podcast: a Guerra do Paraguai & seus mitos

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre a Guerra do Paraguai e alguns mitos persistentes.

O comentário foi ao ar no dia 26 de maio.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/26-05-08_comentario_julio_pimentel_paraguai.mp3

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podcast: família real portuguesa no Brasil

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre a presença da família real portuguesa no Brasil, no início do século XIX.

O comentário foi ao ar no dia 5 de maio.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/05-05-08_comentario_julio_pimentel_historia1.mp3

Por que ler Borges, de Ana Cecilia Olmos

Por que ler Borges era um livro necessário havia bastante tempo. Num país que, em breve, terá duas traduções das obras completas de Borges (uma já existe, outra está em curso), fazia falta um livro que apresentasse Borges ao leitor interessado em saber mais de sua obra, mas sem a disposição de enfrentar trabalhos acadêmicos e seu habitual jargão.

Só isso basta para justificar a publicação do livro de Ana Cecilia Olmos, que faz parte de uma coleção de introdução à leitura de autores clássicos (Dante e Shakespeare também foram lançados). Mas, quando lemos o livro, percebemos que sua importância não se limita à ocupação de um espaço vago do mercado livreiro. Ele é, apesar de pequeno, um cuidadoso estudo da obra de Borges, escrito num misto de leveza e densidade.

Seguindo o padrão da coleção, a obra é dividida em cinco partes: “Um retrato do artista”, “Cronologia”, “Ensaio de leitura”, “Entre aspas” e “Estante”. A primeira é biográfica – o que coloca um problema quando se trata de Borges. Inúmeras biografias já foram escritas (e continuam a ser) sem que sua vida tenha sido propriamente aventureira. Pelo contrário. Por isso, as biografias de Borges tendem à repetição e à mesmice e concentram sua atenção em certos episódios, que ganharam condição de determinantes de sua escrita (a viagem na juventude para a Europa, o acidente com o batente da janela – que antecedeu a redação de “Pierre Menard, autor do Quixote”, suas controversas posições políticas, etc.). Ana não deixa de citá-los, mas sabe que, em Borges, o biográfico informa apenas relativa e indiretamente o literário. Há exceções, claro, como o conto “O Sul” ou o “Poema dos dons”, mas também aí a passagem do vivido ao escrito é de tal forma mediada que as relações entre “vida” e “obra” precisam ser tratadas com cautela. Daí o acerto de sua bonita opção por organizar a seção biográfica como uma seqüência de bibliotecas – a imagem mais forte e constante em sua vida e em seus textos. Também a valorização da formação bilíngüe como marca do cosmopolitismo e da pertença borgeana a mais de um universo permite a visualização do diálogo entre o vivido e o escrito sem caricaturas ou determinismos. As informações que a estrutura da seção não comporta – para não perder organicidade – são transferidas para a parte seguinte, “Cronologia” que, evidentemente, ordena as experiências pessoais e as publicações de Borges.

“Ensaio de leitura” corresponde ao balanço crítico. Nele, Ana percorre vários momentos da recepção da obra pela crítica e pelos leitores. Percebe as peripécias dos críticos em seu esforço para estabelecer o difícil e complexo lugar de Borges na história literária – deste Borges que foi poeta, contista, ensaísta, professor e, sobretudo, inclassificável. Reconhece o peso de suas posições políticas, seja quando tomadas com coragem e decisão, seja quando ambíguas. Principalmente, Ana identifica as variações, ao longo do século XX, das interpretações acerca de seus escritos e reitera a necessidade de lembrar, sempre, que a crítica é um espaço a mais de leitura; portanto, como toda leitura, é dotada de historicidade. Com sutileza, Ana traça seu caminho pelo bosque da crítica e, passo a passo, afirma uma voz capaz de dialogar com as outras, sempre segura de sua perspectiva e sustentada pelas análises rápidas, embora nunca superficiais.

