A seita dos anjos, de Andrea Camilleri

 

A seita dos anjos rompe —pelo menos parcialmente— uma tradição dos romances de Andrea Camilleri: a da afirmação categórica, na nota final, de que tudo ali vem da imaginação, que não há qualquer relação, a não ser casual, com eventos efetivamente ocorridos.

 

Neste livro, o referente é real: o advogado Matteo Teresi, protagonista do romance, existiu no princípio do século XX. Ele também editou, de fato, um jornalzinho em que denunciava a máfia, os poderosos locais e os padres corruptos. E seu destino —que não descreverei aqui— foi idêntico ao do personagem de A seita dos anjos.

 

Claro que Camilleri esclarece que as aventuras e desventuras de Teresi e o escabroso caso —igualmente real— de um padre pedófilo foram apenas sugestões, inspirações longínquas para a ficção: “o romance”, diz o autor, “revolve e transforma intencionalmente os fatos que ocorreram até torná-los irreconhecíveis a ponto de refugiá-los no campo da pura fantasia”. Ou seja, há vínculo efetivo entre o referente e o texto, mas o texto tem a intenção de superá-lo e dissolvê-lo.

 

Interessante é que o alerta valoriza a ficção, mas contribui para que o leitor fique mais atento à conexão com a experiência vivida, histórica, de mais de cem anos, e —inevitável— de hoje. Como não associar os crimes horrorosos da imaginação a outros, não menos terríveis, que ocorrem atualmente? Como não pensar na falta que faz, em pleno século XXI, um personagem de temerária coragem como Teresi?

 

É improvável que um bom leitor não saiba que os terrenos da ficção e da história, embora distintos, são compartilhados pela categoria una e múltipla da representação. É estranho supor que alguém ainda acredite que, compromissos distintos à parte, não haja mecanismos recíprocos de revelação que fazem com que a história seja melhor percebida a partir do registro ficcional, e vice-versa. A representação da distância, já nos lembrou Carlo Ginzburg, varia a perspectiva e amplia o olhar; aprofunda a imaginação moral e a consciência do tempo vivido —dos tempos vividos.

 

A seita dos anjos, por isso, pode ser lido apenas como um bom romance, entretenimento agradável para duas ou três horas. Camilleri, porém, deu todas as pistas para que o leitor perceba que há mais coisas ali, e mais fundas. Que há uma discussão sólida por trás de cada conversa aparente banal, do anedotário habitual que seus personagens projetam.

 

E essa discussão —sobre as relações tão íntimas, óbvias e complexas da ficção com a história— é sempre fascinante.

 

 

Andrea Camilleri. La setta degli angeli. Palermo: Sellerio Editore, 2011.

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros vinte livros de Andrea Camilleri.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011;

O jogo dos espelhos (Il giocco degli specchi), em 8.7.2012;

Uma lâmina de luz (Una lama di luce), em 8.7.2012;

Grande Circo Taddei (Gran Circo Taddei), em 10.9.2012;

A Rainha da Pomerânia (La Regina di Pomerania), em 10.9.2012.

 

Anúncios

Grande Circo Taddei & A Rainha da Pomerânia, de Andrea Camilleri

 

Grande Circo Taddei e A Rainha da Pomerânia reúnem, juntos, dezesseis histórias curtas escritas por Andrea Camilleri. A maioria se passa durante o período do fascismo; uma ou outra o antecede. Todas, sem exceção, divertem e apresentam o cenário de relações canhestras, ora íntimas ora estranhas, com que o autor siciliano gosta de representar sua ilha de origem.

 

O leitor habitual de Camilleri reconhecerá com facilidade alguns personagens, cujos nomes variam de romance a romance, mas cujas atitudes e estilo se mantêm uniformes: nobres ligeiramente decadentes, burgueses oportunistas, mafiosos grandes e pequenos, moças à beira de ataques de nervos, jovens carreiristas, políticos ambíguos.

 

Na verdade, a ambiguidade caracteriza mais do que certos personagens: é a tônica de uma sociedade que vive sempre duas vidas. Na aparência, incontáveis regras —algumas (poucas) escritas e muitas estabelecidas silenciosa e tacitamente: estas, aliás, são as mais eficazes e longevas. Debaixo da tênue pele social, vigora uma imensa quantidade de formas de burla, de estratégias para redefinir os laços e posições sociais, para estabelecer lógicas de hierarquia e poder.

