The Arrival, de Shaun Tan, por Stefania Chiarelli


Retratos em preto e branco

por Stefania Chiarelli

 

Este texto já parte de um pressuposto contraditório: o de se valer de palavras para dialogar com uma obra que utiliza apenas imagens. Mas, à diferença do desenhista australiano Shaun Tan, preciso delas para comentar o forte impacto que a obra The Arrival me causou. Publicado em 2007 nos EUA, vencedor de vários prêmios, o livro conta a história de um habitante de um mundo fictício, que deixa temporariamente sua família em outro país e parte em busca de nova vida em outro continente. No novo lugar, vai enfrentar uma língua desconhecida, hábitos incomuns, estranhos animais de estimação e uma legião de outros imigrantes que, como ele, chegaram ali pelos mais diversos motivos, buscando refúgio e um futuro menos opressor. The Arrival é uma fábula sobre um homem que deixa sua família para trás e cruza o mar, na esperança de encontrar trabalho e uma vida melhor para sua esposa e filha. Perdido em um mundo onde não consegue falar ou ler, passa a perseguir o sonho de todos os imigrantes: um lugar para se estabelecer junto a indivíduos que, por diversos motivos, se encontram fora de seus locais de origem.

Nos escritos de Minima moralia, Theodor Adorno chama a atenção para o apagamento de parte da vida pregressa do imigrante, forjada sob a rubrica de “antecedentes” registrados em uma ficha fadada ao esquecimento . Do desejo que a figura do imigrante não se restrinja, como alerta o filósofo alemão, a esmaecidas registros destinados ao desaparecimento, prepondera em algumas obras o gesto de recuperar a enunciação desses discursos, tornando-os produtivos, dinâmicos. É esse pensamento que me ocorre ao abrir as primeiras páginas – propositalmente amareladas, simulando o envelhecimento de antigos documentos – da obra de Shaun Tan. No lugar da costumeira ficha catalográfica – espaço dos livros em que se confere a primeira classificação, espécie de carteira de identidade – lemos a palavra “inspeção”, anunciando tema tão familiar a todo aquele que emigra. O termo é forte, e a idéia de vistoria, fiscalização, já prenuncia o tema do exílio.

Classificado como infantil, o livro não se reduz a uma fábula edulcorada ou revela qualquer pretensão didática. Ao contrário, Shaun Tan aborda temas contemporâneos como o totalitarismo, o trabalho infantil, a incomunicabilidade e a opressão. Uma história em quadrinhos de cento e vinte páginas desenhadas com lápis grafite, sem o apoio de nenhum texto. O leitor vai acompanhando uma espécie de seqüência de antigas fotos em tons sépia e preto-e-branco, como se participasse da recordação de uma história vivida há muito tempo. Lá estão ícones clássicos da representação da migração, como a cena de milhares de pessoas entulhadas em uma embarcação – mar, porto e navios são elementos altamente significativos no imaginário daqueles que partem. Ao mesmo tempo, comparecem outras representações com alto poder metafórico, como na sequência em que o migrante tenta inutilmente se fazer entender, se valendo da mímica para facilitar a comunicação, ou ainda aquela em que é examinado, catalogado e finalmente recebe um papel que lhe confere nova identidade. Alternam-se closes dos indivíduos e grandes panorâmicas, cruzando uma história pessoal com quadros humanos reveladores desses movimentos populacionais.

Relatos de imigrantes de diferentes países, quadros, desenhos e fotografias do acervo do Museu da Imigração de Ellis Island, em Nova York, serviram de base para o trabalho de Tan. Um dos inspiradores do livro foi o próprio pai do autor, que se mudou para a Austrália nos anos 60. A história do meu pai foi parte da inspiração para The Arrival, porque ele imigrou da Malásia. Sobretudo, o tema pareceu enormemente interessante como um exercício conceitual, tive que rever todo o mundo à minha volta, percebi que os imigrantes estão ainda por todos os lados, tentando se adaptar e lutando por seu espaço“, explica.

