A seita dos anjos, de Andrea Camilleri

 

A seita dos anjos rompe —pelo menos parcialmente— uma tradição dos romances de Andrea Camilleri: a da afirmação categórica, na nota final, de que tudo ali vem da imaginação, que não há qualquer relação, a não ser casual, com eventos efetivamente ocorridos.

 

Neste livro, o referente é real: o advogado Matteo Teresi, protagonista do romance, existiu no princípio do século XX. Ele também editou, de fato, um jornalzinho em que denunciava a máfia, os poderosos locais e os padres corruptos. E seu destino —que não descreverei aqui— foi idêntico ao do personagem de A seita dos anjos.

 

Claro que Camilleri esclarece que as aventuras e desventuras de Teresi e o escabroso caso —igualmente real— de um padre pedófilo foram apenas sugestões, inspirações longínquas para a ficção: “o romance”, diz o autor, “revolve e transforma intencionalmente os fatos que ocorreram até torná-los irreconhecíveis a ponto de refugiá-los no campo da pura fantasia”. Ou seja, há vínculo efetivo entre o referente e o texto, mas o texto tem a intenção de superá-lo e dissolvê-lo.

 

Interessante é que o alerta valoriza a ficção, mas contribui para que o leitor fique mais atento à conexão com a experiência vivida, histórica, de mais de cem anos, e —inevitável— de hoje. Como não associar os crimes horrorosos da imaginação a outros, não menos terríveis, que ocorrem atualmente? Como não pensar na falta que faz, em pleno século XXI, um personagem de temerária coragem como Teresi?

 

É improvável que um bom leitor não saiba que os terrenos da ficção e da história, embora distintos, são compartilhados pela categoria una e múltipla da representação. É estranho supor que alguém ainda acredite que, compromissos distintos à parte, não haja mecanismos recíprocos de revelação que fazem com que a história seja melhor percebida a partir do registro ficcional, e vice-versa. A representação da distância, já nos lembrou Carlo Ginzburg, varia a perspectiva e amplia o olhar; aprofunda a imaginação moral e a consciência do tempo vivido —dos tempos vividos.

 

A seita dos anjos, por isso, pode ser lido apenas como um bom romance, entretenimento agradável para duas ou três horas. Camilleri, porém, deu todas as pistas para que o leitor perceba que há mais coisas ali, e mais fundas. Que há uma discussão sólida por trás de cada conversa aparente banal, do anedotário habitual que seus personagens projetam.

 

E essa discussão —sobre as relações tão íntimas, óbvias e complexas da ficção com a história— é sempre fascinante.

 

 

Andrea Camilleri. La setta degli angeli. Palermo: Sellerio Editore, 2011.

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros vinte livros de Andrea Camilleri.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011;

O jogo dos espelhos (Il giocco degli specchi), em 8.7.2012;

Uma lâmina de luz (Una lama di luce), em 8.7.2012;

Grande Circo Taddei (Gran Circo Taddei), em 10.9.2012;

A Rainha da Pomerânia (La Regina di Pomerania), em 10.9.2012.

 

Grande Circo Taddei & A Rainha da Pomerânia, de Andrea Camilleri

 

Grande Circo Taddei e A Rainha da Pomerânia reúnem, juntos, dezesseis histórias curtas escritas por Andrea Camilleri. A maioria se passa durante o período do fascismo; uma ou outra o antecede. Todas, sem exceção, divertem e apresentam o cenário de relações canhestras, ora íntimas ora estranhas, com que o autor siciliano gosta de representar sua ilha de origem.

 

O leitor habitual de Camilleri reconhecerá com facilidade alguns personagens, cujos nomes variam de romance a romance, mas cujas atitudes e estilo se mantêm uniformes: nobres ligeiramente decadentes, burgueses oportunistas, mafiosos grandes e pequenos, moças à beira de ataques de nervos, jovens carreiristas, políticos ambíguos.

 

Na verdade, a ambiguidade caracteriza mais do que certos personagens: é a tônica de uma sociedade que vive sempre duas vidas. Na aparência, incontáveis regras —algumas (poucas) escritas e muitas estabelecidas silenciosa e tacitamente: estas, aliás, são as mais eficazes e longevas. Debaixo da tênue pele social, vigora uma imensa quantidade de formas de burla, de estratégias para redefinir os laços e posições sociais, para estabelecer lógicas de hierarquia e poder.

