tudo certo lá na Fapesp, viu?
    A saber, olha o que o Titan me escreveu quando contei pra ele que te conheci pessoalmente: “E o Julio, esse sim, é um ótimo sujeito!”
    Beijos

    • Tati,
      obrigado pelo comentário.

      Gentileza do Samuel. E bom que tudo correu bem na Fapesp.

      Fico feliz, muito feliz, que o blog a tenha levado até Roth. Tomara que tenha gostado, claro. Mas o importante é ter buscado.

      Beijos,
      Júlio

  3. Júlio:

    após ler mais um brilhante livro do Philip Roth- Indignação-, devo dizer que sua crítica sobre o livro é precisa.
    Abs,
    André.

    • Obrigado, André.
      Mas preciso (e infalível) é o Roth.
      E li, no Estado da semana passada, que ele já entregou outros dois livros à editora, para serem lançados no final de 2009 e de 2010. Impressionante.
      Abraços,
      Júlio

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