Solar, de Ian McEwan

 

Solar, de Ian McEwan, é a prova de que nenhum leitor é caso perdido.

 

Não me refiro, claro, aos não-leitores. Falo daqueles que leem por prazer e também por profissão, que atravessam cerca de mil páginas semanalmente e já abrem um livro preocupados com sua arquitetura, com a escolha dos vocábulos, com uma miríade de questões técnicas.

 

Sou um destes e normalmente nem reclamo. Gosto da leitura mais técnica, dos olhos de bisturi que a idade afia.

 

Vez ou outra, porém, cai na mão um livro que consegue ultrapassar o círculo mágico da leitura profissional. O livro que, lá pela página 30, já me fez esquecer de todas as preocupações formais e me enredou numa trama aguda, bem construída e compacta.

 

Solar, de Ian McEwan.

 

Claro que nenhum olho é puro; portanto, alguma parte inconsciente continua a analisar detalhes da construção narrativa. O resto, porém, finge agir como se lesse um livro pela primeira vez, desvendando letra a letra, linha a linha, buscando correlatos reais dos personagens lidos, se angustiando ou rindo aqui e ali.

 

46 anos de idade, 40 de leitura, quase ininterrupta. Poucos autores e livros hoje provocam em mim esse retorno ao passado, a essa fictícia época de leitor descomprometido que fui.

 

Solar provocou. Nem sei se é o melhor McEwan. Creio que não: Reparação prossegue mais intenso, mais profundo, denso. A questão, no entanto, não é de qualidade, embora ela esteja obviamente presente. Afinal, se não houvesse qualidade, jamais o livro seria capaz de enxaguar um leitor escaldado.

 

Tampouco é o efeito humorístico e tensionado que o relato em três tempos da trajetória do personagem Michael Beard provoca. Nem quando lembrei de meia dúzia de conhecidos que, sem saber, o emulam achei que era isso que o livro tinha a me oferecer.

 

Apenas deixei que o lugar do leitor prevalecesse — aquele sujeito volúvel, que aceita participar da história, percebendo, qual outro personagem qualquer, os fios que são deixados para amarrar, no desfecho, a vacuidade do protagonista, a impressionante e tão recorrente infantilidade de Beard.

 

E esse leitor, após três dias de envolvimento, muda agora de lado, recomenda a leitura do livro que acabou de fechar e relembra, meio nostálgico, como é bom ler um livro incrivelmente bem construído.

 

 

Ian McEwan. Solar. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (original: 2010; tradução: Jorio Dauster)

 

 

 

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Pastoral americana, de Philip Roth



Pastoral americana, de Philip Roth, é livro a ser relido sempre. Se você, leitor, por acaso ainda não leu pela primeira vez, supere logo essa fase e passe à segunda, terceira, quarta leituras… Não parará mais.

Lembre-se, porém, que nem toda leitura conforta. Na verdade, a maioria dos bons livros inquieta, desconsola, desorienta, desconcerta — este, ao menos em parte, é o papel da arte.

Um querido amigo tinha o hábito de reler O som e a fúria, de Faulkner, duas vezes por ano. Cada releitura era seguida de um mês de depressão. A mulher, sábia e cansada diante das crises, determinou: O som e a fúria, no máximo uma vez por ano. Ele compreendeu: nem só o leitor arca com os custos do desassossego que a boa literatura produz.

A cada releitura de Pastoral americana, passo maus bocados, felizmente breves. E também me convenço da centralidade de Philip Roth na literatura atual. Alguém que sustenta a densidade e a precisão do texto por quase 500 páginas merece, no mínimo, reverência. E estudos, análises cuidadosas, reinterpretações.

Desde seu lançamento, em 1997, o livro é tratado como uma potente crítica ao sonho americano — crítica que a ironia do título já sugere, ao mostrar o ininterrupto mascaramento da realidade na vida idílica do americano comum. Como ocorre sempre em Roth, o indivíduo compacta as tensões do coletivo e age sob a pressão da história. Verdade, o livro é isso mesmo, embora não apenas isso.

O impressionante sucesso do Sueco, personagem central da trama, não ultrapassa a superfície ou o olhar distante. Na profundeza de sua perfeição, tudo está corroído e ele demora a perceber.

