Um sábado, com os amigos, de Andrea Camilleri

Um sábado, com os amigos é o mais triste, amargo e duro romance de Andrea Camilleri.

São seis amigos. Colegas antigos de escola que se tornaram bem sucedidos profissionalmente. Recombinaram, entre eles, os casais, mas mantiveram a proximidade.

Suas histórias pessoais e conjugais são narradas brevemente, do segundo ao décimo capítulo do livro, e com lacunas intencionais, enquanto convergem para o habitual jantar que os reúne todo sábado à noite. Chegam ao dia movidos por angústias que só o leitor conhece, porque as acompanhou nas vozes indiretas da narração indireta livre das páginas anteriores.

Recebem um sétimo personagem, que se esgueirou nas frestas da amizade dos seis. Também antigo colega, há muito afastado dos outros.

O jantar, a trama se define e de lá ninguém sai ileso. Uns porque realizam suas fantasias terríveis; outros porque se comprazem de jogos diabólicos. Não há inocentes (e poderia haver?), nem quem se salve (não, não poderia haver).

O décimo-primeiro capítulo, e último, retoma pequenas histórias de infância, iniciadas no primeiro, quando seus personagens não foram nomeados. Lá estão nossos sete amigos e a explicação, algo psicologizante e nada esquemática, de seus dilemas.

Um sábado, com os amigos é o único livro de Camilleri, até onde lembro, em que não há concessão ao riso ou à brincadeira. Nem em seu relato sobre a Máfia, pela figura de Bernardo Provenzano, a crueza veio tanto à flor da pele.

É seu diagnóstico triste e agônico, escrito aos 85 anos, de que o menino é pai do homem.

Andrea Camilleri. Un sabato, con gli amici. Milão: Mondadori, 2009


Paisagens da Crítica comentou, entre o endereço velho e no novo, outros doze livros de Andrea Camilleri. Clique no link do nome do livro se quiser ler os comentários:


O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006


O guizo, de Andrea Camilleri

O guizo – Il sonaglio – completa a trilogia da metamorfose, que Andrea Camilleri iniciou em 2007, com Maruzza Musumecci, e prosseguiu com O guarda-cancela, de 2008.

O próprio Camilleri define o trio como sua melhor produção ficcional. De fato, já faz algum tempo que seus romances históricos superam as aventuras do Comissário Salvo Montalbano. E é no fio da história que Camilleri situa suas fantasias.

Em O guizo, acompanhamos a trajetória de Giurlà, jovem filho de pescador, que vive do mar e dele tira tudo – inclusive seu prazer de imergir na solidão.

A roda da vida, porém, o leva a viver na montanha, também isolado, e pastorear cabras. Após o início em desatino, Giurlà aprende as cores, as luzes e os sons do novo mundo. Descobre também a desonestidade e resiste a ela. Apaixona-se pelo silêncio do campo e conhece Beba, uma cabra que lhe faz companhia o tempo todo.

Da amizade ao amor, o tempo passa rápido. Do amor à convivência, ao sexo e à rotina de casados, mais rápido ainda. Beba se humaniza um pouco, Giurlà, mais do que zoófilo, inicia a metamorfose em caprino.

Mas a surpresa espreita e vem sob a forma feminina – e humana – de Anita, filha do Marquês que é dono de tudo no lugar e patrão de Giurlà.

Anita e Beba se tornam íntimas e – supõe Giurlà – confidentes. Os cheiros se misturam, os jeitos se combinam. O futuro de todos, porém, só se desenha após uma ocorrência trágica – tema já explorado nos dois livros anteriores.

E o desfecho, fica sabendo o leitor, mostra outras faces da metamorfose – não a de Giurlà, nem de Beba ou Anita. A quotidiana, por que todos passamos, sem fantasia. Não há, afinal, no seu mundo, leitor, ou no meu, qualquer traço de sereia – como Maruzza. Não há personagens estranhos – como os de O guarda-cancela. E sequer zooantropomorfismo, como n’O guizo.

Há, no entanto, a disposição de mudar, a inevitabilidade de mudar. A ânsia, que não é fantástica, mas histórica, de acompanhar o tempo e suas vontades. Não para virar insetos medonhos. Apenas para continuar. Diria Espinosa: prosseguir no ser.

