Ciências morais, de Martín Kohan

 

Ciências morais investe nas metáforas. E bote investimento nisso.

 

Martín Kohan, um dos novos escritores argentinos badalados lá e cá, ambienta sua história numa escola. Nenhum leitor tem dificuldade de perceber que a escola é a Argentina dos anos militares. Tudo nela é militarizado: a rígida hierarquia e a dura disciplina, a moral aparente e os subterfúgios reais.

 

Sua personagem principal é María Teresa, uma inspetora de classe. Os alunos da escola lhe parecem ameaças potenciais. Eles podem quebrar regras, eles podem subverter a ordem. Ela não questiona nada, não duvida de nada: cumpre o papel que acredita ter e se esmera na invenção de novos sistemas de vigilância.

 

María Teresa, claro, é alienada do mundo que a cerca e do país corroído pela repressão e pela tortura. María Teresa é uma metáfora de tantos argentinos; a escola simboliza o aprofundamento dos micropoderes que se expandiram na Argentina, entre 1976 e 1983. Qualquer mínimo espaço de poder servia para que se instaurasse o autoritarismo, para que o exercício de autoridade se tornasse uma tirania: sociólogos e historiadores já afirmaram isso e Kohan reitera, na ficção.

 

Só que a inspetora, recheada de boas vontades, se enreda nessa perigosa e quase sempre perversa lógica. Não demora para que se veja numa encruzilhada. De um lado, sob o olhar e as garras – literais – do diretor da escola, arremedo de tiranete e cúmplice da ditadura. De outro, alumbrada pelo que vê enquanto vigia o banheiro masculino.

 

E Kohan aproveita para novamente metaforizar o desvelamento da Argentina real diante dos olhos ingênuos, no limite da estultice. María Teresa se revela para ela mesma, enquanto o país caótico surge mais nítido aos seus olhos. Paralelos de um crescimento, de uma maturidade tardia. Romance de formação.

 

Nos dois casos, há uma trilha sensual a ser percorrida – e um esboço de interpretação psicanalítica se combina com a sociologia aplicada para explicar que o sexo pode sugerir a brutalidade do poder (na metáfora para lá de óbvia e vulgar da impotência do diretor) e, simultaneamente, o reconhecimento do outro. O tom oficial e formal do início da narrativa também se transforma e é trocado por um registro coloquial. Ganha vida junto com María Teresa.

 

Não há como o leitor não entender a mensagem. É a Argentina, na busca de redenção após o conluio de tantos com a perfídia do poder. É a construção de uma consciência.

 

O tema, aliás, não é só deste livro ou de Kohan. Prevalece, já há um tempo, na ficção argentina recente. E ele é importante, necessário. O problema é que a insistência, o furor metafórico e o prevalecimento da mensagem sobre o texto podem se tornar repetitivos, cansativos, exagerados. É desse mal que padece o livro de Kohan.

 

Martín Kohan. Ciências morais. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (original: 2007; tradução: Eduardo Brandão)

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nota: Roberto Arlt

Roberto Arlt

 

Ao apresentar uma coletânea de contos de Roberto Arlt (1900-1942), Ricardo Piglia lembrou um episódio insólito de seu enterro. O caixão de Arlt, armado em seu quarto para o velório, não pôde passar pela porta. Montaram, então, um sistema de roldanas que permitisse tirá-lo pela janela. Uma foto registrou o momento em que o caixão estava suspenso no ar. Para Piglia, a cena é simbólica: ilustra a posição de Arlt, “suspenso” sobre a literatura argentina.

 

De fato, a crítica o considera, quase unanimemente, “deslocado” ou “inclassificável”. Sua prosa começou a ser publicada no contexto das vanguardas, mas não é possível associá-la diretamente a qualquer dos movimentos que uniram os vanguardistas. Seu domínio lingüístico – observou Viviana Gelado – também guardava distância em relação ao de seus pares: seu espanhol sempre foi marcado pelo estrangeirismo que herdou dos pais (pai prussiano, mãe italiana) e jamais dominou o francês ou o inglês que seus contemporâneos liam.

 

Os personagens de Arlt estão sempre em condição instável, jamais se fixam e têm dificuldade para lidar com a realidade. Já se disse que são “viciados em ficção”: circulam em um mundo baseado e seguidamente reinventado pela produção de relatos ficcionais. Assumem o caráter imaginário da realidade e recorrem à ficção para transformá-la.

 

Exemplo privilegiado é Arturo Haffner, “o rufião melancólico” que aparece em Os sete loucos (1929). Haffner foi professor de matemática e se tornou o responsável pela implantação de uma rede de lupanares que financiasse o plano do Astrólogo Alberto Lezin de criar uma “nova sociedade” – fundada na mentira e na violência, em Lênin e em Mussolini, e que substituiria o mundo capitalista em crise do entreguerras. Haffner auxiliou o endividado e angustiado Remo Erdosain, cuja história abre o livro, e evidentemente não acreditava no plano da nova sociedade. Via na ficção alucinada do Astrólogo, porém, a oportunidade de obter vantagens e, principalmente, superar o tédio que a realidade lhe infundia

 

Já no primeiro livro, El juguete rabioso (1926) se notava a peculiaridade da fala de Arlt – que prosseguiu e ganhou mais densidade em livros como Os sete loucos, Los lanzallamas (1931), El jorobadito (1933) ou nas colunas diárias Aguafuertes, que publicava no jornal e depois foram reunidas em livros. Essa estranheza – “desvio”, diz Piglia – era um dado de formação e de inserção social: o mundo dos imigrantes que não falavam nem escreviam segundo a norma culta do espanhol. Daí a estranheza e a dificuldade de classificação: em Arlt, não havia a intenção vanguardista de expressar a cor local; seu registro compreendia a espontaneidade de uma cidade que crescia e incorporava novos atores sociais, outras nacionalidades e expressões lingüísticas. Em alguma medida, Arlt não buscava as margens, não transgredia por intenção iconoclasta; vinha delas, falava sua língua – ou uma de suas línguas.

 

Sua relação com os meios reconhecidos de difusão cultural foi, nesse sentido, ambígua. Chegou a colaborar em Proa, destacou a emergência de um mundo moderno e suas implicações no quotidiano. Mas nunca restringiu seu repertório às distantes versões cultas (ou, notou Borges, idealizações) do homem das margens. Combinou variadas referências literárias e históricas e incorporou o registro do melodrama e das manifestações populares da cultura: a crônica policial, o cinema norte-americano, a atração pelo exótico, pelo místico e pela ciência simplificada dos manuais. Circulou no universo empobrecido dos arredores de Buenos Aires e o transpôs, com sua escrita mesclada, para o centro da literatura argentina.

 

[Esse texto foi originalmente publicado no número especial Cadernos Entrelivros – Panorama da Literatura Latino-Americana, número 7, junho de 2008]