Céu de origamis, de Luiz Alfredo Garcia-Roza


Céu de origamis é o nono romance policial de Luiz Alfredo Garcia-Roza e a oitava aventura do Delegado Espinosa.

Garcia-Roza, já faz tempo, é o mais regular e consistente autor brasileiro de narrativas de enigma; Espinosa, seu personagem-detetive, o melhor representante tupiniquim de uma linhagem que começou com Dupin e prosseguiu, entre outros, com Marlowe.

No princípio do novo romance, Espinosa está afastado do cargo, pois se recupera de um atentado, relatado no livro anterior. Inicia de forma extraoficial a investigação sobre o estranho desaparecimento de um dentista. Na metade do livro, reassume o cargo e, de amador, passa a profissional.

A trama é obviamente cheia de reviravoltas e de pistas e despistes oferecidos ao leitor. Os perfis dos personagens são apenas brevemente delineados e suas personalidades se mantêm na superfície. Além disso, a obra incorre em pelo menos um deslize grave de continuidade: a não-explicação de uma significativa troca de nomes, que ganha destaque e, poucas páginas depois, é esquecida. O leitor espera em vão o esclarecimento, que não chega.

Apesar disso, a história se sustenta no conjunto dos eventos que apresenta e na sólida caracterização do detetive, agora menos afeito à aventura e mais reflexivo: as cenas de ação que marcaram as histórias anteriores de Espinosa ficaram de fora e a narrativa só ganhou com isso, aproximando-se mais da origem do gênero, ao situar todos os crimes em ambientes fechados e de possibilidades limitadas.

Garcia-Roza compassa, assim, seus livros aos registros policiais modernos, que desprezam a habitual eleição de um estilo específico para a narração. Porque o perfil de suas histórias e de seu detetive é construído exatamente na conjunção do policial amador e analítico, de origem poeana, e do detetive aventureiro e profissional da tradição americana de Hammett e de Chandler. Espinosa consegue construir raciocínios rigorosos e, ao mesmo tempo, flana pela cidade e pelas idéias, se imiscui nas tramas e se expõe.

Também não faltam as belas mulheres, de perfis assincrônicos, mas sempre suspeitas e potencialmente perigosas — característica do romance negro norte-americano. Curioso é notar a construção gradativa de vínculos familiares do detetive, experiência normalmente ausente na narrativa policial, em que os investigadores são figuras isoladas e desconectadas dos rituais da intimidade. A aproximação com o filho e a manutenção da mesma namorada dos romances anteriores revela o amadurecimento e, melhor, o envelhecimento do personagem.

Por isso, Espinosa é tão decisivo nos policiais de Garcia-Roza: ele assegura o vínculo com a tradição do gênero nos seus vários registros e ainda abre espaço para a variação — marca decisiva num tipo de ficção que corre sempre o risco da mesmice e do clichê.

Pode até ser que o detetive esteja se cansando e suas histórias não tenham mais o vigor físico e narrativo que as primeiras aventuras apresentavam. Mas continuam a ser belos exercícios de reflexão e de escritura. E a mostrar que Garcia-Roza prossegue anos-luz à frente dos autores brasileiros de romances de enigma.

Luiz Alfredo Garcia-Roza. Céu de origamis. São Paulo: Companhia das Letras, 2009-12-08

Outros três livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza foram comentados em Paisagens da Crítica: siga os links para lê-los:

Berenice procura (30 de novembro de 2005)

Espinosa sem saída (15 de dezembro de 2006)

Na multidão (26 de  dezembro de 2007)

10 pensamentos sobre “Céu de origamis, de Luiz Alfredo Garcia-Roza

    • Eduardo,
      obrigado & anotado. Passarei por lá.
      Abraços,
      Júlio

      Áquila,
      tudo bem?
      É isso: Garcia-Roza sempre oferece textos agradáveis e bem montados, mesmo quando há falhas no desenvolvimento da trama. O tema da corrupção é constante e importante. O do envelhecimento e relações familiares ajuda a atualizar a matriz do policial.
      Abraços,
      Júlio

  1. Assim que vi o lançamento fiquei interessado, e ainda dei a sorte de comprar um exemplar autografado pela internet, entregue em minha casa, direto do Rio de Janeiro… Ah a modernidade…
    Modernidade essa que aparece bastante nessa nova aventura de Espinoza. Pen drives, recuperação de HDs, enfim, detalhes simples que evidenciam o momento em que se passa o texto.
    Aproveitando o comentário anterior, realmente os origamis aparecem muito pouco e acho que, mesmo falando da meticulosidade e dos passos organizados, planejados de toda a cena, são um tanto pouco explorados, até pela sucessão de “falhas” nas dobras desenhadas previamente.
    Agora, além da modernidade material do texto, achei muito bom o debate acerca da polícia corrupta, e a interação do delegado com o filho, que expõe tanto sua realidade quanto a realidade dessa polícia e a violência com a qual convivemos, se mostrando, ao menos pra mim, bastante atual e ligado às questões que têm sido debatidas quanto à segurança pública.
    Além de sempre ser um prazer ler o Garcia-Roza!

  2. Eu tenho apenas três livros do Garcia-Roza ainda não comprei o Céu de Origamis, então só falarei pelos que tenho. Eu sempre fui aficcionado em romances policiais já li centenas de publicações do gênero de autores nacionais e estrangeiros, mas quando vi pela primeira vez um livro do Garcia-Roza eu comprei três numa tacada só em 2007 ainda quando estava na graduação mas só fui ler esse ano enfim terminei a leitura do livro Na Multidão essa semana e já comecei a leitura do livro Espinosa sem saída.
    O que percebo é que o autor é muito feliz no que escreve, enfim soube aproveitar muito sua experiência profissional anterior o que os livros confirmam. Pois o universo particular do envolvidos na trama são muito bem explorados com os jogos psicologicos feitos que na minha opinião é o diferencial do Garcia-Roza. E ainda somando é que ele não parece ser um simples livro de ficção, pois, ele trata de alguns temas do cotidiano que chega a confundir se é um caso real ou se é uma ficção pura e simples. Enfim o Luiz Alfredo Garcia em minha opinão está anos luz de distância dos seus compatriotas como também de muitos escritores internacionais.

    • Ricardo,
      tudo bem?
      Concordo que os livros de Garcia-Roza são bem superiores em relação à maioria dos escritores de policiais brasileiros.
      Abraços,
      Júlio

  3. Além do “Céu de Origamis”, li, somente, o “Achados e Perdidos”; vou ler outros do Roza.Gosto muito. É curioso,porque, há uns bons vinte anos, frequentei umas aulas de Roza na Universidade. Ele era tão bom professor,ou,por outra, sabia tanto de Psicanálise, que alunos de outras faculdades no Rio convergiam, como ouvintes, para suas aulas.Neste “Céu…”.você percebe, vez por outra, o professor de Piscanálise imiscuindo na trama, principalmente no personagem de Espinosa.Sinto também, uma certa descontinuidade entre os personagens, sei lá, como se não devessem ter feito algo no início do romance,com aquilo que é deflagrado depois. Mas, indico.Se é que minha indicação vale alguma coisa.

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