Histórias de errância e deslocamento já renderam obras clássicas na história da humanidade. Shaun Tan revitaliza essa linhagem de narrativa, explorando novo modo de simbolizar a experiência de se estar entre culturas, em trânsito. Apesar de tingir com cores sombrias e detalhar o aspecto doloroso dessa experiência, Tan enfatiza a possibilidade de recomeço, da libertação entrevista nessa história. O estabelecimento de laços de solidariedade entre indivíduos em situação semelhante aponta para uma visão positiva desse estado de deslocamento, enfatizando que a condição de estrangeiro, a despeito da dor e do trauma, é capaz de viabilizar o diálogo. Encerra o livro a imagem da filha do protagonista, já instalada no novo lugar, prestando ajuda a uma recém-chegada. Apesar do suposto final feliz – a família se reúne novamente – o ciclo não tem fim, e uma nova leva de pessoas está a caminho. Entretanto, os elos entre os indivíduos ainda podem oferecer vínculos que mitiguem o desenraizamento. Afinal, migrar é também se reinventar.

Stefania Chiarelli é doutora em Estudos Literários pela PUC-Rio e autora de Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum (Annablume, 2007).

 

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre dois livros de Stefania Chiarelli: Vidas em trânsito as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum (7.5.2007) e Alguma prosa (21.8.2007, organizado juntamente com Giovanna Dealtry e Masé Lemos). Stefania também já publicou uma resenha em Paisagens da Crítica: sobre Jóia de família, de Zulmira Ribeiro Tavares (31.3.2007). Os três textos estão no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net

 

Austerlitz, de W. G. Sebald, por Julia Bussius

Austerlitz, de W. G. Sebald

por Julia Bussius

Austerlitz, de W. G. Sebald (ou Max Sebald, como ele preferia ser chamado), é uma narrativa extraordinária, infelizmente ainda não traduzida no Brasil [a edição em língua inglesa, porém, pode ser encontrada facilmente e por preço razoável]. O autor alemão, nascido em Wertach, na região do Allgäu, em 1944, viveu a maior parte de sua vida na Inglaterra, onde lecionou literatura austríaca em algumas universidades e coordenou um centro de estudos sobre tradução. Faleceu em 2001, ao sofrer um ataque do coração enquanto dirigia seu carro. Antes de Austerlitz, apenas dois de seus livros foram traduzidos no país: Os emigrantes e Os anéis de Saturno, ambos pela Record e ambos imperdíveis.

O título desta obra não se refere à estação de trem em Paris ou a uma das batalhas de Napoleão, e sim a um homem que tem sua vida assombrada pela catástrofe. Em 1939, Jacques Austerlitz embarcou num Kindertransport – trem que levava crianças judias para fora do país – deixando Praga, sem mesmo ter completado cinco anos de idade, para ir à Inglaterra, onde seria adotado por um pastor calvinista e sua esposa. Seus novos responsáveis, que levavam uma vida sombria e infeliz na pequena cidade de Bala, País de Gales, afastaram o menino de qualquer contato com seu passado. Seu nome verdadeiro é revelado apenas após a morte do casal, e a partir desta palavra, que lhe soa totalmente estranha, o imenso e triste vazio de sua história surge de modo irreparável.

O narrador – como Sebald, um alemão exilado na Inglaterra – conhece Austerlitz numa viagem à Antuérpia, Bélgica, onde iniciam um diálogo muito peculiar, permeado por relatos de história da arquitetura, assunto dos estudos de Austerlitz, e por descrições de melancólicas paisagens naturais. O primeiro encontro ocorre no final dos anos 60, e há uma lacuna de quase trinta anos até o próximo contato entre os dois.

Quando, por acaso, se reencontram em Londres, Austerlitz dá inicio à narração de sua história, descoberta ao poucos, à medida que não pode mais impedir o surgimento de seu passado desconhecido. Durante anos, ele tenta fugir de qualquer vestígio sobre suas origens – até mesmo seus estudos de história não avançam os limites do final do século XIX. E sem compreender bem o porquê, vive atormentado, algo que o torna esquivo e melancólico e muitas vezes o leva a sérias crises de nervos – passando dias de desassossego absoluto. Contudo, as lembranças teimam em persegui-lo e, aos poucos, ele começa a recolher memórias deste passado enevoado, que passa a adquirir forma. Ele procura por seus pais desaparecidos, seguindo os lugares e as pistas de como suas vidas se extinguiram. Revisita as cidades que havia soterrado e reencontra as paisagens e línguas de sua infância.

