Adeus, Hemingway e O rabo da serpente, de Leonardo Padura

 

Adeus, Hemingway e O rabo da serpente são, cada um a seu modo, livros circunstanciais, resultados de adaptações não totalmente bem sucedidas.

 

Ambos trazem Mario Conde —detetive criado pelo cubano Leonardo Padura— em novas aventuras, mas nenhum deles consegue envolver de fato o leitor: soam artificiais nas histórias e na própria construção da narrativa.

 

Adeus, Hemingway foi escrito originalmente para a coleção “Literatura e morte”, da Companhia das Letras, cuja proposta era contar histórias de mistério que incluíssem grandes escritores como personagens. Uma excelente ideia, diga-se de passagem. Mas as obras não ficaram à altura da proposta original e, fora uma ou outra exceção, a coleção apresentou livros inexpressivos e, em pelo menos um caso, constrangedor.

 

O rabo da serpente, por sua vez, foi um conto que Padura expandiu, atualizou e transformou em romance.

 

Dentro da cronologia do Conde, a história de Adeus, Hemingway se passa logo após sua saída da polícia. Ou seja, imediatamente depois da aventura narrada em Paisagens de outono. Já a trama de O rabo da serpente se situa nas imediações de Máscaras, antes de Paisagens de outono.

 

No caso de Adeus, Hemingway, o posicionamento cronológico não traz problemas. Sua enigmática história coloca o Conde na investigação de um crime ocorrido no jardim da casa cubana de Hemingway, nos idos de 1958. O livro cruza a investigação, ocorrida décadas depois, com as idiossincrasias o quotidiano passado do escritor norte-americano e explora o universo algo mítico que se criou em torno de sua figura.

 

Em outras palavras, Padura transforma o mito-Hemingway em personagem de seu livro. Aproveita, assim, o conhecimento prévio, a familiaridade que o leitor pode ter com o homem que acreditamos vigoroso, viril, caótico, bêbado e genial e prescinde de reinventá-lo ficcionalmente. O efeito facilita a leitura, mas expõe o clichê, a generalidade, o artificialismo. A própria trama, rocambolesca em excesso (mesmo para aqueles que consideram que a narrativa policial nasceu com o Rocambole…), provoca a impressão de um livro simplificado demais, circunstancial demais.

 

A adaptação por que passou O rabo da serpente deixou ainda mais sequelas do que a transposição do Hemingway real para a ficção. O relato leva Conde ao bairro chinês de Havana para desentranhar, do silêncio dos imigrantes chineses miseráveis, uma história complexa, que envolve religiosidades mescladas, crime organizado e tragédias individuais e coletivas. O material de que Padura se apropria é interessante e deve ter dado um excelente conto. Como romance, porém, é irregular.

 

O leitor atento percebe facilmente os elementos inseridos para ampliar a narrativa, e que acabaram por diluir e dispersar a força da ideia central. Mesmo o grupo de amigos que gira ao redor do Conde —personagem coletivo e decisivo nos demais livros, espécie de enraizamento e desenvolvimento das dúvidas e hesitações que caracterizam o protagonista— aparece pouco e em diálogos inócuos.

 

Também a ambiguidade temporal atrapalha e confunde. O narrador indica, logo no início, que o caso ocorreu no passado do Conde e sugere um movimento de lembrança do personagem. Na Havana atual, já afastado da polícia, o ex-detetive e hoje livreiro recordaria a história. No entanto, as manifestações desse presente se dão em seções desconectadas do restante e deixam dúvida quanto ao motivo que teria levado a obra a operar em dois tempos se, na prática, eles não se cruzam, nem o movimento da memória é justificado. Resta, no rescaldo da leitura, a sensação de uma adaptação feita apenas para justificar a republicação em outro formato.

 

Embora as adaptações aparentemente mal resolvidas e as circunstâncias da escritura (em Adeus, Hemingway) e da reedição (de O rabo da serpente) resultem em livros frágeis, bastante inferiores às outras cinco histórias do Conde, é inevitável que o leitor de Padura queira revisitar a Havana ambígua —e ambiguamente representada— e o dia-a-dia errático de um dos mais originais detetives da atualidade.

