Mulheres, de Andrea Camilleri

 

Mulheres reúne quase quarenta perfis femininos. Andrea Camilleri os desenha com a clareza de que não importa quão reais elas sejam —na nota, já adverte: há mulheres da ficção e do mundo vivido, algumas do passado e outras do presente; ele chegou a conhecer parte delas, da outra parte ouviu falar. Sem contar que, em quase todos os casos, a memória e o esquecimento também fizeram seu trabalho e recriaram vidas.

 

Nós conhecemos várias dessas mulheres: Antígona, Beatriz, Carmen, Desdêmona, Helena, Joana d’Arc, Louise (Brooks), Nefertiti ou Teodora. Nem por isso, os relatos deixam de surpreender; nesses casos, Camilleri relê suas trajetórias e invade nossa imaginação acerca delas para revirá-la, enxergando-as no palco, na página ou na história, e reinventando seu papel. Num certo sentido, retorna a seu tempo de diretor de teatro e as dirige para que nós, espectadores, acompanhemos sua ação em cena.

 

Certos relatos, por outro lado, nos ajudam a entender personagens da obra do autor: por exemplo, desvenda-se a Ingrid (real?) que está por trás da célebre amiga sueca do Comissário Montalbano. Outras nos dilaceram com suas histórias candentes, vindas da Sicília de setenta ou oitenta anos atrás e reinventadas por um escritor que está no umbral dos noventa. É o que ocorre com a trágica vida e morte de Yerma, mais conhecida como chiddrà ddrà —aquela lá, em bom siciliano. Ou na selvageria ingênua de Nunzia. Ou na paciência heroica de Ninetta, que esperou trinta anos por Giacomo. Ou com Marika, tão convicta quanto indulgente. Ou, ainda, na estranha história de uma Ofelia que não é a Ofelia que imediatamente nos vem à cabeça. Ou —e prometo que paro por aqui, embora quisera prosseguir nos exemplos— na convicção política da arrebatadora Oriana, que silenciosamente combate o fascismo.

 

A verdade é que de fato não importa se elas foram ou são reais. Nem o leitor deve esperar revelações ou acreditar nas verdades que cada relato parece conter: a verdade é sempre outra; ela se mascara ou só surge de viés, num relance. Assim é com a memória: por que não seria com a história? A diferença do compromisso de uma e de outra não impede que ambas desemboquem tantas vezes na imprecisão, percebam a realidade apenas pela lente, prismática e desviante, da ficção.

 

Talvez por isso, dessas mulheres de Camilleri, a que melhor simboliza a errância de nossas lembranças e a contundência do passado seja a instável Francesca —outra, que não a de Paolo—, una donna mobile como a que Verdi criou e que poderia ser de qualquer sexo; afinal, così la vita e tutti noi.

 

 

Andrea Camilleri. Donne. Milão: Rizzoli, 2014.

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros vinte e um livros de Andrea Camilleri.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011;

O jogo dos espelhos (Il giocco degli specchi), em 8.7.2012;

Uma lâmina de luz (Una lama di luce), em 8.7.2012;

Grande Circo Taddei (Gran Circo Taddei), em 10.9.2012;

A Rainha da Pomerânia (La Regina di Pomerania), em 10.9.2012;

A seita dos anjos (La setta degli angeli), em 8.10.2012.

 

A seita dos anjos, de Andrea Camilleri

 

A seita dos anjos rompe —pelo menos parcialmente— uma tradição dos romances de Andrea Camilleri: a da afirmação categórica, na nota final, de que tudo ali vem da imaginação, que não há qualquer relação, a não ser casual, com eventos efetivamente ocorridos.

 

Neste livro, o referente é real: o advogado Matteo Teresi, protagonista do romance, existiu no princípio do século XX. Ele também editou, de fato, um jornalzinho em que denunciava a máfia, os poderosos locais e os padres corruptos. E seu destino —que não descreverei aqui— foi idêntico ao do personagem de A seita dos anjos.