As duas partes finais oferecem suportes importantes principalmente para o leitor iniciante: “Entre aspas” compila excertos de vários textos de Borges, selecionados em função dos comentários críticos anteriores e como painel do conjunto da obra; “Estante” reúne referências bibliográficas de vários tipos: obras de Borges, edições em português, ficção & ensaística que sofreram sua clara influência, repertório crítico. É útil para quem está começando a ler Borges; é fundamental para quem quer saber mais.

Por tudo isso, Por que ler Borges não é apenas um livro necessário. É um passo a mais na constituição de uma borgeana brasileira – que já não é tão restrita quanto se imagina e ganha bastante como o livro de Ana Olmos.

Ana Cecilia Olmos. Por que ler Borges. São Paulo: Globo, 2008

O Jardim de D. João, de Rosa Nepomuceno

O Jardim de D. João se destaca no meio da imensa lista de livros que lembram e celebram os 200 anos da vinda da família real portuguesa ao Brasil.

Rosa Nepomuceno não repetiu os velhos clichês sobre o período, nem entrou na onda oportunista de lançar velhas idéias embaladas em nova roupagem para falar da abertura dos portos, da instalação da Casa da Moeda ou da fundação do Banco do Brasil. Tampouco palpitou na palpitante polêmica sobre a relação entre o estabelecimento da corte no Rio e a futura unidade política do Brasil independente – controvérsia que ganhou até contornos bairristas de um lado e outro.

Pesquisadora das especiarias e de sua história, Rosa desvelou um lado interessantíssimo da estadia nobre nos trópicos: a criação do Jardim Botânico, do Rio, por D. João. O parque chamou-se originalmente Real Horto e, meio por acaso, consolidou uma quantidade imensa de espécies vindas dos vários cantos do mundo. Logo no início do livro, Rosa conta a incrível história de Luís de Abreu Vieira e Paiva, um “astuto oficial” português, que foi decisivo para a formação do acervo do Jardim. Feito prisioneiro dos franceses que controlavam as Ilhas Maurício, Luís de Abreu negociou sua liberdade e a de seus duzentos companheiros e, de quebra, abiscoitou mudas e sementes do famoso Jardim das Toranjas, onde o botânico (adequadamente nomeado) Pierre Poivre cultivava espécies asiáticas e americanas.

Bem sucedido nas duas empreitadas, Luís de Abreu aportou no Rio, em julho de 1809, com as mudas que iniciariam a vocação do Jardim Botânico para a diversidade. O Real Horto, afinal, era um jardim de experimentos científicos – numa época em que esse cultivo tinha função estratégica. Nele eram aclimatadas plantas que pudessem ser comercializadas ou usadas medicinalmente. Especiarias, como canela, pimenta do reino ou cravo-da-índia. O chá, que chegou do oriente e se estabeleceu por aqui. Provavelmente, as orquídeas. E frutas como cajá, abacate, manga ou lichia. Ou, ainda, as célebres palmeiras imperiais que, consta, teriam sido plantadas pelo próprio D. João (Rosa observa que não há registro desse ato de jardinagem real, mas que ele é provável; ou, por outra, se non è vero, è bene trovato).

Da instalação e da constituição de sua forma inicial como “jardim de especiarias”, Rosa percorre a história do parque e acompanha seus invernos (no Segundo Império, quando foi usado no desenvolvimento de técnicas agrícolas) e primaveras (principalmente sob os cuidados de João Barbosa Rodrigues, que o dirigiu por quase vinte anos e hoje dá nome a uma das aléias do Jardim). Percebe o significado de sua abertura ao público e o papel que assumiu para a cidade do Rio de Janeiro. Reconstitui o histórico de suas dificuldades e, com entonação lírica, canta sua beleza.

Porque O Jardim de D. João não é escrito com a (suposta) frieza de uma pesquisa que sonha, afetadamente, com a objetividade. Rosa está presente no livro o tempo todo: relembra suas constantes visitas ao Jardim e aponta a impossibilidade de falar dele sem a emoção de quem o vive no quotidiano. O lirismo não impede o rigor da pesquisa e do texto; ao contrário, o intensifica porque exige explicações e interpretações que escapam ao domínio técnico da autora e implicam o que o Jardim melhor oferece: reflexão e conversas com outras pessoas – os botânicos do parque, por exemplo.

