Quando não estou por perto, de Annita Costa Malufe

 

Quando não estou por perto expõe algo óbvio, mas essencial: poesia nunca é certeza; poesia é hesitação.

 

Os versos de Annita Costa Malufe são abertos e em aberto; os gestos ficam suspensos; a palavra é pouco coesa e sempre limitada, mesmo quando é princípio, centro e sentido: afinal, como expressar o que se desenha na oscilação, em locais improváveis e impróprios, no ar que nos rodeia; como representar o que segue itinerários muito além do controle?

 

Annita é uma poeta moderna e dialoga com poetas, críticos e prosadores modernos. Por trás de seus poemas, espreitam autores sobre os quais ela já escreveu ou, melhor, que não se cansou de ler. Lógico: a boa crítica se infiltra na poesia, tal como a leitura densa jamais se separa da escrita. Ana Cristina Cesar, por exemplo, está ali, na impermanência das temporalidades e das espacialidades, na sólida inconsistência de um olhar atravessado e inquieto sobre o mundo. Mas também se lê, sob Annita, Marcos Siscar, algo de Beckett, de Éluard, muito de Deleuze.

 

Lê-se, sobretudo, o lirismo possível num tempo em que a unicidade se tornou impossível; há mais de um sujeito, mais de um ponto de enunciação, e eles dificilmente se associam, as sílabas não se juntam: “há um buraco no meio / da frase uma fenda que a corrói / por dentro um silêncio um giro / em falso uma fenda que se expande / um vazio sem passado girar e / girar o que pode começar / neste exato ou em qualquer / instante seguinte”.

 

Qual certeza? Nenhuma: as garantias e quaisquer sonhos (não necessariamente desejáveis) de ordenação se esvaem perante a imprecisão do movimento, da voz que perscruta o tempo, passado interrompido, mas cujos vínculos vivos ainda afligem. A memória se torna guia —guia ora inoportuna, em geral incompetente, normalmente instável— da vontade de persistir num ontem enevoado e plural: plural como o presente e, como o presente, impalpável, assustador e angustiante.

 

Annita é uma poeta madura na técnica, no domínio conceitual, na intensidade; nos seus versos aparecem certos temas irreversíveis da poesia —ela mesma, a precária percepção do tempo, a instabilidade dos dias—, traduzidos e vividos na vertigem do instante. “Por que cantar a rosa?”, perguntava Huidobro em 1916 para, em seguida, aconselhar: “fazei-a florescer no poema”. Annita, quase cem anos depois, sabe que, ao poeta, não se pede apenas que crie: é preciso também que se mova —não na aceleração do que se passa lá fora, mas na lentidão do que se passa lá dentro.

 

Por isso, ela escreve com exatidão sobre o que não é exato, jamais é. Escreve com precisão sobre o que é preciso: hesitar.

 

 

Annita Costa Malufe. Quando não estou por perto. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

 

 

Paisagens da crítica já publicou resenhas de três outros livros de Annita Costa Malufe.

 

Clique nos títulos para lê-las:

 

Fundos para dias de chuva (17.6.2006);

Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (1.7.2007);

Nesta cidade e abaixo de teus olhos (1.7.2008)

 

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Horas perplexas, de Reynaldo Damazio

 

Horas perplexas é prosa em forma de verso.

 

Tira seu título de um verso de outro poeta prosador, Eugenio Montale –  reproduzido na epígrafe – e se mantém próximo da tradição italiana do XX, com seus quase incomparáveis narradores, que souberam circular entre a prosa e o verso, que perceberam que a fronteira entre uma e outro é mais porosa do que normalmente se supõe.

 

Claro que Reynaldo Damazio incorpora outras influências à sua escrita. Há algo de Cabral, algo dos concretistas, algo do barroco recriado de Haroldo de Campos. E muito da geração que nos anos 70 injetou quotidiano à criação poética – Ana Cristina Cesar, Armando Freitas Filho. Há também um esforço metapoético, talvez inevitável.

 

O melhor e o maior da poesia de Damazio, porém, é não se deixar angustiar pelo repertório prévio e estourar o limite do verso. Porque é nesse espaço que os contrastes revelam sua potência. É lá que percebemos que, afinal, não há tanta distância entre a luz e as sombras, entre a água e o solo – para voltar a imagens caras a Montale.