 

É assim que o prosaísmo dos relatos dá lugar à acidez com que o passado siciliano é representado —não à toa, o passado fascista, tão pródigo em retóricas épicas quanto em realidades grotescas, ganha destaque.

 

A verdade da vida social, expõe Camilleri, não corre nas longas reuniões no circolo local, nem nos gabinetes oficiais. Tampouco é tocada diretamente pelos policiais ou por todos aqueles que acreditam na efetividade das formas institucionais e formais. Nem é mostrada em italiano.

 

O mundo real —falado em siciliano ou na linguagem de olhares e silêncios tão característica da ilha— segue pelos bastidores, pelos acordos cifrados, pela madrugada e pelas portas dos fundos. A honradez dos supostamente honrados não resiste a um olhar através da fechadura ou ao observador atento às fugas noturnas de poderosos e seu deslizar entre uma cama e outra.

 

Pôncio Pilatos observou, há mais de dois mil anos, que a verdade morava num poço. Para os personagens dessas dezesseis histórias, ela mora nas sombras e nas conversas ao pé do ouvido. E, mesmo assim, só parte dela —relembra o leitor já acostumado ou novato nos livros de Camilleri. E apenas a parte menos importante é dada à vista. Talvez daí venha nossa vontade de rir, durante a leitura, e o desconforto de lembrar que não só na Sicília é assim.

 

 

Andrea Camilleri. Gran Circo Taddei e altre storie di Vigatà. Palermo: Sellerio Editore, 2011.

Andrea Camilleri. La Regina di Pomerania e altre storie di Vigatà. Palermo: Sellerio Editore, 2012.

 

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros dezoito livros de Andrea Camilleri.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.6.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.2.2011;

O jogo dos espelhos (Il giocco degli specchi), em 8.7.2012;

Uma lâmina de luz (Una lama di luce), em 8.7.2012.

 

O silêncio da onda, de Gianrico Carofiglio

 

O silêncio da onda conta histórias de pais e filhos —histórias de homens que mudam, se afastam, se aproximam. E escapam, a duras penas, dos clichês que rondam as relações familiares descosturadas.

 

Os capítulos do livro do barês Gianrico Carofiglio se alternam entre dois relatos e dois narradores: uma voz em terceira pessoa conta a trajetória de Roberto, policial afastado de suas funções; outra voz, em primeira pessoa, desenha o mundo íntimo de Giacomo, menino quieto e isolado.

 

Roberto caminha por Roma, tentando decifrar a cidade e expurgar seu profundo desassossego. Durante anos, esteve infiltrado no mundo de grandes traficantes internacionais de droga e hoje vive à deriva, sob efeito de remédios e das longas sessões psiquiátricas.

 

Giacomo, onze anos de idade, relata seus sonhos com um cão que o acolhe e orienta e com Ginevra, colega de escola que o encanta.

 

Roberto e Giacomo só se encontrarão no final do livro, quando ambos terão uma chance de recuperar o que foi perdido no passado. Antes disso, relembram os dias passados com seus pais e se ressentem da ausência deles no presente.

 

A memória —no caso de Roberto, errática; no de Giacomo, limitada— os consola e atormenta. O passado, como Carofiglio já descreveu no título de outro livro, é uma terra estrangeira. O próprio interior de cada um dos protagonistas é distante demais, parece inacessível: Roberto e Giacomo se sentem outros, são outros.

 

Num momento heterodoxo da terapia, Roberto resume toda a tensão: “O meu trabalho era ser outro. E de fato não é ruim ser outro de vez em quando: faz com que nos sintamos livres. O problema surge quanto se deve ser outro na maior parte do tempo. O problema surge quando é preciso ser outro para se sentir você mesmo. E quando parece estranho não ser outro.”

 

O estranhamento, sabemos, é tanto pior quando marcado pela familiaridade: é condição inicial da inquietude. Por isso, a odisseia de Roberto e Giacomo implica alterar simultaneamente a sensação de si, transformar-se por fora e por dentro, reconstruir a vida sem pais ou filhos por perto. Eles têm —o narrador é contundente— que pedir perdão a si mesmos, o perdão sempre mais difícil.

