Milamor, de Livia Garcia-Roza

Milamor  relata uma internação por alegria e uma separação por paixão. Milamor  tenta expor o ponto de loucura de cada um: aquele que, vez ou outra, se manifesta e surpreende, embora fosse previsível. Milamor  é um romance sensível e denso, que prende o leitor desde o início e faz com que vivamos, passo a passo, a trajetória de Maria, a protagonista-narradora.

 

Maria está às portas dos sessenta anos. Sua vida é aborrecida, vazia. Mora com a filha desde a morte do segundo marido. As duas quase não conversam, nem se encontram. Maria está afastada do filho por conta de uma nora desagradável. Maria relembra o primeiro marido, sumido, que a abandonou sozinha com as duas crianças pequenas, tanto tempo antes. Maria pensa no segundo marido, morto, como uma tábua de salvação, sábio e insípido. Maria lembra de seu passado mais distante, da mãe morta, do pai morto.

 

Maria está, na prática, saudosa de si mesma, de uma vida que se esvaiu, em meio a mortes e à dificuldade de esquecer. Uma vida cujo vértice talvez esteja num nome, Milamor – antiga vizinha, única amiga da infância, que um dia se foi, inesperadamente. Como o primeiro marido, como a mãe e o pai, como o segundo marido. Ou seus filhos, vivos e distantes. Vivos e mortos, de resto, não se distinguem no precário mundo de Maria, que, ao contrário da personagem de Cecilia Meirelles, não sorria.

 

Mas, se de tudo fica um pouco, em Maria ficou uma vontade renitente de retornar e de enterrar seus mortos. O romance de Livia Garcia-Roza mostra sua epopéia.

 

E, se o Brasil tivesse uma crítica literária mais plural, menos acadêmica e repleta de clubinhos e amizades, Livia Garcia-Roza seria, já há tempos, reconhecida como nossa melhor autora desde Clarice Lispector. Sua prosa é fina e intensa. Escreve com fluidez e sabe achar o tom exato de cada registro, descobrindo o verossímil e o comum. Desmonta personagens e os reinventa. Percebe e explora a simultaneidade dos tempos, sempre definidos pela força da memória. Destrincha cenários e situações para encontrar impasses e possibilidades. Às vezes, encontra alegrias; às vezes, ratos. Ecoa Natalia Ginzburg com seus ambientes fechados e pessoas que vivem turbulências íntimas, mas nem por isso menores.

 

As narradoras de Livia Garcia-Roza repetem frases, medos e flutuam pela imaginação repleta de cenas passadas. Com Maria não é diferente. Ela já sabe das imperfeições nas relações e tem que pleitear um futuro para si mesma. Futuro que talvez irradie em seus filhos. Futuro que recupere a figura de Milamor e um tempo que não devia ter acabado. Futuro que deriva do trabalho da memória.

 

Nesse futuro substantivo e feminino, a alegria e a paixão, mesmo quando parecem subversivas, têm lugar. E a loucura, afinal, é – sempre – a da narração; loucura necessária para se traduzir em experiência vivida.

 

Livia Garcia-Roza. Milamor.  Rio de Janeiro: Record, 2008

 

 

Paisagens da Crítica publicou comentário sobre outro livro de Livia Garcia-Roza: Meus queridos estranhos (4 de fevereiro de 2007). Está no endereço antigo e é acessível pelo link http://paisagensdacritica.zip.net/arch2007-02-04_2007-02-10.html

Anúncios