Ao mesmo tempo, de Susan Sontag

para m.s.n.

 

Ao mesmo tempo me foi indicado por um amigo e, não sei bem por quê, fui correndo comprá-lo e o li compulsivamente.

 

Não sei bem por quê porque há tempos não lia Susan Sontag e quase pegara uma implicância de seus escritos, da carga ideológica a que recendiam, de algumas análises políticas superficiais e de moda.

 

Mas fui correndo comprá-lo e o li compulsivamente. Em parte, claro, foi o respeito pela indicação. Em parte, o interesse pelo tema do romance histórico, tratado em mais de um dos ensaios do livro. E uma terceira parte é insondável – aquela atração que certos livros provocam em nós, sem que sejamos capazes de descrevê-la ou interpretá-la.

 

Felizmente fui correndo comprá-lo e o li compulsivamente. Porque só assim a leitura pôde equivaler em avidez ao que está no livro. Avidez de falar – compulsão de uma Fedra cujo corpo não responde mais, não contribui, já corroído pela doença.

 

Susan Sontag escreveu esses ensaios no fim da vida, e eles foram editados postumamente. Seu filho, David Riff, prefacia o livro, num texto emocionado. Os leitores seguem o ímpeto da escritura de Sontag e se contaminam da emoção de Riff.

 

Li compulsivamente. Não concordei com tudo que ela diz, continuei a desconfiar de seu engajamento algo acintoso, de sua disposição para a correção política, que carrega nas tintas ao criticar uns e poupa cuidadosamente outros.

 

Mas não resisti à contundência de suas análises. À maneira como defende o prazer da leitura. À disposição de reagir à boçalidade quotidiana e generalizada. À missão, que assume, de recuperar nomes quase esquecidos.

 

Um deles é o da italiana Anna Banti. E, por meio de um livro de Banti – Artemísia, Sontag disseca os mecanismos do romance histórico, recusa os esquematismos de historiadores e de alguns críticos que, na paisagem da crítica que todo romance é, só conseguem olhar para sua própria intenção mimética ou experimental.

 

Sontag sabe – até porque escreveu O amante do vulcão, um ótimo romance histórico – que romancista e personagem fazem um inevitável pacto de vida e morte, que se combinam, se confundem, se imiscuem na vida e na consciência, um do outro.

 

E essa consciência radical de si e do outro não autoriza apenas o romance histórico; justifica o próprio ato da escrita, quando fazemos poesia, ficção ou – mais banalmente – a crítica literária, histórica, gastronômica. Não importa. É nela – na escrita – que nos jogamos seguidamente e é também nela que ocasionalmente nos encontramos.

 

Esta, a lição de Sontag. Concordar ou com suas idéias políticas é irrelevante. Inevitável é concordarmos com sua atitude – a de quem, em tempo sombrios pessoais e coletivos, aposta na leitura e na escrita.

 

Susan Sontag. Ao mesmo tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (original: 2007; tradução: Rubens Figueiredo)

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Por que ler Borges, de Ana Cecilia Olmos

Por que ler Borges era um livro necessário havia bastante tempo. Num país que, em breve, terá duas traduções das obras completas de Borges (uma já existe, outra está em curso), fazia falta um livro que apresentasse Borges ao leitor interessado em saber mais de sua obra, mas sem a disposição de enfrentar trabalhos acadêmicos e seu habitual jargão.

Só isso basta para justificar a publicação do livro de Ana Cecilia Olmos, que faz parte de uma coleção de introdução à leitura de autores clássicos (Dante e Shakespeare também foram lançados). Mas, quando lemos o livro, percebemos que sua importância não se limita à ocupação de um espaço vago do mercado livreiro. Ele é, apesar de pequeno, um cuidadoso estudo da obra de Borges, escrito num misto de leveza e densidade.

