O sorriso de Angélica, de Andrea Camilleri

 

O sorriso de Angélica prossegue a saga do comissário Montalbano. É sua décima-sétima aventura.

Por um lado, não traz as surpresas e o caráter ligeiramente experimental de A caça ao tesouro, o que pode decepcionar o leitor que esperava alguma continuidade. Por outro, mantém a qualidade da série e sua preocupação de acompanhar os personagens e fazê-los amadurecer e mudar aos olhos do leitor.

O título obviamente evoca o mistério contido no sorriso da Gioconda, reencontrado no rosto de uma das vítimas da série de furtos que abalam Vigàta. E, menos obviamente para o leitor brasileiro, evoca também a personagem de Orlando Furioso, fabuloso relato poético de Ludovico Ariosto. Através da Angélica do título — nome e face —, Montalbano ainda relembra as gravuras que Gustave Doré fez para o livro de Ariosto e que constavam da edição que leu na juventude.

Enxerga, assim, várias mulheres numa só: a Gioconda incerta e inacessível, a dupla Angélica do Orlando Furioso por Doré, apaixonante e ocasional traidora.

Outra mulher surge quase periférica à trama: Livia, namorada desde sempre. E há ainda uma quarta presença feminina, Ingrid, amiga do policial e parceira em tantas histórias.

Tantas mulheres e todas ambíguas. Livia é a companheira fixa, desde o primeiro livro de Montalbano, mas vive distante na geografia e, aparentemente, também no pensamento. Ingrid continua a provocá-lo e ele persiste sem tocá-la. Angélica é um território selvagem, promissor e perigoso.

Os homens que cercam Montalbano parecem igualmente hesitar: Mimì Augello, seu vice, o decepciona; Fazio, assistente sempre fiel, não pode ser, nesse momento, o confidente de suas angústias; Catarella, atabalhoado funcionário do comissariado, cheio de certezas e medos, é a hesitação em forma humana.

Entre tanta incerteza, Montalbano percorre a trilha dos roubos, é desafiado pelo criminoso, tenta controlar o óbvio fascínio por Angélica.

Para o leitor, o defecho da história parece óbvio desde o princípio, e resta torcer para que ele não se cumpra: o temor, no caso, vem principalmente pela vontade de que Camilleri não embarque no mais óbvio clichê das narrativas policiais.

No conjunto, ele consegue escapar — e, claro, não direi aqui como é o final do livro. Consegue sobretudo porque seu personagem principal pode viver seguidas angústias provocadas pela sensação de envelhecimento, mas é literariamente sólido e ancora com alguma facilidade as tramas. Pelo menos foi assim nas dezessete primeiras; aguardemos as próximas.

Andrea CamilleriIl sorriso di Angelica. Palermo: Sellerio, 2010

Nota: o livro deve demorar para ser traduzido no Brasil. Se a sequência da série for respeitada, ainda há outros seis livros, anteriores a este, a serem publicados aqui.

Paisagens da Crítica comentou outros quatorze livros de Andrea Camilleri. Clique no nome do livro para ler:

– A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

– O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

– As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

– A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

– A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

– Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

– O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

– As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

– O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

– O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

– A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

– O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

– Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010.


A caça ao tesouro, de Andrea Camilleri

 

A caça ao tesouro talvez traga a cena mais violenta que Andrea Camilleri já escreveu. Ela é antecipada aqui e ali por interferências do narrador, mas mesmo assim a brutalidade do crime revelado surpreende leitores e personagens do livro — inclusive, o próprio Comissário Montalbano.

 

Isso não significa, porém, que a décima-sexta aventura de Montalbano represente uma mudança de rota ou alguma variação forte do estilo de Camilleri.

 

Ao contrário, todos os elementos habituados da série estão lá: o humor, a autocrítica do protagonista, sua inquietação frente ao envelhecimento, as peculiaridades e idiossincrasias de seus colegas de comissariado, a vida que corre silenciosamente tensa em Vigàta, as eternas discussões telefônicas com a namorada lígure.