 

É assim que o prosaísmo dos relatos dá lugar à acidez com que o passado siciliano é representado —não à toa, o passado fascista, tão pródigo em retóricas épicas quanto em realidades grotescas, ganha destaque.

 

A verdade da vida social, expõe Camilleri, não corre nas longas reuniões no circolo local, nem nos gabinetes oficiais. Tampouco é tocada diretamente pelos policiais ou por todos aqueles que acreditam na efetividade das formas institucionais e formais. Nem é mostrada em italiano.

 

O mundo real —falado em siciliano ou na linguagem de olhares e silêncios tão característica da ilha— segue pelos bastidores, pelos acordos cifrados, pela madrugada e pelas portas dos fundos. A honradez dos supostamente honrados não resiste a um olhar através da fechadura ou ao observador atento às fugas noturnas de poderosos e seu deslizar entre uma cama e outra.

 

Pôncio Pilatos observou, há mais de dois mil anos, que a verdade morava num poço. Para os personagens dessas dezesseis histórias, ela mora nas sombras e nas conversas ao pé do ouvido. E, mesmo assim, só parte dela —relembra o leitor já acostumado ou novato nos livros de Camilleri. E apenas a parte menos importante é dada à vista. Talvez daí venha nossa vontade de rir, durante a leitura, e o desconforto de lembrar que não só na Sicília é assim.

 

 

Andrea Camilleri. Gran Circo Taddei e altre storie di Vigatà. Palermo: Sellerio Editore, 2011.

Andrea Camilleri. La Regina di Pomerania e altre storie di Vigatà. Palermo: Sellerio Editore, 2012.

 

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros dezoito livros de Andrea Camilleri.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.6.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.2.2011;

O jogo dos espelhos (Il giocco degli specchi), em 8.7.2012;

Uma lâmina de luz (Una lama di luce), em 8.7.2012.

 

O jogo dos espelhos & Uma lâmina de luz, de Andrea Camilleri

 

O jogo dos espelhos e Uma lâmina de luz confirmam o que já se sabia: Andrea Camilleri é um grande narrador.

 

E, nesses casos, sua grandeza não se faz pelas histórias que conta, pelas tramas ocasionais que compõem a décima-oitava e a décima-nona aventuras do comissário Salvo Montalbano.

 

Elas são, de resto, histórias semelhantes, em que as tentativas de iludir —o jogo de espelhos, na metáfora que intitula um dos livros— ultrapassam o movimento da descoberta, da solução exposta.

 

Além de parecidas, são tramas confusas, meio rocambolescas, que envolvem a presença de mafiosos nos dois casos e, num deles, um estranho caso de terrorismo.

 

Mais confuso ainda está o protagonista. Montalbano se aproxima de mulheres que o afastam da eterna namorada genovesa Livia, que testam a persistência de uma ligação que quase desembocou em casamento no terceiro romance da série —O ladrão de merendas, de 1996— e que, de uns cinco ou seis livros para cá, soa cada vez menos possível.

 

E é nesse movimento de recuperar uma história publicada dezesseis anos atrás que Camilleri mostra a que vieram os dois novos livros. Responde, assim, ao leitor que atravessa as quinhentas e poucas páginas somadas de ambos em dúvida se Montalbano ainda tem fôlego, se seu criador ainda tem vontade de escrever seus casos.

 

A resposta está lá, nas cinco últimas páginas de Uma lâmina de luz. No melhor fechamento de livro, e o mais triste, que Camilleri escreveu. Nas iniciais impressas em uma camisa, num rosto que ele evita olhar. Está lá o esclarecimento para quem tivesse qualquer dúvida: Camilleri é um grande autor. E Montalbano, quase vinte romances e muitos contos depois de seu surgimento, continua a ser um personagem instigante.

 

 

Andrea Camilleri. Il gioco degli specchi. Palermo: Sellerio Editore, 2011

Andrea Camilleri. Una lama di luce. Palermo: Sellerio Editore, 2012

 

Paisagens da Crítica comentou outros dezesseis livros de Andrea Camilleri.

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011.

 

 

A intermitência, de Andrea Camilleri

 

A intermitência é dos livros mais soturnos de Andrea Camilleri.