Andrea Camilleri. Il sonaglio. Palermo: Sellerio, 2009 

Paisagens da Crítica comentou, no endereço velho e no novo, outros onze livros de Andrea Camilleri. Clique no link no nome do livro se quiser ler os comentários:

 

A idade da dúvida  (L’età del dubbio), em 22.04.2009

O guarda-cancela  (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza  (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor  (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro  (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol  (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto  (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva  (La pensione Eva), em 24.3.2006

A idade da dúvida, de Andrea Camilleri

 

A idade da dúvida – L’età del dubbio – veio matar a saudade das aventuras do Comissário Salvo Montalbano.

 

Montalbano é o personagem mais famoso da atual ficção policial italiana. E ele começou sua carreira literária meio por acaso. Seu autor, Andrea Camilleri, o criou para que fosse apenas o protagonista de A forma da água, em 1994. Deu certo e prosseguiu.

 

De lá para cá foram 14 romances, mais de cinqüenta contos e uma dúzia de novelas. Algumas histórias viraram filme e a maioria delas foi traduzida para outras línguas. A cada lançamento, expectativa grande dos leitores e tiragens cada vez maiores. No Brasil, já foram publicados os sete primeiros romances e o nono – pularam o oitavo, sabe lá Deus por que.

 

Montalbano envelhece a cada história e a velhice bate. No umbral dos 60 (está com 58), vive a idade da dúvida do título. Tudo parece fora do prumo, e dessa vez não é a Itália berlusconiana que o abala. São seus dilemas íntimos. À semelhança dos volumes anteriores, o namoro com Livia, sua eterna namorada genovesa, é apenas um retrato na parede, cada vez mais apagado. A descrença na instituição policial é alimentada pela burocracia e incompetência galopantes.

 

No entanto, quanto mais envelhece, mais Montalbano volta à adolescência. Apaixona-se e fica paralisado, sem saber o que fazer. Oscila diante das decisões a serem tomadas e se afunda em longos e inférteis pensamentos. Conta pequenas e desnecessárias mentiras que rapidamente o colocam em situações difíceis. Continua a agir infantilmente e a deixar um ou outro sonho abalá-lo.

 

Chega a cansar o leitor com longos diálogos consigo mesmo e demoradas e repetidas descrições de estados de alma. Mais do que nunca, suas investigações são movidas pelo humor instável. O apetite – sua marca registrada – também sobe e desce em função das incertezas pessoais. Nas melhores horas, come quantidades industriais de trilhas e lulas fritas; nos maus momentos é capaz de esquecer no forno uma fabulosa massa recheada.

 

Em meio a tantas dúvidas, Montalbano perde o humor. Seu personagem provoca raros risos no leitor, que passa a depender de outros personagens (Mimì Augello ou o impagável Catarella) para perceber que, em Camilleri, o policial se divisa com o risível.

 

Só sua capacidade investigativa se mantém igual, e ele desbarata um intrincadíssimo caso, que ultrapassa as fronteiras de Vigatà. Mas perde a empatia com o leitor. Tomara a recobre no próximo volume.

 

Andrea Camilleri. L’età del dubbio. Palermo: Sellerio, 2008

 

Paisagens da Crítica comentou, entre o endereço velho e no novo, outros dez livros de Andrea Camilleri. Clique no link do nome do livro se quiser ler os comentários:

 

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.6.2008

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), em 19.6.2008

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2006

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 2.3.2006

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006

 

Luisito, de Susanna Tamaro

 

Luisito nem é um grande livro, mas confirma a incrível capacidade da literatura italiana de produzir personagens femininas inesquecíveis.

 

O livro de Susanna Tamaro é breve e sua estrutura, praticamente de conto. No entanto, Anselma, a protagonista, envolve pouco a pouco o leitor, transfere suas aflições, emociona e desconforta.

