podcast: Nobel 2008

 

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre o Nobel de Literatura 2008.

 

O comentário foi ao ar na segunda, dia 20 de outubro.

 

 

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/20-10-2008_julio_pimentel_%20Nobel%20Literatura.mp3

 

Nobel 2008

 

E Le Clézio ganhou o Nobel de Literatura 2008.

 

Dizer o quê?

 

A escolha do prêmio deste ano já estava comprometida há semanas, desde que um dos representantes da academia sueca espinafrou a literatura norte-americana.

 

Disse que era pouco inventiva. Disse que não surpreendia. Disse que era auto-centrada e “não participava do grande diálogo da literatura mundial”.

 

Sei lá o que isso significa. Ainda mais num ano em que Philip Roth e Joyce Carol Oates estavam muito bem cotados.

 

Ninguém entendeu porque o clássico silêncio escandinavo foi rompido. E com bobagem da grossa.

 

Agora deu para entender. Inventividade, surpresa e capacidade de diálogo, para a academia sueca, é o que se faz na literatura francesa de hoje. Ah, bom.

 

Jean-Marie Gustave Le Clézio, justifica a academia sueca, é um escritor “nômade e cosmopolita”. Ele sabe andar pelo mundo e fala do mundo todo. Fala de lugares pobres e do meio-ambiente. Então é isso: a ficção tem que tratar dessas coisas para dialogar e ser inventiva.

 

Porque os impasses nas relações humanas de que fala Joyce Carol Oates só ocorrem nos Estados Unidos. A velhice – tema profundo dos últimos romances de Philip Roth – é também um tema exclusivamente norte-americano. Não vale para mais ninguém.

 

Mas, entre nós, não troco uma página de Roth pela obra inteira de Le Clézio.

 

A bem da verdade, não troco quase nada pela ficção previsível, diluída e esperta de Le Clézio.

 

Pois é, a academia sueca fez mais uma das suas. Não foi a primeira vez.

 

No passado, premiou escritores como Gabriela Mistral e Pablo Neruda,Toni Morrison e Dario Fo. Em outros anos, revelou autores que ninguém lia e, quando leu, não entendeu porque tinham sido premiados. Em 2007, para perplexidade de quase o mundo inteiro, desencavou Doris Lessing.

 

Ignorou – para ficar num só exemplo, suficientemente eloqüente – Borges.

 

Agora celebra Le Clézio e ignora Roth. Ok.

 

Dizer o quê?