A primeira mulher, de Miguel Sanches Neto

A primeira mulher é ou não é um romance policial? É uma história de amor? Um exercício de crítica? É crônica? Ou romance filosófico?

 

A primeira mulher, novo livro de Miguel Sanches Neto, é tudo isso e também mantém uma considerável, prudente, distância dos clichês. Às vezes não conseguimos fugir das palavras convencionais – alerta o narrador – mas isso não implica assumir o chavão como regra ou aprisionar-se a um gênero. O próprio itinerário de Sanches Neto revela a indisposição de se fixar: já circulou pelo romance histórico, pela poesia, pela crônica, pelo romance de formação com pitadas autobiográficas, pela crítica literária, pela literatura infantil.

 

Seu policial, agora, reforça o desdém do autor pelas matrizes de um gênero que, normalmente, é associado à repetição e, em tantos casos, à banalização de sua estrutura. Ricardo Piglia já brincou, inclusive, que o aficcionado de policiais precisa ler em grande quantidade para, dela, extrair alguma qualidade. Afinal, detetives e criminosos tomaram de assalto a literatura e a televisão e seus padrões se repetem à exaustão.

 

A primeira mulher percebe a saturação do modelo, dialoga com ele e, sem ignorar a tradição do gênero, define sua rota peculiar. Aproxima-se – conforme também propõe Piglia – da crônica e mapeia um país à deriva, corrupto e desiludido. Mas a realidade é, a princípio, apenas um retrato na parede do narrador e só aos poucos ganha densidade. Esse narrador é um professor. Sozinho aos 40, perde sempre seus relógios e guarda-chuvas. Recusou por medo a paternidade e os compromissos que o engessariam e o fariam repetir as marcas de uma vida convencional: casa, família, maquinaria quotidiana. Fugiu, enfim, do clichê da rotina burguesa. Talvez tenha perdido o relógio da própria vida e, para escapar de um chavão, acabou assumindo outro: o da suposta liberdade plena do isolamento e dos casos repetidos com alunas novíssimas. Na metáfora da autodefinição, a confissão: um romancista sem obra.

 

Esbarra, porém, em certos rituais da idade – aqueles que vêm da memória e de suas escolhas incontroláveis. Uma delas envolve sua ex-mulher, Solange, agora na política, agora casada, agora com um filho desaparecido. E o professor se torna detetive – amador, como em Poe. Preocupa-se pouco com a justiça ou com a verdade: sabe que o crime fica quase sempre sem castigo, que a sordidez prevalece e que a verdade, “a verdade mesmo, nunca conhecemos, podemos intuir, jamais reconstituir os fatos.” A investigação principal corre, assim, no universo da intimidade. A história pessoal, subterrânea, sobe à cena principal – e ele segue na busca de um passado que, reencontrado, “só podia ser vivido como paródia”. Procura o filho de Solange e, simultaneamente, as palavras que permitam associar a juventude perdida com a expressão presente e desconsolada ou cínica: palavras que sirvam também para resgatar o lirismo – dizem – impossível na maturidade. Por isso, reconhece, já próximo do final, que “não estava vivendo um romance policial, mas um romance amoroso.” Obra e vida se confundem, e o narrador descobre que não é apenas um “romancista sem obra”: falta-lhe mais coisa para estar vivo. Encontra a ficção, que lhe permite chegar à realidade, ou inventá-la: representar continua a ser o esforço de impor uma presença à ausência, só que Sanches Neto inverte as posições e é a vida que emula a ficção quando o texto lido se torna “documento pessoal” e “o diálogo (…) súbito vira monólogo.”

 

Quem fala, nessa hora, é o crítico, e ele anuncia uma literatura que rechaça a crítica – ou ao menos certa crítica feita na frieza dos esquemas teóricos e sedenta da confirmação de teses e concepções prévias. A discussão intelectual retoma, dessa forma, uma denúncia recorrente na obra de Sanches Neto: a do desprezo de parte significativa da crítica pelo registro lírico e pelas formas convencionais e seu culto novolátrico, filho bastardo do vanguardismo dos anos 1920, que continua a pregar a necessidade de romper a cada página, de chocar com metáforas imprevisíveis, citações ininterruptas ou com recursos técnicos e formais surpreendentes. Curioso é que, na defesa da literatura simplesmente bem escrita, despreocupada com a experimentação e desobrigada da renovação, Sanches Neto chegou a um policial bastante diferente do que usualmente se faz no Brasil. Até dialoga com autores que modernizaram o gênero no trópico, mas define um lugar novo para a literatura de mistério, em que sua especificidade se dilui diante da combinação com outras matrizes e com a incorporação de questões vindas do conto filosófico voltaireano (também machadiano e borgeano). As considerações sobre amor, memória, paternidade, leituras e perdas se explicam nessa chave e permitem reassumir temas e metáforas que já estavam presentes em livros anteriores e agora surgem ressituadas e aprofundadas – como a da revisão das relações familiares ou a da chuva, de que parte Chove sobre minha infância para tensionar o limite da autobiografia.

 

Por tudo isso, é inócuo e restritivo tentar definir A primeira mulher. A tese central da versão autoral do Cântico dos cânticos (que o narrador escreve sem intenção de publicar) talvez ajude a entender sua errância e sintetize sua ânsia de variar sem descuidar do lirismo: amor é perseguição, jamais encontro. No entanto, as precisas descrições de ambientes e de personagens que o livro de Sanches Neto traz (e que incluem os versos que percorrem a trama e combinam sagrado e obsceno, humano e profano) nos falam também de um encontro maior e mais importante: o da ficção policial com a alta literatura – e esta não se reduz a um rótulo.