 

Essa é a razão —digamos, afetiva— que justifica a leitura dos dois romances.

 

 

Leonardo Padura. Adiós, Hemingway. Barcelona: Tusquets, 2006.

Leonardo Padura. La cola de la serpiente. Buenos Aires: Tusquets, 2012.

 

 

Paisagens da crítica publicou resenhas de outros livros de Leonardo Padura.

Clique nos títulos dos livros para lê-las:

Ventos de quaresma (10.6.2008)

Máscaras (15.11.2011)

 

 

O jogo dos espelhos & Uma lâmina de luz, de Andrea Camilleri

 

O jogo dos espelhos e Uma lâmina de luz confirmam o que já se sabia: Andrea Camilleri é um grande narrador.

 

E, nesses casos, sua grandeza não se faz pelas histórias que conta, pelas tramas ocasionais que compõem a décima-oitava e a décima-nona aventuras do comissário Salvo Montalbano.

 

Elas são, de resto, histórias semelhantes, em que as tentativas de iludir —o jogo de espelhos, na metáfora que intitula um dos livros— ultrapassam o movimento da descoberta, da solução exposta.

 

Além de parecidas, são tramas confusas, meio rocambolescas, que envolvem a presença de mafiosos nos dois casos e, num deles, um estranho caso de terrorismo.

 

Mais confuso ainda está o protagonista. Montalbano se aproxima de mulheres que o afastam da eterna namorada genovesa Livia, que testam a persistência de uma ligação que quase desembocou em casamento no terceiro romance da série —O ladrão de merendas, de 1996— e que, de uns cinco ou seis livros para cá, soa cada vez menos possível.

 

E é nesse movimento de recuperar uma história publicada dezesseis anos atrás que Camilleri mostra a que vieram os dois novos livros. Responde, assim, ao leitor que atravessa as quinhentas e poucas páginas somadas de ambos em dúvida se Montalbano ainda tem fôlego, se seu criador ainda tem vontade de escrever seus casos.

 

A resposta está lá, nas cinco últimas páginas de Uma lâmina de luz. No melhor fechamento de livro, e o mais triste, que Camilleri escreveu. Nas iniciais impressas em uma camisa, num rosto que ele evita olhar. Está lá o esclarecimento para quem tivesse qualquer dúvida: Camilleri é um grande autor. E Montalbano, quase vinte romances e muitos contos depois de seu surgimento, continua a ser um personagem instigante.

 

 

Andrea Camilleri. Il gioco degli specchi. Palermo: Sellerio Editore, 2011

Andrea Camilleri. Una lama di luce. Palermo: Sellerio Editore, 2012

 

Paisagens da Crítica comentou outros dezesseis livros de Andrea Camilleri.

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011.

 

 

A vendedora de fósforos, de Adriana Lunardi

 

A vendedora de fósforos traz, logo no início, uma cena prosaica, mas decisiva: a personagem —que também é narradora— arruma estantes, luta contra traças. Luta contra o tempo.

 

Poucas páginas depois, duas frases resumem o livro de Adriana Lunardi: “Tudo se passa atrás dos meus olhos”, “o eu é a única coisa móvel em um discurso”. É o olhar à deriva, olhar que oscila; é a mobilidade simultânea do pensamento, da compreensão. É o estranhamento, que mais do que tema ou metáfora, surge como categoria epistemológica.

 

Assim e aos poucos se monta uma trama que procura as fronteiras da vida adulta, da maturidade, do anseio pela voz e pela expressão. O irmão da narradora não fala na primeira pessoa e ela mesma fala em nome da irmã, pela irmã: escreve as memórias alheias, restaura o outro, interpreta a família e a si mesma no jogo hesitante do tempo que passa, agregando aqui, afastando ali, reconhecendo os quase indiscerníveis limites entre as gentes.

 

Toda história de uma relação, afinal, é a história das perspectivas e de sua variação no tempo —tempo, não custa lembrar, com suas ambiguidades e desvãos, paradoxalmente exato e errático, sempre labiríntico.