 

Certamente foi a obra fabulosa de Natalia Ginzburg, maior ficcionista italiana do XX, que criou essa legião de mulheres que impressionam. Mulheres que Natalia esculpia com detalhes agônicos e que viviam em espaços restritos – na geografia e nas emoções. Mulheres que se esqueciam de si até o dia em que se davam conta de que a vida correra, se aproximava do fim e ainda lhes faltava agir.  

 

Tamaro não é Natalia – ninguém é – mas apresenta uma Anselma meio esquecida pelos filhos, viúva de um homem que por poucos anos a iludiu e, durante muitos, a decepcionou. Anselma, que prefere mesmo ter os filhos (com respectivos cônjuges, e os netos) à distância, uma vez que não há conversa, não há conexão possível com eles – “clones”, pensa, do pai.

 

Anselma, que perdeu a melhor amiga, a inesquecível companheira da infância e da juventude, vítima de câncer. E que se ressente de ter se afastado dela após o casamento. Anselma.

 

Eis que um dia, ela encontra um papagaio abandonado no lixo. Leva para casa, o batiza como Luisito, e sua vida muda. Afeto, percebe, pode vir com penas, bico pontudo, algumas palavras repetidas e um contínuo krak, krak. Daí o subtítulo do livro: uma história de amor.

 

Apenas uma semana de convívio com Luisito a transforma. Faz Anselma rever o passado, contar para si mesma as armadilhas em que caiu, pensar quão intensa foi sua relação com a antiga amiga, buscar pessoas queridas há tanto tempo afastadas.

 

O mundo pérfido, porém, a espreita e o desfecho do amor e da vivacidade que ela reinventa através de Luisito pode não ser bom. Não importa. Protagonista típica de uma das melhores literaturas do XX – infelizmente pouco conhecida nesse Brasil francófilo –, Anselma concentra uma vida inteira, mas de setenta anos, no imenso moinho das recordações. Ama Luisito também porque isso significa voltar a amar, poder amar.

 

E o leitor fica a se olhar, e a olhar os outros, no espelho da vida de Anselma, no seu mundo tão pequeno, ampliado por uma ave. Ampliado por ela mesma.

 

Susanna Tamaro. Luisito. Rio de Janeiro: Rocco, 2009

 

O tailleur cinza, de Andrea Camilleri

O tailleur cinza il tailleur grigio – é um romance sobre a velhice. Andrea Camilleri abriu mão da estrutura regular do policial, investiu bastante na construção psicológica dos dois personagens que se aproximam e se afastam no decorrer da trama e escreveu o mais francês de seus livros.

 

Luigi e Adele – nomes que evoca Pierre Louys, Guy de Maupassant e François Truffaut – formam um casal. Ele, bem passado dos sessenta anos, acaba de se aposentar. Ela, chegando aos 40, leva uma intensa vida social, correndo entre associações e reuniões. O narrador segue os passos de Luigi e, pelos olhos dele, reconstitui algo do passado: a bem sucedida carreira no banco, o primeiro casamento e o filho, a viuvez, o encontro com Adele, a paixão e a atração sexual súbitas, o casamento entre eles.

 

É a rígida rotina de Luigi, alterada pela aposentadoria, que o faz mirar o passado e relembrar a primeira vez que soube que a mulher o traía. Daí em diante, uma longa história de traições que, cauteloso, fingia não ver. Adele, afinal, era todo seu mundo e seu fascínio, mesmo depois que a relação entre eles perdeu as cores do princípio e passou a ser mais um item da rotina doméstica.

 

Aposentar-se, diz um clichê, é libertar-se. Aposentar-se, diz outro clichê, é morrer. Luigi, entre as duas possibilidades, prefere apenas olhar para sua mulher e entender seus jogos e artimanhas. La donna è mobile, diz uma ópera, e Luigi enxerga o exemplo em Adele, na sua obsessão pelo corpo e na fidelidade impossível. Um dia lhe pergunta, temeroso da resposta, sobre a razão dela ter-se casado com ele, e ouve uma peculiar e indireta confissão de amor. Simultaneamente, Adele mantém, no anexo de seu quarto, um sobrinho forte, belo e jovem, disponível para todas as noites: cual piuma al vento, muta d’accento e di pensiero.