 

Numa história simples, empresários disputam dinheiro grosso, em meio a vidas atarefadas, corridas, autocentradas.

 

Nenhum personagem tem nada que se pareça a escrúpulo. A lógica que dirige suas ações e jogos, quase sempre subterrâneos, é a ambição. As relações pessoais são atravessadas de individualismo atroz e, também nesse campo, todos carecem de preocupação com o próximo.

 

O próprio título do livro — que talvez pudesse ser traduzido por “intervalo” ou “interregno”, além de “intermitência” — manifesta o caráter provisório do que é narrado. Ou, pelo menos, da trama específica, da disputa conjuntural em torno da venda de uma indústria e dos embates entre executivos de um grande conglomerado empresarial.

 

É como se o olhar do narrador, onisciente, observasse por algumas semanas o quotidiano dos personagens e, passado esse período, se desinteressasse deles porque nada mais poderia ser sabido. Eles, afinal, são tão regulares, tão previsíveis, tão ocos de profundidade psicológica ou social, que um recorte cronológico limitado explica integralmente suas vidas.

 

O resto é tristeza, é vazio. Resta a forte impressão de que o mundo que nos rodeia carece de substância, carece de valores. Sobra-lhe, em contrapartida, excessiva frieza e ganância.

 

O leitor, enredado no texto sempre ágil do siciliano, chega a se envolver na história e torce pelo personagem central, mesmo sabendo que ele representa a antítese de qualquer humanismo e solidariedade. Mesmo sabendo-o mesquinho.

 

Será um espelho tenebroso do que vivemos, daquilo a que assistimos e, pior, a que nos acostumamos?

 

Tomara que não. São, antes, armadilhas de uma narração bem feita, concisa, convicta. Camilleri pode apresentar a sociedade numa perspectiva pérfida — ecos da Itália berlusconiana? —, mas não deixa de estruturar o romance com precisão.

 

Melhor, então: você consegue, ao final do livro, enxergar beleza — a da construção literária — no que é repulsivo: o mundo, sem mistificações.

 

 

Andrea Camilleri. L’intermittenza. Milão: Mondadori, 2010

 

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros quinze livros de Andrea Camilleri.

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010.

 

Clique nos títulos dos livros para lê-las.

 

 

Um sábado, com os amigos, de Andrea Camilleri

Um sábado, com os amigos é o mais triste, amargo e duro romance de Andrea Camilleri.

São seis amigos. Colegas antigos de escola que se tornaram bem sucedidos profissionalmente. Recombinaram, entre eles, os casais, mas mantiveram a proximidade.

Suas histórias pessoais e conjugais são narradas brevemente, do segundo ao décimo capítulo do livro, e com lacunas intencionais, enquanto convergem para o habitual jantar que os reúne todo sábado à noite. Chegam ao dia movidos por angústias que só o leitor conhece, porque as acompanhou nas vozes indiretas da narração indireta livre das páginas anteriores.

Recebem um sétimo personagem, que se esgueirou nas frestas da amizade dos seis. Também antigo colega, há muito afastado dos outros.

O jantar, a trama se define e de lá ninguém sai ileso. Uns porque realizam suas fantasias terríveis; outros porque se comprazem de jogos diabólicos. Não há inocentes (e poderia haver?), nem quem se salve (não, não poderia haver).

O décimo-primeiro capítulo, e último, retoma pequenas histórias de infância, iniciadas no primeiro, quando seus personagens não foram nomeados. Lá estão nossos sete amigos e a explicação, algo psicologizante e nada esquemática, de seus dilemas.

Um sábado, com os amigos é o único livro de Camilleri, até onde lembro, em que não há concessão ao riso ou à brincadeira. Nem em seu relato sobre a Máfia, pela figura de Bernardo Provenzano, a crueza veio tanto à flor da pele.

É seu diagnóstico triste e agônico, escrito aos 85 anos, de que o menino é pai do homem.

Andrea Camilleri. Un sabato, con gli amici. Milão: Mondadori, 2009


Paisagens da Crítica comentou, entre o endereço velho e no novo, outros doze livros de Andrea Camilleri. Clique no link do nome do livro se quiser ler os comentários:


O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006


O guizo, de Andrea Camilleri

O guizo – Il sonaglio – completa a trilogia da metamorfose, que Andrea Camilleri iniciou em 2007, com Maruzza Musumecci, e prosseguiu com O guarda-cancela, de 2008.