 

Por isso, tanta solidão dos personagens, tanto isolamento: o pai, cuja fala tem que ser traduzida pelos filhos; a mãe, que vive em habitual indiferença e cujas alegrias são “íntimas demais para serem entendidas”. Descomunicam-se.

 

Resta escrever uma história capaz de ampliar a percepção alheia e de si, de facilitar a individuação dos olhares. Resta encontrar, depois, o lugar em que as vozes possam se reunir: lá onde os livros duplicam o mundo e a ficção circula entre a verdade e a mentira, entre a própria invenção —que inclui a coleta de textos alheios, copier comme autrefois— e as leituras, inúmeras, ao seu redor.

 

Ao falar dos olhares construídos pelo tempo (e através dele), dos tempos construídos pelos olhares (e através deles), A vendedora de fósforos não revela apenas uma luta contra traças: mostra o vigor da narração de Adriana Lunardi, seu domínio técnico cada vez mais completo e a intensidade da ficção —inclusive da ficção-vida.

 

Adriana Lunardi. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

Paisagens da crítica já publicou resenha de outro livro de Adriana Lunardi.

Clique no título do livro para lê-lo:

Corpo estranho (03.08.2007)

 

Patrimônio, de Philip Roth

 

Patrimônio é um Philip Roth peculiar. Nele, a ficção não tem lugar. O subtítulo, lançado na capa, confirma: “Uma história real”.

 

O livro narra os últimos anos do pai de Roth: desde a morte da mulher até sua própria morte. O foco principal está nos meses que se seguiram à identificação de um tumor no cérebro do senhor Herman Roth: os ensaios de tratamento, o desconsolo, a espera.

 

Importante, porém, não é o diagnóstico da doença e, a bem da verdade, nem mesmo a iminência da morte —que, observa o narrador, “dá trabalho” e ocupa bastante seu pai, “um trabalhador”. Importante é a investigação do passado e a construção gradual de outro diagnóstico: o da tecelagem lenta, criteriosa e às vezes aflitiva das relações familiares e de sua herança vital —o “patrimônio” do título—, a memória.

 

O compromisso realista assumido pela obra descreve a formação de Herman e a dor de acompanhar a agonia do próprio pai, Sender. Detalha seu comportamento esquivo, sua beligerante disposição pedagógica diante de tudo e de todos. Avalia o casamento, as tensões entre mulher e marido, os valores em jogo, a criação dos filhos —inclusive a dele, Philip.

 

Philip, narrador e simultaneamente autor, percorre também suas dificuldades pessoais, os dilemas que enfrentou antes e depois da doença paterna, a melancolia dos Roth, que corta gerações e anestesia vontades, limita as demonstrações de afetos e afasta quem se desejava que estivesse próximo.

 

Por isso, Patrimônio fascina e assusta um pouco. Ele nos fala, afinal, daquilo que nos é legado sem que haja testamento ou inventário, sem que qualquer cartório contabilize os ganhos e as perdas. Fala da transmissão hereditária de angústias —termo que ouvi certa vez de uma amiga querida e que só compreendi quando vi minha filha crescer e assumir, sob meu pavor calado, várias das angústias que senti ou sinto e com que nunca soube direito lidar.

 

Que realismo, porém, consegue dar conta do incerto, da instabilidade das relações, da profundidade obtusa de tantas incertezas? Como traduzir aquilo que se confunde com a vida em um relato direto, pretensamente objetivo e veraz?

 

Roth, o filho, o maior escritor vivo em língua inglesa, percebe logo o paradoxo de sua “história real” e identifica, com igual velocidade, que não é possível excluir a ficção. É ela, de resto, e só ela, que oferece algum caminho possível de revelação, de compreensão.

 

Patrimônio, então, se assume como aquilo que só à primeira vista não é: um livro de ficção que conta uma história real, mas sabe que a interpretação de seu peso e vigor depende inteiramente da ficcionalização. E é com os recursos dela —de estilo, significação, variação entre temporalidades e vozes narrativas — que Philip fala do pai, fala de si mesmo, fala da vida: da ficção-vida.

