The Arrival, de Shaun Tan, por Stefania Chiarelli


Retratos em preto e branco

por Stefania Chiarelli

 

Este texto já parte de um pressuposto contraditório: o de se valer de palavras para dialogar com uma obra que utiliza apenas imagens. Mas, à diferença do desenhista australiano Shaun Tan, preciso delas para comentar o forte impacto que a obra The Arrival me causou. Publicado em 2007 nos EUA, vencedor de vários prêmios, o livro conta a história de um habitante de um mundo fictício, que deixa temporariamente sua família em outro país e parte em busca de nova vida em outro continente. No novo lugar, vai enfrentar uma língua desconhecida, hábitos incomuns, estranhos animais de estimação e uma legião de outros imigrantes que, como ele, chegaram ali pelos mais diversos motivos, buscando refúgio e um futuro menos opressor. The Arrival é uma fábula sobre um homem que deixa sua família para trás e cruza o mar, na esperança de encontrar trabalho e uma vida melhor para sua esposa e filha. Perdido em um mundo onde não consegue falar ou ler, passa a perseguir o sonho de todos os imigrantes: um lugar para se estabelecer junto a indivíduos que, por diversos motivos, se encontram fora de seus locais de origem.

Nos escritos de Minima moralia, Theodor Adorno chama a atenção para o apagamento de parte da vida pregressa do imigrante, forjada sob a rubrica de “antecedentes” registrados em uma ficha fadada ao esquecimento . Do desejo que a figura do imigrante não se restrinja, como alerta o filósofo alemão, a esmaecidas registros destinados ao desaparecimento, prepondera em algumas obras o gesto de recuperar a enunciação desses discursos, tornando-os produtivos, dinâmicos. É esse pensamento que me ocorre ao abrir as primeiras páginas – propositalmente amareladas, simulando o envelhecimento de antigos documentos – da obra de Shaun Tan. No lugar da costumeira ficha catalográfica – espaço dos livros em que se confere a primeira classificação, espécie de carteira de identidade – lemos a palavra “inspeção”, anunciando tema tão familiar a todo aquele que emigra. O termo é forte, e a idéia de vistoria, fiscalização, já prenuncia o tema do exílio.

Classificado como infantil, o livro não se reduz a uma fábula edulcorada ou revela qualquer pretensão didática. Ao contrário, Shaun Tan aborda temas contemporâneos como o totalitarismo, o trabalho infantil, a incomunicabilidade e a opressão. Uma história em quadrinhos de cento e vinte páginas desenhadas com lápis grafite, sem o apoio de nenhum texto. O leitor vai acompanhando uma espécie de seqüência de antigas fotos em tons sépia e preto-e-branco, como se participasse da recordação de uma história vivida há muito tempo. Lá estão ícones clássicos da representação da migração, como a cena de milhares de pessoas entulhadas em uma embarcação – mar, porto e navios são elementos altamente significativos no imaginário daqueles que partem. Ao mesmo tempo, comparecem outras representações com alto poder metafórico, como na sequência em que o migrante tenta inutilmente se fazer entender, se valendo da mímica para facilitar a comunicação, ou ainda aquela em que é examinado, catalogado e finalmente recebe um papel que lhe confere nova identidade. Alternam-se closes dos indivíduos e grandes panorâmicas, cruzando uma história pessoal com quadros humanos reveladores desses movimentos populacionais.

Relatos de imigrantes de diferentes países, quadros, desenhos e fotografias do acervo do Museu da Imigração de Ellis Island, em Nova York, serviram de base para o trabalho de Tan. Um dos inspiradores do livro foi o próprio pai do autor, que se mudou para a Austrália nos anos 60. A história do meu pai foi parte da inspiração para The Arrival, porque ele imigrou da Malásia. Sobretudo, o tema pareceu enormemente interessante como um exercício conceitual, tive que rever todo o mundo à minha volta, percebi que os imigrantes estão ainda por todos os lados, tentando se adaptar e lutando por seu espaço“, explica.