 

Claro que Camilleri esclarece que as aventuras e desventuras de Teresi e o escabroso caso —igualmente real— de um padre pedófilo foram apenas sugestões, inspirações longínquas para a ficção: “o romance”, diz o autor, “revolve e transforma intencionalmente os fatos que ocorreram até torná-los irreconhecíveis a ponto de refugiá-los no campo da pura fantasia”. Ou seja, há vínculo efetivo entre o referente e o texto, mas o texto tem a intenção de superá-lo e dissolvê-lo.

 

Interessante é que o alerta valoriza a ficção, mas contribui para que o leitor fique mais atento à conexão com a experiência vivida, histórica, de mais de cem anos, e —inevitável— de hoje. Como não associar os crimes horrorosos da imaginação a outros, não menos terríveis, que ocorrem atualmente? Como não pensar na falta que faz, em pleno século XXI, um personagem de temerária coragem como Teresi?

 

É improvável que um bom leitor não saiba que os terrenos da ficção e da história, embora distintos, são compartilhados pela categoria una e múltipla da representação. É estranho supor que alguém ainda acredite que, compromissos distintos à parte, não haja mecanismos recíprocos de revelação que fazem com que a história seja melhor percebida a partir do registro ficcional, e vice-versa. A representação da distância, já nos lembrou Carlo Ginzburg, varia a perspectiva e amplia o olhar; aprofunda a imaginação moral e a consciência do tempo vivido —dos tempos vividos.

 

A seita dos anjos, por isso, pode ser lido apenas como um bom romance, entretenimento agradável para duas ou três horas. Camilleri, porém, deu todas as pistas para que o leitor perceba que há mais coisas ali, e mais fundas. Que há uma discussão sólida por trás de cada conversa aparente banal, do anedotário habitual que seus personagens projetam.

 

E essa discussão —sobre as relações tão íntimas, óbvias e complexas da ficção com a história— é sempre fascinante.

 

 

Andrea Camilleri. La setta degli angeli. Palermo: Sellerio Editore, 2011.

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros vinte livros de Andrea Camilleri.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011;

O jogo dos espelhos (Il giocco degli specchi), em 8.7.2012;

Uma lâmina de luz (Una lama di luce), em 8.7.2012;

Grande Circo Taddei (Gran Circo Taddei), em 10.9.2012;

A Rainha da Pomerânia (La Regina di Pomerania), em 10.9.2012.

 

Grande Circo Taddei & A Rainha da Pomerânia, de Andrea Camilleri

 

Grande Circo Taddei e A Rainha da Pomerânia reúnem, juntos, dezesseis histórias curtas escritas por Andrea Camilleri. A maioria se passa durante o período do fascismo; uma ou outra o antecede. Todas, sem exceção, divertem e apresentam o cenário de relações canhestras, ora íntimas ora estranhas, com que o autor siciliano gosta de representar sua ilha de origem.

 

O leitor habitual de Camilleri reconhecerá com facilidade alguns personagens, cujos nomes variam de romance a romance, mas cujas atitudes e estilo se mantêm uniformes: nobres ligeiramente decadentes, burgueses oportunistas, mafiosos grandes e pequenos, moças à beira de ataques de nervos, jovens carreiristas, políticos ambíguos.

 

Na verdade, a ambiguidade caracteriza mais do que certos personagens: é a tônica de uma sociedade que vive sempre duas vidas. Na aparência, incontáveis regras —algumas (poucas) escritas e muitas estabelecidas silenciosa e tacitamente: estas, aliás, são as mais eficazes e longevas. Debaixo da tênue pele social, vigora uma imensa quantidade de formas de burla, de estratégias para redefinir os laços e posições sociais, para estabelecer lógicas de hierarquia e poder.

 

É assim que o prosaísmo dos relatos dá lugar à acidez com que o passado siciliano é representado —não à toa, o passado fascista, tão pródigo em retóricas épicas quanto em realidades grotescas, ganha destaque.

 

A verdade da vida social, expõe Camilleri, não corre nas longas reuniões no circolo local, nem nos gabinetes oficiais. Tampouco é tocada diretamente pelos policiais ou por todos aqueles que acreditam na efetividade das formas institucionais e formais. Nem é mostrada em italiano.