 

E nós, que lemos o que Roth escreve, na dor lida sentimos bem as duas que ele teve e ainda a que nós temos. Dores onde a ficção sempre tem lugar.

 

 

Philip Roth. Patrimônio. Uma história real. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

 

 

Paisagens da Crítica publicou resenhas de outros cinco livros de Philip Roth.

 

Clique no título do livro para lê-la:

 

Animal agonizante (4.7.2006)

 

Homem comum (30.9.2007)

 

Fantasma sai de cena (31.7.2008)

 

Indignação (6.2.2009)

 

Pastoral americana (27.8.2010)

 

 

 

Mestres do Conto Latino-Americano

 

A Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, promove, entre abril e setembro, uma série de encontros gratuitos sobre contos e contistas latino-americanos.

 

A curadoria é de Davi Arrigucci Junior e os autores estudados são:  

– Machado de Assis (14/4, por Augusto Massi),

– Jorge Luis Borges (28/4, por Davi Arrigucci),

– Juan Carlos Onetti (5/5, por mim),

– Mário de Andrade (12/5, por Eliane Robert de Moraes),

– Aníbal Machado (19/5, por Murilo Marcondes Moura),

– Leopoldo Lugones (26/5, por Jorge Schwartz),

– Graciliano Ramos (2/6, por Erwin Torralbo Gimenez),

– Julio Cortázar (16/6, por Cleusa Rios),

– João Guimarães Rosa (23/6, por Ana Paula Pacheco),

– Juan Rulfo (30/6, por Marcos Piason Natali),

– Clarice Lispector (4/8, por Yudith Rosenbaum),

– Julio Ramón Ribeyro (11/8, por Samuel Titan Jr.),

– Dalton Trevisan (18/8, por Berta Waldman),

– Roberto Bolaño (25/8, por Laura Janina Hosiasson),

– Rubem Fonseca (1/9, por Fábio de Souza Andrade),

– Juan José Saer (15/9, por Adriana Kanzepolsky),

– Lima Barreto (22/9, por Antonio Arnoni Prado),

– Horacio Quiroga (29/9, por Pablo Gasparini).

 

Veja mais detalhes aqui.

 

Antonio Tabucchi

 

Domingo, 25 de março de 2012: morreu Antonio Tabucchi.

 

Quem foi Tabucchi? Um dos maiores escritores italianos e de todo o mundo na segunda metade do século XX.

 

Além disso, era o principal estudioso da obra de Fernando Pessoa, que também traduziu para o italiano.

 

O mundo literário é curioso. É repleto de celebridades instantâneas e descartáveis, infladas por um crítica novidadeira e por movimentos de política cultural às vezes nebulosos. No meio de tanta fumaça, alguns escritores sólidos e consistentes ficam meio esquecidos.

 

Tabucchi tinha muito prestígio na Itália e em Portugal, recebeu prêmios importantes na França. Aqui no Brasil, embora vários de seus livros tenham sido traduzidos, era pouco lido.

 

Desde sua primeira obra de ficção, Piazza Italia, de 1973, alguns temas cortam sua obra. O principal deles mostra pessoas que buscam outras pessoas e, dessa forma, tentam encontrar a si mesmas. Tentam romper o que Tabucchi definia como a marca mais destacada do século XX: o desassossego, a inquietude em que vivemos.

 

Alguns de seus livros são vertiginosos. Noturno indiano, de 1987, é um deles. A cabeça perdida de Damasceno Monteiro, de 97, é outro. Gosto especialmente de Réquiem, de 92, e de É sempre tarde demais, de 2001.

 

Mas seu maior sucesso é um livro impressionante: Afirma Pereira, de 94. Narra a trajetória de um jornalista cultural, já meio velhusco, prisioneiro de uma rotina tão implacável quanto sua passividade. A mulher morta e a saúde frágil ocupam boa parte do tempo dele. O passado importa mais que o presente —e o presente em questão é o do salazarismo, ditadura terrível que submeteu Portugal por quase quarenta anos. De uma hora para outra, porém, Pereira rompe sua passividade e age decisivamente.