 

É nesse terreno incerto que a dicção poética pode até jogar com as palavras na folha, revisitar espacializações, insinuar o eco do fabuloso Trilce, de Cesar Vallejo, mas sem perder a dimensão presente, sem desconsiderar o que há de vital no agora – mais uma lição de Montale.

 

Por isso também não é possível limitar a expressão aos versos. Embora o laboratório da escrita seja essencial, é preciso ultrapassar o muro em que tantos poetas se confinam. E evitar, claro, cair em outra cidadela cercada – a da militância política ou estética.

 

Daí Damazio fugir da orgia da semiótica e da clausura acadêmica e optar pelo realismo difuso do olho no olho, eis a questão. Daí visitar o desconsolo borgeano diante da metropolização e do caos urbano e pleitear, bom passadista, um retorno a áreas menos povoadas e mais contraditoriamente vivas de penumbra e de ocaso. Daí alguns itinerários líricos – algo que a recente poesia brasileira deixou em desuso.

 

Sobretudo: daí a opção pelo gesto narrativo, com sua ocasional prolixidade e seu detalhamento descritivo. E, melhor, pela narrativa italiana – tão intensa e tão distante dos círculos ego-concêntricos de alguns narradores franceses idolatrados nas terras tupiniquins.

 

O resultado é que Horas perplexas faz jus ao título, evitando as definições prévias e mostrando que prosa ou poesia, afinal, è vita, vita che fugge. Não adianta tentar fixá-la.

 

Reynaldo Damazio. Horas perplexas. São Paulo: Editora 34, 2008

 

Nesta cidade e abaixo de teus olhos, de Annita Costa Malufe

Nesta cidade e abaixo de teus olhos conversa com quem? Annita Costa Malufe prossegue seu diálogo poético de Fundos para dias de chuva e continua a intrigar o leitor, que fica à espera da revelação: a quem os versos se dirigem? Qual é o mundo – povoado – em que circulam?

 

À primeira vista, a resposta parece fácil: Annita conversa com outra poeta, Ana Cristina Cesar. Afinal, a influência de Ana C. é forte, clara, assumida, e transborda o trabalho poético de Annita: Ana C. foi também objeto de suas pesquisas acadêmicas. Outra explicação fácil é encerrar o diálogo no próprio livro e reconhecer sua entabulação com a ilustração cuidadosa, de Silvio Ferraz, que acompanha os poemas na pequena e bem cuidada edição. Mas há mais personagens nesta cidade literária. Personagens, não vozes. Porque a voz é sempre una, embora possa ocasionalmente se travestir. É um narrador – na verdade, uma narradora, porque o traço feminino é forte – que expõe sua intimidade e contempla, perscruta, indaga o que a cerca.

 

É inevitável, nesse itinerário pessoal, que a entonação seja lírica. Mas não é o lirismo funcionário público, com cartão de ponto e paletó-na-cadeira: é aquele que vem combinado com a porosidade da poesia; por isso, aceita invasões, recebe visitas insistentes de outras obras e outros autores. Exerce a crítica como paisagem: o ambiente – disse Lezama Lima – em que o espaço e o tempo se reúnem, onde podemos reagir à barbárie dos desafetos para refundar a experiência e o olhar pessoais. Daí ser tão complicado identificar o interlocutor dessa poesia: ele está tão entranhado no olhar, que conduz e é conduzido, que se torna impossível discernir “influências”, “reescrituras” ou mesmo “desdobramentos” – termo que agradaria mais à poética de Annita do que os anteriores.

 

Poesia, vale lembrar, não deixa de ser representação e, assim, indica certa ausência e oferece uma presença, alterada, desviada. E, no jogo de representar, a capacidade que em geral sobressai é a de assimilação: o quanto somos capazes de absorver e traduzir em signos próprios a experiência histórica e literária que nos rodeia e de que nos sentimos herdeiros – mesmo que nenhum testamento assegure a linha de projeção. E a intensidade da poesia de Annita vem exatamente da delicadeza como assimila, sem cair no entorpecimento das citações desmedidas, registros poéticos de inúmeras origens: do prosaísmo de um Paulo Henriques Britto às teorias de Blanchot ou Derrida, da fantasia cortazariana aos labirintos de Beckett. O interlocutor não-mencionado ressurge, então, duplicado no tom confessional de Annita, e a ausência – essa ausência assimilada, já falou Drummond sobre Ana C. – ninguém rouba mais de sua poesia.

