A idade da dúvida, de Andrea Camilleri

 

A idade da dúvida – L’età del dubbio – veio matar a saudade das aventuras do Comissário Salvo Montalbano.

 

Montalbano é o personagem mais famoso da atual ficção policial italiana. E ele começou sua carreira literária meio por acaso. Seu autor, Andrea Camilleri, o criou para que fosse apenas o protagonista de A forma da água, em 1994. Deu certo e prosseguiu.

 

De lá para cá foram 14 romances, mais de cinqüenta contos e uma dúzia de novelas. Algumas histórias viraram filme e a maioria delas foi traduzida para outras línguas. A cada lançamento, expectativa grande dos leitores e tiragens cada vez maiores. No Brasil, já foram publicados os sete primeiros romances e o nono – pularam o oitavo, sabe lá Deus por que.

 

Montalbano envelhece a cada história e a velhice bate. No umbral dos 60 (está com 58), vive a idade da dúvida do título. Tudo parece fora do prumo, e dessa vez não é a Itália berlusconiana que o abala. São seus dilemas íntimos. À semelhança dos volumes anteriores, o namoro com Livia, sua eterna namorada genovesa, é apenas um retrato na parede, cada vez mais apagado. A descrença na instituição policial é alimentada pela burocracia e incompetência galopantes.

 

No entanto, quanto mais envelhece, mais Montalbano volta à adolescência. Apaixona-se e fica paralisado, sem saber o que fazer. Oscila diante das decisões a serem tomadas e se afunda em longos e inférteis pensamentos. Conta pequenas e desnecessárias mentiras que rapidamente o colocam em situações difíceis. Continua a agir infantilmente e a deixar um ou outro sonho abalá-lo.

 

Chega a cansar o leitor com longos diálogos consigo mesmo e demoradas e repetidas descrições de estados de alma. Mais do que nunca, suas investigações são movidas pelo humor instável. O apetite – sua marca registrada – também sobe e desce em função das incertezas pessoais. Nas melhores horas, come quantidades industriais de trilhas e lulas fritas; nos maus momentos é capaz de esquecer no forno uma fabulosa massa recheada.

 

Em meio a tantas dúvidas, Montalbano perde o humor. Seu personagem provoca raros risos no leitor, que passa a depender de outros personagens (Mimì Augello ou o impagável Catarella) para perceber que, em Camilleri, o policial se divisa com o risível.

 

Só sua capacidade investigativa se mantém igual, e ele desbarata um intrincadíssimo caso, que ultrapassa as fronteiras de Vigatà. Mas perde a empatia com o leitor. Tomara a recobre no próximo volume.

 

Andrea Camilleri. L’età del dubbio. Palermo: Sellerio, 2008

 

Paisagens da Crítica comentou, entre o endereço velho e no novo, outros dez livros de Andrea Camilleri. Clique no link do nome do livro se quiser ler os comentários:

 

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006

 

4 pensamentos sobre “A idade da dúvida, de Andrea Camilleri

  1. vc q me apresentou esse autor e adorei. eu li somente a primeira investigação do montalbano. minha irmã tb adorou. eu terminei guerrilheiros do naipaul e comentei no meu blog.

  2. Olá Júlio! Acompanho frequentemente suas críticas e faço uma pergunta não relacionada diretamente ao Camilleri. Vi que você já havia lido os indicados aos prêmios São Paulo e Jabuti antes mesmo de serem anunciados como finalistas. Como fazer para manter essa atualização? É “intuição”? (ou seja: ler muita coisa e ter um palpite sobre os finalistas?). Conversas informais com quem está informado sobre o assunto? Pergunto porque gostaria de ler, ao longo de 2009, dentre outras coisas os romances que estarão em discussão. Você pode me ajudar?
    abraço.
    Leandro.

    • Leandro,
      tudo bem?
      Não sei responder muito bem. Acho que há várias maneiras de chegar a um livro.
      Há autores que “sigo”. Ou seja, fico atento ao que publicam e procuro ler imediatamente. São aqueles de que mais gosto ou que têm uma trajetória que justifica essa atenção especial.
      Outros autores, eu descubro ao folhear livros numa livraria. Leio uma, duas páginas e, se me interessar, compro.
      E há autores de que sei por indicação de três ou quatro bons (e confiáveis) amigos, com quem troco sempre impressões de leitura. Foi por um desses amigos, por exemplo, que soube de O filho eterno imediatamente após o lançamento. Outro amigo insistiu três ou quatro vezes para que eu lesse Galiléia, até que li e adorei.
      Na prática, poucas coisas são mais gostosas do que conversar sobre leituras. Essa é a parte boa da coisa.
      É difícil adivinhar quem estará nas listas de premiados desse ano (que se referem a obras publicadas no ano passado). Mas acho quase impossível que Órfãos do Eldorado (Milton Hatoum) e Galiléia (Ronaldo Correia de Brito) não estejam entre os finalistas de todos. São as barbadas do ano. E meus preferidos. Acredito que Milamor (Livia Garcia-Roza) também esteja nas listas de finalistas. Gostaria ainda de encontrar A primeira mulher (Miguel Sanches Neto), um belo livro, mas acho improvável – por não ser um tipo de romance que costume agradar a jurados de prêmios.
      Abraços,
      Júlio

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