Seguindo o padrão da coleção, a obra é dividida em cinco partes: “Um retrato do artista”, “Cronologia”, “Ensaio de leitura”, “Entre aspas” e “Estante”. A primeira é biográfica – o que coloca um problema quando se trata de Borges. Inúmeras biografias já foram escritas (e continuam a ser) sem que sua vida tenha sido propriamente aventureira. Pelo contrário. Por isso, as biografias de Borges tendem à repetição e à mesmice e concentram sua atenção em certos episódios, que ganharam condição de determinantes de sua escrita (a viagem na juventude para a Europa, o acidente com o batente da janela – que antecedeu a redação de “Pierre Menard, autor do Quixote”, suas controversas posições políticas, etc.). Ana não deixa de citá-los, mas sabe que, em Borges, o biográfico informa apenas relativa e indiretamente o literário. Há exceções, claro, como o conto “O Sul” ou o “Poema dos dons”, mas também aí a passagem do vivido ao escrito é de tal forma mediada que as relações entre “vida” e “obra” precisam ser tratadas com cautela. Daí o acerto de sua bonita opção por organizar a seção biográfica como uma seqüência de bibliotecas – a imagem mais forte e constante em sua vida e em seus textos. Também a valorização da formação bilíngüe como marca do cosmopolitismo e da pertença borgeana a mais de um universo permite a visualização do diálogo entre o vivido e o escrito sem caricaturas ou determinismos. As informações que a estrutura da seção não comporta – para não perder organicidade – são transferidas para a parte seguinte, “Cronologia” que, evidentemente, ordena as experiências pessoais e as publicações de Borges.

“Ensaio de leitura” corresponde ao balanço crítico. Nele, Ana percorre vários momentos da recepção da obra pela crítica e pelos leitores. Percebe as peripécias dos críticos em seu esforço para estabelecer o difícil e complexo lugar de Borges na história literária – deste Borges que foi poeta, contista, ensaísta, professor e, sobretudo, inclassificável. Reconhece o peso de suas posições políticas, seja quando tomadas com coragem e decisão, seja quando ambíguas. Principalmente, Ana identifica as variações, ao longo do século XX, das interpretações acerca de seus escritos e reitera a necessidade de lembrar, sempre, que a crítica é um espaço a mais de leitura; portanto, como toda leitura, é dotada de historicidade. Com sutileza, Ana traça seu caminho pelo bosque da crítica e, passo a passo, afirma uma voz capaz de dialogar com as outras, sempre segura de sua perspectiva e sustentada pelas análises rápidas, embora nunca superficiais.

As duas partes finais oferecem suportes importantes principalmente para o leitor iniciante: “Entre aspas” compila excertos de vários textos de Borges, selecionados em função dos comentários críticos anteriores e como painel do conjunto da obra; “Estante” reúne referências bibliográficas de vários tipos: obras de Borges, edições em português, ficção & ensaística que sofreram sua clara influência, repertório crítico. É útil para quem está começando a ler Borges; é fundamental para quem quer saber mais.

Por tudo isso, Por que ler Borges não é apenas um livro necessário. É um passo a mais na constituição de uma borgeana brasileira – que já não é tão restrita quanto se imagina e ganha bastante como o livro de Ana Olmos.

Ana Cecilia Olmos. Por que ler Borges. São Paulo: Globo, 2008

Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia, de Ana Claudia Aymoré Martins

Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia parte de uma idéia fabulosa em todos os sentidos. Ótima, porque se dispõe a confrontar três construções utópicas associadas a ilhas: a de Thomas Morus, a do Dr. Moreau, de H. G. Wells, e a de A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. E idéia que permite a fabulação, a capacidade de evadir do real e de aplicar, a ele, uma alternativa presente e viva.

Na origem, o livro foi uma tese de doutoramento, defendida em 2003, por Ana Claudia Aymoré Martins. Bem organizado e bem escrito, percorre a construção de sentidos para a idéia de utopia no ocidente, visita desde Atlântida até representações recentes no cinema e na literatura; em seguida, dedica um capítulo a cada obra mencionada no título. Resolve bem a discussão sobre Morus, de forte componente conceitual – logo, fundamental para a sustentação da tese, e interpreta com tranqüilidade o lugar do livro de Wells na imaginação negativa acerca das transformações tecno-científicas do século XIX. Algumas relações importantes aparecem – sobretudo com o Frankenstein, de Mary Shelley, que do início desde a segunda década do século espreita as leituras do umbral perigoso por que caminharam os sonhos tecnológicos.