 

O drama de Luigi não é apenas íntimo. O mundo siciliano – como era de se esperar em Camilleri – o invade, sob a forma de uma obscura proposta de emprego e de sua hábil, mas honesta, relação profissional com supostos mafiosos. Também sua maneira de entender o que o cerca repõe as figurações sicilianas que Camilleri herdou de Vittorini, Verga, Lampedusa, Pirandello, Sciascia e tantos outros. Os diálogos se constróem e ganham significado nos olhares e no silêncio. Afetos e desafetos se definem nas pequenas relações quotidianas, enviesadas e recheadas de pequenos rituais de sedução e de engano.

 

Seu universo pessoal, porém, é o que prevalece e Luigi, aos poucos, se fecha. Ocorre que tudo, nele, espelha Adele, a personagem feminina melhor esculpida da obra de Camilleri. É linda, arrasadora e perigosa como muitas mulheres de Camilleri. É forte, segura e capaz de representar como outras tantas. Mas é também ambígua nos sentimentos e nas ações, nas verdades e nas mentiras, na infantilidade e na maturidade. Sempre um amabile leggiadro viso, in pianto o in riso è menzognera. Luigi espera unificar as duas Adele para negar que è sempre misero chi a lei s’affida, chi le confida mal cauto il core!

 

E, na porta da morte, tem uma revelação. Uma, não: duas. A primeira encerra a citação da ária: Luigi constata, reconciliado com Adele, com o passado e o presente que é impossível viver sem ela, afinal pur mai non sentesi felice appieno chi su quel seno non liba amore! E, em seguida, enxerga algo que justifica o título do livro – roupa que aparece poucas vezes no romance, mas nunca sai da cabeça do leitor.

 

O romance sobre a velhice de Camilleri – com seus 83 anos – não tem, felizmente, a diluição e a auto-complacência do que García Márquez escreveu pouco antes dos 80. Tampouco tem a densidade amarga e o rigor narrativo, uma pena, do de Philip Roth. Mas tem o que é essencial: o reconhecimento da duplicidade do tempo e de nossa complicada e irresolvida relação com ele.

 

Andrea Camilleri. Il tailleur grigio. Milão: Arnoldo Mondadori, 2008

 

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros oito livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007), Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007), Il campo del vasaio (12 de junho de 2008) e Le pecore e il pastore (19 de junho de 2008). Os seis primeiros estão no endereço antigo (www.paisagensdacritica.zip.net); o sétimo e o oitavo, neste mesmo endereço.

As ovelhas e o pastor, de Andrea Camilleri

As ovelhas e o pastor Le pecore e il pastore – é um livro ambicioso. Andrea Camilleri ousa mais em seus romances históricos – como este – do que nas aventuras do Coimissário Salvo Montalbano. Tem sentido: embora toda a obra de Camilleri seja bastante lida (é o escritor italiano da atualidade que mais vende na Itália e no exterior), os livros de Montalbano adquiriram bastante popularidade, chegaram às telas da televisão em cuidadosas adaptações e aumentaram muito seu público, incluindo leitores nem tão dispostos a acompanhar as experiências narrativas de Camilleri.

 

Apesar da diferença literária, as questões e preocupações de Camilleri nas tramas de Montalbano e nas históricas são semelhantes. A principal delas é com a leitura: cada vez seus personagens lêem mais e cada vez os livros são mais decisivos na decifração das histórias e seus mistérios. O recente Il colore del sole (de 2007), nesse sentido, é exemplar: está em jogo, ali, um suposto diário de Caravaggio, a ser lido pelo próprio Camilleri. Também o já clássico La scomparsa di Patò (de 2000), citado e lido por Montalbano no recente Il campo del vasaio, é composto de fragmentos de notícias e de documentos que tentam identificar o destino de Antonio Patò, que desapareceu – segundo observação de Leonardo Sciascia em A cada um o seu – quando fazia o papel de Judas numa representação da Paixão de Cristo. Em outro livro recente – Voi non sapete, de 2007 – verdade e ficção se misturam na leitura de bilhetes do chefe mafioso Bernardo Provenzano.