O próprio Camilleri define o trio como sua melhor produção ficcional. De fato, já faz algum tempo que seus romances históricos superam as aventuras do Comissário Salvo Montalbano. E é no fio da história que Camilleri situa suas fantasias.

Em O guizo, acompanhamos a trajetória de Giurlà, jovem filho de pescador, que vive do mar e dele tira tudo – inclusive seu prazer de imergir na solidão.

A roda da vida, porém, o leva a viver na montanha, também isolado, e pastorear cabras. Após o início em desatino, Giurlà aprende as cores, as luzes e os sons do novo mundo. Descobre também a desonestidade e resiste a ela. Apaixona-se pelo silêncio do campo e conhece Beba, uma cabra que lhe faz companhia o tempo todo.

Da amizade ao amor, o tempo passa rápido. Do amor à convivência, ao sexo e à rotina de casados, mais rápido ainda. Beba se humaniza um pouco, Giurlà, mais do que zoófilo, inicia a metamorfose em caprino.

Mas a surpresa espreita e vem sob a forma feminina – e humana – de Anita, filha do Marquês que é dono de tudo no lugar e patrão de Giurlà.

Anita e Beba se tornam íntimas e – supõe Giurlà – confidentes. Os cheiros se misturam, os jeitos se combinam. O futuro de todos, porém, só se desenha após uma ocorrência trágica – tema já explorado nos dois livros anteriores.

E o desfecho, fica sabendo o leitor, mostra outras faces da metamorfose – não a de Giurlà, nem de Beba ou Anita. A quotidiana, por que todos passamos, sem fantasia. Não há, afinal, no seu mundo, leitor, ou no meu, qualquer traço de sereia – como Maruzza. Não há personagens estranhos – como os de O guarda-cancela. E sequer zooantropomorfismo, como n’O guizo.

Há, no entanto, a disposição de mudar, a inevitabilidade de mudar. A ânsia, que não é fantástica, mas histórica, de acompanhar o tempo e suas vontades. Não para virar insetos medonhos. Apenas para continuar. Diria Espinosa: prosseguir no ser.

Andrea Camilleri. Il sonaglio. Palermo: Sellerio, 2009 

Paisagens da Crítica comentou, no endereço velho e no novo, outros onze livros de Andrea Camilleri. Clique no link no nome do livro se quiser ler os comentários:

 

A idade da dúvida  (L’età del dubbio), em 22.04.2009

O guarda-cancela  (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza  (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor  (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro  (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol  (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto  (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva  (La pensione Eva), em 24.3.2006

A idade da dúvida, de Andrea Camilleri

 

A idade da dúvida – L’età del dubbio – veio matar a saudade das aventuras do Comissário Salvo Montalbano.

 

Montalbano é o personagem mais famoso da atual ficção policial italiana. E ele começou sua carreira literária meio por acaso. Seu autor, Andrea Camilleri, o criou para que fosse apenas o protagonista de A forma da água, em 1994. Deu certo e prosseguiu.

 

De lá para cá foram 14 romances, mais de cinqüenta contos e uma dúzia de novelas. Algumas histórias viraram filme e a maioria delas foi traduzida para outras línguas. A cada lançamento, expectativa grande dos leitores e tiragens cada vez maiores. No Brasil, já foram publicados os sete primeiros romances e o nono – pularam o oitavo, sabe lá Deus por que.

 

Montalbano envelhece a cada história e a velhice bate. No umbral dos 60 (está com 58), vive a idade da dúvida do título. Tudo parece fora do prumo, e dessa vez não é a Itália berlusconiana que o abala. São seus dilemas íntimos. À semelhança dos volumes anteriores, o namoro com Livia, sua eterna namorada genovesa, é apenas um retrato na parede, cada vez mais apagado. A descrença na instituição policial é alimentada pela burocracia e incompetência galopantes.

 

No entanto, quanto mais envelhece, mais Montalbano volta à adolescência. Apaixona-se e fica paralisado, sem saber o que fazer. Oscila diante das decisões a serem tomadas e se afunda em longos e inférteis pensamentos. Conta pequenas e desnecessárias mentiras que rapidamente o colocam em situações difíceis. Continua a agir infantilmente e a deixar um ou outro sonho abalá-lo.