A escrita de Sebald fala da memória como algo fundamental. A melancolia de seus personagens é uma forma de resistir ao esquecimento. Como um colecionador, ele reúne histórias, fotos (sempre presente em seus livros), desenhos, mapas, notícias, lugares e pessoas – tentando encontrar sentido no presente por meio destes cacos do passado. O tempo e a memória são a matéria de reflexão deste autor, que nos alerta para algo fundamental: não se pode enterrar o passado (sua maior crítica à Alemanha do pós-guerra, que encobriu os anos de atrocidade com o desenvolvimento de uma economia fortíssima).

Os diálogos do livro são contínuos, e não estão indicados por aspas ou travessão. As falas do narrador, Austerlitz e dos outros personagens se entrelaçam o tempo todo, como no fluxo de uma narrativa oral. Sebald já foi apontado como aquele narrador que Walter Benjamin julgava ter desaparecido no mundo moderno. Ele é um exímio contador de histórias, e nos deixou obras literárias sensíveis como esta, com a capacidade de tocar qualquer pessoa que, com o mínimo de lucidez, tenha sobrevivido ao catastrófico século XX e a todas as suas idiossincrasias.

W. G. Sebald. Austerlitz. São Paulo: Companhia das Letras, 2002

Este comentário foi publicado originalmente em 1º de maio de 2006, no endereço anterior de Paisagens da Crítica. É republicado agora devido ao lançamento da edição em português de Austerlitz.

Julia Bussius é jornalista, historiadora e estuda a obra de W. G. Sebald.

Coleção Sangue na Vinha, de Jean-Pierre Alaux e Noël Balen

Bodas de ouro em Yquem, Desvendando Margaux e O ritual de Bordeaux misturam investigação policial com grandes vinhos. O leitor, no entanto, degusta o livro com a impressão de que lhe foi servido um vinhozinho qualquer – aquele chileno mais-que-batido, que aceita na casa dos parentes para não parecer esnobe nem desfeita.

São os primeiros volumes lançados no Brasil da Coleção “Sangue na Vinha” que, apesar do nome meio trocadilhesco, parte de uma idéia genial. Afinal, o que pode ser melhor do que ler um bom policial acompanhado de um bom vinho? Ou, pelo menos, sonhando com um dos rótulos que dão nome aos livros: Château d’Yquem – o maior de todos os vinhos de sobremesa –, o charmoso e elegante premier grand cru classé de Margaux e (ainda que o título da tradução brasileira omita) o mais cultuado de todos os bordaleses, Pétrus.

Na França, a coleção – escrita por Jean-Pierre Alaux e Noël Balen – já tem dezoito volumes, ultrapassa as fronteiras de Bordeaux, circula por quase toda a França e até invade os domínios espanhóis. Difícil é brindar ao sucesso. Porque a idéia é genial, os vinhos, impressionantes, mas os romances são muito fracos. O problema não é a inverossimilhança de um enólogo-detetive, que interrompe seguidamente suas provas para investigar crimes escabrosos. Afinal, se existe rabino-detetive e pelo menos um grande padre-detetive – o Padre Brown -, por que não um enólogo? É curioso, pelo menos, além de retomar a óbvia associação entre a investigação e o procedimento analítico, função primordial de um enólogo. Sem contar a brincadeira de situar um enólogo inglês na França, cujo nome – Cooker – nos faz pensar imediatamente no crítico americano Robert Parker, que os bordaleses adoram e os borgonheses deploram. É quase impossível que o leitor não perceba a referência a Parker. Os autores, no entanto, acharam conveniente não deixar margem a qualquer dúvida e se preocuparam em destacar a marca da caneta que Cooker usa – adivinhe qual é.

Mais do que um exemplo, aí está a razão da fragilidade de Sangue na Vinha. Tudo é óbvio e oferecido facilmente ao leitor. As frases e os parágrafos curtos e diretos, sem qualquer tratamento literário, não exigem o manejo de nenhuma pequenina célula cinzenta. Os três livros se comprazem em se confinar no universo dos clichês. Clichês mesmo, não as marcas habituais do gênero policial: frases feitas, personagens caricatos, metáforas óbvias e baldias. Um ou outro exemplo: a mulher de Cooker “faz-se carinhosa aos vapores perfumados do banheiro”, um amigo considera “um ponto de honra preencher mais tarde essa pequena lacuna”, as pessoas “raramente evocam esse período doloroso” e os silêncios “se eternizam”; sobre a empregada da casa de outro amigo de Cooker, “A tez amarelada e os cabelos sem brilho presos num pequeno coque se integravam às mil maravilhas na decoração desbotada do salão.”