No capítulo relativo a Bioy Casares, infelizmente, sua leitura perde força. Carente de bibliografia especializada na obra de Bioy (fartíssima na Argentina e nos Estados Unidos), Ana Claudia Aymoré Martins perde continuamente o foco da análise ao cruzar o livro – que é de 1940 – a episódios da vida pessoal de Bioy, à sua relação com Borges e, principalmente, a transposições e associações fílmicas diretas ou indiretas. Perde, com isso, o detalhamento da empreitada literária que Bioy pretendeu levar adiante com a obra e que, depois, renegou parcialmente. Perde, ainda, a angústia com que Bioy tratou o tema da tecnologia redentora (em tempos de guerra) e da leitura e escritura infinitas, base de sua concepção de utopia literária – como seus comentadores apontam há tempos. Um ou outro deslize editorial também prejudicam o livro – como o comentário (válido em 2003, mas hoje desatualizado) de que não existem livros de Bioy Casares em circulação no Brasil (depois disso, houve mais de uma edição importante) ou a menção à presença da ditadura militar argentina em 1986 (acabou em 83).

O mais importante, porém, mantém-se firme e estável: a qualidade da reflexão e sua ousadia, tanto no varejo (questionar a leitura habitual de Frei Vicente de Salvador acerca do motivo da denominação Brasil para o território que os portugueses descobriram), quanto no atacado: a lembrança da centralidade da utopia no pensamento ocidental e seus mecanismos de refundação contínua, com suas incontáveis variações. A ilha – atesta a autora – continua em nosso horizonte e nossos olhos insistem em buscá-la. Talvez conheçamos por lá alguma monstruosidade ou um criador de monstros. Talvez reencontremos o sonho tecnológico que o XIX criou e perdeu. Talvez – à semelhança dos portugueses conquistadores de mares – apenas inventemos nossa utopografia para nela espelhar o céu, mesmo sabendo quão tenebroso pode ser um mundo racionalmente controlado. Enquanto sonhamos com a descoberta de nossa ilha desconhecida, a leitura do livro de Ana Claudia Aymoré Martins ajuda a entender a ininterrupta ânsia de inventar utopias.

 

Ana Claudia Aymoré Martins. Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia. Brasília: Editora da UnB, 2007

Carta a D. História de um amor, de André Gorz

Carta a D. conta – já diz o subtítulo – a “história de um amor”. Amor de André Gorz por sua mulher Dorine, com quem foi casado durante 58 anos, até que ambos se matassem em setembro do ano passado.

Judeu austríaco, Gorz fugiu do nazismo para a Suíça e, depois, se fixou na França, onde se tornou um dos jornalistas e pensadores políticos mais influentes dos anos 1960. Seguidor de Sartre, combinou existencialismo com marxismo, fundou e militou no maoísmo tão em voga da época. Celebrado pelos estudantes que se revoltaram no 68 parisiense, voltou-se à questão ecológica nos anos 1970 e repensou as bases da ação política, refutando as teorias salvacionistas (com suas pitadas – grandes pitadas – de ingenuidade política) da década anterior.

Mas a história que ele conta em Carta a D. acompanha apenas de viés sua trajetória política e intelectual. Gorz prefere falar da convivência com Dorine: do primeiro conhecimento ao namoro e ao casamento, dos tempos de dinheiro curto à tranqüilidade financeira e emocional; da segurança e do afeto intermináveis à demora de reconhecer a importância da mulher em sua vida. E fala também da angústia de descobrirem que um erro médico provocou em Dorine uma doença progressiva que lhe limitava os movimentos e trazia dores enormes. Finalmente, explica como saiu do mundo intelectual para cuidar de Dorine, exilados numa casa de campo, cercados de árvores e de uma serenidade que permitiu prolongar sua vida por mais de vinte anos. Em linhas gerais, reconhece que seu trabalho teórico se fez primeiro a despeito de Dorine (que tolerava suas noites infinitas de estudo); depois, com Dorine para, ao fim, ser para Dorine.

O leitor, que sabe antecipadamente o desfecho da história, cruza as primeiras páginas do livro com aflição. Em seguida, a troca pela surpresa de ver a virada de Gorz, abandonando a política e privilegiando o amor. Só no final compreende que a mudança, afinal, não foi tão profunda, que o amor passou a ser o princípio de sua conduta política, confundindo-se com ela: foi ele que o fez investir contra a tecnomedicina que sacrificava Dorine, foi ele que o aproximou da reflexão sobre a natureza e os riscos que ela corria, foi ele que o fez enxergar a ficção da vida e a prolixidade do real.