 

Chega a cansar o leitor com longos diálogos consigo mesmo e demoradas e repetidas descrições de estados de alma. Mais do que nunca, suas investigações são movidas pelo humor instável. O apetite – sua marca registrada – também sobe e desce em função das incertezas pessoais. Nas melhores horas, come quantidades industriais de trilhas e lulas fritas; nos maus momentos é capaz de esquecer no forno uma fabulosa massa recheada.

 

Em meio a tantas dúvidas, Montalbano perde o humor. Seu personagem provoca raros risos no leitor, que passa a depender de outros personagens (Mimì Augello ou o impagável Catarella) para perceber que, em Camilleri, o policial se divisa com o risível.

 

Só sua capacidade investigativa se mantém igual, e ele desbarata um intrincadíssimo caso, que ultrapassa as fronteiras de Vigatà. Mas perde a empatia com o leitor. Tomara a recobre no próximo volume.

 

Andrea Camilleri. L’età del dubbio. Palermo: Sellerio, 2008

 

Paisagens da Crítica comentou, entre o endereço velho e no novo, outros dez livros de Andrea Camilleri. Clique no link do nome do livro se quiser ler os comentários:

 

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006

 

O guarda-cancela, de Andrea Camilleri

 

O guarda-cancelaIl casellante – conta a história de Nino e Minica. Conta também a história de um país em guerra. Conta, sobretudo, a história de uma metamorfose.

 

Não é a primeira vez que Andrea Camilleri recorre à fábula para falar do passado. Ou será do presente?

 

Em Maruzza Musumecci, de 2007, ele mostrava que é possível enxergar melhor se fecharmos os olhos e nos deixarmos levar pela imaginação. Fabulava, assim, em torno da ficção e de sua capacidade reveladora.

 

Agora, acompanhamos um ano e pouco da vida de Nino. Ele é o guarda-cancela do título e vive numa pequena casa, ao lado dos trilhos e na beira do mar. Cuida do movimento do trem, que passa duas vezes por dia e liga dois pontos tranqüilos do sul da Sicília.

 

Minica é sua mulher. Uma ou duas vezes por semana, Nino vai até a cidade – Vigàta, a uma hora de distância. Na maior parte do tempo, marido e mulher ficam sós, juntos, e se bastam.

 

Lá fora, vige o fascismo, corre a Segunda Guerra, e a Sicília é seguidamente atacada e bombardeada por aviões aliados. Nessa hora, cabe fugir da casa e se refugiar em campo aberto.

 

Nino e Minica, porém, mantêm-se à margem da margem: na Sicília, longe de tudo. Só que a brutalidade do mundo chega a nós, mesmo quando tentamos ignorá-la. E ela chega aos dois, no livro, em cenas violentas – talvez as mais violentas que Camilleri já escreveu.

 

Assim, a história do casal e a do país em guerra se cruzam, como os trilhos que Nino maneja, inevitável e terrivelmente. Como evadir – sobretudo se tudo que importava foi perdido? Minica tenta a metamorfose que Maruzza Musumecci buscou e alcançou. Nino, sempre paciente, cuida dela, acompanha passo a passo sua loucura e gosta de acreditar que, uma hora, tudo voltará a ser como antes.

 

Mas a guerra prossegue, o fascismo continua no poder e até a metamorfose parece impossível. É só no fim, bem no fim mesmo, que Camilleri aponta alguma saída: a chance do renascimento, da frutificação. Embora trazida, também ela, por um ato violento, tem função libertadora e permite acreditar no futuro.

 

Que futuro é este? Talvez o que resultou da derrota fascista, no passado. Talvez o que alguns italianos ainda acreditam possível quando cessarem os duros tempos berlusconianos.

 

Uma pequena luz: no mais triste e violento livro de Camilleri, a imagem final é de esperança – uma esperança de fábula, mas nem por isso menos intensa.

 

 

Andrea Camilleri. Il casellante. Palermo: Sellerio Editore, 2008

 

 

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros nove livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007), Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007), Il campo del vasaio (12 de junho de 2008), Le pecore e il pastore (19 de junho de 2008) e Il tailleur grigio (24 de junho de 2008). Os seis primeiros estão no endereço antigo (www.paisagensdacritica.zip.net); o sétimo, o oitavo e o nono, neste mesmo endereço.