 

Também as principais referências da construção narrativa de Camilleri são claras, sobretudo a contínua inspiração de sua ficção na crônica policial algo insólita — no caso, a descoberta de duas bonecas infláveis, idênticas e parcialmente destruídas, em pontos distantes da cidade.

 

A caça ao tesouro, no entanto, leva outro ponto-chave da obra de Camilleri ao extremo: o diálogo com outras obras e outros autores. Nada acintoso, carregado ou marcado pelo exibicionismo que as citações cifradas costumam carregar.

 

É principalmente em Edgar Allan Poe que o leitor pensa conforme percorre as páginas do livro. Há pelo menos três marcas poeana com que o autor siciliano joga e, por meio delas, constrói sua história.

 

A primeira, e mais explícita, é a associação do policial a um conjunto de jogos de raciocínio, ao duelo intelectual entre assassino e detetive — que transparece na brincadeira que intitula a obra, mantém o leitor na expectativa de que seja mais grave do que parece e lentamente ganha relevância até assumir o centro da trama.

 

A segunda característica poeana ajuda a explicar a erupção da violência mencionada no início desse comentário: é de Poe que Camilleri extrai a transição segura do policial para a literatura de horror, indiferenciando o que a crítica e os leitores preferiram considerar dois gêneros, ou subgêneros, distintos.

 

Se a algum leitor escapar, no início do livro, a origem da mistura policial/horror que Montalbano enfrenta, o desfecho esclarece: é o universo intelectual do século XIX, o mesmo de onde Poe extraiu parte importante de sua imaginação literária. O XIX, suas apostas científicas e seus riscos; o XIX pressagiado por Frankenstein e sintetizado por Mr. Hyde.

 

Por esta terceira via, Poe se afirma como a sombra mais persistente sobre A caça do tesouro e ajuda a entender a nova experimentação de Camilleri. O resultado, claro, é excelente: uma história de Montalbano como não aparecia há tempos, com o personagem em pleno vigor e o autor, inquieto na juventude dos 85 anos, impressionando os leitores.

 

Andrea Camilleri. La caccia al tesoro. Palermo: Sellerio, 2010

 

Nota: La caccia al tesoro deve demorar um pouco para ser traduzido no Brasil. Se a sequência da série for respeitada, ainda há outros seis livros, anteriores a este, a serem publicados aqui.

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros treze livros de Andrea Camilleri. Clique no nome do livro para ler:

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009.


 

 

As perfeições provisórias, de Gianrico Carofiglio

 

As perfeições provisórias foi uma descoberta feliz e totalmente casual. Olhava, pela enésima vez, as prateleiras de livros italianos na Livraria Cultura e dava especial atenção, como de hábito, às publicações da editora Sellerio, de Palermo.

 

Bati o olho no livro de Gianrico Carofiglio, vi rapidamente sua biografia, descobri que era de Bari, na Puglia, onde atua como juiz, e que Le perfezione provvisorie era a quarta aventura de Guido Guerrieri. Li duas ou três páginas e comprei.

 

Guerrieri é advogado e, entre uma audiência e outra, se envolve em investigações criminais. Detetive amador, hesita em aceitar um caso, navega aqui e ali na busca de pistas, tende a se considerar vencido e, finalmente, decifra o mistério.

 

Fiel à tradição hegemônica entre as narrativas policiais italianas, As perfeições provisórias explora as peculiaridades da região, insinua, sem assumir, a interferência da máfia, recusa a matriz do policial hard-boiled norte-americano. Ou seja, a reflexão prevalece e as cenas de ação são quase inexistentes.

 

Na prática, a trama do livro é mínima. Guerrieri é procurado pelos pais de uma moça de vinte e poucos anos. Ela desapareceu, a investigação policial foi inconclusiva, o caso está para ser arquivado. Eles pretendem que ele busque alguma informação capaz de impedir o arquivamento, impulsionar novas pesquisas e, sobretudo, lhes dar alguma esperança.