 

O mundo real —falado em siciliano ou na linguagem de olhares e silêncios tão característica da ilha— segue pelos bastidores, pelos acordos cifrados, pela madrugada e pelas portas dos fundos. A honradez dos supostamente honrados não resiste a um olhar através da fechadura ou ao observador atento às fugas noturnas de poderosos e seu deslizar entre uma cama e outra.

 

Pôncio Pilatos observou, há mais de dois mil anos, que a verdade morava num poço. Para os personagens dessas dezesseis histórias, ela mora nas sombras e nas conversas ao pé do ouvido. E, mesmo assim, só parte dela —relembra o leitor já acostumado ou novato nos livros de Camilleri. E apenas a parte menos importante é dada à vista. Talvez daí venha nossa vontade de rir, durante a leitura, e o desconforto de lembrar que não só na Sicília é assim.

 

 

Andrea Camilleri. Gran Circo Taddei e altre storie di Vigatà. Palermo: Sellerio Editore, 2011.

Andrea Camilleri. La Regina di Pomerania e altre storie di Vigatà. Palermo: Sellerio Editore, 2012.

 

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros dezoito livros de Andrea Camilleri.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.6.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.2.2011;

O jogo dos espelhos (Il giocco degli specchi), em 8.7.2012;

Uma lâmina de luz (Una lama di luce), em 8.7.2012.

 

O jogo dos espelhos & Uma lâmina de luz, de Andrea Camilleri

 

O jogo dos espelhos e Uma lâmina de luz confirmam o que já se sabia: Andrea Camilleri é um grande narrador.

 

E, nesses casos, sua grandeza não se faz pelas histórias que conta, pelas tramas ocasionais que compõem a décima-oitava e a décima-nona aventuras do comissário Salvo Montalbano.

 

Elas são, de resto, histórias semelhantes, em que as tentativas de iludir —o jogo de espelhos, na metáfora que intitula um dos livros— ultrapassam o movimento da descoberta, da solução exposta.

 

Além de parecidas, são tramas confusas, meio rocambolescas, que envolvem a presença de mafiosos nos dois casos e, num deles, um estranho caso de terrorismo.

 

Mais confuso ainda está o protagonista. Montalbano se aproxima de mulheres que o afastam da eterna namorada genovesa Livia, que testam a persistência de uma ligação que quase desembocou em casamento no terceiro romance da série —O ladrão de merendas, de 1996— e que, de uns cinco ou seis livros para cá, soa cada vez menos possível.

 

E é nesse movimento de recuperar uma história publicada dezesseis anos atrás que Camilleri mostra a que vieram os dois novos livros. Responde, assim, ao leitor que atravessa as quinhentas e poucas páginas somadas de ambos em dúvida se Montalbano ainda tem fôlego, se seu criador ainda tem vontade de escrever seus casos.

 

A resposta está lá, nas cinco últimas páginas de Uma lâmina de luz. No melhor fechamento de livro, e o mais triste, que Camilleri escreveu. Nas iniciais impressas em uma camisa, num rosto que ele evita olhar. Está lá o esclarecimento para quem tivesse qualquer dúvida: Camilleri é um grande autor. E Montalbano, quase vinte romances e muitos contos depois de seu surgimento, continua a ser um personagem instigante.

 

 

Andrea Camilleri. Il gioco degli specchi. Palermo: Sellerio Editore, 2011

Andrea Camilleri. Una lama di luce. Palermo: Sellerio Editore, 2012

 

Paisagens da Crítica comentou outros dezesseis livros de Andrea Camilleri.

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011.

 

 

A intermitência, de Andrea Camilleri

 

A intermitência é dos livros mais soturnos de Andrea Camilleri.

 

Numa história simples, empresários disputam dinheiro grosso, em meio a vidas atarefadas, corridas, autocentradas.

 

Nenhum personagem tem nada que se pareça a escrúpulo. A lógica que dirige suas ações e jogos, quase sempre subterrâneos, é a ambição. As relações pessoais são atravessadas de individualismo atroz e, também nesse campo, todos carecem de preocupação com o próximo.