Na verdade, a variação significativa na trajetória de Gorz aconteceu quando ele notou – graças à Dorine – que o espaço privado não se distinguia tão agudamente do público, como acreditavam os jovens dos anos 1960. Quando percebeu que as doutrinas teóricas que perseguiu com afinco por décadas eram (e sempre são) “próteses psíquicas”: fornecem anteparos à vida e tentam nos distanciar dela. Quando descobriu a intimidade como potencialmente revolucionária – às vezes mais do que uma barricada na rua – porque nela se vive o presente desmistificado, nela não se troca a vida vivida pela imaginação idealizada de futuro. Mais: que a intimidade é lugar de riscos mais concretos do que o espaço coletivo, onde as angústias se dispersam e a aflição pode ser controlada por algum esquema explicativo e redentor.

Tanta revelação permite que a aflição do leitor se transforme lentamente no reconhecimento que não há nada de trágico no fim da história de André e Dorine; ao contrário, foi o desdobramento previsível da história de um amor.

 

André Gorz. Carta a D. História de um amor. São Paulo: Annablume/Cosac Naify, 2007 (original: 2006; tradução Celso Azzan Jr.)

A duas vozes, de Eduardo Jardim

A duas vozes é daqueles livros que encantam logo de saída, nos envolvem pelo prazer da leitura e só aos poucos nos revela sua complexidade. Prosseguimos como se prossegue numa aula difícil, mas bem dada: com o prazer da revelação gradativa, no fio da narrativa fina e bem estruturada.

As vozes são de dois dos maiores intelectuais do século XX: Hannah Arendt e Octavio Paz. E o autor, Eduardo Jardim, os coloca lado a lado – em encontros e diálogos imaginários e verossímeis. O ponto de partida é simples e instigante: ambos foram críticos, mapearam a crise do modelo moderno e descreveram os mecanismos políticos turvos que o século criou. Ambos construíram pensamentos que evitaram a falsa segurança dos conceitos rígidos, tão propensos a se converterem em dogmas e a ampararem autoritarismos de cores e espessuras variadas. Ambos tentaram resgatar a história, reivindicaram a importância do presente e se contrapuseram à ânsia moderna de impor o futuro às demais temporalidades e à experiência efetivamente vivida.

Eduardo Jardim – autor de livros importantes sobre o projeto moderno no Brasil e sobre Mário de Andrade – é, porém, cuidadoso e sabe que tantas semelhanças não implicam espelhismo. Ao contrário, a formação desigual de Arendt e Paz provoca perspectivas diferentes. Do contato estreito da alemã com Karl Jaspers, Martin Heidegger, Walter Benjamin às conexões surrealistas do mexicano com André Breton e a influência multifacetada que incorporou em suas andanças pelo mundo, dos Estados Unidos à Índia, e em seus constantes retornos ao México. Da propensão de Arendt às discussões da filosofia política à palavra e ao verso como centros vitais da obra de Paz.

No entanto, as dessemelhanças os levam a um outro ponto de encontro – que Jardim coloca no centro de seu livro: Arendt e Paz olharam a crise da modernidade e pensaram o tempo presente a partir de uma posição literalmente marginal: o olhar judaico de Arendt, de alemã desterrada pela brutalidade nazista, e a perspectiva latino-americana de Paz. E é essa diferença tornada proximidade que leva ambos a pensarem um dos temas centrais do XX, o da revolução, com o olhar simultaneamente encantado e desiludido de quem percebeu que seu tesouro foi perdido ou sacrificado pelos rituais de institucionalização e burocratização – do totalitarismo nazi-soviético ao regime de partido único mexicano.

Para o leitor de Paz e de Arendt, repassar o pensamento dos dois no jogo proposto por A duas vozes é uma chance de perceber certas sincronias que, fora da comparação, podem passar despercebidas. É também a oportunidade para lembrar que, num século de homens sombrios como foi o XX, houve quem buscasse – pela política ou pela poesia – a liberdade, essa desejada e tantas vezes desconhecida das gentes.