Gainsbourg, de Gilles Verlant

 

Gainsbourg daria um ótimo romance se o protagonista não fosse tão inverossímil e algumas de suas aventuras, improváveis. Acontece que Gainsbourg não é um romance; é biografia e os fatos que narra ocorreram.

 

Não uma biografia qualquer, diga-se de passagem; a mais completa biografia já feita sobre Lucien Ginsburg, dit Serge Gainsbourg, cantor, compositor, ator, pintor, arquiteto, cineasta, colecionador, personagem de si mesmo.

 

Gilles Verlant, o biógrafo, havia escrito outros livros sobre Gainsbourg, biografias provisórias, textos mais breves. Em 2000 compôs o panorama definitivo, resultado de centenas de entrevistas e de longa pesquisa, das várias vidas de Serge. Da infância judia sob o domínio nazista, marcada pela estrela amarela no peito, ao horror da própria imagem, da feiúra no espelho. Do aprendizado da pintura, do breve estudo de arquitetura, ao pianista de tantos bares, clubes e boates. Da agonia no palco à demora do sucesso. Do reconhecimento pela crítica à celebração pelo público. De suas primeiras mulheres a Brigitte Bardot. Do orgulho contido ao orgulho exposto. Da angústia à aparição decisiva de Jane Birkin. Do medo à arrogância. Da exposição do eu profundo à proliferação dos outros eus. Da vida à morte.

 

Duplos, triplos, quádruplos. Múltiplo: é esse o Serge que Verlant desenha. O sujeito que criou algumas das mais impressionantes canções do século XX e que considerava a música popular uma “arte menor”. O compositor de incontáveis trilhas sonoras para o cinema e diretor de alguns filmes que receberam o descaso do público e arrancaram elogios de Truffaut e Godard. O homem emparedado, enclausurado num mar de lembranças, de objetos antigos, de álcool e cigarro. O homem no mundo.

 

O leitor percorre as 1050 páginas do livro com furor, economiza a leitura para que elas não se esgotem, acompanha o livro com os discos, um a um, com as canções, com as imagens —cds, dvds e YouTube estão aí para isso. Tenta, assim, adiar a chegada do 2 de abril de 1991 —dia que, diz a lenda, nenhum francês esquece, nem esquece onde estava quando soube da morte de Serge.

 

E esse leitor que se divisa com o fã encontra, página a página, a poesia crua, que talvez esteja entre os principais registros literários franceses do XX, e um personagem envolvente, capaz de variar o registro musical e gravar reggae e funk muito antes de eles virarem moda para além dos mundos em que nasceram. Ou de provocar insistentes turbulências e protestos pela misoginia exposta à luz do dia ou pela reinvenção —tradução?— do hino nacional francês e de uma relação tão peculiar quanto intensa entre o público e o privado.

 

Em Gainsbourg, as anedotas não têm fim, os eventos surpreendentes se sucedem, a maravilha —mundo de ponta cabeça— e a aflição do leitor diante dos bons e maus delírios de Serge prevalecem. Mas nada se compara à percepção da profundidade e da densidade de uma obra sem igual, do manejo do que ele supunha ser arte menor para construir uma interpretação do mundo em vertigem, dos rodopios, giros em falso, às vezes em êxtase, da modernidade.

 

Leia.

 

Não apenas para saber da vida de Serge Gainsbourg. Também para compreender a vida —com e sem mistificação.

 

 

Gilles Verlant. Gainsbourg. Paris: Albin Michel, 2000.

 

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