 

O próprio título do livro — que talvez pudesse ser traduzido por “intervalo” ou “interregno”, além de “intermitência” — manifesta o caráter provisório do que é narrado. Ou, pelo menos, da trama específica, da disputa conjuntural em torno da venda de uma indústria e dos embates entre executivos de um grande conglomerado empresarial.

 

É como se o olhar do narrador, onisciente, observasse por algumas semanas o quotidiano dos personagens e, passado esse período, se desinteressasse deles porque nada mais poderia ser sabido. Eles, afinal, são tão regulares, tão previsíveis, tão ocos de profundidade psicológica ou social, que um recorte cronológico limitado explica integralmente suas vidas.

 

O resto é tristeza, é vazio. Resta a forte impressão de que o mundo que nos rodeia carece de substância, carece de valores. Sobra-lhe, em contrapartida, excessiva frieza e ganância.

 

O leitor, enredado no texto sempre ágil do siciliano, chega a se envolver na história e torce pelo personagem central, mesmo sabendo que ele representa a antítese de qualquer humanismo e solidariedade. Mesmo sabendo-o mesquinho.

 

Será um espelho tenebroso do que vivemos, daquilo a que assistimos e, pior, a que nos acostumamos?

 

Tomara que não. São, antes, armadilhas de uma narração bem feita, concisa, convicta. Camilleri pode apresentar a sociedade numa perspectiva pérfida — ecos da Itália berlusconiana? —, mas não deixa de estruturar o romance com precisão.

 

Melhor, então: você consegue, ao final do livro, enxergar beleza — a da construção literária — no que é repulsivo: o mundo, sem mistificações.

 

 

Andrea Camilleri. L’intermittenza. Milão: Mondadori, 2010

 

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros quinze livros de Andrea Camilleri.

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010.

 

Clique nos títulos dos livros para lê-las.

 

 

O sorriso de Angélica, de Andrea Camilleri

 

O sorriso de Angélica prossegue a saga do comissário Montalbano. É sua décima-sétima aventura.

Por um lado, não traz as surpresas e o caráter ligeiramente experimental de A caça ao tesouro, o que pode decepcionar o leitor que esperava alguma continuidade. Por outro, mantém a qualidade da série e sua preocupação de acompanhar os personagens e fazê-los amadurecer e mudar aos olhos do leitor.

O título obviamente evoca o mistério contido no sorriso da Gioconda, reencontrado no rosto de uma das vítimas da série de furtos que abalam Vigàta. E, menos obviamente para o leitor brasileiro, evoca também a personagem de Orlando Furioso, fabuloso relato poético de Ludovico Ariosto. Através da Angélica do título — nome e face —, Montalbano ainda relembra as gravuras que Gustave Doré fez para o livro de Ariosto e que constavam da edição que leu na juventude.

Enxerga, assim, várias mulheres numa só: a Gioconda incerta e inacessível, a dupla Angélica do Orlando Furioso por Doré, apaixonante e ocasional traidora.

Outra mulher surge quase periférica à trama: Livia, namorada desde sempre. E há ainda uma quarta presença feminina, Ingrid, amiga do policial e parceira em tantas histórias.

Tantas mulheres e todas ambíguas. Livia é a companheira fixa, desde o primeiro livro de Montalbano, mas vive distante na geografia e, aparentemente, também no pensamento. Ingrid continua a provocá-lo e ele persiste sem tocá-la. Angélica é um território selvagem, promissor e perigoso.

Os homens que cercam Montalbano parecem igualmente hesitar: Mimì Augello, seu vice, o decepciona; Fazio, assistente sempre fiel, não pode ser, nesse momento, o confidente de suas angústias; Catarella, atabalhoado funcionário do comissariado, cheio de certezas e medos, é a hesitação em forma humana.

Entre tanta incerteza, Montalbano percorre a trilha dos roubos, é desafiado pelo criminoso, tenta controlar o óbvio fascínio por Angélica.

Para o leitor, o defecho da história parece óbvio desde o princípio, e resta torcer para que ele não se cumpra: o temor, no caso, vem principalmente pela vontade de que Camilleri não embarque no mais óbvio clichê das narrativas policiais.