 

O advogado investiga um tanto aleatoriamente, tenta explorar indícios quase imperceptíveis, parece distante de qualquer solução. Cerca de dois terços das 336 páginas do romance são tomadas pelas incertezas e balanços existenciais do detetive. Sua vida inteira ressurge, proustianamente, pelas frestas da memória. Seu presente, quase oco de emoções, repete o passado de incertezas e reitera a autoimagem de uma vida gauche.

 

Citações de filósofos, historiadores e romancistas pontuam seu esforço nostálgico e movem sua investigação contorcionista. O desfecho e a revelação da verdade acerca do desaparecimento da moça não surpreendem o leitor, mas isso importa pouco.

 

O que surpreende é a capacidade de Gianrico Carofiglio utilizar o suporte tão maltratado e banalizado das histórias policiais para construir personagens sólidos — pelo menos quatro, nessa história — e desenvolver uma trama consistente.

 

É longa a lista de casos literário-policiais que se resolveram pelo acaso. Bem mais limitada é a relação dos autores de livros policiais capazes de aparecer do nada para um leitor escaldado e mostrar que há mais vida inteligente na área do que normalmente se supõe.

 

Em vários momentos da leitura de As perfeições provisórias, quis ligar para a meia dúzia de editores que conheço e propor enfaticamente sua tradução e edição no Brasil. Não fiz, mas obviamente encomendei os demais livros de Carofiglio e os lerei com prazer — aquele prazer de sentir-se entretido e, ao mesmo tempo, desafiado; esta, talvez a razão principal da ficção.

 

 

Gianrico Carofiglio. Le perfezioni provvisorie. Palermo: Sellerio, 2010

 

 

Um sábado, com os amigos, de Andrea Camilleri

Um sábado, com os amigos é o mais triste, amargo e duro romance de Andrea Camilleri.

São seis amigos. Colegas antigos de escola que se tornaram bem sucedidos profissionalmente. Recombinaram, entre eles, os casais, mas mantiveram a proximidade.

Suas histórias pessoais e conjugais são narradas brevemente, do segundo ao décimo capítulo do livro, e com lacunas intencionais, enquanto convergem para o habitual jantar que os reúne todo sábado à noite. Chegam ao dia movidos por angústias que só o leitor conhece, porque as acompanhou nas vozes indiretas da narração indireta livre das páginas anteriores.

Recebem um sétimo personagem, que se esgueirou nas frestas da amizade dos seis. Também antigo colega, há muito afastado dos outros.

O jantar, a trama se define e de lá ninguém sai ileso. Uns porque realizam suas fantasias terríveis; outros porque se comprazem de jogos diabólicos. Não há inocentes (e poderia haver?), nem quem se salve (não, não poderia haver).

O décimo-primeiro capítulo, e último, retoma pequenas histórias de infância, iniciadas no primeiro, quando seus personagens não foram nomeados. Lá estão nossos sete amigos e a explicação, algo psicologizante e nada esquemática, de seus dilemas.

Um sábado, com os amigos é o único livro de Camilleri, até onde lembro, em que não há concessão ao riso ou à brincadeira. Nem em seu relato sobre a Máfia, pela figura de Bernardo Provenzano, a crueza veio tanto à flor da pele.

É seu diagnóstico triste e agônico, escrito aos 85 anos, de que o menino é pai do homem.

Andrea Camilleri. Un sabato, con gli amici. Milão: Mondadori, 2009


Paisagens da Crítica comentou, entre o endereço velho e no novo, outros doze livros de Andrea Camilleri. Clique no link do nome do livro se quiser ler os comentários:


O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006


O guizo, de Andrea Camilleri

O guizo – Il sonaglio – completa a trilogia da metamorfose, que Andrea Camilleri iniciou em 2007, com Maruzza Musumecci, e prosseguiu com O guarda-cancela, de 2008.

O próprio Camilleri define o trio como sua melhor produção ficcional. De fato, já faz algum tempo que seus romances históricos superam as aventuras do Comissário Salvo Montalbano. E é no fio da história que Camilleri situa suas fantasias.