Se tentarmos avaliar a trama misteriosa a partir de seus elementos genéricos, a coisa fica mais feia ainda. Sangue nas Vinhas incorre em quase todos os pecados que, no início dos anos 1930, Borges elencou como erros imperdoáveis dos praticantes do gênero. Quase toda a motivação e a investigação dos crimes é arbitrária, carente de lógica. Por isso, o leitor nunca tem as informações necessárias para o entendimento ou a decifração dos crimes. Os personagens-assassinos aparecem de repente, quase no fim dos livros, só para serem acusados. Nos três casos, não há método investigativo e nem desenvolvimento lógico: a decifração se dá por acaso. Além disso, o leitor acaba a leitura sem explicações. Por que o criminoso de O ritual de Bordeaux – nome que o editor brasileiro deu a Saint Pétrus et Le Saigneur – realizava o ritual do título? Aparentemente, os autores esqueceram de explicar. Ficamos sabendo, ao final do livro, o motivo dos crimes, mas não a razão pela qual o criminoso praticava o tal ritual. O vinho de Yquem até tem relação com os crimes do volume dedicado a ele, mas Yquem é pouco mais que um cenário para a trama. Margaux do livro, na verdade, é o nome da filha de Cooker – e o château aparece quase como um trocadilho.

Uma pena. Porque a idéia foi boa e a garrafa – digo, a edição – é bem cuidada, com capa elegante e glossário ao final. O problema é que a leitura deixa um resíduo ruim, espécie de retrogosto desagradável para quem esperava beber bem.

Jean-Pierre Alaux & Noël Balen. Bodas de ouro em Yquem. Rio de Janeiro: Rocco, 2007 (original: 2004; tradução: Alcida Brant)

Jean-Pierre Alaux & Noël Balen. Desvendando Margaux. Rio de Janeiro: Rocco, 2007 (original: 2004; tradução: Alcida Brant)

Jean-Pierre Alaux & Noël Balen. O ritual de Bordeaux. Rio de Janeiro: Rocco, 2008 (original: 2005; tradução: Alcida Brant)

O balneário, de Manuel Vázquez Montalbán

O balneário é um livro datado – bem datado – e sua publicação, hoje no Brasil , soa anacrônica.

Lançado originalmente em 1986, O balneário não resistiu ao tempo. Lê-lo agora é decifrar um conjunto de aflições que parecem risíveis e exóticas. Sua trama mirabolante encara os resíduos da Guerra Fria e da Espanha franquista, ambas agonizantes, mas persistentes. Franco já morrera há anos e a glasnost de Gorbachóv era definitiva; no entanto, os mortos não haviam sepultado seus mortos e o espectro do passado recente ainda rondava as preocupações políticas de Manuel Vázquez Montalbán, o autor.

Por isso, ele escreveu um romance que não é propriamente policial, nem propriamente político, nem propriamente histórico. A bem da verdade, não é propriamente um romance, perdido em divagações gerais, personagens caricaturais e incompletos, em uma trama esvaziada e – alerta um dos personagens – de inacreditável inverossimilhança.

Pepe Carvalho, o detetive habitual de Vázquez Montalbán, exemplifica bem o deslocamento de tudo: gourmet e glutão, está encerrado num spa. Junto com ele, gente de muitas nacionalidades (internas & externas à Espanha) compõe um suficiente painel europeu. Quem o coordena, são os suíços, neutros proprietários e administradores do empreendimento. Tudo é dado de saída: nem o leitor desatento deixa de perceber o jogo metafórico que se pretende montar.

O humor do início do livro pode até lembrar outros livros de Vázquez Montalbán e a crueza cínica de Pepe Carvalho, mas dura pouco. Rapidamente começa uma série de rocambolescos assassinatos, que não param mais e são acompanhados pelas atitudes ridículas de todos. Na Europa dos anos 1980, afinal, ninguém sabia o que estava acontecendo ou ocorreria, e todos recorriam a explicações adequadas ao mundo de antes, mas não ao de agora. Isso o leitor também percebe facilmente.

