Horas perplexas, de Reynaldo Damazio

 

Horas perplexas é prosa em forma de verso.

 

Tira seu título de um verso de outro poeta prosador, Eugenio Montale –  reproduzido na epígrafe – e se mantém próximo da tradição italiana do XX, com seus quase incomparáveis narradores, que souberam circular entre a prosa e o verso, que perceberam que a fronteira entre uma e outro é mais porosa do que normalmente se supõe.

 

Claro que Reynaldo Damazio incorpora outras influências à sua escrita. Há algo de Cabral, algo dos concretistas, algo do barroco recriado de Haroldo de Campos. E muito da geração que nos anos 70 injetou quotidiano à criação poética – Ana Cristina Cesar, Armando Freitas Filho. Há também um esforço metapoético, talvez inevitável.

 

O melhor e o maior da poesia de Damazio, porém, é não se deixar angustiar pelo repertório prévio e estourar o limite do verso. Porque é nesse espaço que os contrastes revelam sua potência. É lá que percebemos que, afinal, não há tanta distância entre a luz e as sombras, entre a água e o solo – para voltar a imagens caras a Montale.

 

É nesse terreno incerto que a dicção poética pode até jogar com as palavras na folha, revisitar espacializações, insinuar o eco do fabuloso Trilce, de Cesar Vallejo, mas sem perder a dimensão presente, sem desconsiderar o que há de vital no agora – mais uma lição de Montale.

 

Por isso também não é possível limitar a expressão aos versos. Embora o laboratório da escrita seja essencial, é preciso ultrapassar o muro em que tantos poetas se confinam. E evitar, claro, cair em outra cidadela cercada – a da militância política ou estética.

 

Daí Damazio fugir da orgia da semiótica e da clausura acadêmica e optar pelo realismo difuso do olho no olho, eis a questão. Daí visitar o desconsolo borgeano diante da metropolização e do caos urbano e pleitear, bom passadista, um retorno a áreas menos povoadas e mais contraditoriamente vivas de penumbra e de ocaso. Daí alguns itinerários líricos – algo que a recente poesia brasileira deixou em desuso.

 

Sobretudo: daí a opção pelo gesto narrativo, com sua ocasional prolixidade e seu detalhamento descritivo. E, melhor, pela narrativa italiana – tão intensa e tão distante dos círculos ego-concêntricos de alguns narradores franceses idolatrados nas terras tupiniquins.

 

O resultado é que Horas perplexas faz jus ao título, evitando as definições prévias e mostrando que prosa ou poesia, afinal, è vita, vita che fugge. Não adianta tentar fixá-la.

 

Reynaldo Damazio. Horas perplexas. São Paulo: Editora 34, 2008

 

5 pensamentos sobre “Horas perplexas, de Reynaldo Damazio

  1. Júlio, agradeço a leitura acurada do livro, que só vejo agora. Você toca em pontos essenciais não só do livro, mas do modo como entendo a literatura… Grande abraço, Reynaldo

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