 

Adaptado para o cinema, Marcello Mastroianni fez o papel principal. Aqui, por um desses motivos inexplicáveis, o filme saiu com o título de “Páginas da Revolução”.

 

Afirma Pereira, além de ser a obra mais conhecida de Tabucchi, é uma espécie de síntese de suas preocupações políticas e literárias.

 

No ano passado, Tabucchi viria ao Brasil para participar da Flip, o evento literário da cidade de Parati, no estado do Rio. Desistiu em protesto contra a decisão brasileira de dar abrigo ao italiano Cesare Battisti. Ou seja, ficamos com o terrorista, perdemos o professor, escritor, intelectual Tabucchi.

 

Agora Tabucchi morreu. Livrou-se do desassossego. Nós, entre inquietos e inconformados, prosseguimos lendo seus livros. É o mínimo consolo.

 

Sobre o Arquivo Público de São Paulo

Nem sempre os jornais cumprem suas funções e verificam as informações que oferecem aos leitores. Por isso, sigo o exemplo de Carlos Alberto Dória e reproduzo aqui a resposta que Carlos Bacellar, coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo, enviou a O Estado de S. Paulo em 12 de março de 2012.

 

Não custa ressaltar que Bacellar, historiador e acadêmico respeitado, faz gestão excelente no Arquivo.

 

“Caro Editor,

 


           O Arquivo Público do Estado de São Paulo, que nesta semana completou 120 anos de  existência, é o órgão especializado na preservação dos documentos públicos acumulados ao longo de quatro séculos. A ele cabe estabelecer a política de gestão destes documentos, desde o início de sua tramitação até seu arquivamento final. Esta sua atribuição ganha nova importância na conjuntura atual, uma vez que preservar os documentos públicos é ponto de partida essencial para garantir o acesso à informação, questão cobrada com reiterada veemência pela sociedade civil. Desta forma, o Arquivo Público é a instituição onde o cidadão pode buscar o acesso a informações de caráter histórico ou sobre sua própria pessoa, ou mesmo buscar mais informações sobre as ações desenvolvidas pelo Estado, colaborando no processo de controle público. 



 

            Ao completar 120 anos, o Arquivo Público passará a contar, pela primeira vez em sua história, com um edifício inteiramente projetado para a guarda de acervos, dentro dos mais modernos conceitos de segurança. Previsto para abrigar 60 km lineares de novos documentos, conta com uma estrutura capaz de suportar formidáveis 2.600kg por metro quadrado, com climatização, prevendo temperatura e umidade controladas. Com o novo espaço, será possível voltar a recolher acervos para guarda definitiva, que há muito se acumulam nas repartições públicas. Para tanto, o projeto das novas instalações inclui novos e ampliados laboratórios de acondicionamento, preservação, microfilmagem e digitalização de documentos. 



 

            A inauguração do novo edifício será, assim, um evento dotado de grande simbolismo: o Estado investindo R$ 84.700.000,00 na preservação da informação, facilitando enormemente seu acesso. Assim ampliado, o Arquivo Público avançará em seu já notável esforço para estabelecer parcerias com instituições que detenham acervo, expandindo a oferta de suporte técnico. Estarão dadas as condições, assim, para melhor atendermos as Universidades e a rede de ensino pública e privada, os 645 municípios paulistas, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e a Assembléia Legislativa.

 

            Em reportagem do jornal “O Estado de São Paulo”, dos dias 11 e 12 de março de 2012, são apontados problemas quanto ao andamento das obras no Arquivo Público do Estado de São Paulo, sobre os quais prestamos os seguintes esclarecimentos:

 

            
1. Atraso das obras

            As obras de construção do novo edifício do Arquivo Público do Estado de São Paulo tiveram início em dezembro de 2009 com previsão de término para dezembro de 2011.

O atraso no término das obras teve dois motivos: a) as fortes chuvas na etapa inicial da obra, em janeiro e fevereiro de 2010; b) e a transferência do “Jardim das Esculturas”, formado por 11 obras de arte, que estavam localizadas no pátio do edifício do Arquivo Público. Só a transferência das obras de arte, que hoje se encontram no Parque Ecológico do Tietê, levou três meses para ser concluída. O término das obras está previsto para o final do primeiro semestre desse ano. 



