Um sábado, com os amigos, de Andrea Camilleri

Um sábado, com os amigos é o mais triste, amargo e duro romance de Andrea Camilleri.

São seis amigos. Colegas antigos de escola que se tornaram bem sucedidos profissionalmente. Recombinaram, entre eles, os casais, mas mantiveram a proximidade.

Suas histórias pessoais e conjugais são narradas brevemente, do segundo ao décimo capítulo do livro, e com lacunas intencionais, enquanto convergem para o habitual jantar que os reúne todo sábado à noite. Chegam ao dia movidos por angústias que só o leitor conhece, porque as acompanhou nas vozes indiretas da narração indireta livre das páginas anteriores.

Recebem um sétimo personagem, que se esgueirou nas frestas da amizade dos seis. Também antigo colega, há muito afastado dos outros.

O jantar, a trama se define e de lá ninguém sai ileso. Uns porque realizam suas fantasias terríveis; outros porque se comprazem de jogos diabólicos. Não há inocentes (e poderia haver?), nem quem se salve (não, não poderia haver).

O décimo-primeiro capítulo, e último, retoma pequenas histórias de infância, iniciadas no primeiro, quando seus personagens não foram nomeados. Lá estão nossos sete amigos e a explicação, algo psicologizante e nada esquemática, de seus dilemas.

Um sábado, com os amigos é o único livro de Camilleri, até onde lembro, em que não há concessão ao riso ou à brincadeira. Nem em seu relato sobre a Máfia, pela figura de Bernardo Provenzano, a crueza veio tanto à flor da pele.

É seu diagnóstico triste e agônico, escrito aos 85 anos, de que o menino é pai do homem.

Andrea Camilleri. Un sabato, con gli amici. Milão: Mondadori, 2009


Paisagens da Crítica comentou, entre o endereço velho e no novo, outros doze livros de Andrea Camilleri. Clique no link do nome do livro se quiser ler os comentários:


O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006


8 pensamentos sobre “Um sábado, com os amigos, de Andrea Camilleri

  1. ah, não li em detalhes pq esse eu quero ler. o que eu comprei desse autor já passeou bastante. minha irmã já leu e agora está com minha secretária. beijos, pedrita

    • Pedrita,
      obrigado pelos comentários.
      Lullarney, uma tristeza.
      Leia, sim, os premiados e Camilleri.
      Mas não sei se há previsão para a tradução de Aos sábados, com os amigos.
      Beijos,
      Júlio

  2. Ola,
    Professor, antes de mais nada, peço desculpa por pedir algo que não tem a ver, com nada, sobre o livro descrito logo acima.Gostaria de saber, se, o senhor tem alguma indicação de leitura, ou, dica mesmo, a respeito de analise do discurso na História.
    Professor, parabens pela sua carreira profilica, comentador de livros, politica, pesquisador e professor.
    Obrigado,
    Diego Rosberg.
    Ps.: Fui aluno seu da disciplina HIstoria da America Independente I

    • Diego,
      tudo bem?
      Obrigado por seu comentário.
      Há muitos trabalhos historiográficos que recorrem, de diversas maneiras, à análise de discurso. De imediato, me ocorrem: o livro de Peter Gay, O estilo na história, e as pesquisas de Alcir Lenharo (A sacralização da política) e de Maria Helena Capelato (Multidões em cena).
      Abraços,
      Júlio

  3. Estou lendo “A pensão Eva” do Camilleri. Que dizer sobre a epígrafe do capítulo quatro:

    “Voltamos agora o nosso cálamo para as coisas que parecem dignas de admiração: aquelas que são notáveis em si mesmas e aquelas espantosas pelo seu caráter insólito.” (Giraldo Cambrense, Topographia Hibernica)

    Lindíssimo, não? Como o romance.

    • Val,
      tudo bem?
      Muito bonito mesmo.
      Sou suspeito, evidentemente, para falar de Camilleri. Mas acho que poucos autores conseguem, hoje, a intensidade e a delicadeza de seus livros – no desenvolvimento narrativo e no uso da língua.
      Beijos,
      Júlio

  4. Nao consegui ler, Como dito em outro post, Italiano é facil, mas a escrita do Camilleri não é . Estou esperando o Age of Doubt (em Ingles vai de boa.) No começo entendi muito bem, mas o livro nao me prendeu então perdi o interesse e o Italiano ficou mais dificil. Fora da serie Montalbano, os unicos que gostei foi o Rei de Girgente e A Pensao de Eva. Estou curioso para ler o Age of Doubt pq me parece q ele acabou com a LIvia. Sera q ele ta pegando a Ingrid? rsrsrs

    • Jano,
      tudo bem?
      Uma pena. Sugiro que insista…
      Calculo quantos leitores das histórias de Montalbano sonham com a Ingrid. rs A história com a Livia passa por altos e baixos até ‘Una lam di luce’, quando ocorre um episódio decisivo.
      Abraços,
      Júlio

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