 

Já faz anos que Gianrico Carofiglio é um dos autores mais significativos da literatura italiana dentro e fora do seu país. Sua ficção aguda retoma uma tradição literária que cruza do norte ao sul da Itália e unifica o que a política e o Estado nunca conseguiram aproximar: o esforço de compreender as fronteiras tênues do humano, a instabilidade de toda identidade pessoal e coletiva, a angústia e a errância através dos tempos —os mesmos dilemas que encontramos no toscano Antonio Tabucchi ou no siciliano Elio Vittorini, para ficar em apenas dois exemplos. Será pedir muito que alguma editora perceba isso e o traduza para o português?

 

 

Gianrico Carofiglio. Il silenzio dell’onda. Milão: Rizzoli, 2011.

 

 

Paisagens da Crítica já publicou resenhas de outros cinco livros de Gianrico Carofiglio.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

As perfeições provisórias (1.11.2010);

Testemunho inconsciente, De olhos fechados, Dúvidas da razão (24.11.2010);

O passado é uma terra estrangeira (30.3.2011).

 

 

O jogo dos espelhos & Uma lâmina de luz, de Andrea Camilleri

 

O jogo dos espelhos e Uma lâmina de luz confirmam o que já se sabia: Andrea Camilleri é um grande narrador.

 

E, nesses casos, sua grandeza não se faz pelas histórias que conta, pelas tramas ocasionais que compõem a décima-oitava e a décima-nona aventuras do comissário Salvo Montalbano.

 

Elas são, de resto, histórias semelhantes, em que as tentativas de iludir —o jogo de espelhos, na metáfora que intitula um dos livros— ultrapassam o movimento da descoberta, da solução exposta.

 

Além de parecidas, são tramas confusas, meio rocambolescas, que envolvem a presença de mafiosos nos dois casos e, num deles, um estranho caso de terrorismo.

 

Mais confuso ainda está o protagonista. Montalbano se aproxima de mulheres que o afastam da eterna namorada genovesa Livia, que testam a persistência de uma ligação que quase desembocou em casamento no terceiro romance da série —O ladrão de merendas, de 1996— e que, de uns cinco ou seis livros para cá, soa cada vez menos possível.

 

E é nesse movimento de recuperar uma história publicada dezesseis anos atrás que Camilleri mostra a que vieram os dois novos livros. Responde, assim, ao leitor que atravessa as quinhentas e poucas páginas somadas de ambos em dúvida se Montalbano ainda tem fôlego, se seu criador ainda tem vontade de escrever seus casos.

 

A resposta está lá, nas cinco últimas páginas de Uma lâmina de luz. No melhor fechamento de livro, e o mais triste, que Camilleri escreveu. Nas iniciais impressas em uma camisa, num rosto que ele evita olhar. Está lá o esclarecimento para quem tivesse qualquer dúvida: Camilleri é um grande autor. E Montalbano, quase vinte romances e muitos contos depois de seu surgimento, continua a ser um personagem instigante.

 

 

Andrea Camilleri. Il gioco degli specchi. Palermo: Sellerio Editore, 2011

Andrea Camilleri. Una lama di luce. Palermo: Sellerio Editore, 2012

 

Paisagens da Crítica comentou outros dezesseis livros de Andrea Camilleri.

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011.

 

 

O passado é uma terra estrangeira, de Gianrico Carofiglio

O passado é uma terra estrangeira é forte, desconfortável e intenso desde o título: uma declaração de não pertença a si mesmo, de desenraizamento, perda.

 

Gianrico Carofiglio, juiz e escritor barês, apresenta a trajetória de Giorgio e Francesco, tornados íntimos por uma amizade improvável e, paradoxalmente, óbvia.

 

Giorgio é filho dileto e exemplar de uma família de classe média. Cumpre, com sua dedicação aos estudos, o destino que os pais queriam para si mesmos. Está prestes a terminar com louvor a faculdade de direito e se prepara para concurso de ingresso na magistratura. Então conhece Francesco.

 

Jogador exímio de pôquer, Francesco vive desgarrado. Troca o dia pela noite, circula — literal e metaforicamente — nas sombras, vive de pequenos golpes e grandes divagações.

 

Jovens de dois mundos, a aproximação entre eles tem toques sensuais jamais confessados e um evidente fascínio pela diferença — especialmente Giorgio, que vê o submundo para onde Francesco o leva com a admiração de quem supõe ter vivido sempre entre máscaras e aparências.

 

A progressão da amizade provoca efeitos devastadores no quotidiano de Giorgio; Francesco, ligeiramente apático em relação aos afetos, mantém distância e frieza. A mesma frieza que lhes permite ganhar dinheiro fácil em mesas ricas de pôquer e lançá-los numa vertiginosa corrida em direção a ações mais ousadas e ilícitas.

