As ovelhas e o pastor, de Andrea Camilleri

As ovelhas e o pastor Le pecore e il pastore – é um livro ambicioso. Andrea Camilleri ousa mais em seus romances históricos – como este – do que nas aventuras do Coimissário Salvo Montalbano. Tem sentido: embora toda a obra de Camilleri seja bastante lida (é o escritor italiano da atualidade que mais vende na Itália e no exterior), os livros de Montalbano adquiriram bastante popularidade, chegaram às telas da televisão em cuidadosas adaptações e aumentaram muito seu público, incluindo leitores nem tão dispostos a acompanhar as experiências narrativas de Camilleri.

 

Apesar da diferença literária, as questões e preocupações de Camilleri nas tramas de Montalbano e nas históricas são semelhantes. A principal delas é com a leitura: cada vez seus personagens lêem mais e cada vez os livros são mais decisivos na decifração das histórias e seus mistérios. O recente Il colore del sole (de 2007), nesse sentido, é exemplar: está em jogo, ali, um suposto diário de Caravaggio, a ser lido pelo próprio Camilleri. Também o já clássico La scomparsa di Patò (de 2000), citado e lido por Montalbano no recente Il campo del vasaio, é composto de fragmentos de notícias e de documentos que tentam identificar o destino de Antonio Patò, que desapareceu – segundo observação de Leonardo Sciascia em A cada um o seu – quando fazia o papel de Judas numa representação da Paixão de Cristo. Em outro livro recente – Voi non sapete, de 2007 – verdade e ficção se misturam na leitura de bilhetes do chefe mafioso Bernardo Provenzano.

 

Le pecore e il pastore também reconhece que no princípio de toda escritura está a leitura. No caso, para compreender dois mistérios do verão de 1945: o que esteve por trás da morte de dez jovens religiosas – ovelhas enclausuradas num convento – e do atentado contra o bispo Giovanni Battista Peruzzo, pastor anti-comunista que defendeu, nos tempos sombrios do fascismo, justiça social e respeito à diferença. Os casos são reais; a documentação estudada por Camilleri (cartas, documentos oficiais, textos literários), nem sempre. A investigação retrocede ao século XII para entender o lugar do monastério em que o atentado se deu e sua história de ermitões e bandidos, de fé e perfídia. A solução dos casos, claro, pode não ser verdadeira, mas certamente é um achado. A relação entre literatura e história, de resto, é sempre conturbada e composta de diálogos e contaminações; ela pode prescindir de diferenciação se for colocada em uma base imaginativa, um livro de ficção. E Camilleri explora a ambigüidade até seu limite para ensinar que Noel Rosa e Pôncio Pilatos tinham razão ao dizer que a verdade existe, mas mora num poço. O leitor sedento de verdades absolutas fica, então, desorientado, perdido entre notas de rodapé e longas citações documentais: a sugestão falseada da precisão, embalada na narrativa ficcional.

 

Por esses jogos de sedução e engano é que Camilleri continua essencial. Perto de fazer oitenta e três anos e apenas quatorze após seu sucesso literário, escreve em ritmo acelerado, chega a publicar três livros num ano e mantém uma quase inacreditável capacidade de surpreender o leitor com narrativas divertidas e tantas vezes sofisticadas na concepção e no desenvolvimento. Às vezes, a surpresa vem até do fato do livro ser escrito inteiramente em italiano – caso de Le pecore e il pastore –, sem as interferências dialetais e as marcas da oralidade siciliana que particularizam quase toda sua obra e caracterizam a língua que inventou. Porque a novidade, às vezes, pode vir da tradição – depende da forma como a olhamos e a representamos.

 

Andrea Camilleri. Le pecore e il pastore. Palermo: Sellerio, 2007

 

 

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros sete livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007), Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007) e Il campo del vasaio (12 de junho de 2008). Os seis primeiros estão no endereço antigo (www.paisagensdacritica.zip.net); o sétimo, neste mesmo endereço. Na próxima semana, encerrando a “temporada Camilleri”, o blog publicará comentário sobre Il tailleur grigio.

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7 pensamentos sobre “As ovelhas e o pastor, de Andrea Camilleri

  1. a primeira investigação de montalbano, era o único que tinha lá. ah, e eu não lembrava a grafia do autor, não achei na prateleira. abrimos o seu blog na livraria pra pegar o nome certo hehe. o rapaz ficou interessado já que ele além de trabalhar na livraria adora ler e ia ver as suas dicas. hehe. beijos, pedrita

  2. imagina. gosto muito daqui. hj vou passar perto de um sebo e vou levar a sua lista. os livros que comenta são muito recentes, nem sempre eles estão em sebos ou com bom preços, mas vou levar pra dar uma olhada. vou levar tb a lista dos autores que ganharam nobel para continuar minhas leituras por eles. se tudo der certo em julho vou passar constantemente nesse sebo e vai ser um estrago hehe. beijos, pedrita

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