 

            2. Princípio de incêndio

            No dia 18 de fevereiro, sábado, às 18h45, ocorreu um princípio de incêndio no quarto andar, depósito 4C, provocado por um curto-circuito. O incidente atingiu um total de quatro estantes do acervo da instituição, que continham exemplares dos jornais Diário Oficial (do qual existe outra cópia) e Correio Paulistano (com cópia em microfilme). O princípio de incêndio foi logo contido por funcionários da área de segurança. 

De acordo com o diagnóstico da área de conservação do Arquivo Público, os danos ao acervo foram mínimos, restringindo-se às lombadas de 112 volumes do Diário Oficial e às bordas de 57 volumes do jornal Correio Paulistano. Nos dois casos, a documentação será integralmente recuperada e não haverá perda de informação. Na reportagem, afirma-se erroneamente que foram danificados “cadastros de famílias do acervo do Memorial do Imigrante” e “exemplares do extinto periódico O Paiz”. Nenhum documento do acervo do Memorial do Imigrante sofreu qualquer dano em decorrência do incidente. Os registros de imigrantes – fichas de estrangeiros e livros da hospedaria – estão em outros depósitos e as listas de bordo de navios, em outro prédio. Já os exemplares do jornal “O Paiz” estão guardados no depósito 1A, três andares abaixo do ocorrido.  Também é falsa a informação sobre um segundo foco de incêndio na instituição. 

Dessa maneira, o incidente felizmente não acarretou qualquer prejuízo à memória pública paulista. Mesmo assim, a direção do Arquivo Público do Estado de São Paulo abriu, à época, uma sindicância para apurar o caso. 



 

            3. Conservação do Acervo

            Por meio da equipe técnica do Centro de Preservação, formada por profissionais especializados nas áreas de conservação e restauro,  o Arquivo Público do Estado de São Paulo tem tomado os devidos cuidados com o seu acervo histórico desde o início das obras em suas instalações. A esse respeito, cabem os seguintes esclarecimentos.

 

        

            Sobre as imagens divulgadas: 


           

            a) a foto sob o título “Acervo Amontoado” mostra, na verdade, documentos em processo de embalagem provisória para transferência para o novo edifício. Cabe salientar que, no interior das caixas, a documentação está envolta em caixas polipropileno corrugado ou plástico-bolha, materiais neutros e condizentes com as normas de acondicionamento para acervos desta natureza. 


 

            b) a segunda imagem (“Solda”) mostra reformas estruturais nos corredores do Bloco D do edifício do Arquivo Público, atividade já suspensa até que os funcionários estejam realocados. 



 

            c) na foto “documentos à vista”, cabe salientar que esta documentação não se encontra no depósito 4C. Além disso, esta documentação está atualmente em tratamento técnico, em que a última etapa consiste no acondicionamento do acervo. 



 

            Cabem esclarecimentos também sobre a informação divulgada em relação à cobertura do acervo com lonas “sob a umidade das chuvas, ameaça de animais e de fungos ativos”. A cobertura do acervo com lonas foi uma medida tomada pelo Centro de Preservação para proteger a documentação da poeira provocada pelas reformas no edifício. Essa medida não afeta as condições de temperatura e umidade do ambiente e, portanto, não implica no aparecimento de fungos ou em qualquer outro dano ao acervo. Quanto à ameaça de animais, cabe ressaltar que o Arquivo Público do Estado de São Paulo passa por dedetizações periódicas, a cada três meses, em todas as suas dependências. Verificada a necessidade de novas dedetizações nesse intervalo, a empresa contratada pode ser chamada novamente pela instituição, o que tem sido feito nos casos de relatos de animais na área das obras. Cabe ressaltar que não foi relatada a presença de animais em áreas de guarda de acervo. A última dedetização feita nas instalações do Arquivo Público data de 3 de março de 2012, com garantia de seis meses, de acordo com a empresa (Desintec), prestadora do serviço. 