A estrutura da narrativa é também logo decifrada pelo leitor: típico caso do policial em local fechado, sem que haja interferência externa ou possibilidade de fuga dos envolvidos, que persistem confinados, passando fome no spa, até que se dê o caso por liqüidado. Todos os clichês que algum dia alguém imaginou para uma história de investigação dão o ar da graça: passagem secreta, vultos que se esgueiram nas sombras, identidades trocadas, policiais obtusos, mulher fatal, disputas familiares, interesses financeiros. Nada escapa, nem se esconde dos olhos do leitor. Ele é forçado a enxergar absolutamente tudo.

Já a explicação final – cena habitual – é tão esdrúxula e incompleta, que o leitor percebe (se ainda não havia notado) que Vázquez Montalbán de fato não estava nem longinqüamente preocupado com a história que escrevia: queria transmitir sua mensagem política, e pronto. Nisso O balneário se parece com o quase infinito e infinitamente chato Milênio – livro de despedida de Pepe Carvalho – e se diferencia de suas saborosas aventuras – Os mares do sul, O quinteto de Buenos Aires, A rosa de Alexandria e tantas outras.

A única coisa que o leitor não consegue entender é porque o livro foi editado agora, vinte e um anos depois, no Brasil – o que talvez só se explique pelo prestígio do autor e pela capacidade do mercado de absorver histórias policiais de autores conhecidos e reconhecidos. É difícil imaginar outra razão. Ou talvez não haja razão alguma – o que não é de todo mau: afinal, algum mistério um romance policial tem que trazer. Que seja o do motivo, talvez indecifrável, de sua publicação.

Manuel Vázquez Montalbán. O balneário. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (original: 1986; tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht).

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros livros de Manuel Vázquez Montalbán: Quarteto (10.2.2006), A rosa de Alexandria (8.5.2006) e Milênio (21.2.2007). Todos no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net

Por que ler Borges, de Ana Cecilia Olmos

Por que ler Borges era um livro necessário havia bastante tempo. Num país que, em breve, terá duas traduções das obras completas de Borges (uma já existe, outra está em curso), fazia falta um livro que apresentasse Borges ao leitor interessado em saber mais de sua obra, mas sem a disposição de enfrentar trabalhos acadêmicos e seu habitual jargão.

Só isso basta para justificar a publicação do livro de Ana Cecilia Olmos, que faz parte de uma coleção de introdução à leitura de autores clássicos (Dante e Shakespeare também foram lançados). Mas, quando lemos o livro, percebemos que sua importância não se limita à ocupação de um espaço vago do mercado livreiro. Ele é, apesar de pequeno, um cuidadoso estudo da obra de Borges, escrito num misto de leveza e densidade.

Seguindo o padrão da coleção, a obra é dividida em cinco partes: “Um retrato do artista”, “Cronologia”, “Ensaio de leitura”, “Entre aspas” e “Estante”. A primeira é biográfica – o que coloca um problema quando se trata de Borges. Inúmeras biografias já foram escritas (e continuam a ser) sem que sua vida tenha sido propriamente aventureira. Pelo contrário. Por isso, as biografias de Borges tendem à repetição e à mesmice e concentram sua atenção em certos episódios, que ganharam condição de determinantes de sua escrita (a viagem na juventude para a Europa, o acidente com o batente da janela – que antecedeu a redação de “Pierre Menard, autor do Quixote”, suas controversas posições políticas, etc.). Ana não deixa de citá-los, mas sabe que, em Borges, o biográfico informa apenas relativa e indiretamente o literário. Há exceções, claro, como o conto “O Sul” ou o “Poema dos dons”, mas também aí a passagem do vivido ao escrito é de tal forma mediada que as relações entre “vida” e “obra” precisam ser tratadas com cautela. Daí o acerto de sua bonita opção por organizar a seção biográfica como uma seqüência de bibliotecas – a imagem mais forte e constante em sua vida e em seus textos. Também a valorização da formação bilíngüe como marca do cosmopolitismo e da pertença borgeana a mais de um universo permite a visualização do diálogo entre o vivido e o escrito sem caricaturas ou determinismos. As informações que a estrutura da seção não comporta – para não perder organicidade – são transferidas para a parte seguinte, “Cronologia” que, evidentemente, ordena as experiências pessoais e as publicações de Borges.