 

O tailleur cinza, de Andrea Camilleri

O tailleur cinza il tailleur grigio – é um romance sobre a velhice. Andrea Camilleri abriu mão da estrutura regular do policial, investiu bastante na construção psicológica dos dois personagens que se aproximam e se afastam no decorrer da trama e escreveu o mais francês de seus livros.

 

Luigi e Adele – nomes que evoca Pierre Louys, Guy de Maupassant e François Truffaut – formam um casal. Ele, bem passado dos sessenta anos, acaba de se aposentar. Ela, chegando aos 40, leva uma intensa vida social, correndo entre associações e reuniões. O narrador segue os passos de Luigi e, pelos olhos dele, reconstitui algo do passado: a bem sucedida carreira no banco, o primeiro casamento e o filho, a viuvez, o encontro com Adele, a paixão e a atração sexual súbitas, o casamento entre eles.

 

É a rígida rotina de Luigi, alterada pela aposentadoria, que o faz mirar o passado e relembrar a primeira vez que soube que a mulher o traía. Daí em diante, uma longa história de traições que, cauteloso, fingia não ver. Adele, afinal, era todo seu mundo e seu fascínio, mesmo depois que a relação entre eles perdeu as cores do princípio e passou a ser mais um item da rotina doméstica.

 

Aposentar-se, diz um clichê, é libertar-se. Aposentar-se, diz outro clichê, é morrer. Luigi, entre as duas possibilidades, prefere apenas olhar para sua mulher e entender seus jogos e artimanhas. La donna è mobile, diz uma ópera, e Luigi enxerga o exemplo em Adele, na sua obsessão pelo corpo e na fidelidade impossível. Um dia lhe pergunta, temeroso da resposta, sobre a razão dela ter-se casado com ele, e ouve uma peculiar e indireta confissão de amor. Simultaneamente, Adele mantém, no anexo de seu quarto, um sobrinho forte, belo e jovem, disponível para todas as noites: cual piuma al vento, muta d’accento e di pensiero.

 

O drama de Luigi não é apenas íntimo. O mundo siciliano – como era de se esperar em Camilleri – o invade, sob a forma de uma obscura proposta de emprego e de sua hábil, mas honesta, relação profissional com supostos mafiosos. Também sua maneira de entender o que o cerca repõe as figurações sicilianas que Camilleri herdou de Vittorini, Verga, Lampedusa, Pirandello, Sciascia e tantos outros. Os diálogos se constróem e ganham significado nos olhares e no silêncio. Afetos e desafetos se definem nas pequenas relações quotidianas, enviesadas e recheadas de pequenos rituais de sedução e de engano.

 

Seu universo pessoal, porém, é o que prevalece e Luigi, aos poucos, se fecha. Ocorre que tudo, nele, espelha Adele, a personagem feminina melhor esculpida da obra de Camilleri. É linda, arrasadora e perigosa como muitas mulheres de Camilleri. É forte, segura e capaz de representar como outras tantas. Mas é também ambígua nos sentimentos e nas ações, nas verdades e nas mentiras, na infantilidade e na maturidade. Sempre um amabile leggiadro viso, in pianto o in riso è menzognera. Luigi espera unificar as duas Adele para negar que è sempre misero chi a lei s’affida, chi le confida mal cauto il core!

 

E, na porta da morte, tem uma revelação. Uma, não: duas. A primeira encerra a citação da ária: Luigi constata, reconciliado com Adele, com o passado e o presente que é impossível viver sem ela, afinal pur mai non sentesi felice appieno chi su quel seno non liba amore! E, em seguida, enxerga algo que justifica o título do livro – roupa que aparece poucas vezes no romance, mas nunca sai da cabeça do leitor.

 

O romance sobre a velhice de Camilleri – com seus 83 anos – não tem, felizmente, a diluição e a auto-complacência do que García Márquez escreveu pouco antes dos 80. Tampouco tem a densidade amarga e o rigor narrativo, uma pena, do de Philip Roth. Mas tem o que é essencial: o reconhecimento da duplicidade do tempo e de nossa complicada e irresolvida relação com ele.