Roth desenha passo a passo a angústia da realidade e o desmanche de uma personalidade aparentemente simples e exemplar demais, correta e óbvia demais. Faz a diagnose dos conflitos internos, da complexidade do humano e de suas relações, da incomunicabilidade.

Vivemos entre homens — a divisa é de Nietzsche — como entre pedaços e fragmentos de homens: esta, a constatação do narrador de Roth. Não há homem uno, integral: ‘O Sueco, cuja nobreza natural consistia em ser exatamente aquilo que parecia ser, havia padecido sofrimentos demais para voltar a ser ingenuamente indiviso outra vez’, constata, tão surpreso quanto os leitores diante da incrível derrocada do americano perfeito.

Um só gesto, cifrado borgeanamente num instante, acendeu sua consciência. O gesto foi da filha e a consciência era indesejável, mas ocupou todos os espaços e passou a resumir sua vida, uma ‘encenação sobre ruínas’.

Ler Pastoral americana hoje é curioso. Não há mais a Guerra do Vietnã e a intensidade política da década de 60. Não estamos nos Estados Unidos e nem aqueles Estados Unidos existem. Mas o que há de humano, irreversivelmente humano na narrativa de Roth é quase atemporal: ultrapassa os sonhos que os séculos XIX e XX acalentaram — e dos quais despertaram atordoados —, rompe qualquer barreira geográfica.

Porque o espetáculo da ruína e da angústia, que Roth discerne tão bem, mesmo em meio à paradisíaca pirotecnia do sucesso, prossegue. E é ubíquo.


Philip Roth. Pastoral americana. São Paulo: Companhia das Letras, 2009 (original: 1997; tradução: Rubens Figueiredo)


Verão, de J. M. Coetzee

Verão é um livro urgente, essencial. Precisa ficar na prateleira da frente, acessível e quotidiano.

Boa parte da crítica o leu como uma autobiografia crítica, um exercício público e irônico de autodestruição. Mas o livro de J. M. Coetzee é, obviamente, um romance.

Vou ser mais específico: é algo como um romance-esqueleto. Mostra os caminhos de construção, o andaime, o pano de fundo de um romance. E, melhor, tudo nele é falso, embora o personagem seja, no nome e em parte da biografia, o próprio autor.

Só que isso é secundário. Prevalece sua exegese da maturidade ou, melhor, daquele momento meio indefinível em que nos tornamos maduros. Perceberemos depois e então saberemos que nossa condição, bela ou pérfida, é irreversível.

Por isso, o biografado no livro aparece apenas como esboço, e o biógrafo fictício elege esse momento decisivo de sua vida. No caso, decisivo, oco e ligeiramente ridículo.

O Coetzee-personagem surge por meio de depoimentos de quem conviveu com ele: amantes, um breve amigo, paixões erráticas, uma ambígua prima. Ambígua, na verdade, é a condição de todos, meio dentro meio fora da vida narrada. Ambígua, também, é a relação mais quotidiana do biografado com seu pai, que, por não ter voz (literal e simbolicamente), fala através narrador, em outra das tantas mediações que o livro expõe.

Ambígua, principalmente, é a personalidade do biografado; é prolixa, é complexa. Um “homem de madeira”, resume um dos depoimentos; títere passivo no vergonhoso teatro do real, ao qual jamais se acostuma.

Seus volteios em torno de gentes, lugares e acontecimentos compõem uma espécie de balé narrativo, e o leitor aprende, passo a passo, como se desenha um personagem. Em síntese, uma aula de ficção. O autor se nomeia personagem, se destroi simultaneamente como fato e ficção. A vida real, travestida e transformada pela imaginação, resulta algo completamente diverso.

Daí a essencialidade de Verão. Coetzee novamente rejeita convenções e repetições; novamente lembra que o principal assunto, e melhor, da literatura é a própria literatura.

J. M. Coetzee. Verão. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 (original: 2009; tradução: José Rubens Siqueira)

A arte da ficção, de David Lodge

A arte da ficção é o livro que todo crítico e todo professor de literatura gostaria de ter escrito. Talvez também os ficcionistas. Mas sobretudo é o livro que todo leitor gostaria de deixar como resíduo das horas passadas na poltrona.