O cuidado e as opções editoriais fazem, ainda, de O Jardim de D. João um livro-objeto: aquele que nos fala pelas palavras e pelo aparato peritextual. A edição repete a qualidade da discussão e a beleza do texto e provoca seguidamente o leitor, querendo que o manuseemos e procuremos, curiosos, as imagens e pequenas delicadezas que traz. Edição certamente cara, que contou com suporte da comissão para a celebração dos 200 anos da vinda da família real.

Justíssimo. Também por isso é importante relembrar a data. Mesmo que concordemos com aqueles que desprezam sua importância, é inevitável reconhecer a quantidade de mudanças que a estadia dos nobres lusitanos provocou no quotidiano da época e nos tempos posteriores. Transformações aparentemente miúdas que às vezes significam mais para nós do que a macropolítica. Afinal, macropolítica não tempera nossa comida, nem melhora nossa saúde. Muito pelo contrário.

Rosa Nepomuceno. O Jardim de D. João. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007

podcast: contos de fadas

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre contos de fadas e diferença de consciência histórica.

O comentário foi ao ar no dia 1º de abril e parte de Robert Darnton (O grande massacre de gatos. Rio de Janeiro: Graal, 1986) e da coletânea de Angela Carter (103 contos de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007).

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/01-04-08_julio%20pimentel.mp3

Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia, de Ana Claudia Aymoré Martins

Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia parte de uma idéia fabulosa em todos os sentidos. Ótima, porque se dispõe a confrontar três construções utópicas associadas a ilhas: a de Thomas Morus, a do Dr. Moreau, de H. G. Wells, e a de A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. E idéia que permite a fabulação, a capacidade de evadir do real e de aplicar, a ele, uma alternativa presente e viva.

Na origem, o livro foi uma tese de doutoramento, defendida em 2003, por Ana Claudia Aymoré Martins. Bem organizado e bem escrito, percorre a construção de sentidos para a idéia de utopia no ocidente, visita desde Atlântida até representações recentes no cinema e na literatura; em seguida, dedica um capítulo a cada obra mencionada no título. Resolve bem a discussão sobre Morus, de forte componente conceitual – logo, fundamental para a sustentação da tese, e interpreta com tranqüilidade o lugar do livro de Wells na imaginação negativa acerca das transformações tecno-científicas do século XIX. Algumas relações importantes aparecem – sobretudo com o Frankenstein, de Mary Shelley, que do início desde a segunda década do século espreita as leituras do umbral perigoso por que caminharam os sonhos tecnológicos.

No capítulo relativo a Bioy Casares, infelizmente, sua leitura perde força. Carente de bibliografia especializada na obra de Bioy (fartíssima na Argentina e nos Estados Unidos), Ana Claudia Aymoré Martins perde continuamente o foco da análise ao cruzar o livro – que é de 1940 – a episódios da vida pessoal de Bioy, à sua relação com Borges e, principalmente, a transposições e associações fílmicas diretas ou indiretas. Perde, com isso, o detalhamento da empreitada literária que Bioy pretendeu levar adiante com a obra e que, depois, renegou parcialmente. Perde, ainda, a angústia com que Bioy tratou o tema da tecnologia redentora (em tempos de guerra) e da leitura e escritura infinitas, base de sua concepção de utopia literária – como seus comentadores apontam há tempos. Um ou outro deslize editorial também prejudicam o livro – como o comentário (válido em 2003, mas hoje desatualizado) de que não existem livros de Bioy Casares em circulação no Brasil (depois disso, houve mais de uma edição importante) ou a menção à presença da ditadura militar argentina em 1986 (acabou em 83).