 

Andrea Camilleri. Il tailleur grigio. Milão: Arnoldo Mondadori, 2008

 

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros oito livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007), Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007), Il campo del vasaio (12 de junho de 2008) e Le pecore e il pastore (19 de junho de 2008). Os seis primeiros estão no endereço antigo (www.paisagensdacritica.zip.net); o sétimo e o oitavo, neste mesmo endereço.

As ovelhas e o pastor, de Andrea Camilleri

As ovelhas e o pastor Le pecore e il pastore – é um livro ambicioso. Andrea Camilleri ousa mais em seus romances históricos – como este – do que nas aventuras do Coimissário Salvo Montalbano. Tem sentido: embora toda a obra de Camilleri seja bastante lida (é o escritor italiano da atualidade que mais vende na Itália e no exterior), os livros de Montalbano adquiriram bastante popularidade, chegaram às telas da televisão em cuidadosas adaptações e aumentaram muito seu público, incluindo leitores nem tão dispostos a acompanhar as experiências narrativas de Camilleri.

 

Apesar da diferença literária, as questões e preocupações de Camilleri nas tramas de Montalbano e nas históricas são semelhantes. A principal delas é com a leitura: cada vez seus personagens lêem mais e cada vez os livros são mais decisivos na decifração das histórias e seus mistérios. O recente Il colore del sole (de 2007), nesse sentido, é exemplar: está em jogo, ali, um suposto diário de Caravaggio, a ser lido pelo próprio Camilleri. Também o já clássico La scomparsa di Patò (de 2000), citado e lido por Montalbano no recente Il campo del vasaio, é composto de fragmentos de notícias e de documentos que tentam identificar o destino de Antonio Patò, que desapareceu – segundo observação de Leonardo Sciascia em A cada um o seu – quando fazia o papel de Judas numa representação da Paixão de Cristo. Em outro livro recente – Voi non sapete, de 2007 – verdade e ficção se misturam na leitura de bilhetes do chefe mafioso Bernardo Provenzano.

 

Le pecore e il pastore também reconhece que no princípio de toda escritura está a leitura. No caso, para compreender dois mistérios do verão de 1945: o que esteve por trás da morte de dez jovens religiosas – ovelhas enclausuradas num convento – e do atentado contra o bispo Giovanni Battista Peruzzo, pastor anti-comunista que defendeu, nos tempos sombrios do fascismo, justiça social e respeito à diferença. Os casos são reais; a documentação estudada por Camilleri (cartas, documentos oficiais, textos literários), nem sempre. A investigação retrocede ao século XII para entender o lugar do monastério em que o atentado se deu e sua história de ermitões e bandidos, de fé e perfídia. A solução dos casos, claro, pode não ser verdadeira, mas certamente é um achado. A relação entre literatura e história, de resto, é sempre conturbada e composta de diálogos e contaminações; ela pode prescindir de diferenciação se for colocada em uma base imaginativa, um livro de ficção. E Camilleri explora a ambigüidade até seu limite para ensinar que Noel Rosa e Pôncio Pilatos tinham razão ao dizer que a verdade existe, mas mora num poço. O leitor sedento de verdades absolutas fica, então, desorientado, perdido entre notas de rodapé e longas citações documentais: a sugestão falseada da precisão, embalada na narrativa ficcional.

 

Por esses jogos de sedução e engano é que Camilleri continua essencial. Perto de fazer oitenta e três anos e apenas quatorze após seu sucesso literário, escreve em ritmo acelerado, chega a publicar três livros num ano e mantém uma quase inacreditável capacidade de surpreender o leitor com narrativas divertidas e tantas vezes sofisticadas na concepção e no desenvolvimento. Às vezes, a surpresa vem até do fato do livro ser escrito inteiramente em italiano – caso de Le pecore e il pastore –, sem as interferências dialetais e as marcas da oralidade siciliana que particularizam quase toda sua obra e caracterizam a língua que inventou. Porque a novidade, às vezes, pode vir da tradição – depende da forma como a olhamos e a representamos.

 

Andrea Camilleri. Le pecore e il pastore. Palermo: Sellerio, 2007

 

 

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros sete livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007), Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007) e Il campo del vasaio (12 de junho de 2008). Os seis primeiros estão no endereço antigo (www.paisagensdacritica.zip.net); o sétimo, neste mesmo endereço. Na próxima semana, encerrando a “temporada Camilleri”, o blog publicará comentário sobre Il tailleur grigio.