No conjunto, ele consegue escapar — e, claro, não direi aqui como é o final do livro. Consegue sobretudo porque seu personagem principal pode viver seguidas angústias provocadas pela sensação de envelhecimento, mas é literariamente sólido e ancora com alguma facilidade as tramas. Pelo menos foi assim nas dezessete primeiras; aguardemos as próximas.

Andrea CamilleriIl sorriso di Angelica. Palermo: Sellerio, 2010

Nota: o livro deve demorar para ser traduzido no Brasil. Se a sequência da série for respeitada, ainda há outros seis livros, anteriores a este, a serem publicados aqui.

Paisagens da Crítica comentou outros quatorze livros de Andrea Camilleri. Clique no nome do livro para ler:

– A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

– O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

– As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

– A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

– A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

– Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

– O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

– As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

– O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

– O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

– A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

– O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

– Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010.


A caça ao tesouro, de Andrea Camilleri

 

A caça ao tesouro talvez traga a cena mais violenta que Andrea Camilleri já escreveu. Ela é antecipada aqui e ali por interferências do narrador, mas mesmo assim a brutalidade do crime revelado surpreende leitores e personagens do livro — inclusive, o próprio Comissário Montalbano.

 

Isso não significa, porém, que a décima-sexta aventura de Montalbano represente uma mudança de rota ou alguma variação forte do estilo de Camilleri.

 

Ao contrário, todos os elementos habituados da série estão lá: o humor, a autocrítica do protagonista, sua inquietação frente ao envelhecimento, as peculiaridades e idiossincrasias de seus colegas de comissariado, a vida que corre silenciosamente tensa em Vigàta, as eternas discussões telefônicas com a namorada lígure.

 

Também as principais referências da construção narrativa de Camilleri são claras, sobretudo a contínua inspiração de sua ficção na crônica policial algo insólita — no caso, a descoberta de duas bonecas infláveis, idênticas e parcialmente destruídas, em pontos distantes da cidade.

 

A caça ao tesouro, no entanto, leva outro ponto-chave da obra de Camilleri ao extremo: o diálogo com outras obras e outros autores. Nada acintoso, carregado ou marcado pelo exibicionismo que as citações cifradas costumam carregar.

 

É principalmente em Edgar Allan Poe que o leitor pensa conforme percorre as páginas do livro. Há pelo menos três marcas poeana com que o autor siciliano joga e, por meio delas, constrói sua história.

 

A primeira, e mais explícita, é a associação do policial a um conjunto de jogos de raciocínio, ao duelo intelectual entre assassino e detetive — que transparece na brincadeira que intitula a obra, mantém o leitor na expectativa de que seja mais grave do que parece e lentamente ganha relevância até assumir o centro da trama.

 

A segunda característica poeana ajuda a explicar a erupção da violência mencionada no início desse comentário: é de Poe que Camilleri extrai a transição segura do policial para a literatura de horror, indiferenciando o que a crítica e os leitores preferiram considerar dois gêneros, ou subgêneros, distintos.

 

Se a algum leitor escapar, no início do livro, a origem da mistura policial/horror que Montalbano enfrenta, o desfecho esclarece: é o universo intelectual do século XIX, o mesmo de onde Poe extraiu parte importante de sua imaginação literária. O XIX, suas apostas científicas e seus riscos; o XIX pressagiado por Frankenstein e sintetizado por Mr. Hyde.

 

Por esta terceira via, Poe se afirma como a sombra mais persistente sobre A caça do tesouro e ajuda a entender a nova experimentação de Camilleri. O resultado, claro, é excelente: uma história de Montalbano como não aparecia há tempos, com o personagem em pleno vigor e o autor, inquieto na juventude dos 85 anos, impressionando os leitores.

 

Andrea Camilleri. La caccia al tesoro. Palermo: Sellerio, 2010

 

Nota: La caccia al tesoro deve demorar um pouco para ser traduzido no Brasil. Se a sequência da série for respeitada, ainda há outros seis livros, anteriores a este, a serem publicados aqui.

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros treze livros de Andrea Camilleri. Clique no nome do livro para ler:

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009.