 

Le pecore e il pastore também reconhece que no princípio de toda escritura está a leitura. No caso, para compreender dois mistérios do verão de 1945: o que esteve por trás da morte de dez jovens religiosas – ovelhas enclausuradas num convento – e do atentado contra o bispo Giovanni Battista Peruzzo, pastor anti-comunista que defendeu, nos tempos sombrios do fascismo, justiça social e respeito à diferença. Os casos são reais; a documentação estudada por Camilleri (cartas, documentos oficiais, textos literários), nem sempre. A investigação retrocede ao século XII para entender o lugar do monastério em que o atentado se deu e sua história de ermitões e bandidos, de fé e perfídia. A solução dos casos, claro, pode não ser verdadeira, mas certamente é um achado. A relação entre literatura e história, de resto, é sempre conturbada e composta de diálogos e contaminações; ela pode prescindir de diferenciação se for colocada em uma base imaginativa, um livro de ficção. E Camilleri explora a ambigüidade até seu limite para ensinar que Noel Rosa e Pôncio Pilatos tinham razão ao dizer que a verdade existe, mas mora num poço. O leitor sedento de verdades absolutas fica, então, desorientado, perdido entre notas de rodapé e longas citações documentais: a sugestão falseada da precisão, embalada na narrativa ficcional.

 

Por esses jogos de sedução e engano é que Camilleri continua essencial. Perto de fazer oitenta e três anos e apenas quatorze após seu sucesso literário, escreve em ritmo acelerado, chega a publicar três livros num ano e mantém uma quase inacreditável capacidade de surpreender o leitor com narrativas divertidas e tantas vezes sofisticadas na concepção e no desenvolvimento. Às vezes, a surpresa vem até do fato do livro ser escrito inteiramente em italiano – caso de Le pecore e il pastore –, sem as interferências dialetais e as marcas da oralidade siciliana que particularizam quase toda sua obra e caracterizam a língua que inventou. Porque a novidade, às vezes, pode vir da tradição – depende da forma como a olhamos e a representamos.

 

Andrea Camilleri. Le pecore e il pastore. Palermo: Sellerio, 2007

 

 

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros sete livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007), Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007) e Il campo del vasaio (12 de junho de 2008). Os seis primeiros estão no endereço antigo (www.paisagensdacritica.zip.net); o sétimo, neste mesmo endereço. Na próxima semana, encerrando a “temporada Camilleri”, o blog publicará comentário sobre Il tailleur grigio.

O campo do oleiro, de Andrea Camilleri

O campo do oleiro – Il campo del vasaio – não é a melhor, mas talvez seja a mais tocante história do Comissário Salvo Montalbano, detetive criado pelo siciliano Andrea Camilleri.

Montalbano chega cada vez mais cansado a seu décimo-terceiro romance – fora os trinta e seis contos e as três novelas. O tempo passa e pesa para ele: tem agora 58 anos e os rumos da política e da polícia o desiludem. Vê o mundo sombrio e acredita pouco na justiça. Se não bastasse, atravessa uma história de traições, indicadas já no título do livro: o campo do oleiro, conta o Evangelho de Mateus, é onde foram gastas as trinta moedas do Judas arrependido. E num campo assim encontram um cadáver despedaçado em trinta partes, levantado da lama pelas chuvas.

Camilleri domina como poucos, na atualidade, os mecanismos do policial: conhece as matrizes clássicas do gênero, deprecia sutilmente a vertente americana e inventa novos caminhos para a escrita de mistério. Em parte, o policial moderno de Camilleri é herdeiro de Leonardo Sciascia, outro siciliano, escritor do que Italo Calvino chamou de “gialli non gialli” – policiais não policiais. Tal qual em Sciascia, a verdade para Camilleri não é absoluta ou decisiva e nem sempre vem e fica à tona. Algumas de suas versões, sim. É em busca delas – verdades relativas, consensuais – que seus detetives vão, cruzando um mundo insalubre, recheado de velhos e novos mafiosos, de políticos inescrupulosos. Também à semelhança de Sciascia, é o silêncio da Sicília, seus não-ditos e os olhares eloqüentes que, juntamente com a forte entonação oralizada da língua, dão especificidade e dinâmica para a trama e seu desvendamento.