Em O guizo, acompanhamos a trajetória de Giurlà, jovem filho de pescador, que vive do mar e dele tira tudo – inclusive seu prazer de imergir na solidão.

A roda da vida, porém, o leva a viver na montanha, também isolado, e pastorear cabras. Após o início em desatino, Giurlà aprende as cores, as luzes e os sons do novo mundo. Descobre também a desonestidade e resiste a ela. Apaixona-se pelo silêncio do campo e conhece Beba, uma cabra que lhe faz companhia o tempo todo.

Da amizade ao amor, o tempo passa rápido. Do amor à convivência, ao sexo e à rotina de casados, mais rápido ainda. Beba se humaniza um pouco, Giurlà, mais do que zoófilo, inicia a metamorfose em caprino.

Mas a surpresa espreita e vem sob a forma feminina – e humana – de Anita, filha do Marquês que é dono de tudo no lugar e patrão de Giurlà.

Anita e Beba se tornam íntimas e – supõe Giurlà – confidentes. Os cheiros se misturam, os jeitos se combinam. O futuro de todos, porém, só se desenha após uma ocorrência trágica – tema já explorado nos dois livros anteriores.

E o desfecho, fica sabendo o leitor, mostra outras faces da metamorfose – não a de Giurlà, nem de Beba ou Anita. A quotidiana, por que todos passamos, sem fantasia. Não há, afinal, no seu mundo, leitor, ou no meu, qualquer traço de sereia – como Maruzza. Não há personagens estranhos – como os de O guarda-cancela. E sequer zooantropomorfismo, como n’O guizo.

Há, no entanto, a disposição de mudar, a inevitabilidade de mudar. A ânsia, que não é fantástica, mas histórica, de acompanhar o tempo e suas vontades. Não para virar insetos medonhos. Apenas para continuar. Diria Espinosa: prosseguir no ser.

Andrea Camilleri. Il sonaglio. Palermo: Sellerio, 2009 

Paisagens da Crítica comentou, no endereço velho e no novo, outros onze livros de Andrea Camilleri. Clique no link no nome do livro se quiser ler os comentários:

 

A idade da dúvida  (L’età del dubbio), em 22.04.2009

O guarda-cancela  (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza  (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor  (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro  (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol  (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto  (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva  (La pensione Eva), em 24.3.2006

A idade da dúvida, de Andrea Camilleri

 

A idade da dúvida – L’età del dubbio – veio matar a saudade das aventuras do Comissário Salvo Montalbano.

 

Montalbano é o personagem mais famoso da atual ficção policial italiana. E ele começou sua carreira literária meio por acaso. Seu autor, Andrea Camilleri, o criou para que fosse apenas o protagonista de A forma da água, em 1994. Deu certo e prosseguiu.

 

De lá para cá foram 14 romances, mais de cinqüenta contos e uma dúzia de novelas. Algumas histórias viraram filme e a maioria delas foi traduzida para outras línguas. A cada lançamento, expectativa grande dos leitores e tiragens cada vez maiores. No Brasil, já foram publicados os sete primeiros romances e o nono – pularam o oitavo, sabe lá Deus por que.

 

Montalbano envelhece a cada história e a velhice bate. No umbral dos 60 (está com 58), vive a idade da dúvida do título. Tudo parece fora do prumo, e dessa vez não é a Itália berlusconiana que o abala. São seus dilemas íntimos. À semelhança dos volumes anteriores, o namoro com Livia, sua eterna namorada genovesa, é apenas um retrato na parede, cada vez mais apagado. A descrença na instituição policial é alimentada pela burocracia e incompetência galopantes.

 

No entanto, quanto mais envelhece, mais Montalbano volta à adolescência. Apaixona-se e fica paralisado, sem saber o que fazer. Oscila diante das decisões a serem tomadas e se afunda em longos e inférteis pensamentos. Conta pequenas e desnecessárias mentiras que rapidamente o colocam em situações difíceis. Continua a agir infantilmente e a deixar um ou outro sonho abalá-lo.