E quem o escreveu é tudo isso. David Lodge foi professor universitário e é um bom romancista, cuja divulgação no Brasil, até hoje, foi infelizmente limitada: Invertendo os papeis e Fora do abrigo não receberam a atenção que mereciam e Small World e Nice Work, que eu saiba, sequer foram traduzidos.

A voz de A arte da ficção associa esses dois ofícios na atividade que os baseia e justifica – a crítica – ao reunir sua colaboração do princípio da década de 1990 para os jornais The Independent on Sunday e The Washington Post. A proposta da coluna que assinava era a de esmiuçar alguns procedimentos da ficção – especialmente da romanesca – e sempre partir de algum texto literário e de sua análise.

Lodge, com a graça do Altíssimo e, principalmente, com bom senso, evita o academicismo e busca o leitor comum – taí uma boa idéia e um bom exemplo para os responsáveis pelos suplementos literários de nossos jornais, que transformaram parte da imprensa cultural brasileira num apêndice do gueto de nossas universidades. E Lodge busca o leitor comum – aquele sujeito que gosta de ler e que gostaria de conhecer um pouco melhor a arquitetura do que lê – simplesmente porque age e fala como leitor.

Divide o livro em cinqüenta tópicos (“O começo”, “Suspense”, “Ambientação”, “Polifonia”, “O narrador não-confiável”, entre outros) e mostra como autores significativos da literatura em língua inglesa os desenvolveram. Os tópicos misturam conceitos e procedimentos modernos (“Intertextualidade”, “Metaficção”) com a caracterização de partes de uma obra (“O título”, “O fim”), o emprego de figuras de linguagem (“Ironia”, “Metonímia”) e de elementos da trama (“Listas”, “O telefone”), as formas do romance (“O romance epistolar”, “O romance de não-ficção”) e algumas marcas de desenvolvimento do texto (“Duração”, “Motivação”). Compõe, assim, uma espécie de manual inteligente e aplicado que pode até se prestar a uma iniciação na escrita.

Não foi esta, no entanto, sua intenção – nem na coluna original, nem na reunião dos artigos em livro, que traz alterações e acréscimos em relação ao que saiu nos jornais. Lodge quis mostrar que o exercício da crítica não é tarefa acadêmica e, a bem da verdade, sequer precisa ser especializada. Não depende de diploma ou de posição privilegiada na universidade, na imprensa ou onde for – nos dias atuais, poderíamos acrescentar: nem na internet.

Ele dispôs-se a dizer o óbvio – talvez por isso normalmente esquecido: que com livros pode-se fazer o mesmo que fazemos com tantos outros elementos de nosso quotidiano. Pensar um pouco sobre eles. Desmontá-los. Compará-los. Identificar como certos autores são capazes de variar suas propostas e os decorrentes desenvolvimentos enquanto outros adotam modelos fáceis, rígidos e paralisados, repetidos.

O leitor que segue as leituras e análises de Lodge não sai ileso. Na próxima vez que abrir um livro – e vai querer abrir logo – ou uma revista, seus olhos terão mais argúcia.

Mas cuidado: isso traz problemas. Você cruza o texto de um colunista de jornal e fica deprimido ao notar a imensa quantidade de inadequações e de banalidades – o vazio – de quem é pago para escrever e devia saber fazê-lo. Você vai se entediar com aquele livro que todo mundo celebra e talvez desista de ouvir a palestra do autor na próxima Flip.

Vai discordar de muita gente e pode até passar por arrogante, quando insistir que não dá para ignorar determinados autores e que não importa que repitam que fulano ou beltrano é “grande”; você saberá que ele simplesmente não é. Você talvez prefira reler a ler – este é outro grave risco – e, às vezes, fique profundamente desanimado ao percorrer as prateleiras de uma livraria e constatar que, de tudo que está ali, você queria mesmo era voltar a Faulkner ou a Proust.

Não importa. O desânimo passa. Os cultuadores de inutilidades também passam. A leitura boa, aguda, essa que Lodge ensina, fica.

David Lodge. A arte da ficção. Porto Alegre: L&PM, 2009 (original: 1992; tradução (inclusive dos textos literários citados e analiados por Lodge): Guilherme da Silva Braga)