Telecom & Jabuti

 

E os resultados dos principais prêmios literários continuam aparecendo.

 

O Jabuti já havia divulgado os vencedores das várias categorias. Ontem, na cerimônia de premiação, saíram os vitoriosos do Livro do Ano de Ficção e do Livro do Ano de Não-Ficção.

 

Ignácio de Loyola Brandão venceu com um livro infantil de ficção: O Menino que Vendia Palavras. Laurentino Gomes, com a não-ficção 1808.

 

O prêmio para Loyola me surpreendeu. Loyola foi importante na prosa brasileira dos anos 1970 e muito influente nas gerações posteriores de escritores. Seu livro infantil não é ruim, mas é inferior, inclusive, a muitos outros livros infantis publicados no ano passado.

 

Já o prêmio para Laurentino Gomes era esperado. Não que o livro seja bom. Tem problemas historiográficos e de texto. Mas foi um grande sucesso de mercado. E certamente foi lido pela maioria dos votantes.

 

Porque os “livros do ano” do Jabuti têm um colégio de eleitores bem mais amplo e diversificado do que os das categorias, restritas a três nomes de cada área. E, obviamente, nem todos os eleitores dos “livros do ano” leram todos os títulos concorrentes. Natural, portanto, que aqueles que tiveram mais destaque sejam privilegiados na votação.

 

Para quem eu torcia? Para Cristovão Tezza, na ficção, e Leda Tenório da Motta, na não-ficção.

 

Tezza, aliás, venceu o Portugal Telecom, cujos ganhadores foram conhecidos na quarta. Beatriz Bracher e António Lobo Antunes dividiram o segundo lugar e Bernardo Carvalho ficou em terceiro.

 

Fora pela presença de Lobo Antunes, o Telecom repetiu os nomes e a ordem do Jabuti de melhor romance.

 

Agora só falta um grande prêmio – o maior de todos em dinheiro. O Prêmio São Paulo de Literatura sai no fim de novembro. Os favoritos? Tezza, Beatriz Bracher e Bernardo Carvalho. O ano é merecidamente deles, salvo por uma surpresa ou outra.

 

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O conto da ilha desconhecida, de José Saramago

O conto da ilha desconhecida, já diz o nome, é um conto em forma de livro.

 

O leitor percebe, de saída, a mão de José Saramago, a mão das preocupações sociais repetidas, a das denúncias do isolamento do poder, a da conclamação à ação dos homens. A mão que foi incisiva em Levantado do chão e no Memorial do Convento. A mão ácida e desconsolada de O Evangelho segundo Jesus Cristo e do Ensaio sobre a cegueira.

 

Também é fácil notar o fluxo de sentenças separadas por vírgulas, a combinar diálogos, entrecortar intervenções do narrador e dos personagens. A voz e a dicção migrantes de Saramago, já há algum tempo a serviço de inquietações mais filosóficas do que literárias.

 

Certo é que não se encontra, nesse conto, o vigor dos romances. O autor do vertiginoso O ano da morte de Ricardo Reis tenta adequar sua estratégia narrativa à forma breve, mas, sedento de transmitir uma mensagem, acaba por deixar as linhas de construção muito aparentes.

 

O conto, como todo conto, combina duas histórias. A primeira, explícita, de um sujeito que pede um barco ao rei para buscar uma ilha desconhecida. A segunda, do precário conhecimento de si mesmo que todos os personagens revelam. A primeira segue linear: da pressão sobre o rei à obtenção do barco e ao contato com a mulher que pode acompanhá-lo na viagem. A segunda é instável e depende de tudo que dizem ao homem para dissuadi-lo da empreitada, para convencê-lo de que, nos dias atuais, não há mais ilhas desconhecidas.Teimoso, o homem persiste e, em cima de um barco e ao lado de uma mulher, dispõe-se a navegar pelo mar ainda mais tenebroso do que o dos antepassados.

 

É tão forte, porém, a presença da narrativa subterrânea (a segunda: aquela que só deveria vir à tona no fim, e olhe lá) que a aparente (isto é, a primeira) sucumbe, presa da irrealidade do desejo do homem. Fragilidade estrutural? Não: Saramago pretende exatamente isso, que o leitor não demore a entender sua metáfora da alienação do homem em seu sonho ensandecido de repetir o passado. E que, também de súbito, enxergue a clarividência do contato com o outro, uma mulher, como o fio que lhe permite reconhecer o objetivo verdadeiro de sua procura, aquilo que o faz afrontar o rei, seus pospostos e insistir numa busca que todos supõem equívoca.

 

Ao simplificar exageradamente a estrutura do conto e expor, novamente, seu furor militante e sua disposição denunciadora, Saramago o inscreve na lógica fabular e o associa, funcionalmente, a um discurso político. Dessa forma, O conto da ilha desconhecida se torna apenas uma metáfora. Bonita ou não, apenas uma metáfora; metáfora capaz de combinar tempos e histórias para expor um presente que é simultaneamente desagradável e passível de transformação. Desde que persistamos, ensina o português, em nossas sandices e saibamos identificar como elas espelham – melhor talvez do que o mar salgado – a nós mesmos e aos outros.

 

José Saramago. O conto da ilha desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (original: 1998)