 

Por isso, Annita C. não é apenas uma pequena Ana C.: o vigor de sua conversação, as dedicatórias que ora individualizam, ora pluralizam o leitor e o fio da lâmina que separa o urbano, público, do território convergente da intimidade permitem que os olhos do título não sejam só os do próximo, teu, mas o da voz mesma que fala e, porosa, assume como seu o que é comum e incomum.

 

Annita Costa Malufe. Nesta cidade e abaixo de teus olhos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008

 

Paisagens da Crítica comentou outros dois livros de Annita Costa Malufe: Fundos para dias de chuva (17 de junho de 2006) e Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (1º de julho de 2007). Os dois textos estão no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net

Redor, de Masé Lemos

Redor é pequenino, uma espécie de aleph – ponto luminoso que olhamos e, nele, se sucedem inúmeras imagens de tempos e gentes distintas. Porque a poesia de Masé Lemos combina lugares e mistura tempos, inventa sucessivas metáforas para, em seguida, abandoná-las. E partir.

O signo da partida talvez seja, inclusive, o mais destacado – ou o segundo mais – do livro, dividido em quatro partes assimétricas: “Não deixe de ter em vista esse termo”, “Poesia impura ou elegias a Tarkos”, “Malazarte”, “Redor” e “Coisas”. Começa misturando poemas em verso e em prosa, num registro colado ao quotidiano, mas que sempre se ressente de tal proximidade e opta pelo distanciamento crítico, às vezes irônico, normalmente risonho. Ao se afastar para olhar, porém, a poesia de Masé Lemos reforça a estranheza e indica que, mesmo falando de dentro do dia-a-dia, está – repitamos Ana Cristina Cesar, sem a angústia – a ponto de partir.

A elegia-homenagem a Tarkos aceita o prevalecimento da prosa, assume a repetição variada e o ritmo quase-agônico da oralidade. Ao imergir no mundo e na dicção do poeta francês, novamente a sensação que deixa ao leitor é de despedida – idéia inevitável diante da morte recente do homenageado, mas não só: é sobretudo a força da língua e da linguagem que percorre o mundo de verdade, desmistificado, para isolá-lo e, ao mesmo tempo, revelá-lo. De novo, Masé está dentro como quem está fora, se descolando.

“Malazarte” retoma o caráter de crônica de “Não deixe de ter em vista”, mas agora o tempo presente fica em segundo plano; é o passado que prevalece e se destaca, mesmo quando a cena é contemporânea ao texto – porque o olhar se separa do hoje vivido e sonda o que veio antes, com as imperfeições e impertinências da memória, mas também com o devido distanciamento que permite a interpretação-compreensão do passado.

“Redor” e “Coisas” privilegiam o prosaico e, novamente, a perspectiva do narrador é o tema principal. A combinação do verso com a prosa poética reforça a indefinição medida do livro. A sensação de estranheza, agora, é principalmente do leitor, que pôde se reconhecer, desconfortável, no olhar do narrador, mas também aprendeu, com o passar das páginas de Redor, a aceitar o isolamento da voz lírica e sua dificuldade de fixação, sua desidentidade, sua vagueza e itinerância.

Porque Masé Lemos parte do comum para falar de outro comum – mas raramente reconhecido: o estrangeirismo do olhar poético, sua disposição à errância e à distância, sua tensão contínua e a vocação para o deslocamento. O enigma da chegada – já alertou Naipaul – é equivalente ao da partida; difícil é estimar o próximo passo. Talvez por isso Masé fale muito de partidas, mas, em sua poesia refinada, coloque outro signo acima deste: o da marginalidade, no sentido estrito. E faz, com delicadeza e contundência uma poesia que, afinal, é das margens – com a carga metafórica e metonímica de um lugar que é de encontro, separação e porosidade. Uma poesia do redor.

Masé Lemos. Redor. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007