O guarda-cancela, de Andrea Camilleri

 

O guarda-cancelaIl casellante – conta a história de Nino e Minica. Conta também a história de um país em guerra. Conta, sobretudo, a história de uma metamorfose.

 

Não é a primeira vez que Andrea Camilleri recorre à fábula para falar do passado. Ou será do presente?

 

Em Maruzza Musumecci, de 2007, ele mostrava que é possível enxergar melhor se fecharmos os olhos e nos deixarmos levar pela imaginação. Fabulava, assim, em torno da ficção e de sua capacidade reveladora.

 

Agora, acompanhamos um ano e pouco da vida de Nino. Ele é o guarda-cancela do título e vive numa pequena casa, ao lado dos trilhos e na beira do mar. Cuida do movimento do trem, que passa duas vezes por dia e liga dois pontos tranqüilos do sul da Sicília.

 

Minica é sua mulher. Uma ou duas vezes por semana, Nino vai até a cidade – Vigàta, a uma hora de distância. Na maior parte do tempo, marido e mulher ficam sós, juntos, e se bastam.

 

Lá fora, vige o fascismo, corre a Segunda Guerra, e a Sicília é seguidamente atacada e bombardeada por aviões aliados. Nessa hora, cabe fugir da casa e se refugiar em campo aberto.

 

Nino e Minica, porém, mantêm-se à margem da margem: na Sicília, longe de tudo. Só que a brutalidade do mundo chega a nós, mesmo quando tentamos ignorá-la. E ela chega aos dois, no livro, em cenas violentas – talvez as mais violentas que Camilleri já escreveu.

 

Assim, a história do casal e a do país em guerra se cruzam, como os trilhos que Nino maneja, inevitável e terrivelmente. Como evadir – sobretudo se tudo que importava foi perdido? Minica tenta a metamorfose que Maruzza Musumecci buscou e alcançou. Nino, sempre paciente, cuida dela, acompanha passo a passo sua loucura e gosta de acreditar que, uma hora, tudo voltará a ser como antes.

 

Mas a guerra prossegue, o fascismo continua no poder e até a metamorfose parece impossível. É só no fim, bem no fim mesmo, que Camilleri aponta alguma saída: a chance do renascimento, da frutificação. Embora trazida, também ela, por um ato violento, tem função libertadora e permite acreditar no futuro.

 

Que futuro é este? Talvez o que resultou da derrota fascista, no passado. Talvez o que alguns italianos ainda acreditam possível quando cessarem os duros tempos berlusconianos.

 

Uma pequena luz: no mais triste e violento livro de Camilleri, a imagem final é de esperança – uma esperança de fábula, mas nem por isso menos intensa.

 

 

Andrea Camilleri. Il casellante. Palermo: Sellerio Editore, 2008

 

 

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros nove livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007), Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007), Il campo del vasaio (12 de junho de 2008), Le pecore e il pastore (19 de junho de 2008) e Il tailleur grigio (24 de junho de 2008). Os seis primeiros estão no endereço antigo (www.paisagensdacritica.zip.net); o sétimo, o oitavo e o nono, neste mesmo endereço.

 

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8 pensamentos sobre “O guarda-cancela, de Andrea Camilleri

  1. ai meu deus, e eu que já comprei um livro desse autor e ainda não li. mas eu já tinha decidido que assim que terminar o lucien lewen do stendhal, vou lê-lo. beijos, pedrita

  2. ufa, comecei a ler. o que eu comprei e comecei a ler é a primeir investigação de montalbano. já estou me divertindo logo no começo. e falei do lucien leuwen no meu blog. beijos, pedrita

  3. Obrigado pelos comentários e pela indicação, Pedrita.
    Aproveite a leitura de Camilleri, que é sempre muito agradável.
    Darei uma passada pelo seu blog para ler o comentário sobre Stendhal.
    Beijos,
    Júlio

  4. terminei de ler a primeira investigação de montalbano e comentei no meu blog. obrigada pela indicação, vc tinha razão mesmo, eu ia adorar. virei fã de camilleri. falei do livro no meu blog, comentei sobre o seu blog e sua indicação lá. beijos, pedrita

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