 

A voz que nos conta a história é a de Giorgio. O relato de sua convivência com Francesco chega do passado, em primeira pessoa, num fluxo descontínuo, mas cognoscível. O signo que prevalece — o título já alertara — é o do estranhamento: como relembrar algo que parece assim longínquo, que soa pertencente não a outra idade, mas a outra pessoa, a outro universo?

 

O leitor é embalado na tensão que o romance de Carofiglio constroi suave, mas incisivamente. Passa da obviedade dos opostos que se atraem à vertigem da narrativa cada vez mais acelerada, dos mistérios que se sucedem, de tudo que não se explica sobre o passado de Francesco.

 

Memória, terra estrangeira. Lugar de vazios, vagueza, indefinição. ‘Só é nosso o que perdemos’, explicou Borges, e a constatação amarga e consoladora justifica com precisão a forma como Giorgio evoca, tempos depois, o itinerário rumo à queda que ele e Francesco seguiram.

 

Porque as perdas — mesmo quando implicam aparentes ganhos posteriores — são definitivas, duram para sempre. E isso quem nos explica é Carofiglio neste que é de longe seu melhor livro.

 

Gianrico Carofiglio. Il passato è una terra straniera. Milão: RCS Libri, 2004.

 

 

 

Paisagens da Crítica publicou resenha sobre outros quatro livros de Gianrico Carofiglio. Sobre Le perfezione provvisorie, em 01.11.2010, e uma resenha tripla (Testimone inconsapevole, Ad occhi chiusi, Ragionevoli dubbi), em 24.11.2010.

Clique nos títulos dos livros se quiser ler as resenhas.


 

A intermitência, de Andrea Camilleri

 

A intermitência é dos livros mais soturnos de Andrea Camilleri.

 

Numa história simples, empresários disputam dinheiro grosso, em meio a vidas atarefadas, corridas, autocentradas.

 

Nenhum personagem tem nada que se pareça a escrúpulo. A lógica que dirige suas ações e jogos, quase sempre subterrâneos, é a ambição. As relações pessoais são atravessadas de individualismo atroz e, também nesse campo, todos carecem de preocupação com o próximo.

 

O próprio título do livro — que talvez pudesse ser traduzido por “intervalo” ou “interregno”, além de “intermitência” — manifesta o caráter provisório do que é narrado. Ou, pelo menos, da trama específica, da disputa conjuntural em torno da venda de uma indústria e dos embates entre executivos de um grande conglomerado empresarial.

 

É como se o olhar do narrador, onisciente, observasse por algumas semanas o quotidiano dos personagens e, passado esse período, se desinteressasse deles porque nada mais poderia ser sabido. Eles, afinal, são tão regulares, tão previsíveis, tão ocos de profundidade psicológica ou social, que um recorte cronológico limitado explica integralmente suas vidas.

 

O resto é tristeza, é vazio. Resta a forte impressão de que o mundo que nos rodeia carece de substância, carece de valores. Sobra-lhe, em contrapartida, excessiva frieza e ganância.

 

O leitor, enredado no texto sempre ágil do siciliano, chega a se envolver na história e torce pelo personagem central, mesmo sabendo que ele representa a antítese de qualquer humanismo e solidariedade. Mesmo sabendo-o mesquinho.

 

Será um espelho tenebroso do que vivemos, daquilo a que assistimos e, pior, a que nos acostumamos?

 

Tomara que não. São, antes, armadilhas de uma narração bem feita, concisa, convicta. Camilleri pode apresentar a sociedade numa perspectiva pérfida — ecos da Itália berlusconiana? —, mas não deixa de estruturar o romance com precisão.

 

Melhor, então: você consegue, ao final do livro, enxergar beleza — a da construção literária — no que é repulsivo: o mundo, sem mistificações.

 

 

Andrea Camilleri. L’intermittenza. Milão: Mondadori, 2010

 

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros quinze livros de Andrea Camilleri.

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010.

 

Clique nos títulos dos livros para lê-las.

 

 

Três livros de Gianrico Carofiglio

 

Testemunho inconsciente e De olhos fechados são os dois primeiros livros de Gianrico Carofiglio. Dúvidas da razão é o terceiro.

São também os primeiros casos do advogado Guido Guerrieri e dificilmente poderiam ser chamados de policiais. São, sobretudo, histórias de tribunal, que na estrutura geral lembram os incontáveis seriados televisivos de advogado.