 

 

Miguel Sanches Neto. A primeira mulher. Rio de Janeiro: Record, 2008

 

Paisagens da crítica já publicou comentários sobre outros cinco livros de Miguel Sanches Neto: Venho de um país obscuro (15 de agosto de 2006), Um amor anarquista (1º de setembro de 2006), Chove sobre minha infância (10 de outubro de 2006), Impurezas amorosas (23 de janeiro de 2007) e Herdando uma biblioteca (10 de outubro de 2007). Todos estão no endereço anterior do blog: http://paisagensdacritica.zip.net

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11 pensamentos sobre “A primeira mulher, de Miguel Sanches Neto

  1. nossa, vergonhoso, vcs já publicaram resenhas de cinco obras do miguel sanches neto e eu não li nenhum. imperdoável! vou tentar diminuir minha falta com esse autor. beijos, pedrita

  2. Como sempre uma resenha instigante….tanto que ja encomendei….Nao seria o titulo ideal para substituir O silencio da chuva (ou dialogar com ele) em seu proximo curso sobre História e Genero Policial? Alias, falando nisso, bem que voce poderia oferecer novamente o curso sobre o Desassossego, de preferencia no proximo semestre, meu ultimo ano de faculdade! Abraços…

  3. Danilo,
    obrigado por seu comentário.
    Acho que o romance de Miguel Sanches Neto cairia bem como um contraponto para o modelo de policial que Garcia-Roza escreve. Se algum dia eu voltar a dar aquele curso, provavelmente o incluirei no programa.
    No primeiro semestre de 2009 darei América Independente I. Não posso, portanto, dar o curso sobre o desassossego na ficção contemporânea (que era Cultura I). Mas gostaria muito.
    Abraços,
    Júlio

  4. Descobri o Miguel lendo o conto HERDEIRO com o qual participa da Antologia TRAVESSIAS SINGULARES – PAIS E FILHOS (Ed. Casarão do Verbo, 2008) e onde, aliás, eu também participo com um conto, ao lado de grandes nomes da Literatura, e teoricamente eu nem MEREÇO estar lá, mas gentilmente me convidaram. Discípulo confesso, assumido e tiete de RUBEM FONSECA (a quem dediquei dois dos meus livros), descobri no Miguel e nesse único conto, um grande Autor ao qual vou dedicar a minha leitura, assim como faço com o próprio Rubem, Marçal Aquino e outros.

  5. Vim conhecer o espaço, gostei, muito, e me atrevo a escrever.

    Fosse um policial propriamente — gênero de que não sou muito apreciador — e teria lido A primeira mulher apenas por ser do Miguel, curioso por mais uma obra desse autor [pra mim magnífico] que conheci há alguns meses e que me surpreende sempre positivamente em cada novo livro que leio.

    Neste, me prendeu muito a mescla de assuntos e o vaivém da história, deixando-me meio sem rumo. Sempre que eu imaginava uma direção, logo o vento virava pra outro lado. Mas tudo suavemente, nada de tornados e exageros que, no livro, ficam por conta da própria realidade que cerca os personagens. Vidas e fatos que, ainda que não conheçamos diretamente algo parecido no mundo real, sabemos existir e intuímos ser muito próximos do que ele conta.

    Achei magnífico o envolvimento do protagonista e narrador com o mundo da política, misturando personagens psicopatas, dinheiro, busca do poder, ao lado de pessoas ainda um tanto puras (porém nada ingênuas) e desprendidas. Cada um ali parece saber bem o que quer, o que esperar, mas nunca pode ter muito controle do rumo que as coisas podem tomar. Como na vida real, aliás. Talvez o mais perdido no meio de tudo e de todos seja o protagonista. Um perdido que acaba sendo o condutor, agente determinante na história dos que com ele convivem.

    Acho que é como seu texto registrou mesmo. A forma como a história nos foi contada não permite classificar A primeira mulher num único gênero. E esse é um aspecto que sempre me encanta nas obras dele. Arrisco a dizer que é basicamente um longo diário de um ser em conflito consigo e com o mundo, buscando um lugar sob um sol distante que nem ele mesmo sabe onde nasce.

    O final, pra mim, supreende. Mas, depois, revendo toda a história, o protagonista e seus conflitos, achei que era até se não previsível, possível. No conteúdo. Na forma como ocorreu, continua ousado. [O autor tem muito disso, nos coloca situações e atitudes ousadas, mas com uma delicadeza que tudo atenua]. Como num final de bom filme francês, sugerindo que não na vida não há final feliz ou infeliz, apenas um fio que continua. O resto, ilusão! Nisso, talvez, a própria felicidade. [Difícil imaginar que o protagonista não estivesse, ainda que momentaneamente, finalmente feliz].

    • Alex,
      tudo bem?
      Obrigado por seu comentário. Frequente sempre o blog e comente sempre que puder.
      Concordo: Miguel Sanches Neto é dos nossos principais narradores.
      Gostei bastante de sua leitura, que destaca o caráter de ‘diário’ da narrativa e sua capacidade de extrapolar as questões conjunturais para tocar em temas universais.
      Abraços,
      Júlio

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