Se o campo do oleiro simboliza uma traição, a original, muitos são os traidores, e de diversos tipos, que circulam ao redor dessa narrativa sombria, que combina assassinatos em mais de um tempo, vinganças e falsos testemunhos. Há traição conjugal, traição à famiglia mafiosa, traição a si mesmo e a que parece pior aos olhos de Montalbano: a da confiança entre amigos. É Mimì Augello quem está na baila e cuja amizade longa parece em risco. Mimì é o vice-comissário de Montalbano e, após ter ganho destaque em várias histórias, andou meio sumido nos três últimos romances. Agora volta à baila e obriga Montalbano a investigar secretamente o homicídio do campo do oleiro e seus desdobramentos do passado e no futuro.

O método de Montalbano nunca foi sherloquiano, linearmente lógico. Ao contrário: Camilleri já o descreveu como semelhante aos ramos cruzados de uma oliveira, intrincado, confuso, caótico, às vezes intuitivo, sempre crivado de variações e, na sua teatralização, de conversas consigo mesmo. A diferença agora é que Montalbano se põe a escrever e é no texto – em longas cartas a si mesmo – que estrutura sua pesquisa e percebe as razões que ligam e justificam as pistas. Nenhum escritor, porém, pode existir se antes não houver um leitor; e Montalbano, para redigir sua versão, antes lê, e lê um Camilleri: La scomparsa di Patò, que já é, por si mesmo, um diálogo com livros anteriores e o desenvolvimento da trajetória de um personagem ficcional de Sciascia. Do universo da leitura e pelo fio da escrita, a decifração.

O sentido é obviamente metaliterário, mas sem qualquer peso para o leitor comum, que pode escolher o nível de leitura que prefere, do entretenimento rápido ao reconhecimento das muitas instâncias narrativas que Camilleri conjuga para dar mais complexidade a seu personagem famoso e variar suas histórias. Também cabe ao leitor entender e avaliar a forma peculiar como Montalbano desenreda a teia de traições e repõe as relações em seus devidos lugares. Emocionalmente. Sobretudo silenciosamente, que é como os sicilianos tratam as coisas importantes.

Andrea Camilleri. Il campo del vasaio. Palermo: Sellerio, 2008

Os treze romances protagonizados por Salvo Montalbano são: A forma da água (1994 – no Brasil, 1999), O cão de terracota (1996 – no Brasil, 2000), Ladrão de merendas (1996 – no Brasil, 2000), A voz do violino (1998 – no Brasil, 2001), Excursão a Tindari, (2000 – no Brasil, 2002), O cheiro da noite (2001 – no Brasil, 2003), Il giro di boa (2003 – no Brasil, Guinada na vida, 2005), La pazienza del ragno (2004), La luna di carta (2005 – no Brasil, A lua de papel, 2007), La vampa d’agosto (2006), Le ali della sfinge (2006) e La pista di sabbia (2007). Além desses, há quatro volumes de narrativas curtas: Um mês com Montalbano (1998 – no Brasil, 2002), Gli arancini di Montalbano (1999), La paura di Montalbano (2002), La prima indagine di Montalbano (2004 – no Brasil, 2008).

Provavelmente a tradução brasileira deste livro demore. Das treze aventuras de Montalbano, como se pode ver acima, já foram traduzidos as sete primeiras e a nona, pulando – sabe lá Deus por quê – a oitava (A paciência da aranha). Além deste, ainda faltam traduções de O calor de agosto, As asas da esfinge e A pista de areia para que se chegue a O campo do oleiro.

Paisagens da Crítica já publicou (no endereço antigo: www.paisagensdacritica.zip.net) comentários sobre outros seis livros de Andrea Camilleri: La pensione Eva (24 de março de 2006), La vampa d’agosto (12 de maio de 2006), Le ali della sfinge (22 de março de 2007), Il colore del sole (3 de maio de 2007), La pista di sabbia (1 de novembro de 2007) e Maruzza Musumecci (3 de dezembro de 2007). Nas próximas semanas, publicarei comentários sobre mais dois livros de Camilleri: Le pecore e il pastore (2007) e Il tailleur grigio (2008).