O mais importante, porém, mantém-se firme e estável: a qualidade da reflexão e sua ousadia, tanto no varejo (questionar a leitura habitual de Frei Vicente de Salvador acerca do motivo da denominação Brasil para o território que os portugueses descobriram), quanto no atacado: a lembrança da centralidade da utopia no pensamento ocidental e seus mecanismos de refundação contínua, com suas incontáveis variações. A ilha – atesta a autora – continua em nosso horizonte e nossos olhos insistem em buscá-la. Talvez conheçamos por lá alguma monstruosidade ou um criador de monstros. Talvez reencontremos o sonho tecnológico que o XIX criou e perdeu. Talvez – à semelhança dos portugueses conquistadores de mares – apenas inventemos nossa utopografia para nela espelhar o céu, mesmo sabendo quão tenebroso pode ser um mundo racionalmente controlado. Enquanto sonhamos com a descoberta de nossa ilha desconhecida, a leitura do livro de Ana Claudia Aymoré Martins ajuda a entender a ininterrupta ânsia de inventar utopias.

 

Ana Claudia Aymoré Martins. Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia. Brasília: Editora da UnB, 2007

A duas vozes, de Eduardo Jardim

A duas vozes é daqueles livros que encantam logo de saída, nos envolvem pelo prazer da leitura e só aos poucos nos revela sua complexidade. Prosseguimos como se prossegue numa aula difícil, mas bem dada: com o prazer da revelação gradativa, no fio da narrativa fina e bem estruturada.

As vozes são de dois dos maiores intelectuais do século XX: Hannah Arendt e Octavio Paz. E o autor, Eduardo Jardim, os coloca lado a lado – em encontros e diálogos imaginários e verossímeis. O ponto de partida é simples e instigante: ambos foram críticos, mapearam a crise do modelo moderno e descreveram os mecanismos políticos turvos que o século criou. Ambos construíram pensamentos que evitaram a falsa segurança dos conceitos rígidos, tão propensos a se converterem em dogmas e a ampararem autoritarismos de cores e espessuras variadas. Ambos tentaram resgatar a história, reivindicaram a importância do presente e se contrapuseram à ânsia moderna de impor o futuro às demais temporalidades e à experiência efetivamente vivida.

Eduardo Jardim – autor de livros importantes sobre o projeto moderno no Brasil e sobre Mário de Andrade – é, porém, cuidadoso e sabe que tantas semelhanças não implicam espelhismo. Ao contrário, a formação desigual de Arendt e Paz provoca perspectivas diferentes. Do contato estreito da alemã com Karl Jaspers, Martin Heidegger, Walter Benjamin às conexões surrealistas do mexicano com André Breton e a influência multifacetada que incorporou em suas andanças pelo mundo, dos Estados Unidos à Índia, e em seus constantes retornos ao México. Da propensão de Arendt às discussões da filosofia política à palavra e ao verso como centros vitais da obra de Paz.

No entanto, as dessemelhanças os levam a um outro ponto de encontro – que Jardim coloca no centro de seu livro: Arendt e Paz olharam a crise da modernidade e pensaram o tempo presente a partir de uma posição literalmente marginal: o olhar judaico de Arendt, de alemã desterrada pela brutalidade nazista, e a perspectiva latino-americana de Paz. E é essa diferença tornada proximidade que leva ambos a pensarem um dos temas centrais do XX, o da revolução, com o olhar simultaneamente encantado e desiludido de quem percebeu que seu tesouro foi perdido ou sacrificado pelos rituais de institucionalização e burocratização – do totalitarismo nazi-soviético ao regime de partido único mexicano.

Para o leitor de Paz e de Arendt, repassar o pensamento dos dois no jogo proposto por A duas vozes é uma chance de perceber certas sincronias que, fora da comparação, podem passar despercebidas. É também a oportunidade para lembrar que, num século de homens sombrios como foi o XX, houve quem buscasse – pela política ou pela poesia – a liberdade, essa desejada e tantas vezes desconhecida das gentes.