 

            4. Condições de trabalho dos funcionários.

            O Arquivo Público do Estado de São Paulo possui hoje trabalhando em suas instalações um total de 166 servidores públicos, 37 estagiários, 38 funcionários terceirizados (nas áreas de limpeza, segurança, manutenção e refeitório) e 22 funcionários da Associação de Amigos do Arquivo. 

No dia 2 de fevereiro de 2012, a direção do Arquivo Público recebeu uma carta assinada por 11 servidores do Centro de Acervo Permanente, que apontavam problemas no andamento dos trabalhos por conta de reformas estruturais nos corredores do  Bloco A, que estavam acontecendo no horário de trabalho.

 

            No dia 3 de fevereiro, foi convocada uma reunião com toda a equipe do Departamento de Preservação e Difusão do Acervo, que foi informada que as obras no Bloco citado seriam suspensas até que todos os funcionários e acervos sejam remanejados para outro local.

           

            Cabe esclarecer também que, no início da embalagem e transferência do acervo do atual Bloco D para o novo edifício, a direção da instituição pediu a colaboração voluntária de seus servidores para a realização desta atividade, numa tentativa de agilizar os trabalhos e contar com a expertise deles na execução dessa tarefa de manuseio. Parte dos funcionários aceitou a proposta, parte não. Neste momento, já havia sido contratada uma primeira empresa para transporte de um pequeno volume inicial de caixas.

           

            Contudo, verificou-se que esta proposta de trabalho voluntário não era a mais adequada e eficiente, e foi suspensa. No momento, encontra-se em processo de licitação a contratação de nova empresa, que realize a embalagem e transferência da totalidade do acervo, sob supervisão da equipe técnica do Centro de Preservação da instituição. Outras questões, envolvendo a falta de informações sobre a obra e a necessidade de um cronograma de trabalho, citadas na carta, foram esclarecidas na mesma reunião. 

5. Acidente de trabalho 
O Consórcio “Arquivo Novo” possui hoje um total de 250 funcionários trabalhando na reforma do Arquivo Público do Estado de São Paulo. No dia 21 de janeiro, um funcionário contratado pela empresa responsável pelas obras no Arquivo Público sofreu um acidente de trabalho.

 

            Ao contrário do que informa a reportagem do jornal O Estado de São Paulo, em 12 de março o funcionário não carregava “um grande volume de documentação histórica”, uma vez que este trabalho estava sendo realizado por uma empresa contratada para este serviço. 

O funcionário atuava como um dos operadores de grua, acionando o equipamento do térreo até o 3º andar. Isso porque, de acordo com o regulamento da construtora, apenas funcionários especializados podem operar a máquina. Diferentemente do que revela a mesma reportagem, o operador não caiu de uma altura equivalente ao 8º andar, uma vez que o pé direito-duplo nos andares tem início a partir do quarto andar do novo edifício. 
Após o acidente, o Consórcio “Arquivo Novo” tem tomado todas as medidas judiciais e trabalhistas cabíveis neste caso e prestado toda assistência necessária ao funcionário. 



 

            Em face do exposto, o Arquivo Público solicita a devida correção das informações publicadas.

 

            Carlos de Almeida Prado Bacellar

            Coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo”

O passado não passa

 

O final de semana, aqui em casa, foi de arrumações.

O quarto de minha filha, que era um quarto de criança, virou quarto de adolescente. Os livros infantis cederam lugar aos juvenis e aos mangás, que ela adora. Saíram brinquedos, roupas e um rebanho de bichos de pelúcia. Dinossauros e pollys, que povoaram dias e dias de brincadeira no chão, receberam nosso último olhar, agradecido.

No todo, quatro sacos grandes, abarrotados de objetos, agora esperam perto da porta da rua para seguir seu rumo e buscar outras crianças.

É surpreendente olhar o quarto depois da transformação. Embora os móveis sejam os mesmos, a nova distribuição sugere um espaço adulto.

Mais palpável ainda, embora menos concreta, é a sensação da passagem irreversível dos dias. Lia —é esse o nome dela— fará treze anos daqui a três meses. É uma menina nos gostos e nos gestos, e também uma moça. No umbral da adolescência, concilia vários tempos, várias idades e vidas. Despediu-se de tudo com menos hesitação do que eu. Segue a vida, com mais futuro que passado.