 

Chega a cansar o leitor com longos diálogos consigo mesmo e demoradas e repetidas descrições de estados de alma. Mais do que nunca, suas investigações são movidas pelo humor instável. O apetite – sua marca registrada – também sobe e desce em função das incertezas pessoais. Nas melhores horas, come quantidades industriais de trilhas e lulas fritas; nos maus momentos é capaz de esquecer no forno uma fabulosa massa recheada.

 

Em meio a tantas dúvidas, Montalbano perde o humor. Seu personagem provoca raros risos no leitor, que passa a depender de outros personagens (Mimì Augello ou o impagável Catarella) para perceber que, em Camilleri, o policial se divisa com o risível.

 

Só sua capacidade investigativa se mantém igual, e ele desbarata um intrincadíssimo caso, que ultrapassa as fronteiras de Vigatà. Mas perde a empatia com o leitor. Tomara a recobre no próximo volume.

 

Andrea Camilleri. L’età del dubbio. Palermo: Sellerio, 2008

 

Paisagens da Crítica comentou, entre o endereço velho e no novo, outros dez livros de Andrea Camilleri. Clique no link do nome do livro se quiser ler os comentários:

 

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006

 

Luisito, de Susanna Tamaro

 

Luisito nem é um grande livro, mas confirma a incrível capacidade da literatura italiana de produzir personagens femininas inesquecíveis.

 

O livro de Susanna Tamaro é breve e sua estrutura, praticamente de conto. No entanto, Anselma, a protagonista, envolve pouco a pouco o leitor, transfere suas aflições, emociona e desconforta.

 

Certamente foi a obra fabulosa de Natalia Ginzburg, maior ficcionista italiana do XX, que criou essa legião de mulheres que impressionam. Mulheres que Natalia esculpia com detalhes agônicos e que viviam em espaços restritos – na geografia e nas emoções. Mulheres que se esqueciam de si até o dia em que se davam conta de que a vida correra, se aproximava do fim e ainda lhes faltava agir.  

 

Tamaro não é Natalia – ninguém é – mas apresenta uma Anselma meio esquecida pelos filhos, viúva de um homem que por poucos anos a iludiu e, durante muitos, a decepcionou. Anselma, que prefere mesmo ter os filhos (com respectivos cônjuges, e os netos) à distância, uma vez que não há conversa, não há conexão possível com eles – “clones”, pensa, do pai.

 

Anselma, que perdeu a melhor amiga, a inesquecível companheira da infância e da juventude, vítima de câncer. E que se ressente de ter se afastado dela após o casamento. Anselma.

 

Eis que um dia, ela encontra um papagaio abandonado no lixo. Leva para casa, o batiza como Luisito, e sua vida muda. Afeto, percebe, pode vir com penas, bico pontudo, algumas palavras repetidas e um contínuo krak, krak. Daí o subtítulo do livro: uma história de amor.

 

Apenas uma semana de convívio com Luisito a transforma. Faz Anselma rever o passado, contar para si mesma as armadilhas em que caiu, pensar quão intensa foi sua relação com a antiga amiga, buscar pessoas queridas há tanto tempo afastadas.

 

O mundo pérfido, porém, a espreita e o desfecho do amor e da vivacidade que ela reinventa através de Luisito pode não ser bom. Não importa. Protagonista típica de uma das melhores literaturas do XX – infelizmente pouco conhecida nesse Brasil francófilo –, Anselma concentra uma vida inteira, mas de setenta anos, no imenso moinho das recordações. Ama Luisito também porque isso significa voltar a amar, poder amar.

 

E o leitor fica a se olhar, e a olhar os outros, no espelho da vida de Anselma, no seu mundo tão pequeno, ampliado por uma ave. Ampliado por ela mesma.

 

Susanna Tamaro. Luisito. Rio de Janeiro: Rocco, 2009