“Ensaio de leitura” corresponde ao balanço crítico. Nele, Ana percorre vários momentos da recepção da obra pela crítica e pelos leitores. Percebe as peripécias dos críticos em seu esforço para estabelecer o difícil e complexo lugar de Borges na história literária – deste Borges que foi poeta, contista, ensaísta, professor e, sobretudo, inclassificável. Reconhece o peso de suas posições políticas, seja quando tomadas com coragem e decisão, seja quando ambíguas. Principalmente, Ana identifica as variações, ao longo do século XX, das interpretações acerca de seus escritos e reitera a necessidade de lembrar, sempre, que a crítica é um espaço a mais de leitura; portanto, como toda leitura, é dotada de historicidade. Com sutileza, Ana traça seu caminho pelo bosque da crítica e, passo a passo, afirma uma voz capaz de dialogar com as outras, sempre segura de sua perspectiva e sustentada pelas análises rápidas, embora nunca superficiais.

As duas partes finais oferecem suportes importantes principalmente para o leitor iniciante: “Entre aspas” compila excertos de vários textos de Borges, selecionados em função dos comentários críticos anteriores e como painel do conjunto da obra; “Estante” reúne referências bibliográficas de vários tipos: obras de Borges, edições em português, ficção & ensaística que sofreram sua clara influência, repertório crítico. É útil para quem está começando a ler Borges; é fundamental para quem quer saber mais.

Por tudo isso, Por que ler Borges não é apenas um livro necessário. É um passo a mais na constituição de uma borgeana brasileira – que já não é tão restrita quanto se imagina e ganha bastante como o livro de Ana Olmos.

Ana Cecilia Olmos. Por que ler Borges. São Paulo: Globo, 2008

A mão do amo, de Tomás Eloy Martínez

A mão do amo é um belo e inquietante livro de Tomás Eloy Martinez. Conta a história de Carmona, dotado de uma voz incrível e de uma mãe terrível. Por causa da voz de castrato, ganha fama e respeito. Por causa da mãe, se afunda, castrado, no vazio e na insegurança.

Escrito como conto e depois feito romance, A mão do amo mantém a secura da forma de origem e sua concisão. A trama é fechada, igualando a vida de Carmona e o mundo estreito em que os personagens se movem. São poucos espaços, e eles se desdobram ou encolhem, redimensionados pela opressão sobre Carmona. Poucos, também, os personagens: Carmona, a mãe, os gatos da mãe. Os demais são periféricos e, no máximo, emulam o trio central – caso da fina senhora que o protege e que a mãe de Carmona adula. Ou dos japoneses perdidos na paisagem fascinante e ameaçadora das montanhas, cujo filho é invejado pela mãe de Carmona.

Carmona, Carmona: o nome é repetido à exaustão no romance, que desliza entre a narração em terceira pessoa e o discurso indireto livre, que assume voz e mente da personagem principal, em parênteses que ampliam nossa angústia porque derivam da dele, emparedado. Porque A mão do amo é uma história de emparedamento. Do dominado que lambe a mão do dominador, que mistura mãe, pátria, gatos e governos numa submissão que, claro, nos faz pensar na Argentina dos anos militares. Por isso, o romance não é tão diferente (quanto muitos críticos destacaram) dos livros mais conhecidos de Eloy Martinez, voltados à discussão política.

A diferença de fato é que A mão do amo não foca na macropolítica, aquela que se desenvolve nos bastidores sórdidos de Brasília – digo, de Buenos Aires. É pior (sim, acredite): pulveriza-se no quotidiano, invade a intimidade e reproduz, com graus variados de imposição, estratégias de dominação e pérfidos jogos de poder. Mas continua a ser ação brutal do autoritarismo no microcosmo das relações pessoais, em que a tortura psicológica e física é arma banal numa guerra fadada ao extermínio do outro, o inimigo, o que deve ser sujeitado.