Aparentemente demorou um pouco para que Guerrieri se dedicasse também às investigações, como a que marca sua quarta aventura, As perfeições provisórias.

Em Testemunho inconsciente, De olhos fechados e Dúvidas da razão, o encontramos às voltas com complicados casos jurídicos.

No primeiro, um imigrante africano em Bari é suspeito de seduzir e matar uma criança. Guerrieri o defende e abre espaço para a discussão da imigração e do preconceito contra extracomunitários, questão atualíssima em toda a Itália, e particularmente no sul do país.

No segundo, Guerrieri ajuda a promotoria num processo de violência doméstica de um figurão de Bari, filho de um figurão maior ainda, contra sua ex-mulher. O tema da pedofilia reaparece em três breves capítulos, narrados em primeira pessoa e por outra voz, aparentemente desvinculados da trama central. No fim do livro as história se conectam.

No terceiro, um estranho caso de tráfico internacional de drogas envolve um desafeto da infância de Guerrieri e o faz buscar pistas improváveis para tentar a absolvição do acusado — o advogado porém não chega a se transformar num detetive. Simultaneamente, se esforça para não se apaixonar demais pela mulher do cliente. As ambigüidades pessoais, as sombras do passado, o risco da falta de ética, as dúvidas da razão e da imaginação o perseguem.

Em todos, Carofiglio reconstroi o quotidiano de seu protagonista, que circula por tribunais, bares e memórias. A separação da mulher abre Testemunho inconsciente e o lança numa espécie de vazio pessoal; no mesmo livro, outra relação surge, mas seu prosseguimento, em De olhos fechados, não aplaca a sensação de solidão que corta a construção e o desenvolvimento do advogado Guerrieri. A abertura de Dúvidas da razão traz nova separação e o deixa à deriva.

Nos três livros, pequenas histórias paralelas deixam pistas para o futuro do advogado e insinuam histórias a serem recuperadas em livros posteriores. Dessa forma, o escritor barês assegura, por trás da especificidade de cada volume, o caráter orgânico e articulado de seus relatos: podem ser lidos separadamente, mas é melhor que sejam conhecidos no conjunto.

E a leitura desse conjunto, embora ainda incompleta (A arte da dúvida,  livro teórico sobre arguições, me espera sobre a mesinha que fica ao lado da poltrona preferida), exige a revisão de uma das sentenças que abriram esta resenha: não, não é tão difícil chamar esses livros de ‘policiais’.

Apesar de eles não trazerem a equação habitual da narrativa policial — crime/investigação/solução —, Carofiglio explora passo a passo os procedimentos epistemológicos que sustentam a ficção policial: a busca do indício (acintosa ou discreta) antecede a construção da razão, que esclarece o mistério ou, mais adequadamente no caso, permite encontrar uma solução que afaste as névoas que cobrem a trama.

Não custa lembrar, ainda, que foi arbitrário o estabelecimento de procedimentos rígidos para o gênero policial e que Edgar Allan Poe, seu provável criador, preferia dizer que escrevia histórias de raciocínio, e não de suspense.

Não custa lembrar, sempre, que dois dos mais notáveis discípulos de Poe — G. K. Chesterton e Jorge Luis Borges — insistiram que Poe não criara uma forma de escrever, mas um tipo novo e inesperado de leitor, aquele que insiste em enxergar dúvidas e buscar surpresas naquilo que lê.

Por isso, talvez os livros de Carofiglio protagonizados pelo advogado Guerrieri sejam mais fieis à matriz da narrativa policial do que muitos dos que pretenderam reproduzi-la e, na verdade, criaram uma camisa de força para o gênero, banalizando-o e limitando-o.

Resta, no entanto, um grande, insolúvel mistério: por que nossos editores de obras policiais (e as coleções são tantas!) não traduzem e publicam seus livros no Brasil?


Gianrico Carofiglio. Testimone inconsapevole. Palermo: Sellerio, 2002.

Gianrico Carofiglio. Ad occhi chiusi. Palermo: Sellerio, 2003.

Gianrico Carofiglio. Ragionevoli dubbi. Palermo: Sellerio, 2006.


Paisagens da Crítica publicou, em 1º de novembro de 2010, resenha sobre outro livro de Carofiglio, a quarta aventura de Guido Guerrieri, Le perfezione provvisorie. Clique aqui para lê-la.