Histórias de errância e deslocamento já renderam obras clássicas na história da humanidade. Shaun Tan revitaliza essa linhagem de narrativa, explorando novo modo de simbolizar a experiência de se estar entre culturas, em trânsito. Apesar de tingir com cores sombrias e detalhar o aspecto doloroso dessa experiência, Tan enfatiza a possibilidade de recomeço, da libertação entrevista nessa história. O estabelecimento de laços de solidariedade entre indivíduos em situação semelhante aponta para uma visão positiva desse estado de deslocamento, enfatizando que a condição de estrangeiro, a despeito da dor e do trauma, é capaz de viabilizar o diálogo. Encerra o livro a imagem da filha do protagonista, já instalada no novo lugar, prestando ajuda a uma recém-chegada. Apesar do suposto final feliz – a família se reúne novamente – o ciclo não tem fim, e uma nova leva de pessoas está a caminho. Entretanto, os elos entre os indivíduos ainda podem oferecer vínculos que mitiguem o desenraizamento. Afinal, migrar é também se reinventar.

Stefania Chiarelli é doutora em Estudos Literários pela PUC-Rio e autora de Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum (Annablume, 2007).

 

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre dois livros de Stefania Chiarelli: Vidas em trânsito as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum (7.5.2007) e Alguma prosa (21.8.2007, organizado juntamente com Giovanna Dealtry e Masé Lemos). Stefania também já publicou uma resenha em Paisagens da Crítica: sobre Jóia de família, de Zulmira Ribeiro Tavares (31.3.2007). Os três textos estão no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net

 

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podcast: contos de fadas

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre contos de fadas e diferença de consciência histórica.

O comentário foi ao ar no dia 1º de abril e parte de Robert Darnton (O grande massacre de gatos. Rio de Janeiro: Graal, 1986) e da coletânea de Angela Carter (103 contos de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007).

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/01-04-08_julio%20pimentel.mp3

O pequeno Nicolau, de Sempé & Goscinny

 

O pequeno Nicolau, de Sempé e Goscinny

por Lia Gastaldi Pimentel Pinto*

Nicolau é um garoto de seis anos, muito aprontador. Suas histórias são muito engraçadas: acontecem na escola, com seus colegas. Cada colega tem seu estilo, suas manias e seus choros. Tem brigas diariamente e Nicolau acha todas muito divertidas. Ele também não gosta de meninas: ele as acha muito chatas, choronas, e que só causam problemas.

Seus amigos são: Agnaldo (que é o queridinho da professora e usa óculos; então, não podem bater nele), Alceu (que come sem parar), Rufino (que tem um pai policial e fica apitando o tempo todo na sala), Eudes (um garoto muito forte, que adora dar socos nos narizes dos colegas), Clotário (o último da classe), Godofredo (cujo pai é milionário e compra tudo que ele quer), Maximiliano (que corre depressa porque tem pernas muito finas e longas, joelhos gordos e sujos), o Joaquim e o Cirilo.

Os adultos sempre se desesperam com o que as crianças fazem. A professora fica doente e o Sopa (apelido do inspetor de alunos), muito irritado. Os pais de Nicolau também ficam meio malucos com as aprontações do filho e muitas vezes brigam por causa dele.

O mais divertido é que Nicolau narra as histórias do jeito dele, com palavras de criança e, principalmente, olhar de criança. Muitas vezes não entende as broncas dos adultos, não sabe por que eles ficam bravos (e, às vezes, por que não ficam bravos).

Depois de O pequeno Nicolau, vieram outros livros com as histórias da turma. No Brasil, foram publicados: As férias do pequeno Nicolau, Novas aventuras do pequeno Nicolau, O pequeno Nicolau e seus colegas, O pequeno Nicolau no recreio. Os livros foram escritos por René Goscinny (que fez as histórias de Asterix)e ilustrados por Jean-Jacques Sempé entre 1956 e 1964.

Vale a pena ler mesmo se você for adulto. Elas fazem a gente rir em qualquer idade.