Quando a mãe morre, Carmona circula entre o Estado e a casa e repete a mesma lógica. Primeiro, ensaia, invejoso, tomar o lugar do poder: persegue os gatos que reproduzem a figura opressora. Mas a liberdade é só uma paisagem fugidia e perigosa, como a das montanhas. E Carmona acaba dominado pelos gatos, dependente das suas vontades. Não teve sucesso ao imitar a mãe, restou-lhe mimetizar os gatos. Sempre oprimido: não por uma pessoa ou um animal, mas por um passado do qual não conseguimos nos livrar.

A mão do amo – jogo sonoro de palavras e metáfora fácil da paixão do submisso pela submissão – é um livro mais sutil que O vôo da rainha, menos jornalístico que O romance de Perón, mais lírico que O cantor de tango, mais incisivo que Santa Evita. É sobretudo – repito o segundo adjetivo deste comentário – inquietante. Porque parece não se resumir a uma situação específica; parece imiscuir-se na macro e na micropolítica que inevitavelmente vivemos.

Tomás Eloy Martinez. A mão do amo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (original: 1991; tradução: Sérgio Molina e Lucas Itacarambi).

O enigma de Paris, de Pablo De Santis

O enigma de Paris nos faz pensar se é necessário publicar todos esses livros que povoam as livrarias. Não falo dos livros obviamente ruins: a auto-ajuda, a vulgaridade (com ou sem verniz literário ou intelectual), as coisas simplesmente mal escritas. Falo de livros que até divertem um pouquinho, são bem escritos, bem montados, mas – sejamos sinceros – absolutamente desnecessários. É o caso desse romance policial do argentino Pablo De Santis, que recebeu prêmios importantes e foi traduzido e lançado no Brasil por uma importante editora.

O livro é bem feito? É. Sua história pára em pé? Pára. Garante entretenimento por duas ou três horas? Garante. Então, eu é que sou implicante? Talvez. Mas, ao acabar a leitura, senti um profundo desconforto. Pensei em todos os jogos retóricos a que De Santis recorre, à ânsia de parodiar o policial clássico e incluir umas pitadas do policial “duro” americano. Pensei nas citações cifradas de Borges. Pensei na idéia de ambientar historicamente o crime nos tempos da montagem da Exposição Universal de Paris. Pensei nas brincadeiras com as matrizes do gênero. Tudo isso é interessante. É. Por que, então, o desconforto? Porque tudo é previsível, tudo é repetitivo, tudo é artificial, tudo parece um pouquinho arrogante: do tom da narrativa à intenção explícita de reinventar o gênero ou de alterá-lo drasticamente.

Daí me lembrei de autores que, sem tal vaidade, de fato mudaram drasticamente a história da narrativa policial. Lembrei de Dashiell Hammett (de quem nem gosto tanto) escrevendo para ganhar uns trocados, de Leonardo Sciascia, que preferia a discussão política e a transferiu ao policial de forma bruta, de Manuel Vázquez Montalbán e seu recurso ao policial para relatar o declínio da esperança de toda uma geração, de Andrea Camilleri e a incorporação de registros da língua falada dos sicilianos. Lembrei, claro, de Borges, de Ricardo Piglia e de Ignacio Padilla, que associaram a literatura de enigma às artes da impostura e da crítica. Lembrei até de nosso Luiz Alfredo Garcia-Roza e seu diagnóstico da decadência irreversível da ética. Nenhum deles assumiu o ar orgulhoso de quem escreve para mudar o gênero – sem, no fundo, acrescentar nada de novo.

Má vontade minha. Talvez mau humor ou cansaço. E o leitor poderá confirmar ao ler O enigma de Paris e, quase garantidamente, sair da leitura satisfeito. Mas tudo me pareceu clichê demais: o interesse do narrador pelo mundo das investigações originar-se da leitura de uma revista (foi nas revistas de crimes, lembrem-se, que as histórias policiais surgiram), a seqüência de relatos de feitos dos doze maiores detetives do mundo, a discussão sobre a simbologia do ofício (pegadas? Quebra-cabeças? Lupa? Bengala de mil-utilidades? Intuição? Sorte? A frenologia? A razão pura e plena?), o desfecho falso seguido por um desfecho verdadeiro que, claro, ilustra os jogos de cena habituais das histórias de detetives.