Por um instante, olhando seu envolvimento nas arrumações —ela, que reclama de qualquer atividade doméstica— lembrei da frase de William Faulkner: “o passado nunca passa”.

Pensei se Faulkner não estava errado; que o passado conseguia, sim, ultrapassar as barreiras que inventamos e partir.

Então me empolguei, ataquei meus armários e me desfiz de 60% das roupas que tinha. Malhas de meu primeiro passeio ao exterior, Buenos Aires em 89. Duas camisas compradas na primeira viagem a Paris, vinte anos atrás. Calças, casacos, camisetas, sapatos. Três malas grandes de roupas, também perto da porta, a caminho de outros corpos.

Satisfeito, aliviado, voltei para o quarto de Lia, que nessa altura acabava seu trabalho. Então a vi organizando suas orcas de brinquedo, quase vinte, que vão ficar. Vi os desenhos, firmes e de traço infantil, que ela colocara no mural.

Respirei um pouco mais forte, o olho encheu de água. E entendi que Faulkner estava certo: o passado nunca passa —em alguns casos, felizmente.

 

Daniel Piza

 

Dia trinta e um de dezembro de 2011, eu estava viajando quando, de repente, resolvi entrar no twitter e levei o pior susto do ano: Daniel Piza havia morrido.

 

Antes de ficar triste e inconformado —o que estou até hoje e dificilmente vai passar—, senti um profundo estupor.

 

Fazia muitos anos que lia sua coluna. Primeiro, na Gazeta Mercantil; depois, no Estado. De todas as leituras de jornal era provavelmente a que mais me agradava.

 

Quando seu excelente Questão de gosto foi publicado, em 2000, li com prazer incomum, concordei e discordei, celebrei sua existência.

 

Na contramão de tantos críticos, alguns respeitáveis e outros nem tanto, gostei bastante de sua biografia de Machado de Assis —Machado de Assis, um gênio brasileiro—, lançada em 2005.

 

Havia, em Daniel, algo incomum nos dias de hoje. Ele era um crítico com suficiente rigor e, ao mesmo tempo, sem os vícios e jargões acadêmicos. Conciliava, no seu texto, a densidade de uma boa análise e a fluidez de quem pretende ser lido por todos, de quem não deseja dialogar apenas com meia dúzia de gatos pingados.

 

Em 2003 ou 2004, escrevi a ele e perguntei se podia lhe enviar cópia de um livro que iria publicar. Ele permitiu. Consultei-o, depois da leitura, sobre a possibilidade de ele escrever a orelha. Sem jamais ter me encontrado, aceitou. Estava ali o sujeito que acredita nas pessoas por aquilo que escrevem, algo também raro.

 

De lá para cá, trocamos algumas mensagens, mas jamais o conheci pessoalmente. Não por falta de oportunidade. Certa vez, tomava café com um amigo comum, numa livraria, e, ao ver Daniel ao longe, ele se ofereceu para nos apresentar. Recusei.

 

Nos últimos dois anos, eu o encontrava semanalmente na porta da escola de teatro em que nossas filhas estudam —são colegas de turma e amigas. Nos cumprimentávamos cortesmente, pais unidos na tarefa prazerosa de cuidarmos de nossas meninas. Bicho do mato convicto, eu nunca disse meu nome ou me apresentei.

 

Quando li a notícia de sua morte, lamentei que não tivéssemos jamais conversado ao vivo. Mas isso não tinha mais importância. O pior acontecera. Todos havíamos perdido o jornalista sério, criterioso, dedicado, honesto.

 

Havíamos perdido um leitor de primeira e, meu Deus, como fará falta.

 

 

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para ler resenhas de livros de Daniel Piza publicadas em Paisagens da Crítica, clique nos títulos dos livros:

 

Machado de Assis, um gênio brasileiro

 

Contemporâneo de mim

 

E a orelha que ele escreveu para meu A leitura e seus lugares está aqui.