Mas – você pode estar se perguntando agora – se o livro fala de tudo isso e o faz bem, por que reclamar? Ora, leitor, não reparou nas pistas que deixei nos parágrafos anteriores? Implicância, má vontade, mau humor, cansaço. Ou elas são explícitas demais para serem verdadeiras? Não sei. Leia O enigma de Paris e decifre. Já que foi publicado mesmo, aproveite.

 

Pablo De Santis. O enigma de Paris. São Paulo: Planeta, 2007 (original: 2007; tradução: Maria Alzira Brum Lemos)

Extremamente alto & incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer

Extremamente alto & incrivelmente perto é um romance inteligente e emocionante, o que já bastaria para justificar a leitura. Mas tem mais: procura achar um ponto de encontro da ficção com a história, e consegue.

O principal narrador é Oskar Schell, menino de 9 anos, bem diferente de seus colegas. Coleciona moedas, pedras, selos e borboletas “naturalmente mortas”, faz origamis, desenha jóias e é ateu, só come vegetais e recheia sua fala de expressões em francês, mantém-se longe da TV e envia cartas a todo mundo – principalmente ao físico Stephen Hawking, seu ídolo. Oskar, sobretudo, tem um vínculo profundo com o pai, com quem passava longos períodos e cujas manias e jogos o absorviam. Só que o pai morreu no “pior de todos os dias”, o do atentado contra o World Trade Center.

Daí em diante, Oskar vive à deriva: leva uma relação tensa com a mãe e apóia-se na avó, que insiste em lembrar o ex-marido, desaparecido muito tempo antes. O signo que o paralisa é o da perda; o que o move é a tentativa de recuperar traços do pai nos objetos guardados no closet da casa. E é no closet que Oskar encontra uma chave dentro de um envelope, com a anotação “Black”. Inicia, então, uma odisséia pela cidade, para além dos limites de Manhattan, em busca de Black e da solução do mistério da chave.

Mas não é, claro, a chave que importa. Oskar quer, com a argúcia detetivesca que seu pai lhe ensinou, entender a estranha relação entre o que perdemos e o que nos resta quando o chão se dissolve. É essa procura – com a óbvia visitação dos infernos reais e imaginários, das noites de insônia e de angústia – que leva o leitor (você, eu) ao choro. Porque é inevitável emocionar-se e, de jeito egoísta, temer que o seu filho e a minha filha vivam algo semelhante – ou, na relação inversa, que nós o vivamos.

Jonathan Safran Foer, o autor, sabe que – não importa o que digam – precisamos de lirismo, ainda mais quando a vida não se ajusta às nossas vontades. E o espalha pelo texto, contendo-o apenas com a inteligente variação narrativa, em que a voz de Oskar é trocada por cartas cuja autoria ignoramos quase até o fim do romance. Dessa forma, evita o excesso. Extremamente alto & incrivelmente perto, afinal, é um livro de escrita caprichada e sofisticada, que não poderia descambar para o melodrama. A ressalva que o leitor mais exigente poderia fazer ao livro vem, aliás, dessa estrutura inteligente, porém excessivamente rígida, que torna algumas passagens mecânicas e se contrapõe ao tom vivaz da trama. É pouco problema, porém, perto do que o livro oferece de bom. Bem pouco, se lembrarmos que Foer conseguiu equacionar um dos problemas mais sérios de quem se dispõe a lidar com a história a quente – com todos os traumas e explicações passionais. E a história aparece latente na trajetória de Oskar, sem ostentar sua força, mas deixando claro que uma vida não se desliga das outras, nem é conduzida plenamente por elas. O tocante desfecho da história revela o quanto não ficamos à mercê da história – barco bêbado – e de seus ritmos erráticos.

Até porque Oskar pode vir, um dia, a assimilar a ausência do pai e talvez chegue – quem sabe? – à conclusão borgeana de que só o que perdemos é nosso. Assim sua vida seguirá. Mas nós, leitores, sabemos que nunca conseguiremos assimilar tudo que perdemos – principalmente jamais assimilaremos o medo da perda, que é anterior à própria e, por abstrato, incontrolável.

 

Jonathan Safran Foer. Extremamente alto & incrivelmente perto. Rio de Janeiro: Rocco, 2006 (original: 2005; tradução: Daniel Galera)